Contei a Verbena, tudo. Meus pesadelos recentes, meu ultimo encontro com a criatura e o tempo em que fiquei na casa dos Walker – assunto irrelevante, mas ela insistiu em saber. Enquanto contava ela passava uma pasta cinzenta e fedida em meu corpo onde eu estava ferida. Quando terminei fiquei em silêncio ouvindo apenas os murmúrios do encanto que Verbena cantarolava.

– Então ele voltou – disse ela depois do longo silêncio que seguiu ao meu relato.

– Ele? Você sabe quem ou o que é aquilo? Onde ele vive? O que quer de mim? Como me livro dele? Por...

– Cala a boca! – gritou ela, depois disse em voz neutra – preciso pensar um pouco.

Um pouco dela re resume á convocar vários livros, maioria eu nunca tinha nem mesmo visto e outros eu já tinha lido – apenas os títulos – no porão de feitiços, feitiços não são minha leitura favorita, prefiro os mistérios britânicos, os romances russos e os contos de terror germânicos. Quando ela finalmente achou o que procurava me deu atenção novamente.

– Quando ele veio da primeira vez eu procurei para saber o que tinha matado papai, realmente achei que você tivesse o matado. Mas alguns anos atrás uma moça fora mortalmente feria por uma fera de aspecto humano. Relataram como uma espécie de canídeo e todos acharam que era um lobisomem, bom quase todos. Então eu descobri o que é.

Mas ela não disse de imediato, voltou atenção á outro livro enquanto o livro que ela lia começou a virar as paginas por si só.

– E o que é?

– É um bruxo. Obvio.

Por um segundo a encarei esperando que ela dissesse que era brincadeira, que era alguma criatura cuja existência ela desconhecia ou coisa semelhante, mas Verbena me olhava como se fosse a dona das certezas.

– Bruxo? – perguntei, não conseguiria dizer outra coisa.

– Claro, um bruxo possuindo o corpo de um animal. Não é difícil, há alguns livros que descrevem tal possessão, mas apenas um que realmente ensina como fazê-lo. A única copia legal que existe fica na Biblioteca de Alexandria na Zona Cinza, mas devem existir copias ilegais no mercado negro.

– Fascinante – falei bocejando

– Ah! Desculpe, as vezes me esqueço que não pode entrar nas zonas proibidas do não-mundo. Voltando ao feitiço. Não sei quem é, mas segundo o livro: um mago, bruxo, feiticeiro ou espectro pode usar um animal de qualquer espécie para lhe servir de carruagem ou transporte quando o usuário está debilitado ou não quer deixar-se ser pego. Em setecentos e oitenta e qualquer coisa a pratica de possessão foi proibida devido á dor que causava nos possuídos, de modo que apenas pessoas com muitas más intenções utilizam desse método.

– Me diz que tem como descobrir quem é o bruxo.

– Hã. Infelizmente é impossível descobrir isso, a menos que ele se revele. Mas pela descrição que você faz só pode ser um homem. E um dos poderosos para transmutar o corpo de uma raposa em um corpo quase humano.

– Mas que essa coisa pode querer comigo? Se fossem Oods eu poderia achar que era magia, se fossem Estrige podia ser meu sangue e se fosse seja lá que criatura mágica eu entenderia, mas um bruxo? você é muito mais poderosa que eu, por que vir atrás de mim?

– Ah! minha criança ingênua

Tom de Verbena me deixou estupefata, ela me olhava como... como eu via a Margarida olhar seus filhos enquanto dormiam, com ternura. Aquilo foi bizarro.

– Que foi? – perguntei

– Acho que... a criatura, acho que ele não está interessado em magia. Ele se mostra muito poderoso usando magia negra.

– Que então ele quer? Fortuna? Eu não tenho nem uma moeda de troca, não tenho nada que ele pode querer de mim.

Encarei Verbena esperando que ela dissesse o que o bruxo podia querer de mim. O pior é que não conheço nenhuma pessoa com olhos de fogo-laranja que pudesse querer me fazer mal, nem por que. Talvez vingança por eu ter matado ele dá ultima vez, mas era apenas defesa.

– Me dê sua mão esquerda – pediu Verby sentando em minha frente.

Quiromancia sempre foi minha arte oculta favorita, mas nunca aprendi, ou melhor, nunca consegui ver nada além do presente nas mãos das pessoas. “Qualquer arte mágica requer mais que conhecimento e pratica, requer habilidades mediúnicas com quais muitos são desprovidos”

Eu com certeza fui desprovida das habilidades de agouro ou coisas ligadas com o futuro. Em compensação recebi todos os dons catastróficos e azarados que se pode imaginar, até o dom de atrair a fúria de um mago sombrio que pode possuir corpos animais para me importunar e nem mesmo sei o por que.

– Ora essa – comentou Verbena puxando minha mão direita e franzindo o cenho – Realmente canhotos tentem a atrair problemas e dos mais estranhos.

