Um Outro Lado da Meia-Noite
18 Impostor
A menina de enormes olhos marrons olhava da irmã mais velha para o pai sem entender muitas coisas, sabia apenas que a irmã estava brava com ela e que os gritos furiosos eram a respeito dos passeios inocentes que fazia no bosque. No mais não entendia o que tinha de errado em brincar com seus amigos, não era culpa dela se a irmã se assustava com tudo o que via.
– Tem que tirar isso dela pai, antes que alguém se machuque. Ou pior antes que alguém descubra e a mande para uma fogueira – pediu a jovem de dezessete anos com voz esganiçada pelos gritos
– Não posso simplesmente obrigar Mort abrir mão de sua magia, Margarida. Ela só tem sete anos, mal sabe o que é.
– Ela é perigosa, papai. Por que não é como a Verby que faz as coisas sair voando ou desaparecerem?
– Ela é uma criança ainda Margo, não espere que aprenda do dia para a noite o que é certo ou errado no Mundo da Magia – disse o garoto sentado á mesa.
– Cale a boca, Narciso. Você não estava lá, não viu o que eu vi. Não foi você que quase foi destroçado por... por sombras.
– Não foi culpa da Mort se as sombras te atacaram...
– Não foi? – Margarida gritou furiosa – Ela estava fazendo bruxaria perto do riacho e falando com sombras, queria que eu fizesse o que? Deixasse nossa irmã com aquelas coisas?
– Eles são meus amigos, Margo – a menina tentou se explicar mais uma vez, temerosa – Só estavam brincando comigo.
– Aquilo não era brincadeira Morticia – a menina se encolheu quase se fundindo á parede pelo grito acusador da irmã – Você podia se machucar. E não são seus amigos. São malignos.
– São meus amigos sim, e você é má – gritou caindo no choro novamente.
Morticia vivendo tão longe de pessoas de sua idade se apegou a brincar sozinha na ausência de Narciso e de Verbena, sua irmã mais nova, era pequena demais e sempre a irritava enquanto á mais velha era adulta demais e nunca tinha tempo para brincar. Com o tempo a menina achou distrações adequadas para sua natureza mística, sempre que conseguia ia para o bosque onde brincava com seus amigos, não eram pessoas de verdade, disso ela sabia por que eles lhe contaram. Eram sombras. De algum modo que ainda não haviam lhe explicado ainda, eles respondiam á magia dela, desse modo ela podia falar com eles e eles compreendiam, ela também os entendia, os ouvia.
Naquela manhã havia escapado da vigilância alheia de Margarida e fora para o bosque brincar com as sombras. Eles á chamaram para conhecer sua casa, no outro lado da realidade. E assim a menina passou o dia na Terra das Sombras, um lugar que era ao mesmo tempo triste e encantador, frio e aconchegante, perturbador e tranquilo. Morticia estava tão entusiasmada com o passeio pelo mundo desconhecido da magia que nem ligou para o tempo. Já estava escurecendo quando as sombras começaram a pedir que ela retornasse ao mundo humano. Disseram eles que não podiam protegê-la durante a noite naquele lugar, que infelizmente podiam a achar e não deixariam ela voltar para casa e a encontrasse ali. A contra gosto ela retornou. As sombras então a guiaram para casa pelo caminho mais curto, pelo riacho. Ainda entusiasmada com a possibilidade de voltar outro dia ela se deixou envolver pelas sombras que a fizeram flutuar sobre as águas. Ria animada ouvindo sobre elfos de fogo e elfos de luz que estavam em constante desarmonia com os elfos sombrios quando ouviu a irmã gritando pelo seu nome. Mecanicamente respondeu ao chamado da irmã que veio ao seu encontro.
Margarida gritou desesperada ao ver a irmã cercada de sombras sobre o rio, mas Morticia não estava se importando com o perigo, as sombras não fariam nada contra ela, e preocupada com os gritos histéricos da irmã a menina pediu para que as sombras a colocassem no chão. Por alguns minutos tentou acalmar a irmã dizendo que estava tudo bem, mas Margarida estava apavorada demais para ouvi-la e começou a apertar seus braços e chacoalha-la falando coisas desconexas, o medo de Morticia foi sentido pelas sombras que se apressaram para proteger a pequena bruxa. Margarida foi puxada pelas sombras e arrastada á força de perto da irmã, começando a se debater e gritar por socorro. “Solta ela” – pediu Morticia assustada com a agressividade dos amigos – “Parem, vão machucar ela, parem”. As sombras obedeceram ao pedido da criança e soltaram Margarida. A mais velha a olhou assustada, onde as sombras tocaram ardiam tanto que ela não teria ficado surpresa se as roupas pegassem fogo. Morticia deu um passo para perguntar se ela estava bem, mas Margarida ainda amedrontada pelas trevas que as cercavam não deixou a irmã falar, apenas a puxou pela mão e correu com ela para casa, para longe das sombras. Ao menos foi o que ela pensou.
Morticia limpou o nariz percebendo o movimento nas sombras, era lento e silencioso, mas ela os percebia ainda assim. Sabia que as sombras estavam impacientes com aquela discussão entre Margarida e o pai a respeito do perigo que ela estava se tornando para todos ao redor devida sua aproximação com as trevas, e a impaciência deles deixava Morticia assustada. Tentando não prestar atenção aos sussurros das sombras ela ergueu os olhos marejados para a discussão do pai com a irmã. Inácio, seu pai, dizia:
– Vou conversar com a amanhã com a senhora Cellini, Mort ainda não está em idade de aprendizado, mas dadas as circunstancias ela terá que começar seus estudos imediatamente.
– Acha seguro deixa-la com outras crianças, pai? Mesmo as como Verbena?
