Um Passo Mais Perto

9 Um passo para perder tudo


Notas iniciais
Narradores intercalados.

Paul

Apocalipse é o último livro da bíblia, mas em grande parte do mundo é conhecido como Revelações. Talvez seja por isso que os cristãos temam tanto esse dia. Sabemos que temos feito e escondido tantas coisas que só de pensar em ter tudo isso revelado é um motivo para se ter medo. As revelações de quem realmente somos, do que realmente queríamos. Eu não acredito na Bíblia, mas acredito que todos nós temos segredos.

Depois das festividades de início de ano fomos surpreendidos no escritório com a reabertura de um caso que na época, tomou todo nosso tempo. O caso de sequestro seguido de assassinato de Cindy Harper. Conseguimos inocentar o acusado, Lincoln Hanashiro, mas parece que surgiu uma nova prova que pode colocá-lo na cadeia.

Sem medir as consequências eu diminuí a minha vida social para me empenhar junto com o Sr. Fisher e os demais colegas de trabalho para fechar esse caso de uma vez por todas.

Foi nos dado três semanas para rebater as novas acusações e provar mais uma vez que nosso cliente é inocente. Falo “nós” porque uma vez, numa reunião de pessoal, o Sr. Fisher diz que tudo o que ele faz é graças a nossa ajuda e que sozinho não conseguiria. Éramos um time.

Em dias normais eu largava às 18, mas nesses períodos todos nós entrávamos sem hora para sair.

Era um esforço que valia a pena, só que esse esforço tirava de mim a minha vida. Palavras da Ingrid.

Conseguimos provar que a acusação era sem fundamento e as provas recolhidas tinham sido plantas e manipuladas pela acusação. Sr. Hanashiro decidiu por não abrir um processo contra porque estava cansado demais de frequentar cortes.

Na noite da vitória a equipe saiu para comemorar, mas eu escolhi ficar em casa.

— Eu até comemoraria com você, mas você sabe que eu não sou de acordo com seu esforço exagerado. — Ingrid senta ao meu lado no sofá.

— Todo esforço vale a pena-

— Quando se trata de fazer justiça. Eu já ouvi essa frase um milhão de vezes. Só que essa situação é diferente. Não sou só eu quem você abandonou.

Quando peguei o meu celular (o que eu não usava no trabalho) havia dezenas de recados, ligações e mensagens.

Coloquei o pote de sorvete que estava no meu colo de lado.

— Merda. Ele deve querer me matar agora. Eu vou ligar pra ele.

Ingrid saltou em mim e arrancou o celular de minha mão.

— Nanana! Ligar não! Você vai lá!

— Como?

A ruiva me arranca do sofá e começa a me empurrar pra porta.

— Você vai lá e vai pedir desculpas pra ele pessoalmente, olhando nos olhos dele.

— É uma boa ideia.

Peguei as chaves e daquele jeito que estava – de camiseta e calças – eu fui.

Fui pensando o caminho todo no que dizer e como ele poderia estar. Mal. Abatido. Fraco… Bem. Talvez eu tivesse aprendido com ele a ter uma imaginação forte, porque mesmo com todo o meu medo e a insegurança adolescente, eu não podia estar mais surpreso ao ser atendido.


William

Três semanas antes.

— Cara, eu não sei como você consegue se segurar. — Emily comentou assim que terminamos a conferência no Skype com o Paul porque ele precisava dormir pra trabalhar na segunda-feira.

— Eu também não sei. Eu só procuro deixar pra lá pra evitar me machucar.

— Como ele poderia te machucar?

— De diversos modos: ele poderia rir da minha cara, poderia dizer que ficaria comigo se eu não fosse… eu. Você sabe que eu tenho esses problemas de autoestima.

— Você é um imbecil, é isso que você é. Até quando vai ficar reprimindo isso? Não tem adiantado e nunca vai. Você tem que falar pra ele.

— Você tem razão, você sempre tem razão, mas eu não sei como.

— Você me disse que naquele dia lá no hospital ele abriu o coração dele e falou um monte de coisa. Igualmente foi no natal, mas você não abriu o seu de volta e agora tá com tudo aí, contido. Amigo isso faz mal. Muito mal. Bota isso pra fora. O que tiver que ser será.

— Amiga você tá mais do que certa, mas eu não me sinto seguro pra

— PORRA, WILL! Você é tão seguro de si pra tanta coisa, mas pra dize o que sente fica com essa viadagem do caralho! Se você não contar pra ele, eu conto.

