Um Outro Lado da Meia-Noite
22 Um encontro inesperado
Notas iniciais
Não sabia mais para onde ir nem o que fazer. Estive bem próximo da casa de Verbena, mas não pude me aproximar mais que alguns metros, assim que cruzei uma viela e entrei na rua onde ficava da casa de minha irmã eu o vi, o impostor. George descia de um coche seguido de um bruxo pequeno e robusto que eu reconheci como segundo imediato dos inquisidores que estavam em Ferrara, não me lembrava do nome dele, mas sabia que ele servia ao conselho de magia. O Impostor George provavelmente – sem duvida alguma – sabia da minha condição bruxa/gato, me contentei em observar de longe. Não sei com exatidão quanto tempo fiquei ali os observando, sei que já era noite quando vi meu irmão chegando acompanhado de um homem que eu não conhecia. Céus, eles estavam sendo todos vigiados de perto. Sai dali, não queria mais vê-los de longe.
Pensei em retornar para o bosque, era seguro lá para um gato, e talvez tivesse sorte e quando voltasse à forma humana aquela criatura de olhos alaranjados apareceria e me ajudasse.
– Me poupe Morticia, as sombras são mais seguras que aquele monstro – falei á mim mesma, esquecendo-me de minha forma física por um instante, ainda bem que os humanos estavam ocupados com alguma coisa no centro da cidade, os ignorei. Tentei me comunicar com as sombras, mas acho que na forma de gato eu não passo de um animal falante. Sem nenhuma capacidade mágica. Precisava de um plano... Margarida e Narciso eram bons com planejamentos. Eu sempre fui melhor seguindo meus instintos e claro que isso sempre me colocava em más situações. Se ao menos pudesse falar com um deles, tenho certeza que até mesmo Margarida me ajudaria nessa situação ou me jogaria em uma fogueira.
Me distrai pensando se ela sabia o que estava acontecendo ou se Narciso e Verbena estavam a enganando, se estivessem não duraria tanto tempo, não com o conselho me caçando como se eu fosse uma... Ah! Eu sou uma criminosa. Parei repentinamente completamente perdida. Olhei para todos os lados, onde é que eu fui parar? Caminhei hesitante por algumas vielas que se conectavam umas as outras como se fosse um labirinto, eu conhecia aquele lugar. Provavelmente não me sentiria tão perdida se tivesse um metro de sessenta de altura, em vez de alguns centímetros. Procurei pela saída daquele labirinto de casas, estava focada em sair dali até ver uma grande roda dourada parada diante de uma rua, ergui meus olhos para a enorme e familiar carruagem preta. Levei um tempo para ligar o objeto ao dono, o noivo de Magnólia, Edwin.
Não o conheço e sei tão pouco sobre ele que não o reconheceria na rua se ele não tivesse com sua carruagem luxuosa e chamativa. Talvez pudesse chegar á minha família através dele, afinal quem desconfiaria que um gato comum fosse uma bruxa? Às vezes acho que me apego á pequenas esperanças apenas para me arrepender em seguida. Sofrimentos e decepções á parte, não ia perder aquela chance. Seguindo para as vielas novamente, tentei acha-lo. Não levei muito tempo para ficar perdida novamente, estava pensando nos prós e contras de desistir de acha-lo quando vi um rosto familiar, um garoto de rosto delicado, cabelos loiro e bem vestido. Christopher Lander. Ele estava diante de uma porta contorcendo as mãos com ansiedade, minha curiosidade aumentou com aquele gesto, corri para saber o que acontecia.
Me assustei ao entrar na casa pequena de um cômodo divisada por uma cortina amarelada. Havia duas mulheres ali, ambas trajadas com vestidos exagerados de corpete tão justo que me surpreendi por elas estarem respirando. Eram mulheres bonitas e bastante incomuns, a palidez artificial dos rostos delas contrastava com o vermelho berrante que tinham nos lábios, como se fosse sangue contra neve. Deixei meu fascínio momentâneo de lado e procurei pelo dono da voz nasalada e firme que falava com seriedade, vinha de trás de uma cortina que atravessei sem cerimônias. Edwin dava instruções medicas á uma mulher mais jovem de belos cabelos escuros, longos e enrolados que lhe caiam até a cintura. Ela tinha uma expressão triste e olhos vermelhos, lágrimas haviam borrado sua palidez artificial e a deixado como se fosse uma pintura mal completada. Edwin dizia-lhe:
–... mandarei Chris buscar os medicamentos e te explicarei como medica-la nas horas certas. Vou precisar também que lhe dê um banho gelado sempre que sua temperatura aumentar.
