Um Outro Lado da Meia-Noite
16 Pesadelos e consequencias
Senti uma coisa incômoda, um calafrio. Abri meus olhos. Ainda estava chovendo, os relâmpagos iluminavam o quarto onde eu estava e foram esses raios que me fizeram vê-lo encostado á janela no escuro. Estava me olhando, seus olhos alaranjados brilhavam ainda mais assustadores no escuro, ao perceber que eu o olhava ele se aproximou de mim. Encolhi-me na cama o seguindo com os olhos.
– Não te machucarei, minha flor – disse ele com aquela voz estridente e inumana.
– O que quer de mim? Deixe-me em paz – gritei infelizmente não alto o bastante
Ele se sentou ao meu lado. Tentei focalizar seu rosto, mas vi apenas seus olhos terríveis.
– Por favor – pedi – Vá embora.
Ele ergueu a mão tocando meu rosto. Depois se agachou se aproximando de meu rosto, os olhos dele pareciam de repente familiares, ainda que alaranjados. Entreabri meus lábios quando ele passou seu dedo indicador em minha boca. Mas ele não me beijou, não como eu pensei que faria. Senti sua garra se fechando em meu pescoço. Debati-me na cama tentando gritar, estava perdendo o pouco fôlego que tinha. Ele gargalhava de meu desespero.
Senti outras mãos me segurando, mãos fortes. Ouvi palavras antigas sendo cantadas aos sussurros. Senti meu corpo perdendo a luta contra aquelas sombras que ele usava contra mim. Me deixei envolver pelo som mais distante e mais apaziguador que eu ouvia além dos gritos e do cântico. O som da chuva que caia...
...
Acordei um tanto confusa, olhei em volta. Não estava no quarto do hospital, e nem em quarto nenhum que eu conhecesse. Era tudo branco e havia apenas janelas treladas no alto e a cama onde eu estava deitada. Me levantei, estava tudo muito estranho, não ouvi nada atrás da porta então gritei para
– Tem alguém ai?... Onde estou?... Alguém pode me ouvir?... Oi?
– Por favor, senhorita, se afaste da porta – ouvi uma voz masculina grave dizendo, dei três passos para trás.
A porta se abriu, dois homens usando branco e uma mulher vestindo vermelho claro entraram. Eles eram idênticos, altos, fortes e de olhos severos. Ela era baixinha, magrinha demais, tinha olhos grandes e escuros.
– Como se sente Morticia? – ela perguntou
– Antes de responder sua pergunta, me digam onde estou e quem são vocês – repliquei sem muita gentileza
– Oh! Perdoe-nos a indelicadeza. Estes são Thomas e Antônio, enfermeiros. E eu me chamo Annia Lucero, sou médica – ela me estendeu a mão, mas não me importei, não gosto desse tipo de cumprimento formal usado pelos nórdicos
Em vez de aceitar a mão dela e apertar como se me interessasse em conhecer – o que realmente não me interessava nem um pouco naquele momento – perguntei:
– Que tipo de médica a senhora é que lugar é este?
– Está é a clinica de readaptação para bruxos que perderam o controle da magia. Sou psicóloga. Uma especialista em distúrbios emocionais e mentais.
Legal, estou em um lugar para loucos com uma louca que pensa que sabe como minha mente funciona e o que sinto. Mas...
– Como vim parar aqui? O que aconteceu?
– Eu prefiro que você saiba o que aconteceu por um membro de sua família ou alguém que conheça, quer que chamemos alguém?
Não gosto dessa Annia, não gosto, não gosto.
– Posso ver minha irmã? Verbena Quarini ela é...
– Já conheço sua irmã, entraremos em contato com ela e logo ela estará aqui.
Já disse que não gostei dessa mulher?
– Doutora, eu posso comer alguma coisa? Sinto fome.
Não sentia coisa nenhuma – o que era estranho – mas queria saber outra coisa, como por exemplo, se um daqueles gêmeos seriam minhas babás ou se eles apenas “protegiam” a médica monstro.
– É claro Morticia, pedirei que te tragam uma refeição á você.
– Posso pedir mais uma coisa, senhora?
Ela me encarou, então assentiu.
– Me chame de Gardênia, eu não gosto de ser chamada de Morticia.
A testa dela ficou toda enrugada, comentou:
– Sua irmã, a baronesa, disse que todos te chamam de Morticia...
– Mort, me chamam de Mort. E todos nesse caso são minha família e meus amigos.
Aquilo sim a calou – bruxa má 1 médica monstro 0 – ela me encarou de um modo estranho, como se tentasse saber o que eu estava pensando. Assentiu mais uma vez e se retirou. Estou com a impressão que terei problemas com essa doida. Uma eternidade depois, uma bruxa morena de dentes tortos me trouxe uma bandeja com frutas e uma sopa rala que nem toquei. Perguntei á ela onde estava, me disse que no lado leste da zona Cinza, ainda no mundo mágico.
Verbena não veio me ver, em vez dela quem veio foi Leonel. Tudo bem, gosto da companhia dele, mas queria minha irmã aqui.
– Então, Leo, o que diabos faço neste lugar?
Ele me olhou... com pena? Odeio ser olhada desse modo.