Me empolguei. Precisava acreditar.

— É. Nesse ponto você me pegou. Eu vou falar. Vou falar com ele amanhã. É. Amanhã mesmo eu falo com ele e acabo com esse fardo.

— Faça isso, agora vamos dormir porque somos piranhas, não vampiras.
Foram três meses me contendo. Três ditando errado o mantra de aceitar as coisas que não posso mudar. Aquilo eu poderia mudar.

Dormi confiante e acordei mais confiante ainda. Nada poderia abalar a minha confiança e determinação. Até a minha postura tinha mudado, palavras da minha mãe. Liguei para Paul pela tarde, no horário que sabia que era seu intervalo. Geralmente ele atendia no segundo toque, ou mandava uma mensagem dizendo que não poderia atender e eu só ligava à noite. Acontece que excepcionalmente naquela segunda-feira ele não respondeu. Nem ligou à noite. Prestei atenção em meu pai, mas ele estava disposto como sempre. Eu poderia, mas não deixei a curiosidade me corromper.

Eu fingi tudo.

Eu estava morrendo de curiosidade. Cada segundo que eu olhava pro telefone e esperava ele ligar foi um tiro no meu orgulho.

No fim da minha tortuosa semana, eu descobri o lado ruim de se ver dependente de alguém.

Emily e eu marcamos de nos encontrar na praça no sábado, apesar de morarmos próximos. A ideia de marcar pra se encontrar nos fazia pensar que éramos importantes.

— Você está péssimo.

— Não queria estar.

— Ele não ligou mesmo?

Esse foi o assunto da semana, afinal, Paul era sempre o assunto da semana. Minha vida tinha se resumido a falar sobre o Paul ou falar com o Paul. Com a Emily nada mais foi novidade. Eu percebi isso, mas se ela percebeu, não ligou.

— Nem mensagem, nem ligação, nem porra nenhuma.

— Você ligou?

— A mesma determinação do início da semana em falar tudo pra ele é a mesma para não falar mais nada. Eu não ligo mais. Se ele quiser falar comigo, ele que fale.

— E dizer que gosta dele…

— Por água a baixo.

— Uma pena. O que vai fazer?

— Eu só não vou voltar a fazer o que fazia. Eu sou uma nova pessoa, eu não vou mais me trancar em casa com medo das pessoas.

— Vai sair?

— Vem comigo?

— Não posso, meus pais estão em casa e vai ter a noite de pizza. Não quer ir?

A verdade é que Emily sempre esteve por mim. Eu precisava mesmo rever minhas prioridades. Na verdade, dividi-las igualmente.

— Para ter que ver seus pais me tratarem como um et? Não, obrigado.

— Amigo, eu te adoro.

O pai dela ligou. Eu pude ouvi-lo dizer que pizza já havia chegado. Ela precisava ir.

Emily me deu um beijo na testa e se foi. Eu preferi ficar ali um pouco. Pensar em qual seria meu próximo passo.

Eu não conseguia pensar com a barulheira que estava vindo do outro lado da praça. Me aproximei para ver melhor como quem não queria nada e percebi que se tratava de alguns jovens bebendo e rindo alto. Tinha até um carinha bonitinho entre eles, mas eu não estava no ânimo para tentar minha primeira investida desde que mudei de vida.

Ouvi alguém chamar, mas não sabia se era comigo então preferi nem me virar. Jogo as mãos no bolso e chuto pedras no caminho.

Alguém segura meu braço por cima do casaco. Foi um pouco grosso pro meu gosto. Me viro com a minha cara de incomodado.

— Você não me ouviu chamar? — é uma garota que estava no grupo, loira de cabelos cacheados até os ombros.

Ela está sorrindo, mas seu hálito é o pior de todos. Eu já poderia ser pego no bafômetro só de estar respirando o mesmo ar.

— Achei que não… Esquece.

Olho pros lados, para baixo, pra cima, tudo para evitar que o bafo dela me acerte a cara.

— E porque não seria? — ela diz, parecendo adivinhar o que eu diria — Não quer se juntar a nós?

— Não sei se é… Não acho que…

— Não acha que se encaixa? Que não é pra você? Cara, ali ninguém liga pra o que você é, como é, o que faz… Somos só pessoas afogando as mágoas.

Afogar as mágoas era exatamente o que eu precisava. Acreditei que era pra mim. Só dava para esquecer de uma pessoa conhecendo novas pessoas.

