Um Paradoxo de Sentimentos.

1 Café Amargo e Uma Conversa Com a Sra. Swan


Notas iniciais
-História originalmente postada em 10/06/2014. —Essa foi a primeira Fic sobre SQ que postamos! —Assisto muito pouco a série, então, se eu fugir muito da realidade de OUAT, não descrevendo os personagens como eles são ou figurinos, etc, desculpem-me, mas eu só entendo mesmo de Emma e Regina, devido as inúmeras fic's que já li sobre esse ship. —O antigo perfil (Luna e Dri Azevedo) foi deletado, por isso estamos repostando as tramas novamente. —Boa leitura!!!

Regina Mills-Swan empurrou o prato e pegou o bule de café.

Tomara o desjejum sozinha, o que não era incomum.

Estava perdida em seus pensamentos refletindo sobre o rumo que tomaria sua vida a partir de agora que sua “querida” cunhada resolvera regressar a Swanfarm, aparentemente, para passar um tempo indeterminado.

Com um suspiro tomou um gole de café e virou o bule de um lado para outro, distraída.

Seu reflexo na prata polida mostrou uma mulher de 30 anos, com a tez morena, cabelos negros com alguns fios castanhos, cortados acima dos ombros e olhos castanhos emoldurados por sobrancelhas bem delineadas.

Seus lábios carnudos estavam pintados com um batom vermelho, ressaltando a cicatriz que tinha na parte superior da boca.

Mas, enquanto tomava o café, seus pensamentos não estavam em sua aparência.

Ela se recordava que nesta mesma manhã ao retornar para os estábulos, após presenciar um lindo alvorecer montada em “Rocinante”, seu corcel preferido, presenciou uma das éguas da fazenda dando cria.

Regina adorava aqueles magníficos animais de porte majestoso e elegante e, desde que tinha vindo morar em Swanfarm, há cerca de 2 anos, tinha, pouco a pouco, desenvolvido um dom especial que lhe permitia prever quando uma daquelas fêmeas daria cria ou teria problemas no parto.

Por isso, naquela manhã, acordou mais cedo do que o habitual, já prevendo que “Encantada”, uma bela égua de cor bege e crina branca, teria seu filhote.

No total, existiam 3 garanhões na fazenda, 5 éguas e, com a chegada do novo potrinho, 6 filhotes, 2 machos e 4 fêmeas.

Depois que saiu dos estábulos, Regina olhou para as paredes brancas e telhado espesso da velha vinícola construída por Leopold Swan, o avô do seu falecido marido, Robin, que hoje vivia desativada, uma vez que a produção de vinhos não tinha prosperado naquela propriedade, devido ao clima e ao solo do local, segundo diziam alguns especialistas.

Porém, se a família Swan havia falhado na fabricação de vinhos, foi bem-sucedida no cultivo de Pinheiros, já que essa árvore crescia em abundância no estado do Maine, onde se localizava Storybrooke, cidade com pouco mais de 10 mil habitantes, que abrigava a propriedade agrícola dos Swan’s.

A família fabricava móveis entre outros objetos com a madeira extraída dessas árvores, tornando-se um dos clãs mais ricos e proeminentes daquela região da Nova Inglaterra.

No entanto, apesar do amor que Regina tinha desenvolvido por aquela fazenda que considerava um lar, pela Sra. Eva Swan, a matriarca da família, pelos empregados e por aqueles cavalos magníficos, a ideia de ir embora de Swanfarm e Storybrooke, cada vez mais, fazia-se presente em sua cabeça.

O som de passos perturbou seu devaneio.

Ela ergueu a cabeça e se enrijeceu quando uma mulher relativamente alta e de longos cabelos loiros entrou na copa.

Regina.— Disse Emma Swan a guisa de cumprimento e encaminhou-se para pegar um prato e talheres.

Os nós dos dedos de Regina ficaram brancos, tamanha a força que ela usava para segurar a alça da xícara de café, antes de colocá-la na mesa e levantasse.

Mas Emma repetiu seu nome e ela foi obrigada a olhar para trás.

Emma Swan tinha 28 anos e, no momento, estava com seus cabelos loiros amarrados num rabo de cavalo, deixando seus cachos dourados suspensos no ar.

Possuía olhos verdes-azulados e traços belíssimos, diria até angelicais, embora o sorriso cínico estampado no seu rosto denotava sua personalidade petulante, insuportável e, muitas vezes, cruel.

Estava usando um jeans azul-marinho, botas de cano alto marrons que iam até a altura dos joelhos e uma regata branca, expondo seus braços bem torneados.

