Um Passo Mais Perto

4 Um passo pra fora


De volta na estrada.

— Mãe, eu juro. Tá tudo bem. — Não sabia nem a quanto tempo eu estava ouvindo ela gritar comigo.

— Tudo bem o que, William? — A ligação estava no viva-voz. Paul ria pra dentro pra que ela não ouvisse — Agora tá tudo bem, mas e antes? Você podia ter morrido meu filho! Eu vou ligar pro seu pai! Ele vai abrir um processo contra esse filho de uma- mãe, que é esse Sérgio.

— Você não vai fazer nada! — Agora eu estava falando sério. — Mãe, sério, não liga pro pai. Não fala nada pra ele. Por favor, não faz nada com o Sérgio. Ele não merece.

Estou inclinado para a direita. Vejo Paul me olhar e logo voltar sua atenção à rua.

— Você só está falando isso porque ainda gosta dele, meu filho.

— Não, mãe. Não gosto. Ele já foi avisado, eu já dei a ele o que merece. Ele não precisa de um processo, precisa de um psicólogo.

— Eu sou psicóloga! Eu posso consertar ele.

— Um psicólogo comum mãe. Não uma psicólogo-mãe rancoroso que vai esperá-lo para uma sessão com uma arma de choque.

— Paul, passa pra esse Paul

— Sra. Fisher, um prazer conhecê-la

— Eu poderia dizer o mesmo, mas dadas as circunstâncias… Digo, nada contra a você, aliás, muito obrigada por ter salvo meu filho. Você não acha que eu tenho razão em querer dar uma lição nesse Sérgio?

— Acho que o único lesado nessa história é seu filho, então mesmo que a senhora abrisse um processo contra Sérgio, William teria que testemunhar contra ele. E ele não me parece muito inclinado a isso.
Minha mãe fez silêncio. Esperava que ela estivesse compreendendo o meu lado, mas…

— Eu não entendi nada do que você disse, fala como o meu marido. Espero que convença esse inconsequente a processar Sérgio. Beijo pra vocês, e Paul, se você for gay, por favor, supra a necessidade sexual do meu filho, ele demora muito no banho e…

Desligo a ligação. Infelizmente não foi a tempo de ser coberto por vergonha.

— Eu não acredito que ela fez isso. — murmuro.

— Pra todos os efeitos, eu não ouvi nada.

— Mas você ouviu. — Lamentei.

— Quer falar sobre outra coisa para esquecer esse momento constrangedor?

— Com certeza. — Começo a pensar, é difícil. O constrangimento ainda pesa.

— Sei lá, me fale sobre como é trabalhar com meu pai.

— Ahm… É intenso. Não seu pai, mas o trabalho. Não sei se é igual em todos os escritórios de advocacia, mas seu pai é bem empenhado. E ele não é corruptível. — adicionou — Já presenciei uma cena de que ele quase socou um cliente por que queria que seu pai o defendesse mesmo ele admitindo ser culpado. Foi intenso.

— Ele não fala de trabalho em casa.

— Então acho que eu não deveria estar falando isso. Eu só quis dizer que ele é um homem íntegro.

— Mas e você. Como você é no trabalho?

— Eu sou empenhado. Eu acho que faço as minhas coisas direito.
Não comentei, dando margem pra ele iniciar um possível novo assunto.
Paul poderia ter escolhido assunto melhor, mas ele seguiu a linha colegial.

— Você ainda estuda ou já concluiu? Pretende fazer faculdade?

— Concluí. E por hora não. Mas se eu for, quero fazer Design Gráfico ou viajar para estudar fora.

— Sempre quis viajar pra fora. Conhecer países novos, culturas novas…

— Eu até faria um convite. Mas você não aceitaria.

— Provavelmente não. Seria estranho eu viajar com meu chefe. Talvez eu não me sentisse muito confortável.

— Uma pena mesmo.

Lembro de algo que me fez rir.

— Eu chamei o Sérgio pra ir comigo três dias atrás. Ele estava tão descaradamente ansioso. Ele é um ótimo ator. Pelo Skype era tudo tão semirreal.

— No fundo é só um garoto com medo da vida.

— Eu não ligo. — Recosto minha cabeça no banco e olho pra rua.