Meu sorriso foi a resposta da loira, que sorriu de volta e me leva pela mão ao grupo.

— Sou Kira — diz

— William.

— Pessoal, esse aqui é o William. Ele tem problemas!

Trent anuncia como se fosse um trunfo. Todos erguem seus copos e garrafas me cumprimentando.

— Senta aqui William.

— Eu não vou apresentar você para todo mundo porque é muito chato, você vai conhecer quem tiver que conhecer. Tudo o que você precisa é desse copo cheio.

Kira dá pra mim um copo e coloca energético com álcool para mim.

— Começa pelo energético, depois a gente vai evoluindo.

Olho pro copo e a bebida ali dentro. Começo a pensar.

“Será que devo? ”

“Eu preciso disso? ”

Então tudo vem a minha cabeça. Minha desilusão ganhou proporções inimagináveis na minha cabeça. Como o Big Bang.

Virei tudo na garganta pra ver se os pensamentos desciam juntos.

“Vou precisar de mais”, foi a conclusão ao ver o copo vazio. Quando volto a olhar pro grupo, estão todos os 7 jovens me olhando, surpresos.

— Cara, você deve ter grandes problemas.

— Conta pra gente — o bonitinho pediu.

— Desilusão amorosa.

Um coro de “uuuuuuuuuuuh” se estendeu.

— Põe uísque no copo dele — Alguém gritou.

Kira não pensou duas vezes e encheu meu copo até a metade.

— Vira. — o bonitinho diz.

De repente todos estão me pedindo para beber tudo de uma vez.

Não faço feio, derramo o whisky direto na minha garganta. Sinto-a virar labaredas de fogo na garganta, eu juro que poderia cuspir chamas.

Não consigo evitar a cara feia e o arrepio.

Posso ouvir o coro de comemorações dos presentes. Me sinto melhor. Me sinto mais leve, porque eu não sinto mais nada.

O bonitinho senta ao meu lado.

— Gostei de você, Will.

— Mas você não vai me beijar, então qual o propósito?

— Meu nome é Trent — ele diz, ignorando a minha pergunta desesperada.

— William.

O loiro me olha atentamente. Me afasto pra trás achando estranho.

— Espera… Eu estou reconhecendo você! É o garoto que sofreu o acidente na estrada no ano passado?

— Ah, sou.

— Eu ainda choro com o vídeo do cara que estava com você. Ele suplicando pros bombeiros te tirarem de lá e tudo mais, foi bem tristinha a cena.

O ressentimento sucumbe.

— Eu não sabia que ele tinha feito isso. Como o mundo dá voltas, não é?
Trent se aproxima mais para ouvir melhor.

— Como assim?

— Ele é a minha desilusão amorosa.

— Que bad. Mas enfim, estamos aqui para esquecer dos problemas e não para lembrar deles!

A noite toda foi a base de whisky com lágrimas. As lágrimas eram figurativas. Acontece que mesmo todos estando ali para esquecer os problemas, todos estavam ali por causa deles. E eram diversos: problemas com os pais, problemas com a sociedade machista, pseudo-laica e racista… Todos tinham alguma objeção a fazer sobre a realidade. Só que ninguém se deixava abater. Quem passasse veria jovens bebendo por beber, felizes, comemorando. Era o que queríamos que vissem. Os problemas eram esquecidos. Apenas por aquela noite.

Quando a bebida acabou a noite também. Minha visão estava embaçada.

Kira quis fazer a gentileza de me levar pra casa, mas Trent achou que ela estava mais bêbada que eu. No fim das contas, ele foi comigo até em casa. Não que eu precisasse, eu estava feliz. Andava de um lado para o outro, sorrindo e cantarolando qualquer coisa que viesse a cabeça.

— Você é hilário, William.

— Você é lindo, Trent!

Ele insistia em andar como uma pessoa normal enquanto me via saltar pela calçada.

— Ainda estamos muito longe? — ele pergunta.

— Não falta muito!

— Seus pais não vão reclamar?

— Não vai ser a primeira vez que me verão bêbado. Teve a festa de formatura do colégio, e eles devem estar dormindo agora.

Andamos mais uns quinhentos metros. Sempre procurava uma oportunidade para olhá-lo e imaginá-lo por baixo daquela camisa azul marinho e calças pretas.

— É aqui.

— Sua casa é linda.