Olhando para ela, Regina não teve como não pensar que aquela mulher era irresistivelmente “máscula”.

Não devido a sua orientação sexual, mas por causa de sua postura, modo de vestir e andar.

E, enquanto esse termo (máscula) podia ser pejorativo quando associado a outras lésbicas, em Emma o efeito era justamente o oposto, pois seu estilo forte a tornava atraente para muitas mulheres, principalmente se levarmos em conta a quantidade de namoradas que ela já teve, segundo sua própria avó, dezenas, todas belos exemplares do sexo feminino.

As duas se entreolharam, Emma com um prato na mão e Regina em pé, segurando no espaldar da cadeira, numa atitude defensiva.

Ficaram assim até que Emma observou:

— Não vejo por que não deveríamos usar de um mínimo de cordialidade.

Uma centelha de raiva iluminou os olhos de Regina, deixando-os mais escuros, porém ela empinou o nariz e disse, encarando a outra mulher:

— Bom dia, Emma!

— Bom dia, majestade!— Emma falou, tranquilamente, e sorriu ao vê-la se irritar com o epíteto. — Sente-se. – Continuou, enquanto se virava para se servir de panquecas, bacon e ovos. — Tome café comigo.- Então sentou-se e colocou o prato na mesa.

— Eu já tomei café.

— Então tome apenas uma xícara de café comigo e, por favor, sirva uma para mim também, se não for pedir demais— Disse Emma, ainda esboçando seu sorriso jocoso.

Regina rangeu os dentes, mas voltou a sentar-se e serviu duas xícaras.

Pelo gesto, recebeu outro riso provocador.

— Pelo que estou entendendo, Regina, à ordem do dia vai ser a resistência passiva-agressiva.

— Por acaso já ofereci resistência de outro tipo?— Perguntou, enquanto lançava um olhar de soslaio para Emma.

Emma enfrentou seu olhar com uma expressão de curiosa ironia, até Regina desviar o rosto, e depois falou:

— Você tem mania de me lançar olhares mortais.

— Estou surpresa por você ter notado.— Falou Regina, com deboche.

— Ah, mas eu sempre fiz questão de notá-la em todos os aspectos, majestade.— Emma retrucou, e submeteu a morena a um vagaroso escrutínio, que provocou em Regina um rubor nas faces, que se aprofundou quando a loira acrescentou: —Uma coisa eu nunca neguei, sua beleza é tão tentadora que você seria a perdição de qualquer homem... ou mulher— Fez uma pausa antes de dizer as últimas palavras e aproveitou para encarar aqueles enigmáticos olhos castanhos.

Regina sentiu um calafrio percorrer sua espinha, fechou os olhos e obrigou-se a se controlar.

—Não espere que eu agradeça.— Disse num tom baixo.

—Eu não esperava agradecimento.— Emma sorriu, tomando um gole de café. –Imagino que você esteja acordada há horas. — Concluiu.

— Sim.

— Não só pecaminosamente bonita, mas também esforçada! Tenho certeza de que nós, os Swan’s, não tínhamos ideia de que você poderia se transformar num membro tão valioso da família.— Emma sorriu, mas seus olhos zombavam dela, de um modo já muito conhecido.

—Emma...— ela parou para respirar fundo-, se você tem alguma coisa para me dizer, por favor, fale logo. Quer que eu saia daqui agora que você veio para morar? Pode ficar sossegada, é exatamente o que pretendo fazer.

Emma Swan parou de comer e sua expressão se endureceu.

— Oh, não, não pretende. Isso é apenas uma extensão da representação que você faz para minha querida avó. A pobre e dedicada viúva, você é mestra neste papel. Mas a verdade é que você já se enraizou aqui, como seria de se esperar de alguém que deu o golpe do baú. — A loira falou, mordaz.

Elas trocaram olhares.

Regina estava pálida, com os lábios trêmulos, mas fazia muito tempo que não chorava e não ia dar esse gostinho a Emma.

— Bem, então você vai ter de esperar para ver.— Disse rispidamente e levantou-se com um movimento decidido.

Emma também levantou-se e elas ficaram se encarando, enquanto uma estranha tensão pairava no ar.

Farei mesmo isso, majestade, mas duvido que você queira se separar de seu baú.

Por um instante Regina viu-se tentada, realmente tentada a esbofeteá-la, mas a sanidade prevaleceu.

Ela só estremeceu ao pensar no modo como Emma teria reagido. A ideia a fez recuar um passo e tropeçar.

Emma foi rápida e segurou-lhe o braço para equilibrá-la.