— Eu posso voltar a perguntar se você ainda sente algo por ele?

— É complicado. Eu não vou dizer que não sinto mais nada, porque em cinco anos de vida amorosa falha, ele foi a primeira pessoa que realmente se importou com os meus assuntos. Eu fiz planos. Ele era meu sonho. Eu fui estúpido.

— William… — ignoro.

— Eu pensei que pudesse dar certo, entende? Eu queria que eu tivesse chegado naquele endereço e vê-lo andar com um sorriso lindo no rosto e me abraçar. Agora ao pensar nisso sinto náuseas. Se eu sinto algo por ele, é só…

— William.

— O quê?

— Você poderia soltar minha mão? Estou tendo dificuldades em passar a marcha.

Nossas mãos estavam mesmo juntas. A minha sobre a dele, apertando a palma por cima. Recolho minha mão como se eu estivesse me queimando. Me encolho na cadeira, meu rosto está queimando. De vergonha.

— Me desculpe.

— Tudo bem. Só não faça isso de novo.

— Ok. Acho que carmas vêm pra ficar. Primeiro sendo otário, depois sendo um bundão, depois sendo inconveniente, depois sendo humilhado pela minha própria mãe e agora sendo constrangido.

— Não foi sobre a mão. — Paul se retrata, mas não completa — Mas, ei, explica esses seus “seres”.

— Ah, eu explico. — Volto a minha posição inicial. — Fui otário ontem à noite, fui bundão por ter parado de bater no Sérgio por causa daquela cara de cachorro que caiu da mudança que ele fez. — Paul quis fazer uma observação, mas eu não deixei. — fui humilhado pela minha mãe e constrangido agora por ter sido pego em flagrante segurando sua mão.

— Primeiro — “ele vai mesmo numerar o número de erros éticos que cometi? ”, pensei —, você não foi bundão por ter parado de bater no Sérgio. Você fez o que achou certo.

— E se o que eu achei certo na verdade não foi o certo? — argumento — Digo, levá-lo a justiça e eventualmente destruir a vida dele como ele fez com a minha me parece equilibrar a balança. Ou até mesmo voltar lá e dar mais uma lição nele pra quebrar uma ou duas costelas…

— Quando você fala de equilibrar a balança, você parou pra pensar de que balança está falando? — Paul alternava em me olhar e olhar pra estrada. Enquanto eu falava eu vi a placa que indicava que a saída da cidade estava a poucos quilômetros. 2 pra ser mais exato. — Porque pra mim parece ser a balança da sacanagem. Você pretende sacaneá-lo de volta.

— É errado. Eu sei, mas…

— Se você sabe que é errado, não há motivos pra seguir com esse pensamento.

Me dei conta de que eu estava discutindo com alguém que vive com advogados. Ele sempre vai pender para o eticamente certo.

— O máximo que você pode fazer é abrir um processo e pedir indenização, mas você não vê a necessidade de fazer isso, não é?
Concordo com a cabeça.

— Segundo — ele volta a enumerar —, eu não quis te constranger. Me desculpe se eu usei as palavras erradas. Não foi sobre você pegar na minha mão, foi sobre você meio que me atrapalhar enquanto eu dirijo. Eu só fiquei um pouco nervoso, só isso. Você pode pegar na minha mão quando precisar. — Paul, você precisa realmente lembrar que eu sou um garoto de dezoito anos com os hormônios à flor da pele — Você já sabe muito sobre mim e eu sei muito sobre você. Acho que isso já meio que nos torna amigos. Amigos são pra isso. A não ser que eu tenha focado tanto nos estudos e no trabalho que tenha perdido as alterações do conceito de amizade.

— Você não é velho. Nem queira parecer. — Só pare de falar coisas do tipo “segure na minha mão” — E… Bem, o conceito de amizade ainda é o mesmo.

CINCO – LONGOS – MINUTOS – DE – SILÊNCIO. Foram cinco porque eu fitei o relógio do aparelho de som do carro. Foi torturante. Estava rolando uma tensão sexual nada recíproca ali. Enchi meu pulmão de ar. Iria fazer uma argumentação sobre os males do Mcdonalds apenas pelo fato de ter visto o grande banner do drive-thru. Fui interrompido pelo celular dele tocando uma música que eu não conhecia.