— Minha casa agradece. — respondo com deboche.

Retiro as chaves do bolso e procuro no molho a chave da porta. Trent estava na minha frente e assistiu tudo. Encontrei a porcaria da chave certa e abri a porta – inacreditavelmente – sem dificuldades em acertar a fechadura.

— Tchau, Trent. Obrigado por ter me trazido em casa. É… Te vejo por aí.

— Você não vai me beijar?

— E porque eu beijaria? — perguntei.

— Qual o propósito de eu ter trazido você em casa?

Coloco a mão na nuca dele e o puxo para mim. Sinto seu nariz tocar no meu, mas era a boca que eu queria. Minha última visão antes de fechar os olhos para beijá-lo foi seus olhos castanhos claros. Lábios molhados, mãos ágeis, corpos aquecidos um pelo outro.

Fiquei o olhando ir pra calçada, ele vira e diz:

— Entra. — ele diz.

Me despeço dele e entro em casa antes de fazer a besteira de convidá-lo pra ficar ou ir com ele. Pelo olho mágico o vejo andar até a calçada com as mãos no bolso, mas sempre olhar pra minha casa linda e sorrir. Talvez fosse pela casa.

Eu poderia fazer a linha livro do Nicholas Sparks ou Hannah Montana e sentar no chão e devanear sobre o beijo, mas eu estava muito, muito cansado pra isso. Eu queria mesmo era dormir. Tomei uma rapidíssima ducha, pus o calção e me joguei na cama.

Quando acordei já passava das quatro da tarde. Quando saí do quarto era 4 e meia.

— Eu já estava chamando os legistas pra levarem o corpo. — brincou assim que me viu entrar na cozinha.

— Cadê o pai?

— Reunião de trabalho.

— Mãe, como é ser psicóloga? — pergunto ao me sentar. — assim, como é conciliar o trabalho com a família.

— Tem que ter jogo de cintura, filho. — ela responde — Assim, tanto eu quanto seu pai temos que nos policiar sobre o que é trabalho e o que é família. Por isso que preferimos não comentar muito sobre trabalho.

E continua.

— Chega uma hora que você tem que estabelecer prioridades. No trabalho, a prioridade são os clientes e pacientes, em casa, a prioridade somos nós.

— Entendo.

— Tem muito amor envolvido também. — ela sorri pra mim e deixa a cozinha depois de me beijar a testa.

Penso se o Paul saberia dividir o tempo dele. Se tinha algum amor envolvido entre nós. A resposta estava no meu celular. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação.

Liguei pra Emily, precisava falar com ela sobre a noite passada. Ela mostrou mais interesse quando falei do Trent, mas na verdade, o ponto dela foi outro.

— E o Paul?

— Paul talvez seja um caso perdido. Eu realmente não sei se vale a pena insistir.

Paul estava perdendo terreno para Trent. No domingo eu fui até a praça como quem não queria nada e o encontrei lá. Ele era mais bonito de dia, e ele disse que minha casa também era, quando voltamos. Apresentei ele para meus pais como amigo e depois que eu insisti muito ele aceitou ficar para jantar. Um fofo com minha mãe e elogiou até a água. Meus pais reforçaram os votos de confiança depois que ele foi embora.

— O que achou dele, Daniel?

Eles estavam vendo televisão, ou ao menos fingindo que estavam.

— Gentil. Bom moço.

— E bonito.

— Ele acha nossa casa linda — comento ao me juntar a eles no sofá.

— Um ponto a mais. Vocês estão namorando?

— Nos conhecemos na sexta. É cedo.

— Mas você já chamou ele para jantar com seus pais. — minha mãe retrucou.

— A gente tá ficando, gente. Acalmem os nervos, por favor? Assistam a série.

Na verdade era uma reprise da Season Finale de Arrow. Minha mãe era Olicity, meu pai só via por causa da semelhança com o Batman.

Na segunda semana ainda estava sendo difícil acreditar que Paul estava mesmo me deixando de lado. Eu não poderia esperá-lo. Àquela altura eu já tinha esquecido do que dizer pra ele. Eu já não tinha mais nada para dizer. Trent foi ganhando espaço, o espaço que eu quis um dia que Paul suprisse. Parece que a vida tem dessas. A gente aproveita o presente ao máximo porque não sabemos o que o futuro reserva.

No final daquela semana eu já tinha uma ideia fixa na cabeça.

As palavras foram ditas com muito pesar.