– Que está vendo? – perguntei ansiosa

– É difícil prever futuro de alguém tão imprevisível e mutável. É tudo tão nebuloso. Há dois homens e você ficara presa entre os dois. Um amor que abandonou e um que conquistará.

Revirei os olhos, que interesse tenho em amor?

– Pode ver quem é o mago sombrio de olhos de fogo e o que ele quer de mim?

– Mas já disse. Não posso te dar nome e endereço, mas posso dizer que é um desses dois homens cujo passado e futuro entrelaçam-se ao seu de modo assustador.

Puxei minha mão indignada e fui para perto da janela, o céu ainda estava cinza – minha cor favorita – e uma garoa fina caia.

– Isso não me serve de nada, aliás eu volto para o convento assim que você quebrar a maldição e eu não precisar mais ser um gato.

– O que se resume á nunca. Eu não posso quebrar uma maldição Mort, o melhor que posso fazer já fiz: te dei uma benção.

– Tem que haver um modo de quebrar uma maldição, talvez alguém na zona proibida saiba como fazer isso.

– Já perguntei, eles só conhecem um modo.

– Que seria?

– Morte. Quem lançou a maldição deve morrer para que a maldição seja quebrada.

– De modo natural ou...

– Morticia Belaya eu te proíbo de tentar qualquer coisa contra Magnolia.

Estraga prazeres essa minha irmã.

– Não vou matar a Meg – mesmo que a ideia seja tentadora – Assassinato é crime, infelizmente.

Me virei para Verbena que me encara séria – não ficaria surpresa se ela me amaldiçoasse.

– Parou de chover, vou para casa.

– Vou mandar Lucca te levar – começou ela, mas interrompi

– Quero andar, preciso ficar sozinha.

– Mas daqui até casa é longe, se voltar a chover...

– É apenas água Verby. Nunca morri por ficar na chuva e não é agora que isso vai acontecer.

– Pare de brincar com isso Mort, e não é apenas a chuva. O que vai acontecer se ele resolver te atacar mais uma vez enquanto estiver desprotegida? Fora o fato de deixar a Meg sozinha por tanto tempo em casa com um maluco á espreita.

Suspirei.

– Não precisa se preocupar com a Meg nossa casa está protegida por aquele circulo que a senhora Gale fez quando papai morreu, a menos que ela convide o mago para entrar ele não fará nada contra ela. Quanto á mim, quero que ele me encontre. Desta vez estou preparada e tenho algumas perguntas á fazer á ele.

– Morticia eu...

– Tchau Verbena – gritei indo para a porta – Te mando seu vestido mais tarde. E tenha um bom almoço.

– Vou contar ao Narciso e ele vai te proibir de sair de casa – gritou ela descendo atrás de mim, mas eu já estava com o pé fora da casa e não voltaria para discutir com ela – Morticia volte aqui agora!

Eu já estava atravessando a rua, me virei quando cheguei do outro lado. Verbena estava me olhando vermelha de raiva na porta, eu sabia que ela não viria atrás de mim, ela nunca vinha atrás das pessoas. Fiz uma reverencia e segui rua á baixo correndo, estava irritada demais para pensar. E nem sei por que estava sentindo tanta raiva.

Vaguei pelas ruas sem menor direção, de repente senti fome. Olhei em volta para ver onde eu estava, era a parte mais pobre de Ferrara, um bairro onde todas as pessoas doentes, deficientes, ladrões, bandidos e criminosos dos mais variados tipos viviam. Não sei por que meus pés me levaram para aquele lugar, eu não conhecia ninguém por ali, era o que as pessoas chamavam de zona proibida para gente de bem – se eles conhecessem a zona proibida do não-mundo ficariam apavorados.

Segui em frente com cabeça erguida olhando as pessoas de esguelha, velhos espiavam por trás de suas cortinas encardidas, crianças se escondiam ao me notarem, aleijados se arrastavam para longe... era como se eu fosse a pessoa perigosa ali. Um grupo de garotas vestindo trapos maiores que elas brincavam de roda em frente á uma cassa suja com porta arrancada das dobradiças. Quando uma me viu todas as quatro correram para dentro, ao passar notei os olhos curiosos delas pela fresta porta que fora colocado de mau jeito.

Bati na porta, não sei por que, apenas bati.

– Q-quem é? – ouvi uma voz infantil assustada

– Uma caminhante perdida, pode me dizer onde estou?

Ouvi vozinhas discutindo e vários “não responde”, depois de uma longa discussão a primeira menina me respondeu.

– Ferrara, leste. Vicolo Disperazione.

– Como saio daqui? – estava me sentindo uma idiota por falar com três crianças assustadas através de uma porta.

– Ei!