Ele toca um botão no carro e um no telefone.

— Oi Ingrid. — ele fala ao ar.

— Onde você está? — a voz dela está por toda a parte. — O aniversário do Tyler já começou.

— Você não vai acreditar no que aconteceu. Espera… O Tyler da loja de rosquinhas ou o Tyler da assistência técnica?

— O da assistência técnica! Você atropelou outro cachorro?

— Não! Eu salvei uma vida!

— Você salvou a vida do cachorro que você atropelou? Ele não está morto?

— Eu poderia estar, mas sim, ele salvou minha vida. — Falo, invadindo a ligação.

— Oh, o cachorro fala.

— Ingrid, conheça o filho do meu chefe, William Fisher.

Imagino que ela esteja procurando um lugar pra enfiar a cabeça nos seguintes instantes de silêncio.

— Um segundo. — ela fala, ofegante. — Merda, merda, merda, merda, merda, merda, merda, porra, merda, porra, merda! — ouvimos de longe. Estou rindo por dentro, Paul está aparentemente irritado.

— Ainda podemos ouvir você. — ele fala.

— Hã? O quê? Eu não disse nada. — Ela volta à ligação, falava rápido.

— Ingrid, eu te explico mais tarde, estou dirigindo.

— Ah, não. Fica tranquilo, querido. Assim que puder me liga. Se eu não atender estarei cavando a minha própria cova e me atirando de vergonha.

— Faça isso. — falou antes de desligar.

Eu não pude esperar para comentar.

— Então essa é sua ex-noiva?

— É. Ingrid.

— Vocês são amigos…

— Porque o estranhamento?

— Porque vocês são amigos. Cúmplices, certo? O que deu errado?

— Não nos amamos como cônjuges. Nossa amizade veio de muito tempo atrás e nós confundimos os sentimentos. Acabamos noivando, mas antes de marcar a data a gente parou pra respirar um pouco e decidimos que não era a coisa certa.

— Parece uma droga. Você levar- quanto tempo levaram nisso?

— 4 anos

— Levar quatro anos com uma pessoa que você não ama quando tem milhões de pessoas lá fora querendo te amar, mas você pensa que ama outra pessoa.

— Eu não pensava por esse lado… Até agora. Acho que eu vou encostar e morrer de depressão.

— Me leve pra casa, depois você pode morrer de depressão.

— Haha. Claro! Primeiro a saúde do filho do chefe.

Chegávamos à saída da cidade. Umas poucas horas e logo estaríamos em Winston, eu estaria de volta em casa e tudo voltaria a ser como antes de um mês atrás. Minha mãe retorna a ligar. A notícia não era boa.

— Filho, está feito.

— O que está feito? — Pergunto, distraído com a rua.

— Eu já fui na delegacia e liguei pro seu pai. Vamos abrir um processo contra ele.

— Você o quê? — berro ao telefone, queria explodir os tímpanos dela naquele momento. — Mãe, eu falei que não era para fazer nada!

— Eu só estou fazendo o que é melhor pra todos. Precisamos terminar essa história.

— Já estava terminada! Você é a única que está cutucando o formigueiro! Mãe, pelo amor de Deus, desfaça isso! Minha intenção não é prejudicar ninguém!

— Você é assim, William. Sempre preocupado com o bem estar alheio mesmo quando esse alheio te destrói. Eu já disse que você ainda vai se dar muito mal- aliás, você já se deu muito mal. Você devia aprender a lição.

— Mãe, eu vou deixar as coisas bem claras pra senhora: NÃO É DA SUA CONTA.

— Ei! — Paul me repreende.

“Agora não, Paul”, respondo.

— Eu sei que está tentando me proteger, mas acredite, seguir em frente com isso só vai nos fazer mais mal do que bem.

— Fale por você. Está decidido. Ninguém mexe com meu bebê e fica por isso mesmo. Tchau, filho.

— Mãe, MÃE! — Ela desligou

Então eu começo a xingar. E xingo muito. Alto. Mais palavrões que uma música de Lil' Wayne pode aguentar.

— JÁ CHEGA! — Ouço o moreno gritar por cima da minha voz. Paul joga o carro no acostamento. — Sai do carro.

