Um Palmo

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Reviews não custam nada.

Um Palmo

Pai perfeito, chefe de uma família feliz, trabalhador e honesto. Marido exemplar. Companheiro fiel e leal. Puro, simples, pio. Altruísta. Previsível, até. Mas um exemplo para qualquer um que tenha passado por sua vida.

Do seu lado, acompanhando os últimos suspiros, revezava-se a família e os entes mais próximos. Ele não conseguia mais enxergar e mal conseguia mover-se. Falar era impensável, sua garganta doía infinitamente. Por isso, há dias, mantinha os olhos fechados e o corpo parado, para poupá-los do sofrimento de ver um exemplo de correção, alvo maior de seus afetos, agonizar.

A esposa, cujas rugas delineadas exerciam com destreza a função de biombo, obscurecendo uma beleza de outrora que ela agora guardava com carinho, pois poucos viam a beleza que portava. A elegância, mesmo no sofrimento, também era loquaz, mesmo durante o sofrimento.

O filho mais velho, já com seus cabelos grisalhos, conformava-se há tempos com a sua partida. Era o que menos sofria, mas era, também, o que mais já sofrera. Foi o primeiro a aceitar que aquele homem, modelo para todos no universo, partiria.

A filha do meio, um pouco mais nova que o irmão, sofria tenebrosamente, do modo que uma filha não deve se sentir ao se despedir de um pai. Seu rosto abatido era prova de como seus humores eram passíveis de abalo, o quanto ela impingia sofrimento em si mesma e, por isso mesmo, já indicava que ela em breve sequer lembraria do pai. Como ele a ensinara, sentimentos que se incendeiam com violência também se consomem em velocidade estonteante. Como ela nunca aprendera.

O mais novo, que era bem mais novo e que começara há poucos anos a sua caminhada solitária sem o aconchego do ninho, parecia sofrer lentamente. Demoraria a se acostumar com a ausência, talvez justamente por ter tido menos tempo com ele. Ao mesmo tempo que a presença do pai era mais reconfortante nele que nos outros, também nele havia o menor apego. Seu pai fora, mais pra ele que para qualquer outra pessoa, uma sólida rocha que permitiu que ele se apoiasse até conseguir andar sozinho, e rochas não são reconhecidas por se tornarem íntimas de que nelas pisa.

Afora a família propriamente dita, mais alguns transitavam. Vinham e iam conforme o tempo passava, casais amigos, colegas de trabalho, um amigo de longa data dele que se tornara o “tio” que as crianças não tinham.

Era um exemplo. Pai perfeito, chefe de uma família feliz, trabalhador e honesto. Marido exemplar. Companheiro fiel e leal. Puro, simples, pio. O suficiente para lhe render duas eternidades em qualquer céu.

*

Você não vai pra céu algum, disse uma voz.

E por que seria isso?

Estava assustado. Será que eu já tinha morrido? Tudo estava escuro, mas isso podia se justificar nos meus olhos borrados e, ainda por cima, fechados. Ainda ouvia... Ainda ouvia a voz do amor da minha vida. Ou ainda estava vivo ou estava no céu. Portanto, devia estar vivo.

Por que você nunca acreditou em céu algum. Pra mim você não precisa mentir, meu amigo.

E quem seria você?

O silêncio durou meia eternidade. Eu não escrevi um bilhete de despedida! Era isso que tanto me incomodava desde que a escuridão me atingiu. Não podia contar mais nada... E tudo o que restaria era a mentira.

A mentira que você escolheu.

As coisas ficaram mais claras na medida em que a voz retornava, ecoando do infinito até mim. Ou será que eu havia aberto os olhos? Não... Eu via a sala de um ângulo diferente. Não era da minha cama, a cama que escolhi para passar meus últimos dias.

Estavam todos lá... Todos perfeitos como sempre me esforcei para ser.

Mentira.

Não é mentira! Quem é você? Deus?

E além de tudo é arrogante. Se houvesse um deus, por que ele desceria para falar com você? Se acredita tão especial assim?

