Um Pedaço de Mim - Hiatus (Sendo reescrita)
2 Capítulo 2 - A Dor do Passado
Notas iniciais
Vanessa simplesmente não conseguia aguentar. Como assim sua mãe sabia como era aquela sensação de que a cada dia as pessoas vão te esmagar? Pisar em você? A mãe de Vanessa nem sequer estava do lado dela quando ela precisou. Para ela, isso era o cúmulo. O pior era que naqueles meses de terror, meses dos quais já faziam dois anos que tudo terminou, dois anos de distância, ela sonhava que sua "vida" era apenas um pesadelo. Seus pais se divorciaram quando ela tinha doze anos apenas. Viveu no inferno por exatos onze meses e vinte e cinco dias. Neste tempo ela havia completado treze anos, sendo que pouco menos de um ano de sua tenra idade ela sofreu, e o medo e a dor se tornaram seus melhores amigos. Seus únicos companheiros de todo dia. Ela morava com seu pai, um homem que a feria, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Desde que os pais de Vanessa ainda eram casados, desde que ela estava alcançando a puberdade, cada dia mais, seu pai começara o inferno de dor em sua vida.
– Chegamos! — Praticamente gritou a mãe de Vanessa, que estava imersa em devaneios e pensamentos, interrompendo-os, pensamentos que ela mesma não conseguia deter, por mais dolorosos que fossem.
– Ok. Tchau. — Ela saiu rapidamente do carro, tentando enfrentar logo a situação, e dirigiu-se à grande e imponente construção de variados tons.
Ela estava desorientada, perdida, e não sabia onde era nada.
– Com licença, você saberia me informar onde é a secretaria? — Perguntou timidamente para uma jovem garota, provavelmente estudante.
– Sim. Quer que eu te leve lá? — Respondeu prontamente. Ela tinha cabelos castanhos mais ou menos na altura dos cotovelos, olhos castanhos e era até que bonita. Estava vestida com uma camiseta regata branca, uma saia cor salmão na altura dos joelhos e uma sapatilha preta básica. “Gostei dessa garota.” Pensou rapidamente Vanessa.
– Seria de muita ajuda. A propósito, me chamo Vanessa. Qual o seu nome?
– Meu nome é Jillian. — Respondeu, sendo educada.
Então ela seguiu Jillian até a secretaria, uma sala quase do outro lado do colégio, com duas cadeiras vinho e a mesa da secretária. Ali ela iria pegar o número de seu armário e o horário.
–Muito obrigada, Jillian. — Agradeceu cortês.
Após Vanessa ter pego seus horários e o número de seu armário, que era 571. Ao procurar seu armário, ela viu. Vários deles. Eles estavam por todos os lados, e ela começou a sentir-se sufocada, como se estivesse revivendo tudo aquilo de novo. Ela procurou o banheiro mais próximo. Seu estômago estava embrulhado, ela só queria que eles parassem de aparecer, de machucar. Naquele instante, ela sentiu todas as sua memórias atingindo-a como um chicote. Ela não conseguia parar de lembrar-se de daquele homem, de quem a ferira. Para onde ela olhava, ela o via. Com aquele sorriso de escárnio, de quem conseguia tudo. Ela rapidamente encontrou um banheiro. Entrou no primeiro cubículo vazio, e vomitou o que ela não tinha no estômago. Seus rostos não saiam de sua mente. Seu pai não saía. Aquelas memórias eram vivas em sua mente. Mais vivas do que o que acontecera no dia anterior. Ou na semana anterior. Ela tinha cada segundo guardado ali, em sua mente. Ela não havia comido nada no café da manhã, e logo sentiu as consequências. Mas ela não conseguia aguentar a pressão que se formava em cada célula de seu ser. A pressão de sua passado. A pressão da dor que ela ainda sentia. A pressão que se formava no íntimo de seu ser, se proliferando para cada célula de seu corpo. Apenas vê-los, ouvi-los, era o suficiente para que tudo voltasse com a força de uma avalanche. Fechou então a privada, e se desfez em lágrimas, tentando liberar sua dor em lágrimas amargas de dor. O sinal que dava início às aulas tocou, para que os alunos entrassem para a primeira aula. Ela não se levantou. Sentia a derrota. E, mesmo sem sair do banheiro, ligou com voz sôfrega e entrecortada para sua mãe. Ela pediu, chorando para que a mãe viesse buscá-la. Ela não conseguia aguentar. As lembranças eram muitas. As lembranças de seu passado continuavam a vir, e ela não conseguia deter-se no presente. Naquele cubículo abafado, onde libertava lágrimas amargas de sofrer, de dor. Vanessa conseguiu finalmente um pouco de coragem, que foi o suficiente para conseguir levantar-se, tentar inutilmente limpar o rosto, pois continuavam a sair torrentes de lágrimas e sair do banheiro, para que sua mãe a buscasse. Foi andando lentamente para a frente do colégio para assim esperar pela sua mãe. Vanessa pensou que parecia como se fosse uma menina aterrorizada pelo primeiro dia longe de sua mão, na escolinha. Por sorte, Anne não demorou muito mais, e logo viu como sua filha deixava o sofrimento que a atormentava transpassasse por sua expressão, uma expressão de pura dor. No caminho para casa, não trocaram uma palavra sequer.