A morena assentiu olhando para a cama baixa. De onde eu estava percebi apenas que quem estava deitado ali devia ser uma criança, mas não consegui vê-la. Edwin e a mulher saíram e eu os segui. Ele era médico, até onde eu me lembrava dos médicos, eles não faziam visitas residenciais, mas julgando o que eu sabia sobre ele até aquele momento, Edwin era bom e ia onde seus pacientes precisavam dele. Naquele momento achei que Magnólia estava sendo uma tonta em não se casar com um homem bom como ele. Mal sabia eu que até o fim daquela noite minha opinião sobre McGregor mudaria mais de uma vez em direções opostas. Edwin mandou Christopher ir buscar algumas coisas no seu consultório. Ele voltou para dentro, onde as mulheres de aparência exagerada o esperavam, ansiosas.
– Adália vai ficar bem? – perguntou uma das mulheres, trajada de amarelo.
– Ela está muito doente, deviam ter me chamado antes...
– Por favor, doutor – interrompeu a mais jovem de belos cabelos – Nos poupe da embolação, diga logo se ela vai ficar bem.
– Ela devia ter sido internada e ter acompanhamento médico adequado. Ela está desnutrida e febril. Mas ela vai ficar bem se seguirem minhas instruções.
Uma das mulheres, trajando vestido azul brilhoso, bufou e disse:
– Ela ficaria melhor se a mãe não fosse uma bruxa, se não fosse criada por putas e se não vivesse nesse chiqueiro – terminou cuspindo no canto da casa.
– Donatella não é uma bruxa, Henriqueta – protestou a morena – Ela só foi ingênua.
– É uma bruxa sim, eu vi aquelas coisas na casa dela, não me admira dessa criança ‘tá morrendo. Deus tenha piedade dessa menina por que a mãe vai ter o que merece. Devia ser queimada viva como toda maldita bruxa deve ser.
Não gostei dessa Henriqueta, como ousa dizer que bruxas devem ser queimadas? Controlei a língua para não cometer o erro de falar na frente delas, afinal eu era um gato e felizmente nenhum deles haviam notado minha presença ainda. Queria que Edwin saísse logo dali, precisava estar sozinha com ele para poder “me comunicar”, provavelmente ele teria um infarto quando um gato lhe falasse, mas isso não importa. Mantive-me prestando atenção na conversa:
– Quantas vezes terei que dizer que foi uma armação aquilo tudo? – se desesperou a morena – Donatella nem sequer sabia ler, aqueles manuscritos não eram dela. E nem aqueles troços todos.
– Se sua opinião não pode nos ajudar – disse a mulher de amarelo – Dê o fora daqui, Henriqueta.
A senhora de azul se virou saindo da casa, a ouvi por alguns metros dizendo que bruxas arderiam nas chamas do inferno. Francamente, se ela conhecesse uma bruxa, ela não pensaria desse modo. Se me conhecesse ela nem sequer pensaria, seria marionete. Voltei minha atenção para Edwin e as outras mulheres.
– Por mais cruel que Henriqueta possa ser, ela tem razão – disse a morena – Adália ficaria melhor se fosse criada longe dessa vida. Isso aqui não é para criança, ainda mais uma doente.
– Eu sei – disse Edwin curvando os ombros, parecendo de repente abatido – Tentei tudo para convencer Donatella á ir embora deste lugar. Teria a colocado em uma casa boa onde nossa filha cresceria saudável, mas conhecem a amigas de vocês. É teimosa até os fios do cabelo.
Prendi o ar. Eu não devia ter ouvido certo. Edwin não havia dito nossa filha, eu devia estar ouvindo errado. Senti um misto de confusão e raiva, me concentrei para não perder nenhuma palavra do resto da conversa.
– Não entendo por que ela não aceitou – dizia a morena – Vocês deviam ter sido felizes juntos, desde o começo.
– A culpa foi minha, se não tivesse forçado-a á ser o que ela não é, nada daquilo teria acontecido. Devia ter me casado com ela e a levado para outra cidade antes de tenta-la integrar á meu meio social.