Não. Abaixei uma cabeça hipotética quando reconheci que de fato eu jamais acreditei nisso, e se o fingi, é por que considerei que meu ateísmo seria um péssimo método de educação para meus filhos. Não há moralidade na inexistência de deus, e passei a minha vida inteira me humilhando diante deste fato. Era mais fácil ensinar alguém a fazer o certo...

Que certo?

Você agora lê meus pensamentos?

E quando não li?

Havia algo de mistério no ar. Eu estava no fio da minha morte, não havia contado a verdade para meus entes mais queridos e deixaria um legado de mentiras para trás. Isso podia ser justificado enquanto eu podia desmentir, mas e agora? Sem ter deixado algo que lhes desse uma luz de verdade, que mostrasse que meu amor era superior às necessidades práticas e às expectativas mesquinhas, só me restava uma voz confusa que em nada me ajudava.

Eu posso te ajudar.

Como?

Posso passar sua mensagem para aqueles que você ama.

Mas eu não tinha certeza. Nunca havia dito nada daquilo antes, e a perspectiva de dizer pela primeira vez. Dizer agora, mesmo que fosse da minha cabeça para o vento, poderia tornar um suplício enorme o resto fino de minha vida. Os últimos instantes poderiam prolongar-se enquanto eu ouvia suas vozes surpreendidas com a revelação...

Como você vai dizer pra eles?

Dizendo, ora.

Como? Quem é você?

Digamos, para termos de discussão, que eu seja você. O você que você mesmo já tentou matar há muito tempo, mas sobrevive aqui e quer sobreviver a você. Se não em vida, ao menos em reputação. Você desabafa, eu sobrevivo. Parece justo.

Olhei para os lados. O que era aquilo? A explicação não me convencia. Como eu me via de fora do corpo? E se aquele fosse um espírito maligno...

Não seja tolo! Você nunca acreditou nisso. Além disso, você não está vendo, está imaginando. Construindo uma imagem a partir do que resta de seus sentidos. Apure seus ouvidos. Você só ouve duas respirações, duas vozes.

Imediatamente todos sumiram do quarto, restando apenas sua esposa e seu filho mais velho. Ele falava com ela sobre a preocupação com o sofrimento da irmã.

Pobre garoto, não aprendeu o que o pai ensinou. É com o irmão mais novo que ele deve se preocupar.

Mas e então? Deveria ou não deveria eu me confessar à minha consciência dormente, para que ela force meu corpo às últimas revelações? Sentia-me como enterrado indigente. Como se ninguém me conhecesse ali, ninguém realmente me amasse. Jogado na vala fria do esquecimento e da confusão, sim, confundido com alguém que não era. Com alguém que tentou ser, pelo bem dos outros.

Conte-me.

Mas você já sabe!

É, mas você que me prendeu. Preciso das chaves para evitar que você desapareça do mundo.

Então... diga a eles, por favor. Diga a minha esposa, e ela deve passar isso para quem ela achar conveniente. E para ele. Ele deve saber disso.

*

Querida,

Peço desculpas por tudo o que direi agora. Principalmente por ter escondido de você todo esse tempo. Talvez, e só talvez, você não me amasse menos se soubesse, mas eu não poderia correr o risco. Não quero que me chame de covarde, mas lembre-se dos meus pais. Se no início da vida fui prisioneiro deles, por uma coincidência, acabei prisioneiro de meus filhos como fui de meus pais. Acho que Freud me amaria.

Começarei pelo básico: odeio o meu trabalho. É cansativo. Eu escolhi ele, dentre tantos possíveis, mas isso não diminui o fato de que se pudesse, viveria sem. Só trabalhei tanto para sustentar nossa família.

Detestei desde sempre ir a Igreja. Não acredito em deus. Fiz tudo aquilo somente por que notei que você, que é uma pessoa bem melhor que o mentiroso que eu sou, tinha na religião uma formação moral sólida que seria capaz de transformar nossas crianças em boas pessoas.

Eu também odiava frango. Mas juro pra você que depois de alguns finais de semana com sua receita especial passei a gostar. Mas nunca te contei que foi você quem me “convenceu”. Talvez essa seja a notícia mais alegre desse confessionário.