Existe um ditado...— Emma sorriu, do mesmo modo cínico que tanto a irritava- que fala qualquer coisa sobre olhares que matam.

Regina sentia a pele do seu braço queimar, onde Emma a segurava com força: — Sim, mas eu perdi a fé nele há muito tempo, não muito depois de tê-la conhecido. Mas, como você insinuou antes, é um hábito difícil de quebrar.

Por mais estranho que pareça, Regina, esse é o único hábito seu que aprecio. Pelo menos é honesto.

Bem, neste caso...— Disse a morena por entre os dentes-, na próxima vez que eu honestamente sentir vontade de agredi-la, não procurarei me controlar.

Você poderá experimentar à vontade, Regina.— Ela estreitou o olhar e enquanto se aproximava ainda mais da outra mulher, invadindo seu espaço pessoal, continuou: — Mas penso que tomou a decisão certa agora há pouco. Não seria mesmo uma boa ideia. Mas talvez haja uma outra oportunidade?— Acrescentou friamente, largando seu braço.

Regina respirou fundo, nervosa, e tomou a única saída que restava para ela.

Saiu da cozinha, dando as costas a Emma Swan, ouvindo-a rir baixinho atrás de si.

***

Depois de deixar a cozinha, Regina foi para a biblioteca, onde encontrou a Sra. Swan sentada em uma das confortáveis poltronas existentes naquele espaço da casa.

A bondosa senhora levantou seus olhos do jogo de paciência e sorriu amorosamente para a viúva de seu neto.

Regina, querida, sente-se aqui! Gostaria de jogar uma partida de xadrez com você.— Disse, apontando a poltrona a sua frente.

A morena assentiu e sentou-se em frente a amável anciã.

Regina estava absorvida em seus pensamentos, tinha passado alguns minutos desde que a partida havia começado, e ela não conseguia deixar de pensar na discussão que tivera com Emma mais cedo.

A Sra. Swan percebendo que a jovem morena estava mais taciturna do que o habitual, perguntou:

— Querida, algum problema? Você está tão calada! Nem percebeu que eu usei a “torre” para pular uma de suas peças.

Regina sorriu ao lembrar que a anciã sempre usava métodos escusos para ganhar no xadrez.

—Não é nada, Sra. Swan, estou apenas pensando que seria bom fazer uma viagem, faz tanto tempo que estou enfurnada aqui na fazenda.

A idosa refletiu e disse:

— Você está assim por causa da chegada da Emma?

— Não, só que acho que seria bom mudar um pouco de ares, a senhora sabe, desde o acidente que não tive mais coragem de viajar.— A morena acrescentou rapidamente.

— Hum, você sabe que eu nunca entendi essa “tensão” que existe entre vocês duas, sempre pensei que ambas pudessem ser amigas, mas se você me diz que não é por causa da decisão que ela tomou de ficar aqui por uns tempos, acredito!— Disse, sorrindo.

Regina permaneceu calada, e a idosa acrescentou:

— Também acho que seria bom para você viajar! Já tem algum roteiro em mente?

— Não, estava pensando em sair por aí sem destino, por alguns dias, visitar os pontos turísticos do Maine.

— Se o Killian estivesse aqui ele poderia acompanhá-la.— Disse a mulher mais velha com os olhos brilhando de felicidade.

Era impressionante como a Sra. Swan amava seus 3 netos.

Robin, o mais velho, logo que seus pais faleceram num trágico acidente de avião, quando ele tinha apenas 22 anos, assumiu junto com o Sr. Gold, um velho amigo dos Swan’s, a responsabilidade pelos negócios da família.

Ajudou a sua avó a criar seus irmãos adolescentes, Emma, então com 15 anos e Killian com 13.

Emma tinha verdadeira devoção pelo irmão mais velho, e ele foi o primeiro para quem teve coragem de assumir sua homossexualidade, recebendo de Robin toda a compreensão e carinho, inclusive ele estava presente quando a loira resolveu contar tudo para sua avó.

—Não sei se Killian gostaria dos lugares tranquilos e das paisagens bucólicas que eu pretendo visitar, acho que não faz muito o estilo dele.— A morena falou, sorrindo.

— É verdade, às vezes esqueço dos gostos exóticos do meu neto. Falando nele, hoje cedo recebi um cartão-postal dele. Está na Riviera Francesa, veja só o que o danado escreveu!

Regina pegou o cartão e leu a mensagem:

Querida, vó!

Estou morrendo de saudades de vocês! No entanto, mato minha carência saindo com velhas milionárias que bancam tudo para mim.

