Um Para O Outro
1 Incompleto
Notas iniciais
A despeito de tal fato, desejo-lhe uma boa leitura ♥
Existe uma exigência básica para que algo seja considerado como “sadomasoquismo”: A presença do elemento sádico e do elemento masoquista.
Duh.
Por isso, por mais que daqui a alguns instantes tenham pessoas aí me olhando atravessadas com comentários mal formados saindo pela boca, já posso dizer sem problema algum que, a despeito da venda em minhas mãos, não pretendo fazer nada que os puritanos de plantão possam julgar impróprio.
Porque eu, pessoalmente, não curto muito ficar sentindo dor.
E ele, com certeza, é um daqueles que gostam de causar.
Mas os fatos não mudam que minha boca está sangrando e esse raio dessa venda foi a única coisa limpa o suficiente que eu arriscaria usar para estancar o sangue.
Quê? Lavanderia custa caro e já gasto bastante do meu dinheiro com cigarros e chocolate. Não vou ficar desperdiçando ainda mais com coisas bestas como bandagens ou ataduras.
Me joguei no sofá menor, porque o Mello PRECISAVA se sentar daquele jeito espaçoso que ocupava todos os três lugares do outro e ainda arranjava perna pra colocar em cima da mesa. Estava analisando alguma coisa em algum dos três computadores. Ou talvez em todos, não me importa.
Afundei um pouco mais sentido o cheiro do cigarro que empesteava as almofadas. Meus cigarros. Puxa, eu realmente precisava de um agora... Ah. Deviam fazer uma entrega domicílio de cigarros... Deviam mesmo...
- O que foi isso, Matt?
— Isso o quê?
Eu posso fingir que não estou segurando um pano velho ensanguentado e que meus óculos estão quebrados? Não né.
Odeio quando sabem que eu não sou um completo idiota. Ninguém liga pros idiotas.
- Seu rosto tá inchado. E não me lembro de ter feito isso.
Ele até chegou a tirar os pés da mesa pra poder se inclinar mais pra frente, veja só. Eu acreditaria realmente que ele estava preocupado comigo, se não fosse por ser o Mello ali.
- Desculpa, não sabia que só você podia me espancar. — Vi uma sobrancelha sumindo por baixo da franjinha loira num ponto de interrogação bem claro — Foram uns caras que tentaram me assaltar. É nisso que dá sair de casa. — Encarei o pano manchado — Tá sangrando ainda?
Mello murmurou um “acho que não” sem-graça depois de não olhar para o meu machucado botando as botas de couro entre os computadores de volta. O sonzinho de uma embalagem de chocolate se abrindo me irritou.
Injusto isso! Eu aqui, com uma pseudo-hemorragia labial, sem cigarros, enquanto ele come chocolate lá, com o chato do Kira.
Kira.
Sei.
Kira poderia ter matado toda a família inexistente de Mello, ele não ligaria muito. Ia simplesmente achar o suspeito e dar uns tiros ou o que quer que sua imaginação perversa queira. Mas não. Near estava caçando Kira e isso fazia com que fosse absolutamente plausível monopolizar as tomadas e extensões do apartamento para manter ligado aquele pelotão de computadores.
E meu Play? E meu DS sem bateria? Huh?
Afundei no encosto do sofá.
A lâmpada amarelada cambaleou louca pra queimar.
Um som enjoado de digitação e trânsito entupido zumbia pela sala.
Até o papel de parede parecia estar tentando se descolar para sair daquela cena emborrachada.
- Vai sair? — Continuei andando. Não precisava olhar pra ele para saber que não estava me olhando.
- Não. Vou só pegar uma coisa.
“Coisa”. Coisa é “qualquer coisa”, mas o sempre perspicaz Mello estava ocupado demais ouvindo outra gravação para se preocupar com isso. Sequer pensaria que eu ia mexer nas coisas dele.
Nada contra, mas eu realmente não entendo esse povo que se excita sentido dor.
Conheço bem um que adora causar. As vezes acho que ele gozaria só de me estapear.
Por isso não gosto dessas coisas de “sadomasoquismo”. Só ganho um monte de hematoma.
Mas quem sabe. Nunca experimentei o outro lado.
.
.
Saco. Saco. E saco. Só montes de besteira que levavam a uma única conclusão: Misa Amane era uma idiota. Já abrira mão da mais remota possiblidade de ela ser o segundo Kira. Seu orgulho não permitira tal afronta de ter aquela criatura como adversária.
Apoiou o queixo em uma das mãos, olhando as persianas. Mais um pouco e o olhar seguiria a mesma rotina já descrita.