Amo nossos filhos, mas eles não aprenderam o pouco que eu tinha pra ensinar. Felizmente, aprenderam o que você tinha, e isso já lhes basta. Nenhum deles me decepcionou.

Eu também te amo. Mas não como eu te dizia...

Nada do que eu disse até agora me doi. Foram sacrifícios que fiz em prol de algo merecedor do sacrifício. Mas agora lhe revelarei algo que certamente te machucará e certamente te desapontará, mas é um acerto de contas que preciso fazer.

No começo você foi só um disfarce. Você foi minha primeira e única mulher, a única que amei, tanto no sentido sentimental quanto no sentido... bíblico, digamos.

Mas no começo você era uma cortina que escondia meu amor verdadeiro. Quando olhava nos olhos dele eu já sabia o que sentia. E tenho certeza que ele sabia também. Foi, não, é um amor que não se incendiou como o nosso. Mas, justamente por isso, nunca se consumiu, e sempre permaneceu, latente, confiante, inabalável, invicto. Mesmo sob toneladas de disfarces, nunca se quebrou. Permaneceu sob disfarce de amigo, companheiro, amigo das crianças, sem nunca se consumar nem se consumir.

Meus pais nunca aceitariam na época. Tinha medo de que fizessem alguma loucura. Hoje vejo que não foi acertado pensar assim; antes de tudo eles me amavam. Antes mesmo de defender aquele espancamento famoso, sob justificativa que “o cara cantou ele”. Mas ainda assim, preferi o esconderijo.

E você foi um ótimo esconderijo por que aprendi a te amar, com o tempo. Você deixou de ser esconderijo, evoluiu, cresceu, se tornou o meu próprio lar. Amei você como suspeito que não amaria outra pessoa, nem ele. Você é de uma perfeição ímpar.

Mas nunca me perdoarei por não ter oferecido o carinho que um amor como o meu e o dele merecia. Tudo por medo.

E o medo, minha querida, me deu uma ótima vida, uma vida respeitável, estável e sem tumultos. Mas roubou de mim uma centelha única, irreparável. A mentira fez bem, mas nem por isso ela é boa.

Vivi a minha vida a um palmo da felicidade plena. E embora tenha aberto mão desse palmo, desse pequeno salto para o regozijo, justamente para vocês, quero que saiba que o resto do caminho até faltar um palmo, um palmo só, foi pavimentado pelo que construímos.

Você é melhor que eu e certamente merecia mais do que um frustrado. Mas saiba que tudo o que fiz e tudo o que escondi, foi por você. E o fiz com o maior prazer. A um palmo da felicidade plena, vendo-a e observando-o, sem poder tocar jamais nem em uma, nem em outro. Por você, por nossos filhos. Essa é uma prova incrível de amor.

Mas precisava desabafar. Não cometeria o pior crime de deixá-la com um legado de mentiras.

*

É só isso?

Você já disse?

Silêncio pela outra metade da eternidade: a resposta que querem os para perguntas que não queremos ver respondidas.

Você realmente é trabalhador, digno, pio, leal e principalmente altruísta, hein? Aguentar tudo isso, segurar tantos segredos e sacrificar tudo, veja bem, tudo o que lhe mais agradava pelo bem de quem você tinha consideração, e mais!, ainda gostar disso. Te admiro. Você é digno de admiração. Um exemplo de pessoa.

Disse ou não!?

Você se esquece, meu caro, de que quem começou a mentir pelo bem dos outros fui eu e não você. Sou um mentiroso natimorto. Você só sentou sobre as mentiras e sobre meus restos e fez alguns ajustes. Se disse? Claro que disse. Cada palavra. Mas lembre-se que talvez eu possa ter mentido pra te agradar, antes da hora derradeira. Talvez, e apenas talvez. E compreenda, antes de virar uma carcaça carcomida, a dor e a crueldade que esse ato carrega.

*

A esposa, sozinha, em lágrimas, sentiu a última expiração, longa como um adeus, dele: homem exemplar, honesto, leal, e altruísta. Viu uma lágrima derradeira escorrer de um dos olhos finalmente cerrados para sempre.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!