— O quê? — E por isso eu quis dizer: Você está me expulsando de seu carro depois de salvar minha vida? Eu estou mesmo voltando pra sarjeta?

— Você. Ouviu. Agora sai do meu carro.

Estou irritado demais pra argumentar. Tiro o cinto e abro a porta de forma rude.

Bato a porta, mas acabo batendo com mais força do que queria. Há uma nuvem de chuva sobre a estrada. Está nublado.

Paul sai em seguida e se aproxima.

— Da próxima vez que ter um ataque no meu carro — ele estava muito perto, ele quebrou o limite pessoal e estava colocando o dedo em mim — eu vou deixá-lo na estrada.

— Paul, eu não tenho tempo pra sua repreensão agora. — desdenhei, avançando também — O caso é sério!

— Eu sei. Mas nada justifica…

— Guarde seus conselhos de ética pra quem ligue. — interpelo. — Nem tudo na vida é sobre ética.

— Não é sobre ser ético. É sobre respeito. Você ouviu da forma que falou com sua mãe?

— Você ouviu mesmo o que ela falou pra mim? Ela pretende estragar vidas. Ela está errada!

— Mas ela ainda é sua mãe. Eu queria ter minha mãe aqui se importar como a sua faz.

— Ah, não. Vai começar com um novo capítulo de Paul, o Coitado? — Fui longe demais e eu senti isso da minha cabeça aos pés. Me senti sujo. Eu joguei sujo.

Paul está me olhando agora. Ele está atônito. Eu ainda o encaro. Tive certeza de que devia pedir desculpas ali. Mas não o fiz.

Ele fica atônito, como se estivesse forçando a manter-se de pé após um peso ser jogado sobre suas costas.

— Paul, escuta…

— O que há de errado com você? — Ele se afasta. Desvia como se estivesse evitando ser contaminado. — Como você consegue jogar tão baixo? É assim sempre? Você usa a fraqueza dos outros contra eles mesmos?

— Não. Eu sei que o que fiz foi sacanagem. Me arrependi no momento que eu falei. Esse não sou eu, eu só fiquei…

Ele não se convencia. Quanto mais eu falava mais eu o via se distanciar, não ligar pro que eu dizia. E quanto mais isso acontecia, mas eu sentia que deveria ser sincero, falando o que ele precisava ouvir.

— Não, isso não tem desculpa. Eu queria que você me desculpasse porque eu quero ser seu amigo. Você é a melhor coisa que aconteceu desde ontem. E só para ter que te conhecer de novo eu passaria por tudo de novo.

Senti uma gota cair em mim. Como um tiro de aviso. Mais delas viriam. Vi uma gota molhar a camisa azul marinho, deixando-a quase preta. Esperei que ele destrancasse o carro para fugir da chuva. Precisei de umas mil gotas para perceber que aquilo não aconteceria. Mesmo com toda a gotejada ele se recusava a se mover. Permaneceu ereto me olhando. O pé d’água estava próximo, mas ele não se intimidou. Abri a boca para falar, mas quase que no mesmo instante ele meneou com a cabeça para os lados. Me calei novamente.

A chuva chegou a seu ápice. As gotas agrediam o capô do carro como se fossem pedras.

Já fazia mais de dez minutos que Paul estava ali, imóvel. Eu o imitei. Fiquei parado e enfrentei apenas com olhares.

Não sei se foi a água deturpando minha visão, mas tive a impressão de ver um sorriso se formar em seu rosto.

— Feche os olhos. — Ele disse. — Sinta.

— Sentir o que?

— Sinta a água lavar você. Deixe toda a culpa, toda amargura, deixe ser levado pela corrente.

Paul fecha os olhos.

Arqueio a sobrancelha. “Ele é louco? ”, penso.

Arriscou a dizer que eu ainda estava de olhos abertos. E estava certo.

Fechei.

A água levava tudo. A confusão com o Paul, meu ódio pela minha mãe, alguma coisa que eu sentia pelo Sérgio. Sim, eu ainda sentia algo pelo Sérgio. Eu não consegui odiá-lo. Descarreguei meu ódio, mas ainda restara algo. Talvez pena. Deixei a dúvida ser lavada também.