– Não se culpe doutor, culpe o destino por ter colocado no seu caminho nossa doce amiga que por acaso já havia se deitado com alguns dos senhores influenciáveis de Ferrara – comentou a mulher de amarelo, maldosa.
– Não fale desse modo da Donatella – defendeu Edwin
– De que modo, doutor? Como se ela fosse uma meretriz? Por que foi assim que você a conheceu e é isso que ela é. E se sente um pingo de compaixão pela sua filha, a leve embora daqui antes que ela tenha idade para se vender tam...
Ela foi silenciada por um tapa, não de Edwin, mas sim de sua amiga morena. Era por isso que elas se vestiam daquele modo extravagante, era para atrair atenção dos homens. Céus, Edwin tinha uma filha com uma meretriz!
– Não ouse sugerir que Adália vai ter nossa vida – cuspiu a morena com fúria na voz – Donatella não se sacrifica todos os dias nas ruas passando pelas mãos daqueles nojentos para que a filha vire uma prostituta.
A mulher de amarelo baixou a cabeça ainda com a mão no rosto onde recebeu o tapa. Disse em um fio de voz antes de começar a chorar.
– Ela vai ser enforcada amanha por bruxaria, o que vai ser de Adália sem uma mãe?
Meu coração se apertou. Adália era uma criança doente e sem nenhum futuro, minha boca foi tomada por um gosto amargo e senti uma vontade de machucar Edwin, uma vontade tão intensa que recuei para não ataca-lo, como podia um pai deixar sua filha doente num lugar daqueles com o destino largado á sorte? Mãe queimada por bruxaria, pai se casando com outra e ela ali, morrendo de... nem sei o que a criança tinha, mas sentia pena dela e ódio de Edwin – detesto quando sou sentimental. O silêncio na casa era perturbador, cortado por pequenos acessos de tosse da criança atrás da cortina e soluços do choro da mulher de amarelo. Para meu alivio, pouco tempo depois Christopher entrou ofegante na casa e estendeu um saco á Edwin, o jovem assistente olhou para a mulher chorando e perguntou em voz baixa, mas ainda audível:
– Aconteceu algo com a pequena?
– Ela ficará bem – respondeu o médico fazendo um sinal com a cabeça para a morena que o seguiu para junto da criança.
O ouvi dando instruções de como dar os medicamentos. Quando saiu de perto da cama, tinha um ar mais abatido ainda, parecia sofrer pela situação da filha ainda que nada fizesse para ajuda-la, se eu não estivesse com tanta raiva dele, teria sentido pena do pai que via em sua expressão. Ele e o meio irmão foram embora momentos depois. Eu permaneci ali, imóvel, até perceber que devia tê-lo seguido. Mas já havia passado tanto tempo que ele provavelmente estava longe demais para ser alcançado. Senti uma idiota por estar ali, e para meu desapontamento agora tenho mais um problema que talvez não possa resolver por já ter problemas demais. Magnolia precisava saber o segredinho do noivo dela ou não.
– Mamãe! Mamãe! – o chamado da menina pela mãe me fez sair de meu devaneio, fui para onde ela estava mantendo distancia para que as mulheres não me vissem.
A morena secava o rosto da criança enquanto a de amarelo orava em voz baixa e rapidamente, aquilo me deixou apreensiva. Queria poder fazer alguma coisa, mas não podia fazer nada além de permanecer em silencio e observar. Adália apenas havia tido um delírio causado pela febre alta, as mulheres esperaram ela se acalmar novamente e voltaram para onde estavam antes, o que eu podia julgar como outro aposento da casa minúscula, elas sentaram-se em um par de cadeiras desiguais e voltaram ao chá que eu sequer notara que bebiam.
– E que mais o doutor disse? – perguntou a de amarelo assumindo um ar descontraído, como se conversasse sobre alguma futilidade.
– Disse que Donatella não se ajudou muito durante o julgamento, ela estava desesperada chorando e falando coisas desconexas, não que ela tivesse alguma chance de se salvar. Com a vida que levamos e com aquelas coisas que acharam na casa dela era de se esperar que fosse enforcada hoje. Mas algumas pessoas conseguiram com que ela fosse enforcada ao por do sol de amanhã, na praça para que todos vissem.
Compreendi á movimentação no centro da cidade, estavam preparando uma forca para a bruxa.