Lâmpada. Carros. Papel de Parede.
Isso, se alguém não tivesse lhe vendado com um pano grosso empesteado de chocolate antes.
- Que droga é essa MAAAAAH!
Agarrou o braço ardido em reflexo. Chicotada? Era isso mesmo?
A ideia era levantar de uma vez do sofá e mostrar para o ruivo metido a besta como é que se bate, mas um puxão firme da venda pressionou o crânio contra o sofá.
- Sempre quis fazer isso! — A voz veio alegre, como a de uma criança travessa prestes a enfiar o rabo de um gatinho na tomada, acentuada pelo chicote descendo firme nas coxas apertadas de Mello.
Trancou o protesto de dor com um trinco de dentes.
Uma pergunta razoável seria “Porque ainda parado? Dá um tiro para o alto e sodomita o ruivo abusado!”.
É, realmente. Não era uma ideia ruim.
- Cara, adorei esse seu brinquedo! Deve ser bom de usar no Near, ficariam umas marcas legais...
Até teria dado pra ouvir uma risada debochada estalando nos lábios de Matt, mas o solado das botas de Mello soou mais forte, num baque irritado contra o chão. A venda sumiu com um antipático gesto de mão e logo havia um punho de cada lado do ruivo não muito feliz.
Mello.
Sofá.
Matt.
Matt nunca gostou tanto daquele sofá.
- Que foi? Só você pode ter fantasias com ele?
Um pé no assento pra empurrar o outro para o encosto. Mat mal teve tempo de realizar que Mello estava MESMO vindo pra cima de si antes do corpo do loiro cair sobre o seu.
Anotação: Todo aquele chocolate VAI pra algum lugar.
-VOCÊ TÁ ME ESMAGANDO!
Torto e prensado, com a bunda enorme de Mello em seus quadris, o chicotinho de cavalo batendo suavemente em uma mão.
Dava pra sentir a cara de psicopata dele pinicando em sua nuca.
Certo. Aquele não fora seu plano MAIS genial.
- Conte-me mais sobre seus sonhos eróticos com o Near.
- Quer todos os detalhes ou prefere que eu pule as cenas mais impróprias?
Porque amor à vida é para os fracos.
O chicote desceu reto em seu rosto, como se ele já não tivesse sangrado o bastante.
- Ouch.
Podia jurar que viu uma língua passando ao redor dos lábios finos de Mello.
E, naquele instante, soube que estava morto.
- E então, estou esperando... Talvez seus sonhos pervertidos até me deem algumas ideias divertidas...
- Huh? Ainda esperando ideias? Depois dessa chicotada, achei que já tivesse gozado em cima de mim, seu precoce.
Opa, mais hematomas. O brinquedinho de Mello desceu zunindo direto no antebraço do ruivo. Mesmo que usasse blusa de manga comprida, quase dava pra ver o vermelhão que o golpe deixara.
De bônus, dedos enluvados envolvendo seu pescoço. Não, nada de toques sexys e atraentes. Era mais uma tentativa de asfixia.
Matt arquejava, os dedos fechados ao redor da garra que tentava lhe matar era inútil. Não conseguia respirar.
Bom. Mello não era o único que podia apelar.
Ergueu os quadris de uma vez. Não conseguiu derrubar o loiro com aquilo. Mas serviu para abrir-lhe mais as pernas, quase as forçando. Não fossem as calças, quase conseguia uma estocada ali.
Mello se segurou atrapalhado, se forçando pra baixo, sentando com força bem no meio das pernas de Matt.
Tá, aquilo podia até ter sido gostoso, mas a joelhada que o loiro de guarda baixa levou direto nas costas foi mais.
Claro, ele não contava que Mello caísse de uma vez encima de si.
- Ai, cacete, seu cabeça dura!
Testa com testa. Só quem já levou sabe como é.
De todo modo, chance é chance. Agarrou os fios loiros com gosto, enchendo as mãos e os puxou pra cima.
Mello gritou quando seu lábio inferior foi mordido. Se afastar de uma vez quase lhe fez perdeu um pedaço da boca. Caiu pra trás, desajeitado, finalmente saindo aquele ruivo ali se levantando de mal-jeito, meio corpo agarrado no sofá tombado e pernas tentando achar equilíbrio.
- Vai morder tua mãe, vadio!
- É bom, né? Ficar com a boca sangrando.
- Ah, você quer sangue?
- Não porra! Sai com esse chicote daqui! — Escalou o sofá, despencando do outro lado. Tentou fugir, mas uma mão lhe agarrou a bota.