– Você surtou Morty. Colocou fogo no quarto quando os enfermeiros tentaram te acalmar, teria destruído ou causado um grande estrago se não tivessem tirado sua consciência.
– Como assim? – perguntei me inclinando na direção dele – Não dizem que é impossível usar magia dentro dos centros de cura?
– Exato, legalmente apenas curandeiros podem usar magia lá. Mas você perdeu o controle e desfez toda a proteção que impediam que magia fosse usada. Uma enfermeira, aquela cujo sorriso te irritava, foi lançada contra a janela e quebrou a perna. O que foi te fez você ficar daquele modo?
– Não sei – menti – Eu lembro de que alguém estava me enforcando, eu queria escapar, mas não conseguia nem respirar.
Leo me olhou desconfiado, detesto quando ele percebe minhas mentiras. Mas para minha surpresa ele apenas assentiu. Parecia conformado, ou...
– Não acha que perdi meu controle, acha?
– Morty, você passou por uma situação muito grave naquela floresta. Talvez você tenha reprimido as emoções por tempo demais e elas apenas explodiram...
– Pelamor! Acha mesmo que eu tive uma crise de fúria? Eu sempre me controlei melhor que muitas bruxas. Nunca me deixei levar pelas minhas emoções para usar magia.
– Não é verdade – ele contradisse – Aqueles homens ferindo sua amiga te fizeram concentrar mais energia que qualquer feiticeiro jamais foi capaz de reunir em toda história da magia. E você estava realmente muito zangada.
Me levantei da cama, cruzei os braços e comecei a andar. Gritar e xingar me deixariam calma, mas não ia perder o controle na frente de Leo, não queria que ele achasse que enlouqueci.
– Eu não estava zangada na floresta, estava com medo. Medo que Valentine morresse – falei, aquilo era verdade
Eu ainda não tinha parado para pensar no por que exatamente salvei a vida dela, era apenas por medo de saber que mais alguém na minha vida morreria sem que eu pudesse ao menos ajudar. Tomar consciência de que salvei uma vida me deixou angustiada, até agora eu apenas me lembrava que tinha matado três homens que estavam violentando uma pessoa indefesa. Mas eu não tinha feito apenas isso, também havia salvo a vida de uma inocente.
– Morty!
Me virei novamente para Leo, voltando a andar em círculos.
– Desculpe, me distrai. O que disse?
– Perguntei o porquê a vida daquela garota cega é tão importante para você ter medo de que ela morresse?
Que pergunta mais idiota para se fazer, pensei, mas disse:
– Ela é uma boa pessoa, não merecia morrer daquele modo.
– Dois daqueles homens que você matou eram pais de família, tinham filhos e esposas que ficaram sem o sustento quando você os matou.
– Isso não é problema meu. O fato deles terem família não os torna pessoas melhores, você não viu a cena que eu vi lá, Leo, se fosse eu quem estivesse nas mãos deles e você quem me ouvisse gritar por socorro tão aflita, o que faria?
Tive o prazer de perguntar isso olhando-o nos olhos, Leo ficou tenso e vi uma luz incomum brilhando nos olhos dele.
– Eu torturaria cada um deles até que clamassem pela morte – disse
Sei que essa resposta deveria me deixar aliviada, mas quando ele falou, senti um frio percorrer meu corpo. Mas não demonstrei.
– Então sabe que não fui capaz de pensar com lucidez diante daquilo. Ela precisava de proteção e eu era infelizmente seu único escudo. Não me julgue antes de se colocar em meu lugar.
Leo se levantou e me abraçou. Pediu desculpas por ser um idiota. Ficamos em silêncio por um tempo então perguntei á ele sobre Verbena.
– Sua irmã baronesa...
O tom de implicância sempre foi tão sínico ao se tratar de Verby, digo ela se casou com um barão e não gosta de ser tratada como baronesa, vá entender. Leo dizia:
–... me mandou vir no lugar dela, disse-me que tinha um assunto urgente com George e nem me deixou saber o que era. Disse que depois se justificava com você.
– Hum, deve ter sido muito importante. Ela não me deixaria aqui sem um bom motivo e George é um bom...
Leo bufou voltando á se sentar
– O que foi? – perguntei
– Não acho que esse George seja realmente boa coisa. É prestativo demais, gentil demais, bondoso demais, um completo imbecil, penso.
Ri
– Meu bom amigo, você não gosta dele por que ele se parece com você. Amigável, gentil, inteligente, adorável, apaixonante, um amigo que todos querem ter. lembra que Narciso sempre dizia que não devia ser meu amigo?
Ele sorriu
– Seu irmão achava que você podia ser má influencia para mim, me tornar uma pessoa ruim.
– E acabou que por anos você foi meu porto seguro. Um irmão a mais para minha felicidade.
Leo ficou serio, fez uma careta e se levantou.
– Tenho que ir, preciso resolver um outro assunto. Verbena vira te ver assim que possível e eu também voltarei logo.
Me deu um beijo fronte e saiu. somente depois de alguns minutos que me lembrei que não perguntei se ele havia conversado com Valentine. Mas na próxima farei isso. Se não me esquecer novamente.
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