– Impuros sem alma – reclamou a mulher de amarelo – Como podem fazer de um assassinato um espetáculo? Mas não entendo quem iria querer armar para cima de Donatella, ela é tão doce que podia matar um terço da população com a doença do açúcar.
A morena riu do comentário. E disse venenosa:
– Se eu fosse a noiva no doutor, eu teria motivos para ver a mãe da filha dele sendo enforcada. Principalmente por Edwin continuar apaixonado pela Dona.
– Não romantize demais suas ideias Serafina.
– Vai dizer que não acha estranho o fato de Edwin mudar de personalidade quando se trata daquela coisa com nome de flor? Francamente, para mim ela é a bruxa. Enfeitiçou o bom doutor, descobriu sobre nossa amiga e quer se livrar dela.
A morena, que agora tinha um nome, Serafina, estava me deixando chateada. Ela estava falando maldosamente sobre Magnólia quando era obvio que Edwin quem era culpado por qualquer coisa. Mas antes que eu me descontrolasse, a mulher de amarelo disse:
– Deixamos os amores do doutor para ele, quero saber mais sobre o problema da Dona.
Serafina suspirou dramaticamente antes de continuar:
– Dona estava enlouquecida, diante das acusações. Quanto mais ela tentava se explicar mais se complicou. Ela repetia sem parar que a tinha uma filha pequena que precisava dela, e isso acabou por condena-la. Além de bruxaria, foi condenada por prostituição e por maus tratos á criança.
– Maus tratos? Dona dá o sangue pela filha... desde que soube que estava grávida que ela vem fazendo o impossível para dar uma vida descente á Adália. Quanta injustiça.
– Para os acusadores, criar uma menina de cinco anos em nosso convívio é o mesmo de estar a induzindo á ser como nós. Ainda mais morando neste lugar, onde se esconde todo tipo de pessoas perigosas.
– Malditos sejam os homens e suas leis distorcidas.
– Não maldiga aqueles que nos sustenta – pediu Serafina gentil
– Eu me sustento – interpôs a outra – É meu corpo que vendo por moedas para comprar o pão. Não precisaria do dinheiro deles se não fossem porcos nojentos com suas malditas leis. Se querem ser justos, em vez de queimarem uma inocente deviam obrigar o pai a sustentar uma vida digna á filha.
Serafina terminou seu chá em silêncio mantendo os olhos firmes na amiga. A mulher de amarelo á quem eu começava a achar interessante com seus pensamentos determinados, mexeu no conteúdo de sua xícara sem beber, depois de uns minutos perguntou:
– O que faremos agora? Donatella será morta amanha, Adália será órfã de mãe e crescera afastada do pai. Mal conseguimos o suficiente para nos manter, como vamos manter uma criança doente?
Serafina jogou os belos cabelos cacheados para trás e sussurrou em tom máximo de segredo, não baixo o bastante para que meus ouvidos não ouvissem:
– Edwin disse que está tentando libertar Dona, se ele tiver sucesso amanhã ao anoitecer ela e Adália estarão sendo levadas para outra cidade e depois para outra e outra, até estarem bem longe de Ferrara. Mas é segredo, ele teme que algo possa dar errado e se for pego tentando ajudar uma bruxa ele pode ser enforcado...
Adélia tossiu, Serafina se virou com ar entristecido para fitar a cortina que a separava da criança. Eu quase fiz o mesmo, mas o olhar de repulsa que notei na mulher de amarelo me paralisou os sentidos. Por um instante a pessoa preocupada que chorara horas antes, havia desaparecido. No segundo seguinte a expressão dela voltou ao que eu julgara como tristeza e preocupação antes, chamando a atenção de Serafina, disse:
– Mas Dona não é bruxa.
A morena suspirou, os ombros caíram desanimados e a voz parecia sonolenta:
– Vá convencer aqueles idiotas da inquisição disso. Se eles dizem que é quem vai dizer o contrario?
A mulher de amarelo estalou a língua se levantando. Disse:
– E mais uma vez eu tenho motivos para odiar os homens. Mas o que Edwin vai fazer? Pretende sequestrar a Donatella enquanto colocam a corda no pescoço dela?
– Não sei qual é o plano dele. Sei que ele está recebendo ajuda de alguém, por isso pediu segredo para mim. Por que pode ser comprometido e comprometer outra pessoa nessa bagunça toda.
