Um Outro Lado da Meia-Noite

13 Inocente até que me acusem


Notas iniciais
Desculpem o sumiço. Estou com um bloqueio criativo maior que o sol.

Mandei Magnolia se livrar de Margarida enquanto eu me livrava de Leonel, lembrei a ela que não podíamos deixar nossa irmã saber que eu era um gato por que isso me obrigaria a contar que foi uma maldição lançada pela Meg e isso á deixou zangada e apavorada.

Tudo bem, eu vou convencer á Margo de ir para casa” foi divertido ver o pavor percorrer o rosto bonito de minha irmã, depois sai com Leonel pelo caminho mais curto até a cidade, passando por dentro da mata, pelo menos Margarida detestava aquele lugar o bastante para ficar longe.

— Então Mort, o que te aconteceu para nem ir me dizer “oi” desde que chegou?

— Muitas coisas Leo, mas como não estou com vontade de choramingar minhas magoas vou contar apenas o que quero que você saiba.

De modo resumido – que para mim é o mesmo de falar tudo detalhadamente – contei á Leonel sobre os Oods, ele como sempre me escutou em total silencio e depois me encheu de perguntas das mais variadas. Quando passamos cerca de dez metros do riacho paramos – meu amigo resolveu achar que eu podia morrer se andasse sozinha á tarde em um lugar como o bosque. Então contei á ele sobre minha nova condição de amaldiçoada e conforme meu cronograma eu virei uma gata na frente dele.

Precisei aguentar vários feitiços que ele lançou sobre mim tentando desmascarar algum truque que eu tivesse preparado, após todas as tentativas inúteis dele me trazer de volta á forma humana expliquei sobre o encanto de troca de corpos que Magnolia tinha feito e como deu tudo absurdamente errado, falei então da benção – que para mim era apenas uma contramaldição inútil – que Verbena usou me dando a forma de gato pela metade do dia enquanto outra metade eu era humana.

Leonel riu do fato de minha irmã que renunciou a bruxaria tinha mais capacidade de fazer um encantamento poderoso que eu que passei breves anos de minha vida estudando magia – isso foi á muitos anos, pouco depois de meu pai morrer e antes de eu me tornar uma obcecada por alquimia, eu realmente queria um modo de trazê-lo de volta a vida, quando percebi que não podia ressuscitar os mortos apenas me desinteressei por aprender magia. Quando finalmente ele conseguiu parar de rir de sua melhor amiga estar presa na forma de um animal domestico me perguntou:

— Verbena não podia trocar? São duas da tarde, daqui até duas da manha tem muitas coisas interessantes para se fazer e as duas da manhã quando você retorna á ser humana está dormindo, perde quatro horas como humana dormindo.

— Na verdade apenas duas horas e meia, acordo mais cedo que maioria das pessoas. Verbena me disse que não devo reclamar quando ganho um presente, mesmo que o presente seja ruim, entende? Foi o máximo que ela conseguiu fazer e devo ficar feliz por poder ser humana ao menos doze horas do dia.

Leonel fez uma careta de descaso e assumiu uma expressão pensativa. Depois de me analisar em silencio resmungou:

— Aquela sua irmã de cabeça oca que devia ser amaldiçoada e não você. Posso transforma-la em pedra?

Achei a ideia tentadora e engraçada, mas:

— Já tenho planos para o futuro de minha irmãzinha. Infelizmente nada tão mirabolante como uma pedra, mas algo relativamente bom. Nos parâmetros Morticia de maldade, claro.

— Vai tortura-la até que ela clame pela morte? Ou apenas fazê-la se lembrar todos os dias que foi ela quem te transformou em uma gata?

Ele realmente me conhece, entretanto meus planos são outros, algo que faça ela nunca mais pensar que sou uma qualquer que merece indiferença em troca das coisas que faço para ajuda-la.

— É por ai – respondi

— Hum, sabe Mort... vou revirar as coisas no não-mundo e achar algo que te traga de volta a forma humana.

— Não perca seu tempo, Verby já tentou de tudo.

— Não sou a Verbena, Mort, quebrarei sua maldição não importa o tempo que leve.