Portanto, não se preocupe com a fortuna de nossa família, por que estou dilapidando a riqueza das senhoras incautas do velho continente.

Diga a “Xena” que encontrei 3 ex-namoradas dela nas minhas andanças pela França e todas ficaram contentíssimas em saber que ela continua solteira.

Fale para “Regi” que ela continua sendo a mulher mais bela de todos os reinos e que, quando me deparo com algum boy magia musculoso e lindo pelas praias francesas e penso em experimentar coisas novas, logo me lembro dela e meu lado hétero grita mais alto.

Beijos, do seu neto moreno, alto, bonito e sensual! :D”

Regina não conteve o riso quando terminou de ler aquela mensagem, Killian era, de longe, a pessoa mais bem-resolvida e divertida que ela já conhecera na vida!

Conviveu com ele em poucas ocasiões, pois o jovem vivia viajando e passava poucas semanas em Swanfarm, mas ele não precisava de muito tempo para cativar as pessoas ao seu redor e a morena tinha adorado o cunhado logo de cara.

—Killian é um bobo da corte.— Disse a velha senhora ao ver a jovem sorrindo. – Pior é que eu acredito em tudo que ele escreve, mas não tem como não amar esse sem-vergonha.— Acrescentou com os olhos que refletiam saudades.

Regina assentiu:- Não sei como 3 irmãos podem ser tão diferentes.

É verdade, se eu fosse definir meus 3 netos em palavras seriam: Responsabilidade (Robin), Força (Emma) e Espirituosidade (Killian). Eu fui abençoada! Falou a senhora com um lindo sorriso no rosto.

—Querida, você lembra de Ariel Fish?— A anciã perguntou, prosseguindo com a conversa.

Sim!— Regina tinha sido apresentada a bonita ruiva de olhos verdes numa festa que tinha ocorrido há alguns anos em Swanfarm.

Ela fez um curso de Enologia¹ e voltou a morar aqui em Storybrooke recentemente. Emma e ela estão pensando em reativar a vinícola para produzir sidras.

Verdade?— Regina indagou, estranhamente incomodada com o rumo daquela conversa.

Sim, acho que elas estão namorando! Killian uma vez me disse que Ariel é apaixonada por Emma desde a adolescência. Eles estudaram juntos e Killian flagrou a menina escrevendo ES & AF no caderno de “Amar é” que ela tinha.— Disse a velhinha sorrindo, pensando nas palavras do neto, sem notar a cara de enfado da morena.

—Fico pensando que talvez já seja a hora de Emma casar, já não tenho mais tanto tempo aqui e queria ser bisavó, e com o avanço da ciência sei que duas mulheres já podem ter filhos, e acho mais fácil a Emma me dá essa alegria do que o Killian—.

No momento que terminou a frase, a senhora olhou preocupada para Regina que estava cabisbaixa com uma cara séria e acrescentou:- Querida, perdoe-me! Que comentário mais idiota esse meu!- A voz da pobre idosa tremia de arrependimento.

Mal sabia ela que o enfado de Regina não era relacionado ao seu comentário sobre ter bisnetos.

Não que a morena não tivesse sonhado com isso durante os anos de seu casamento com Robin, mas, naquele momento, o que irritava a jovem era a possibilidade de Emma vir a se casar com a bela ruiva.

Para disfarçar sua irritação, Regina disse a primeira coisa que veio a cabeça:- Não se preocupe, Sra. Swan, não estou pensativa devido ao que a senhora falou, mas sim porque percebi que estou prestes a perder essa partida.— Disse, direcionando a idosa o seu mais lindo sorriso, embora forçado.

A velhinha aceitou de bom grado aquela desculpa.

Não queria lastimar ainda mais aquela jovem com o assunto de Robin e ela não terem tido filhos.

Na realidade, a Sra. Swan tinha aprendido a amar Regina como uma neta e isso amenizava a tristeza de ainda não ter tido um bisneto.

Quando terminaram o jogo, mais uma vez vencido pela Sra. Swan usando algumas jogadas suspeitas, Regina se encaminhou para o quarto e, depois da conversa que teve com a idosa, resolveu fazer as malas.

Diante de todos os acontecimentos recentes precisava se afastar daquela fazenda para refletir sobre seus sentimentos em relação àquela maldita loira.

Iria enfrentar as tranquilas rodovias da Nova Inglaterra em uma viagem sem rumo e talvez sem volta.

Notas finais
¹ Enologia para quem não sabe é a ciência que estuda tudo relacionado a produção e conservação de vinhos.