– Quem está o ajudando?
– Não sei.
– Mas que coisa, Serafina. O que você sabe? – ela ergueu a voz irritada.
– Sei isso. Quando todos forem ver Donatella morrer, o rapaz loirinho vira aqui e levara Adália. Como farão para soltar Dona eu não sei, mas sei que ela se juntara á filha e irão para um lugar seguro.
Adália recomeçou a tossir, Serafina se levantou para vê-la e a mulher de amarelo se levantou saindo da casa.
– Vai a onde? – perguntou Serafina antes de atravessar a cortina
– Vou trabalhar. Você cuida dela e eu tento ganhar algo para comprar o almoço de amanhã.
– Boa noite e boa sorte – desejou Serafina indo ver a menina
A mulher de amarelo olhou por cima do ombro para onde Serafina havia sumido, ela deu um sorriso que fez todos os pêlos do meu corpo felino se arrepiarem. Senti um pânico crescente aquele sorriso tinha muitos significados e para o azar de quem o rebebia, eram significados ruins. Á ouvi cantarolando uma música animada enquanto se afastava da casa, indecisa entre segui-la e ficar, fiquei. Serafina limpou o suor da testa de Adália. Pegou as xícaras, ela esvaziou a da mulher de amarelo, ao vê-la jogando o chá fora minha intuição começou a gritar. Ela fechou a porta e deixou as xícaras sobre uma mesa baixa e pequena, assim que ela arrastou as cadeiras para o outro lado da cortina subi na mesa e verifiquei as xícaras. Reconheci os cheiros de beladona, absinto, estramônio e... trevo.
Trevo para as fadas, quatro folhas para atrair sorte ou três para se trair.
De nada adianta fechar os olhos,
Agora pode ver aqueles que chamaram para conhecer.
Corra e grite, as fadas vieram pelo trevo que ofereceu,
Fique em silêncio por um segundo e... Adeus!
A musiqueta que Leonel cantava para me perturbar quando víamos um trevo veio em minha mente. A mistura, com exceção de trevo, servia para produzir soro da verdade, era perigoso, até onde eu me lembro dos efeitos disso são euforia, mania e exaustão, isso claro quando a dosagem da mistura ou dos ingredientes saia da medida. Meu desagrado pelas pessoas aumentou consideravelmente, primeiro Edwin que eu ainda não tinha certeza se admirava ou desprezava, depois pela Serafina que tinha um mau juízo de minha irmã e agora pela mulher de amarelo que dera uma poção para a amiga apenas para descobrir seus segredos...
– Por Marte! – exclamei
Desci da mesa indo para trás da cortina. Serafina dissera que Edwin havia lhe pedido segredo que ela revelara sem nem mesmo perceber o que fazia, aquela mulher de amarelo era quem merecia ser enforcada. Serafina estava sentada com a cabeça inclinada sobre a cama onde a criança repousava a fitei por alguns minutos até ter certeza que dormia. Então me embolei abaixo da cadeira, de onde podia ver além da cortina para o caso de alguém entrar, afinal portas não continham bruxas decididas. Levei mais tempo para dormir que o desejado, ouvia rangidos e ruídos, contive o ímpeto de descobrir o que causava aqueles ruídos. Cochilei.
...
Acordei no meio de choro, soluços, tosses e chamados de uma menina pela mãe. Arrastei-me para sair de onde estava, havia retornado á minha forma humana. Serafina dormia, provavelmente sobre os efeitos da mistura de ervas, do soro da verdade. Adália estava febril e delirante, podia ter acordado Serafina, podia ter saído da casa e ignorado o pesadelo da criança, podia... mas não fiz nada disso. Peguei o pano em sua testa e umedeci no balde ao lado da cama onde havia água. Coloquei o pano úmido na testa dela e segurei sua mão. Serafina estava dormindo tão profundamente que não perceberia se eu levasse Adália daquele lugar, o hospital era minha opção inicial, mas teria que dar muitas explicações que era mais sensato de minha parte evitar. Se eu tivesse algum talento medicinal... levei os dedos ás têmporas de Adália, ela estremeceu e abriu os olhos opacos, não podia curar o corpo, mas podia amenizar os sonhos.
– Por favor, não deixem que me encontrem por usar magia – pedi, começando uma suave ligação telepática – Por terra e sonhos nos conecto...