— E tudo o que vocês passaram? — Emily me perguntou enquanto tomávamos sorvete no meu quarto assistindo Penny Dreadful.

— Não podemos ficar no presente apenas lembrando do passado. A gente tem sempre que escrever novas histórias e se não há mais nada para escrever entre nós… A gente acaba o livro e começa outro.

— Well said, Mr. Chandler. — ela debocha falando com sotaque inglês.

— I am happy to know that you agreed, Ms. Ives. — vou no embalo.
Ela continua a brincar:

— Mr. Chandler, are you fucking with Dorian Grey?

— Oh, I wish I was, Ms. Ives. But he’s an asshole. Now my heart and my body belongs to Dr. Victor Frankstein.

— What a plot twist!

— Indeed.

Rimos ao final daquele diálogo carregado de sotaque britânico forçado.
Uma outra semana se iniciou. Trent estava cada vez mais presente. E eu estava gostando dele cada vez mais. Acontece que Paul, mesmo não mostrando as caras, fazia questão de ser lembrado.

Trent e eu estávamos em meu quarto. Eu estava sentado na cama enquanto ele olhava tudo. Eu disse a ele que era um modo de me conhecer melhor.

— Esse é o cara?

Trent chegou a um porta-retratos no criado mudo. Paul e eu no natal. Estávamos sorrindo, felizes.

— É.

— Ele é fofo.

— Não temos que falar sobre ele.

— Todos temos demônios. Ele é o seu. Mas você pode chamar de fardo, de assunto aberto.

— E o seu? — tento contorná-lo, fazê-lo mudar de assunto.

— Talvez você.

Salto da cama, confuso e eufórico.

— Eu? Porquê?

Trent gagueja, mas não responde. Observo atentamente ele tentar desviar do meu olhar. E lá ia eu de novo. Ele queria dizer algo, mas no último minuto acabou desistindo.

— Trent, olha só… — sorrio descontraído, mas na verdade eu estava tentando não ser invasivo. — Quando eu sofri aquele acidente eu estava voltando de uma puta duma decepção amorosa. O cara foi duas caras. Meu ponto é. Eu odeio mentiras. Se você quer que isso aconteça, se quer que isso funcione a…

Trent estava olhando para as figuras de ação na prateleira. Ele estava evitando me olhar diretamente.

— Esse é meu ponto. Não vai funcionar. Meus pais vão se mudar para o Canadá na semana que vem.

Até aquele momento eu caminhava pelo quarto. Então eu parei.

— E quando você pretendia contar isso?

— As coisas saíram do controle eu… Eu não pensei que fosse gostar tanto de você.

— Ah é? — respondi desacreditado.

Quando eu dei as costas pro cara ele saltou na minha frente e me segurou os ombros, me olhando nos olhos.

— Eu pensei que seria só uma ficada e então quando eu vi eu estava jantando com seus pais. Me desculpe por ter deixado ir tão longe. Eu estou sendo cem por cento sincero com você.

— E o que a gente faz agora?

Minha voz saiu um pouco mais melosa do que eu imaginei.

— O que você decidir, eu vou respeitar.

Saio da armadilha dele e volto a caminhar pelo quarto.

— Você devia ter me dito isso antes, cara. Essa coisa de não se apegar é… É coisa nova pra mim.

— Isso quer dizer que?

Eu estava irritado, mas acabei deixando um sorriso escapar.

— Você não vai me fazer dizer que eu gosto de você.

Seus olhos brilharam como luzes de natal. Seu sorriso parecia ter saído de um comercial de creme dental.

Trent avança e me atira na cama.

— A gente pode pular o drama e aproveitar enquanto temos um ao outro.
Mesmo temendo ele perguntar o meu motivo para achar isto, eu arrisquei dizer:

— Isso nunca daria certo mesmo.

Trent me olha fixamente, eu tento ler sua mente. Ele tira a camisa, eu tiro a minha. Me levanto, ainda tentando telepatia, quando eu ia retirar minha bermuda ele me segurou a mão, sentou-me na cama e fez por si mesmo. Não tinha volta, ainda bem. Eu revelei estar sedento por ele desde o primeiro dia, ele sorriu ao ouvir aquilo. Sabíamos que não nos teríamos outra vez, nos apegamos a isso. Fizemos de tudo para que fosse épico e inesquecível para ambos.

— Será que sujamos os lençóis? — ele brinca ao final.

— Já estiveram piores. — respondo rindo.