Ele montou no seu cavalo e saiu. Eu ainda tinha coisas para lhe contar, então fiquei ali, desligada do mundo. De um modo automático eu tinha apenas resolvido não pensar no meu futuro, tinha planejado atormentar Magnolia, confesso. Mas propriamente meu futuro... algo no tom de Leo, talvez apenas o impacto da realidade ao ouvi-lo dizer “não importa o tempo que leve”, me deixou muito menos... eu. Uma profunda sensação de solidão e medo e solidão e tristeza e solidão e fracasso e solidão se apossou de mim, como se eu nunca mais fosse voltar a ser humana, eu veria meus irmãos viverem normalmente, depois meus sobrinhos, depois os filhos deles e os netos e muitas possíveis gerações, enquanto eu.

Eu estaria apenas ali, observando sem ser notada. Um gato doméstico sendo empurrado para lá e para cá sem ter uma finalidade, não poderia voltar ao covento onde seria queimada por ser bruxa tampouco poderia ter uma família – não digo a família de meus parentes – afinal quem iria ser o tolo a se casar com uma mulher que metade do tempo é um animal doméstico? Não que eu queria me comprometer de tal modo com alguém, mas a possibilidade de solidão eterna me encheu de vazio e temor. Pior que sentiria na presença dos Oods.

— Pelamor! – falei em voz alta – Você é uma bruxa e não um animalzinho inofensivo. Se sofrer for sua sina, transforme o mundo em uma fabrica de lenços de papel ou faça com que todos sofram mais que você.

Normalmente pensamentos sinistros e malvados me faziam me sentir mais entusiasmada, mas dessa vez apenas serviu para me lembrar que todos tinham motivos para ser considerados felizes, menos eu – admito, tenho problemas sérios para controlar minhas emoções – voltei até o riacho e me deitei com os olhos bem fechados ouvindo o som inquebrável da água.

Quem sabe se eu não abrisse os olhos não descobriria que tudo foi apenas um sonho? Quem sabe eu não estava ainda na minha cela do convento dormindo? Então me levantaria, pegaria a bacia no canto na cela, me lavaria, vestiria meu chemise de algodão e por cima meu hábito cinza-chumbo feito de linho, colocaria o véu bem preso para cobrir todo meu cabelo e iria para a capela onde faria minha primeira oração do dia, depois ia para o galinheiro pegar ovos e soltar as galinhas, ajudaria no preparo da mais simples refeição, oraríamos mais por algumas horas, ajudaria Irmã Harmonia a fazer fosse lá o que ela fizesse no dia e ao anoitecer oraríamos, jantaríamos e iríamos todas dormir, meia-noite eu ouviria o badalar distante do sino da igreja, sairia do convento e vagaria pelas ruas até chegar á enfermaria da cidade, onde oraria pelos doentes e com ajuda de uma bruxa aprendiz prepararia alguns unguentos para ser usados nos pacientes sem que os doutores soubessem, então voltaria para minha cela no convento onde dormiria por algumas horas até recomeçar minha jornada diária.

Infelizmente eu não estava no convento e os respingos da água da cachoeira em meu pelo me lembrava de onde eu estava e qual era minha condição física. Aqueles tempos de bruxa-de-caridade me faziam feliz, eu era feliz fazendo o que era certo – mesmo que fosse de um modo meio errado – agora eu tinha apenas uma vida humana parcial, horas como humana sem nenhuma utilidade á vida e horas como um gato que se cruzasse no caminho das pessoas erradas seria morta.

Suicido seria uma opção valida?

Remoendo milhares de ofensas por minha rápida descida ao poço da depressão sem sentido, voltei para casa. Margarida já havia voltado para seu ninho – uma cobra com nome de flor, que bonitinho – e Magnolia estava sentada na varanda olhando a paisagem cinzenta dos primeiros dias de inverno, não resisti a passar á provocando.

— Demorou muito para sua irmã peçonhenta ir embora?

Cinco segundos para ela se assustar, gritar, me xingar e recuperar a postura.

— Não fale assim da Margo – resmungou me encarando – Ela é uma ótima irmã, excelente mãe, uma mulher incrível e você está muito agressiva nesses dias.

— De fato Margarida é tudo isso que você disse, só faltou dizer que ela é uma pessoa horrível. E quanto á minha agressividade, responsabilizo uma pessoa que me transformou em gato, aliás, acho que essa fedelha que me amaldiçoou é pior que a Margarida, ao menos sua irmã peçonhenta nunca tentou usar magia contra ninguém, não que eu saiba.