Imaginei um jardim de um verdíssimo gramado, cheio de borboletas no ar e o céu azul até onde se podia ver. Era uma ilusão, uma mentira. Mas serviria para que os delírios dela se tornassem um sonho calmo e bonito. A expressão dela se suavizou e não pude deixar de analisar a sua aparência. Adália era rechonchuda, pele dourada, tinha cabelos pretos abundantes, enormes olhos azul-celeste que naquele momento não possuíam nenhum brilho de vida. Lembrei vagamente de Edwin, á primeira vez que o vi fiquei impressionada com sua beleza, agora queria poder mata-lo. Adália sorriu, fechei seus olhos desfocados e a deixei vagar em meus sonhos. Ao menos aquele lugar de minha mente ainda se mantinha são. Fiquei sentava no chão, encostada á parede olhando para a vela que queimava lentamente na outra cadeira iluminando o ambiente, estava quase no fim, adormeci antes que a chama se apagasse de vez.
...
– Quem é você? – ouvi aquilo duas vezes antes de abrir os olhos.
Serafina mantinha-se á uma distancia que podia ser considerada segura, segurava um pedaço fino de madeira que talvez tivesse pertencido á uma vassoura. Me olhava desconfiada. Olhei ao redor, o sol ainda não havia surgido, a claridade era fosca, pálida. Meus ossos doíam, estiquei-me antes de responder a pergunta dela, queria dormir ainda mais, tinha a cabeça tão pesada quanto o corpo.
– Sou uma conhecida de Edwin – falei
– Ele te mandou? – ela mais aliviada ainda que desconfiada – Como entrou? Quando que não te vi?
– Entrei pela porta, á noite.
Ela encostou-se ao cabo de madeira, parecendo relaxada, mas percebia-se sua cautela e desconfiança.
– Uma mulher vagando pela noite vestida desse modo deste lado da cidade – comentou analítica – Entrou em uma casa trancada, silenciosa como um ladrão que sabe o que faz. Por que veio?
– Para ver como Adália estava e ajudar caso preciso
Até ela me perguntar não tinha certeza que queria ajudar, mas agora tinha. Não por Edwin ou Donatella – que eu nunca chegaria á conhecer de modo apropriado –, queria ajudar á Adália. Uma criança é antes de tudo uma criança. Serafina inclinou-se em um cumprimento formal e se apresentou. Me levantei pensando que nome usaria, nunca meu nome verdadeiro á um estranho á menos que seja muito necessário e no momento não era.
– Giovanna – falei.
Ela ficou parada me observando, pensativa.
– Por que está usando roupas de homem, Giovanna?
– São praticas para quando se quer correr – disse explicativa – E não pesam tanto quanto vestidos além de que no escuro posso facilmente me passar por homem e ser ignorada.
Ela sorriu parecendo satisfeita com a informação e comentou que ficaria melhor se eu usasse um colete para disfarçar os seios e encurtasse um pouco mais os cabelos que eram longos demais para ser de um homem. Depois ofereceu um de seus vestidos para que eu usasse, por que se alguém me visse vestida daquele modo, criaria problemas que ela preferia evitar, aceitei usar um vestido dela. Serafina abriu um baú lascado onde guardava seus vestidos mais simples – que eram, em minha opinião, apenas menos justos e decotados. Coloquei um vestido verde com corpete liso sem mangas ou gola, a saia cobria meus pés descalços e ficava arrastando pelo chão como se fosse uma cauda.
– Nada mal – disse ela segurando uma risada.
Resolvi que não ia machuca-la mesmo que me provocasse á isso. Antes que eu fosse grossa com ela, porém, alguém bateu na frágil porta de madeira e entrou na casa, ofegante. Era Christopher.
– O que foi? – Serafina perguntou preocupada
Ele fez sinal para aguardar um minuto enquanto recobrava o fôlego, então se aprumou olhando para Serafina e depois para mim e... me reconheceu.
– Senhorita. O que faz aqui?
Revirei os olhos, ele me analisou com ar incrédulo parando algum tempo no corpete do vestido – senti saudades dos meus vestidos cinzentos, largos, longos e feios.
– O que faz você aqui, Chris? – repliquei levando as mãos pra trás e cruzando os dedos mecanicamente, parece que ia mentir mais que o necessário e o dia nem havia começado direito.