— Quem já esteve no seu quarto?

Ergo minha mão e sinalizo o que qualquer homem faz sozinho num quarto. Trent ri.

— Ela joga os lençóis fora e compra outros com a minha mesada. Ela sempre faz isso.

A gargalhada de Trent emenda com outra e logo ele estava tendo uma crisezinha de riso.

Voltamos pro quarto e nos vestimos. Tinha duas mensagens no meu celular.
“Me tranquei no provador da loja porque sem mim seu pai não volta pra casa. Ele queria evitar o que provavelmente já aconteceu. Mamãe te ama, USEM PROTEÇÃO! ”

Segunda mensagem:

“Se os filhos de vocês estiverem nos lençóis, jogue-os fora”

Mostrei os recados pra Trent e ele declarou amar minha incomparável e inusitada mãe.

Quando Trent foi pra casa eu senti que era uma prévia para o adeus que viria em poucos dias.

Meu loiro passou a semana empacotando coisas e organizando os detalhes da viagem com os pais. Eu não tive nem a oportunidade de conhecê-los, mas eles pareciam ser legais pelo que Trent me contara.

Ganhando ou perdendo um caso na justiça, meu pai sempre levava minha mãe para jantar fora na intenção de compensar o tempo que ele não pode ‘dedicar a ela’ porque estava estudando o caso e ouvindo clientes. Se ele ao menos soubesse que o esforço dele para não levar trabalho pra casa quase não fazia a gente notar que a vida profissional dele estava tensa, só pediria uma pizza em casa.

Assim que saíram o Trent chegou. Eles até se encontraram e meu pai, como sempre, muito gentil. Trent e eu transamos antes da Emily chegar, pedimos pizza e escolhemos Grand Hotel Budapest como filme da noite.

Na parte que o Gerente é preso alguém toca a campainha.

— Você está esperando alguém? — Trent pergunta.

— Não.

— Então deixa que eu atendo. Sei karatê.

Assisto ele ir até a porta, mas volto para ver o filme.

Paul

Fui atendido por um outro jovem. Loiro, fortinho, da altura do William.

— Posso ajudar?

O vejo cerrar os olhos, me olhando melhor.

— Você é o Paul, não é?

— Sou. O William está?

— Aham, entra aí.

— William, surprise motherfucker.

Ele estava no sofá, não me viu até o loiro me “anunciar”. Emily também estava lá. Ao me reconhecer William levanta com o susto.

— Paul.

Ele me encara friamente. Ainda sim pergunto:

— Podemos conversar?

Apenas para não se dar ao trabalho de dizer ‘sim’ William apenas vai da sala para a varanda nos fundos.

Ainda cumprimento a Emily enquanto o sigo.

Sua feição está séria, mas me apego a pequena curva que se forma nas extremidades dos lábios.

— Eu sei porque está aqui. — ele diz.

— Eu sinto muito.

— Sei disso também.

— Eu deveria…

— Sim, deveria.

É quando eu percebo que esse era o jogo dele, mas eu não estava disposto a fazer rodeios.

— O que quer que eu diga?

— Algo novo. Quero que me diga o que eu não sei. Você está aqui porque acha que nossa amizade é importante, mas não condiz com sua atitude das últimas semanas.

— Eu estava salvando uma vida inocente.

— Esse é o trabalho do meu pai. — William coloca — Pode me chamar de incompreensível, mas eu não consigo entender porque meu pai consegue voltar pra casa e beijar a minha mãe, me abraçar e colocar a cabeça no travesseiro e você não pode dar uma ligação sequer.

— Seu pai é experiente, sabe como conciliar as coisas. Eu queria aprender, com o tempo talvez eu consiga isso também.

William volta a apoiar-se na cerca alta da varanda. Ele olha pro céu e dar um sorriso desdenhador.

— Se você está me dizendo que isso vai acontecer de novo, o que está fazendo aqui?

As palavras me foram roubadas, William tinha me encurralado. Nada que eu dissesse o faria mudar de ideia.

— Eu queria que me entendesse. — ainda digo.

— Eu entendo, mas eu não aceito. Eu não preciso aceitar. Se fosse em outras circunstâncias, isso poderia ser bem menos dramático, mas você escolheu desaparecer quando eu estava pronto pra dizer que eu estava apaixonado por você.