Me virei curiosa, um homem e três mulheres me olhava feio uma delas segurava uma vassoura. Será que pretendiam me machucar? Sem querer eu ri da ideia. Realmente não estava em um bom dia.

– O que está fazendo ai? tem apenas crianças nessa casa – disse a da vassoura

– Estou pedindo informações, mas acho que não sou bem vinda por aqui.

Nam, messm – disse a mais jovem delas com um sotaque carregado que eu não reconheci – Va don veo nom prrrecizam di stranners qüi.

– Me diga como sair que sairei – retruquei nervosa

Eles estavam com medo de mim, sei bem o que uma pessoa com medo é capaz de fazer.

Elas trocaram olhares e foi o homem de voz grossa e irritadiça quem me explicou a direção que levava á rua principal que me levaria de volta para o centro da cidade. Eles me acompanharam até a “saída” do Vicolo Disperazione. Eu curiosa demais andei lentamente, eles falavam de modo bem audível o quanto detestava que as pessoas “ricas” entrasse em sua área, pior quando perturbavam os moradores. Assim que sai do Vicolo, avistei uma carruagem escura com rodas douradas grandes muito familiar, encostada estava um jovem loiro que olhava para os lados angustiado e nervoso como se não quisesse estar ali – e não queria mesmo.

– Christopher Lender? – perguntei me aproximando dele que me olhou assustado.

Christopher Lender é o meio irmão postiço de Edwin McGregor, noivo de Meg, o pai de Edwin se casou com a mãe de Christopher — segundo eu soube especulando onde não devia. Chris tinha cinco anos e sua mãe estava viúva á três semanas quando ela se casou com o pai de Edwin, treze anos mais velho que Chris.

– Senhorita... Bella...

– Belaya, Morticia é mais fácil de pronunciar.

Ele assentiu olhando para trás de mim, me virei. Era apenas o quarteto que me seguiu nos olhando como se tentassem ouvir o que falávamos.

– Esperando alguém? – perguntei intrometida

– Sim, espero o Edwin. Ele veio examinar um senhor que esta com pneumonia, mas esta demorando bastante, não?

– Não sei, acabei de chegar aqui – respondi me divertindo com o pavor dele, adoro uma boa dose de pânico nas pessoas – Ed... McGregor é médico?

Tanto tempo vivendo com as freiras e nos chamando de nomes simples – como irmã Gentileza como me chamavam, sem ironia nenhuma o que era estranho – era estranho me referir á uma pessoa que mal conhecia, um doce habito dizer o primeiro nome da pessoa como se fosse intima, mas regras sociais devem ser cumpridas – as mais irritantes pelo menos.

– Sim – ele desviou o olho do quarteto que se afastava para suas casas e me olhou – Ele se casara com sua irmã, não sabe a profissão de seu futuro parente?

– Cunhado não é parente. E não. Eu não sabia, na verdade pensei que Edwin McGregor fosse apenas herdeiro de uma família rica que precisa se casar para receber sua herança – disse sem menor gentileza e com muita sinceridade.

De fato eu pensava que fosse isso, eu já estava acostumada com o fato dos homens ricos — e a família Fletcher á qual pertencia a mãe de Edwin é a mais rica da região de Emilia-Romana – se casarem para poder receber a herança que lhes pertencia, e eu também não conhecia muitos, ou melhor, não conhecia nenhum médico que visitava lugares como Vicolo Disperazione para tratar de seus pacientes, maioria das pessoas ali bem eu sabia morriam como viveram, sem serem olhados pelos “ricos”.

– Edwin se casando por interesse material? – perguntou ele de modo retórico e irônico – Ele é orgulhoso demais para depender da herança da família Fletcher.

– Então devo supor que ele vá se casar com minha irmã por que gosta dela.

– E por que mais seria? Sua irmã é extremamente bela, prendada e ao que eu saiba vocês não são ricos, não sobra muito motivo para ele se casar com ela... ahh

Confesso, quando ele mostrou desprezo no tom com que falava de minha irmã – idiota, mimada e que merecia virar abobora – eu murmurei um agouro contra Chris. Uma dor no estomago como se fosse socado pelo mais forte dos homens cada vez que falar de tal modo de qualquer pessoa naquele tom.

– Você está bem? – perguntei tentando não sorrir da dor dele

– Sim, é apenas um mal estar passageiro. Deve ser fome.

Ingênuo. Me lembrei... já era quase hora do almoço quando sai da casa de Verbena, logo seria duas horas. Tenho que parar de me afastar de casa. Sai correndo, a julgar pela posição do sol não devia ser mais de uma da tarde. Vi de relance um olhar intrigado de Christopher quando me distanciei, mais um que vai achar que sou maluca. Mas não me importo, eu sou.

Notas finais
Não foi o dos melhores :( Capitulo seguinte: Um encontro com Oods *-* Meus monstrinhos devoradores de bruxos malignos do mal vão fazer uma visita á... Ops! Isso é spoiller