Suspirei me sentindo uma folha seca ao vento – muito leve mesmo – segui para meu quanto onde me deitei e deixei-me envolver pelo sono. Acordei com um barulho estridente, um zumbido cortando o ar e um cheiro adocicado de rosas, seguido dos passos e vozes de Narciso e Verbena que subiam os degraus.

— Posso saber o que ela fez desta vez? – perguntou Narciso

— Vai saber assim que eu terminar de matar aquela irresponsável cabeça de vento que não pensa antes de agir.

O tom acusador e zangado de Verbena me fez ficar apavorada, minha irmã não costuma perder a postura de boa pessoa, se ela estava gritando ou ameaçando ou pior usando adjetivos para se referir á uma pessoa, o mais correto era ficar fora do caminho dela. Corri para debaixo da cama e me encolhi. A presença de Narciso em casa e a ausência de luz externa através da janela significava que já era noite, como podia ter dormido tanto?

Vi o vestido azul-índigo de Verbena entrar varrendo o chão, ela parou ao lado da cama – vasculhando o quarto com os olhos provavelmente. Vi também os pés descalços de Narciso – temos os dois uma repulsa inexplicável por calçados – ele estava de calça marrom como sempre.

— Meg disse que ela estava aqui – falou meu irmão indo até a janela – Será que ela pulou?

Senti meu corpo formigando e sendo arrastado por mãos invisíveis e fortes para fora de meu esconderijo, Verbena me segurou pela nuca puxando a pele e os pêlos me fazendo miar na tentativa de me soltar.

— Me solte – rosnei

Ela me soltou – cai em pé – e me trancou em uma gaiola que se materializou em torno de mim. a gaiola foi erguida no ar á altura do rosto dela, para que gritasse comigo com mais prazer ainda. Narciso olhava de uma para a outra com ar indeciso, ele já tinha me visto brigando com Verbena varias vezes e normalmente uma de nós terminávamos presas em alguma caixa, gaiola, corrente ou armadilha complicada.

— Uma bruxa em Ferrara – gritou ela me fazendo parar de girar buscando saída

— Do que estão me acusando agora? – perguntei já na defensiva

— De nada, ainda. Mas escute – ela começou a andar de um lado por outro enquanto falava – Hoje de manhã enquanto eu estava no Club’Venetta algumas jovenzinhas entraram teatralmente com falta de ar e tremor nas mãos, jurando que: viram uma bruxa voando em uma vassoura...

— Como...

— Cale a boca que ainda não terminei – fiquei em silêncio – Podiam apenas achar que era coisa dessas jovens para chamar atenção, porém o cocheiro que as guiava também viu tal bruxa e antes do almoço tantos os funcionários quanto muitos dos frequentadores do Club já falavam sobre a bruxa que voava por Ferrara ás nove da manhã. Resolvi descobrir quantos mais já tinham ouvidos essa bobagem e passei o dia vagando pelos bairros próximos á Villa Romena e adivinha? Dezoito pessoas te viram. Dezoito.

Ela gritou a ultima informação me fazendo encolher. Narciso me olhava chocado, como se fosse a primeira vez que visse a irmã no corpo de um gato enjaulado – de fato era a primeira vez, mas isso não importa. Tentei argumentar:

— Talvez apenas duas ou três viram e os outros apenas...

— Não Gardênia – oh, grande deusa ela usou meu nome do meio, socorro – Dezoito pessoas te viram mesmo eu averiguei, devem ter mais, mas eu não ia passar o dia lançando feitiços nas pessoas. Pelo menos todas as pessoas do centro ao leste da cidade ouviram sobre a tal bruxa que desapareceu em direção á floresta.

— Não saberão que sou eu...

Verbena me silenciou com um grito. Então se sentou na cama com a mão no rosto.

— Por que você não usou um espelho Gardênia? Tão pratico, tão simples, tão á prova de pessoas te vendo voando em uma vassoura e espalhando a noticia como uma peste infectando o ar.

— Desculpe? – arrisquei

— Desculpar? – sibilou Narciso tão perto da gaiola que me fez dar um salto – Se entendi tudo, você cruzou a cidade usando uma vassoura ás nove da manhã e quer que lhe desculpamos?