Vanessa ainda chorava, mas agora silenciosamente. Sua mãe simplesmente se concentrava em dirigir, sem deixar que as lágrimas que também existiam em seus olhos escorresse. Sua menininha precisava dela, mesmo que já tinha quase 16 anos, ainda precisava da mãe.
***
Lembranças. A única coisa que transformava a vida de Vanessa em um pesadelo constante. Um pesadelo que estava ali, a cada dia. Transformava simples pessoas em monstros imbatíveis. Transformava-a em um corpo sem vida, sem sentimentos, sem beleza no olhar. Vanessa lembrava-se de cada segundo, cada dia, cada momento, sem conseguir evitar as lembranças que faziam com que seu coração batesse de modo rápido de medo. Sem conseguir ter esperança.
"Eu corria num labirinto sem fim, e o sentia cada vez mais perto. Seu sorriso de escárnio, que eu já quase sentia em minha pele, o sorriso que me atormentava noite após noite. Ele estava perto. Eu quase podia sentir seu hálito." O despertador. Seu salvador. O único que seria seu cavaleiro de armadura reluzente. Hora de enfrentar a vida, o futuro. Vanessa foi ao banheiro e tomou um rápido. porém relaxante banho. Naquele dia, ao vestir-se, escolheu uma camiseta de mangas compridas cinza escura, lisa. Uma calça jeans escura, a mesma de ontem que com o tempo já estava um pouco desbotada e o mesmo all-star preto do dia anterior. Pegou seu moletom preto, com um pequeno e discreto desenho de uma flor, cujo miolo era uma caveira. Pegou também um gorro azul-marinho e sua bolsa preta e desceu para comer. Ou pelo menos tentar. Ao chegar na cozinha, Anne disse:
– Melhor? Está melhor depois do que aconteceu ontem meu bem? — Perguntou servindo um pouco de chá em duas xícaras brancas.
– Mais ou menos. Acho que hoje consigo assistir todas as aulas. Estou torcendo para isso.
Terminaram rapidamente e saíram. Ao chegar no colégio, aquela garota escondida por sobre roupas largas e maiores do que ela chamou atenção, mesmo que ela não quisesse. Mas chamou atenção, afinal, que usava roupas como aquelas num dia quente? Andou em direção ao seu armário imediatamente, sem se importar. Evitando olhar para eles. Abriu o armário número 571, pegou apenas o necessário para não ter de ficar mais tempo ali, perto de tais pessoas. Os livros já estavam lá. De lá, foi ao ginásio, para guardar as roupas de educação física. Estava conseguindo passar relativamente bem por aquele dia. Mas o medo ainda estava lá, uma leve pontada em seu corpo. As aulas passaram sem que nem ela nem se desse conta, e logo o intervalo havia começado. Ao invés de ficar na sala, resolveu ir até a biblioteca, mas no caminho, acabou batendo num deles, e caiu, produzindo um som meio surdo. Quando ele tentou ajudar Vanessa a levantar-se, ele segurou seu frágil braço, e Vanessa, sem nem ver quem era, ficou pálida e lembrou de seu não tão longínquo passado, mas logo notou algo diferente quando ele perguntou-lhe se estava bem:
– Meu anjo, você 'tá bem? — Ele era homem no sentido literal, mas não no emocional, ou algo assim. Ela soube que nele poderia confiar, que ali teria um amigo que não tivesse segundas intenções, que simplesmente seria seu amigo, que simplesmente ajudaria.
– Sim. Obrigada por me ajudar. — Ela imediatamente sobe que ele poderia ser alguém em quem poderia confiar, mesmo que cegamente. Sabia que era um amigo para o que quer que acontecesse. Mas não sabia se ele ainda permaneceria de seu lado após saber sobre sua história, seu passado, sua vida.
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