Não disse nada, mas eu me fiz acreditar antes que ele estava mesmo afim de mim. Vez ou outra eu dava corda, vez ou outra eu me continha para não deixá-lo me beijar ou beijá-lo, mas minha promessa aos meus pais sempre falava mais alto que a minha promessa ao Ethan.

“Eu prometo a vocês que vou constituir família, vou ser um cara normal”. É o que eu disse no leito de morte dos meus pais, dois anos antes da morte do Ethan, a quem prometi ser feliz.

A minha felicidade estava bem na minha frente, eu não tinha que esconder nada a ele. Eu podia tornar tudo mais fácil se eu dissesse que o estagiário expulso de casa pelos pais fui eu. Eu poderia dizer pra ele que eu era o cara no armário que negava a mim mesmo todo santo dia. William entenderia. Ele me abraçaria e diria que estava na hora de seguir em frente. Eu diria que estava apaixonado por ele e ficaríamos juntos.

Em outras circunstâncias esse poderia ser o final feliz, o final perfeito.
Estava nadando nos meus pensamentos, não, me afogando neles, mas William me puxa de volta para jogar a última pá de terra da minha cova:

— Não tem espaço pra uma segunda pessoa na sua vida, Paul. Não há espaço nem pra você. Salva vidas no tribunal, mas da porta pra fora você é quem precisa ser salvo. — Sua voz estava trêmula, sinal de que poderia estar chorando, não tive como saber porque não tive coragem para olhá-lo.

— Ele te faz feliz? O loiro lá na sala. — uni forças para uma última pergunta.

— Ele não é meu namorado.

— Acho que vou embora, já dei muito fora aqui. Não quero estragar a noite de vocês.

Ergo a cabeça, William está sério, como se colhesse detalhes da minha dor sem pensar duas vezes.

— Você só estraga a minha noite quando desaparece.

— Eu posso te ligar amanhã?

— Me ligue quando estiver pronto para me contar porque você não respondeu quando eu disse que estava apaixonado por você.

Eu o tinha subestimado, William tinha percebido tudo. Se ele tivesse lido a minha mente seria mais fácil, mas eu precisaria mesmo das palavras para explicar tudo.

Me recomponho, ajusto a gravata e me despeço dos garotos com tristeza nos olhos e um sorriso no rosto porque não queria deixar o clima melancólico no ar deles.


William

Ver Paul deixar minha casa daquela forma me destruiu por dentro, mas eu não tive escolha. Era melhor eu me afastar dele do que continuar suprindo aquela paixão enquanto ela me matava lentamente. Voltei pra sala tentando não estragar a noite de despedida do Trent, mas eles perceberam minha tristeza, mesmo eu insistindo que estava tudo bem. Não consegui controlar mais. Eu chorei. Apesar de ter me prometido nunca chorar por alguém, eu chorei por ele. Emily e Trent me abraçaram, me acolheram. Subimos pro meu quarto e lá ficamos até que eu desmaiasse de exaustão. Teria sido muito pior se eles não estivessem lá por mim.


Paul

Forças superiores me guiam de volta pra casa, eu não conseguiria sozinho. Ingrid já estava dormindo quando cheguei, agradeci mais uma vez a Deus. Eu não estava com cabeça para dar explicações.

Passei a noite acordado fingindo não saber o motivo. Não dava para pensar no William sem pensar nos meus pais e no Ethan. Porque minha promessa para os meus pais valia mais que minha promessa ao meu irmão? Porque eu não consegui dizer ao William o que sinto por ele? Porque parecia tão errado?

Dentre umas poucas lágrimas vazias e olhares hipnotizados uma resposta surgiu na minha cabeça como um letreiro em neon: É MAIS FÁCIL.

Cumpri a promessa aos meus pais durante esses anos porque sempre foi mais fácil. Ser feliz é difícil, porque de alguma forma, cedo ou tarde, vai envolver outra pessoa. Minha felicidade requeria sair da minha zona de conforto e encarar a minha identidade. Ir contra toda a repressão que meus pais e eu mesmo instauramos dentro de mim. Queimar as regras, destruir as lições. William me ensinou tudo isso com o tempo, mas só naquela noite eu percebi o tamanho e a complexidade daquelas ações. Felicidade é loucura e o cara mais louco que já conheci em toda minha vida era ele.

Determinado a ser feliz, eu seria capaz de sair de sair de casa naquele instante e ir atrás do cara que amo, mas meu corpo precisava de descanso. Tomei banho e me joguei na cama, apaguei instantes depois.