— Eu estava usando capa e capuz, ninguém me reconheceu.

— Ah, não é claro. Da próxima vez dance em praça aberta para chamar mais atenção ou espalhe noticias de onde mora – o tom dele era mais calmo a cada palavra e isso me apavora um pouco – Acordei cedo e fui ver se minha irmã que fora obrigada a se esconder no porão estava bem e não a encontro, achei que tivesse isso caminhar como sempre faz para observar o sol nascente. Então chego em minha casa e quando me sento para jantar na companhia apagada de minha irmã mais jovem que anda cada vez mais triste eis que minha irmã terceira e bruxa aparece do nada no meio da cozinha com ar de quem vai cometer um assassinato e conta que minha irmã amaldiçoada de quem tento amenizar os problemas estava simplesmente brincando de voar quando todos dariam um dedo para matar uma bruxa. E você pede desculpas?

— Queria que eu pedisse o que? A paz mundial? – ironizei

Narciso bateu na gaiola me fazendo desejar por um segundo poder machuca-lo, muito.

— Desculpa tá – gritei – Eu estava tentando dormir quando fui despertada pela magia, peguei a vassoura e fui salvar nossa irmã que estava quase morrendo após um ataque de Oods. Desculpe ter ido salvar a vida dela e não ter me lembrado de deixar um bilhete avisando o que ia fazer. Desculpe por ter achado por um minuto que podia ser livre e ter resolvido voar. Desculpe não ser uma donzela em perigo que precisa ser salva todos os dias de um perigo idiota. Desculpe se fui condenada a viver como gato e não poder ser jogada de volta naquele convento longe de vocês.

Péssima hora par desabafar?

Meu irmão olhou de mim para Verbena e de volta para mim, vi nos olhos dele que resolveu cuidar de mim – o assunto complicado – depois.

— Salvar a Verbena de que?

— Oods! – respondi aliviada dele ter decidido assim – Fadas para vocês pessoas normais. Oods são monstros que sugam magia das bruxas, drenam tudo até restar apenas... vazio.

— Não foi nada, Morticia apareceu bem na hora que eu estava perdendo as forças de vez – Verbena me olhou com aquele ar de gratidão que me faz lembrar por que amo ela – Se não tivesse bancado a heroína e ido me ajudar, eu não estaria aqui.

— Já disse Verby, é sempre um prazer salvar mocinhas em perigo – falei e ri de mim mesma

Haham, quero saber o que aconteceu agora

Verbena me soltou, descemos para jantar e contamos a Narciso sobre os Oods, ele já tinha ouvido contos sobre as criaturas, mas não esperava que existissem e que viessem a fazer mal á uma de suas irmãs. Magnolia nos ouviu tentando ficar indiferente, como se magia não existisse em sua realidade, mas não resistiu a tentação e acabou falando sobre a sensação que foi ver um deles tão perto.

Narciso me proibiu de sair de casa – a não ser que fosse alguma urgência urgente inadiável – por tempo indeterminado, ou seja, até ele se esquecer do motivo por qual tinha me deixado de castigo. E Verbena me proibiu de voar. Se eu quiser ir rapidamente de um lugar ao outro que use um espelho ou um cavalo ou um coche ou que vá correndo.

Em fim, eu estava de castigo e não podia ignorar as coisas e fazer tudo ao meu modo. Os dias se arrastaram como uma lesma ferida e mais uma semana se passou. Eu não tive noticias de Leonel. Margarida ficou ocupada com coisas da comunidade das mães e esposas de Ferrara onde ela era presidente, coisas que se resumem á reunir mulheres como ela e falarem sobre os filhos, os maridos, os problemas da cidade que elas nunca faziam nada para amenizar e sobre o assunto favorito das pessoas loucas que moram por aqui, as bruxas. Verbena tinha dito que ia se ocupar com coisas do não-mundo. Narciso estava evitando falar comigo, ele ainda estava chateado comigo por que eu me arrisquei voando pela cidade durante do dia. E minha única diversão durante meu castigo era perturbar o silêncio de Magnolia que estava á beira de cometer um assassinato

Duvida? Ela me jogou dentro do poço quando eu estava na forma de um gato e deixou apenas o balde de puxar lá dentro comigo para que eu não me afogasse. Desconfio que eu não sou boa influencia para ela.