- Foi você quem começou! — Mello parecia um daqueles demônios de filme de terror americano, aqueles bem idiotas que ficam arrastando pessoas pelo chão. Só que com um olhar de psicopata muito mais convincente do que qualquer demônio cigano com chifres.
- Ah, mas quando eu tava brincando tava legal. Você tinha que apelar — Lutava para livrar sua perna e, quem sabe, tentar acertar um chute na boca do loiro. Só conseguiu dedos se agarrando à sua calça, o puxando com força. Quase que fica nu.
Sua barriga estava toda pressionada pelo maldito sofá. A posição era ridícula, quase. Os quadris estavam na parte alta, tudo empinado pra cima. E as calças agarradas por Mello.
- Sabe o que você merecia? Que eu te comesse assim, desse jeito que você está.
Desse jeito.
Era como se estivesse de quatro. Só que torto. Muito torto e caído para um lado. E com todo o seu peso pressionando o seu estômago.
Tesão puro.
Tentava guindar o restante de si para o lado sem-Mello do sofá e até pensou que fosse conseguir quando sentiu a bota livre, mas as pernas que se agitavam freneticamente foram abertas e pode sentir as coxas apertadas em couro se colando na sua bunda. Mãos agarraram-lhe a camiseta, enquanto seus próprios braços nadavam no ar, inutilmente.
- Me solta seu tarado! Vou te denunciar pra polícia por estupro!
- Não é estupro se for consentido.
- Não estou consentindo nada!
O argumento de Mello foi uma estocada que quase o derrubou do sofá.
Ainda de roupas, tecido raspando em tecido e tudo esfregando na pele por baixo.
Diga-se de passagem, foi terrivelmente convincente.
De novo. Mais forte. Só que dessa vez, acompanhado do descer do chicote.
Matt não encontrou ar suficiente nos pulmões sequer para gritar.
Sua cabeça começou a girar quando sentiu o abdômen de Mello colado em suas costas, o apertando ainda mais conta o móvel. Dedos se enfiaram pela nuca, puxando fios rubros, indo e vindo pelo pescoço, num ritmo que se encaixava com o vai e vem dos quadris e o descer do chicote.
Muita informação.
Pouco ar.
E muito sangue descendo por uma certa parte do corpo.
Gemeu. Com o que lhe restava nos pulmões, gemeu, sabe-se lá por que.
Por um segundo, tudo parou. As mãos tatearam em busca de apoio, para que se segurasse o bastante para puxar um pouco de ar.
Tontura.
As mãos ainda corriam, apenas para escorregar. Sentiu de novo o peso do corpo de Mello e gemeu.
Gemeu novamente, quando sentiu um abraço ao redor de seu peito, o apertando.
Mãos, cara. Cadê? Uma ajuda aqui, por favor.
Uma...
Mão...
.
.
.
Acordou na cama, sem calças nem blusa. Apenas escoriações, hematomas e uma barriga muito da dolorida.
Ao seu lado, Mello dormia em igual condição. Mentira, nada de machucados nele.
Tentou levar as mãos à cabeça, que por sinal doía, mas só uma foi.
Primeiro pensamento: estou algemado na cama. Ferrou.
Segundo: estou amarrado. Ferrou.
Terceiro: meu braço necrosou pela falta de oxigênio. Ferrou muito.
Mas não. Bastou tomar coragem, para encontrar sua mão. De fato, presa.
Entrelaçada com os dedos frios e descalços de Mello.
Levou algum tempo para absorver a informação. E, quando o fez, se limitou a apertar a mão do loiro e se ajeitar na cama.
Depois, ouviria mil sermões sobre ter pulmões fracos por culpa do cigarro e que por qualquer falta de ar já desmaiava, mimimi. Ok, nem se dignou a falar sobre diabetes, obesidade, excesso de açúcar no sangue nem nada.
Mas isso seria só depois.
Ali, se limitou a voltar a dormir.
.
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É como eu já disse. Pra ser “sadomasoquismo”, tem que ter quem goste de sofrer e quem goste de causar dor.
Ainda não temos nosso elemento masoquista, a despeito deste sádico superativo que está dormindo pacificamente do meu lado.
Por isso, acho que se pode chamar tudo isso simplesmente de “amor” mesmo.
Notas finais
Sim. Uma MelloxMatt. Por sinal, maior, mais fofa e com menos lemons do que planejado.
Mas enfim, enfim.
Grata à você, que chegou até aqui ♥
Até uma próxima,
Kalhens.
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