Ele pareceu confuso com o tom casual com que lhe falei, apenas uma breve imitação do modo com que Edwin falara com ele na noite anterior, uma mistura de ordem com familiaridade. Felizmente ele ignorou aquilo ao lembrar o porquê tinha ido tão cedo para a casa de Serafina.
– Aconteceu alguma coisa e vão queimar a Donna agora de manhã. Em algumas horas. Edwin me mandou vir buscar Adália, ele... acho que ele vai tentar pegar Donna antes que seja queimada.
– Queimada? Ela não ia ser enforcada? – perguntei
– Seria, mas alguém descobriu sobre a tentativa de libertá-la ao entardecer de hoje, então passaram a madrugada organizando uma fogueira, ela vai ser queimada para todos verem e quem tentar impedir será queimado com ela.
– Mas como descobriram isso? – havia pânico na voz de Serafina.
– O chá que você tomou ontem á noite com aquela senhora de amarelo tinha uma mistura que compele quem o toma á dizer a verdade, ela te fez perguntas e você respondeu.
Ela me olhou espantada, depois de alguns segundos de silencio disse convicta:
– Graça não faria uma coisa desse tipo, está mentindo.
Podia ter discutido com ela, mas no seu lugar também desconfiaria da desconhecida que vestia roupas de homem. Entretanto, falei:
– Se não for mau julgamento de minha parte, ela quem fez e serviu o chá que nem mesmo bebeu, te vi jogando o chá da xícara dela quando ela se foi, e você nem percebeu quando entrei na sua casa (não que ela pudesse ter notado) ou ouviu Adália chamar pela mãe durante os delírios.
Serafina empalideceu, eu teria ficado feliz em outra ocasião em mostrar que estava certa e ela errada, mas no momento tinha uma cremação para eu assistir ou impedir, ainda não havia me decidido.
– Vá preparar Adália para ser levada daqui – mandei com autoridade – E você venha comigo.
Enquanto saia da casa de Serafina me desliguei de Adália, minha cabeça estava doendo. Parei á uma distancia segura das orelhas erradas e observei, não havia ninguém por perto e o céu pálido tinha uma ou outra nuvem. Podia chover.
– Senhorita o que faz aqui? Como descobriu sobre...
Gesticulei com a mão mandando Christopher se calar.
– Não tenho menor interesse no que seu irmão faz, garoto, tão pouco me importo com o que pensarão se souberem que ajudei uma suposta bruxa a fugir da fogueira. O que me importa é que você não diga a ninguém, absolutamente ninguém que me viu aqui. Entendeu?
Ele assentiu.
– Mas a sua irmã vai se casar com Edwin e...
– Depois cuido de minha irmã e seu casamento. Por hora me interessa apenas Adália. Cuide para que Edwin lhe dê o que ela precisar para ter uma vida digna, apenas isso.
– Por quê?
– Por que ela é uma criança, garoto. Prefere que sua sobrinha bastarda tenha o mesmo futuro que a mãe?
Ele negou com a cabeça.
– Bem, foi o que imaginei. Não se esqueça, você não me viu aqui. Se alguém perguntar diga que Serafina estava sozinha quando você veio buscar a criança.
– Se perguntarem á Serafina...
– Não acreditarão, ela tomou o soro da verdade e apagou pela noite toda. Ter ilusões não é incomum quando temos no organismo substancias com capacidade alucinógena.
– Por que não quer que ninguém saiba que você esteve aqui?
Ele estava comaçando me entediar.
– Por que se souberem, eu te causarei problemas pelo resto da sua vida. No entanto se guardar isso em segredo, ficarei te devendo um favor.
Ele pensou por breves minutos, ter um favor á ser pago... assentiu lentamente. Serafina saiu da casa com Adália nos braços, tão pequena e frágil que evitei olhar para a menina, acompanhamos Christopher até uma carroça com palhas secas, ele a colocou ajeitadamente sobre um amontoado de panos e depois a cobriu com panos e palhas.
– Vai sufoca-la – falei incomodada
Ele me lançou um olhar ofendido e me ignorou.
– Nos despedimos por aqui, senhorita. Até breve Serafina.
– Tome cuidado, Christopher – disse a morena ao meu lado enquanto o garoto se afastava em sua carroça com a pequena Adália sob as palhas.
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