Inácio manteve um olhar repreensivo na filha mais velha por um tempo, Margarida cruzou os braços, sabia que o pai não gostava quando tratava as irmãs daquele modo como se elas fossem diferentes. Morticia se mexeu desconfortável sentindo as sombras se moverem, estavam ficando chateados com sua irmã mais velha.
– Morticia, preste atenção. As sombras são perigosas, você precisa ficar longe delas.
– São meus amigos papai, eles só querem me proteger das coisas más.
– Eu sei que você acredita nisso, mas entenda. Você é uma bruxa e as trevas são perigosas para uma bruxa.
Morticia discordou com um aceno violento de cabeça. Por que ninguém escutava o que ela dizia?
– As trevas não são perigosas para as pessoas, o que as pessoas fazem com as trevas é que é perigoso. Nem todos que vivem na Terra das Sombras são maus, só são diferentes. Como eu.
Inácio trocou um olhar preocupado com os filhos mais velhos e perguntou cauteloso:
– Onde ouviu isso Mort?
– Eles me disseram – Morticia desviou os olhos para as sombras espessas que cobriam parte da cozinha.
O pai e os irmãos seguiram o olhar dela, Margarida correu para junto do pai e Narciso desceu da mesa se afastando á uma distancia “segura”. Nenhum deles havia notado a escuridão silenciosa que tomava conta da cozinha.
– Faça ela parar com isso pai – choramingou Margarida apavorada
– Não estou fazendo nada, Margo – se defendeu a menina – Eles vieram para me proteger.
– Te proteger? Acha que nós, sua família, machucaremos você? – gritou Margarida se virando para Morticia, furiosa.
A escuridão pareceu ficar mais intensa e se arrastou para mais próximo de Morticia fazendo Margarida soltar um grito e pular para trás com os olhos arregalados.
– Morticia, fala para essas coisas irem embora – pediu Narciso com os olhos fixos na irmã, a única coisa que parecia racional naquela cozinha – Não te faremos mal nenhum.
Morticia olhou para o chão escuro por alguns minutos e ergueu a cabeça com olhos marejados e assustados.
– Elas acreditam em você, mas não querem me deixar com a Margo. Ela quer que eu deixe de ser quem sou. Ela tem medo de mim.
Margarida prendeu a respiração, de fato ela estava mais assustada com a irmã á cada minuto que se passava naquela noite sinistra. Ainda mais com aquelas demonstrações de magia negra. Narciso encostou-se á mesa novamente, as sombras estavam cobrindo a cozinha inteira com exceção do fogão onde ainda haviam brasas incandescentes brilhando opacas na escuridão e as velas sobre a mesa que iluminava precariamente o espaço mínimo onde a família estava. Inácio se curvou diante de Morticia ficando á sua altura e a fitando nos olhos marejados.
– Morticia, isso tudo é novidade para você, mas Margarida não é como você é por isso que tem medo.
– Sisor também não é como eu e ele não tem medo de mim. Ele não quer que eu seja diferente.
– Temos medo do que não entendemos Morticia, faz parte de nossa natureza humana temer o desconhecido.
– Você tem medo de mim também papai?
Inácio fechou os olhos, assentiu vagarosamente. Morticia se afastou dele e as sombras a cobriram por completo.
– Morticia – ela ouviu a voz distante de seu pai, ele estava apreensivo – Você está nos assustando assim. Não pode se esconder nas sombras. É perigoso.
– Estou com medo – choramingou ela sem achar saída – Me ajuda papai, estou com medo.
– Fique calma Mort. Vamos tirar você dai...
Morticia desejou que tudo aquilo fosse um sonho ruim, então parou de ouvir a voz do pai e tudo simplesmente desapareceu na escuridão. Acordou novamente em sua cama, era dia. Lembrava-se de ter um sonho diferente sobre um mundo estranho e sombrio, de ter chorado pela irmã que brigava com o pai por algo que ela fizera de errado e sombras, sombras alegres por ela estar com eles e tristes por ela partir. Seu pai a fizera prometer que jamais voltaria a se envolver com as sombras, por que as sombras a protegia das coisas ruins, mas ela não podia proteger sua família das sombras.
☺ Morty narrando☺
Abri meus olhos fitando o teto do quarto, havia algo ruim acontecendo lá fora, com minha família. Fazia duas semanas que recebi a visita de Verbena e Leonel. Ninguém me dizia nada, nem mesmo a doutora Lucero. Não gostava daquele silêncio gritante que me cercava algo esta acontecendo e estava ficando neurótica com isso. Precisava fazer algo, mas todas as possibilidades que pensava me levam a uma única saída e no fim dessa saída havia uma enorme placa brilhante sinalizando: Perigo!
Mais uma vez fechei meus olhos, encarar a escuridão me deixava angustiada, sem muito que fazer no silêncio ensurdecedor daquele quarto eu comecei a chorar, chorei até dormir. Fui acordada por um dos enfermeiros, ele me dissera que tinha uma visita me aguardando na sala da doutora Lucero e isso me deixou ansiosa. Quem teria vindo me visitar para que fosse chamada á sala da bruxa bisbilhoteira? Digo, a especialista em distúrbios mágico comportamentais. Sem perder meu tempo perguntando algo que sabia não me seria respondido, me encaminhei á sala da médica. Na verdade eu corri, andar quando tenho pressa me deixa irritada. Bati uma vez na porta e a abri. Havia um bruxo todo elegante sentado na poltrona diante da mesa da Lucero. Olhei dele para ela e novamente para ele.
– Me chamou doutora? – perguntei apreensiva tentando associar o homem á alguém que eu já tivesse conhecido, ele me era vagamente familiar.
– Gardênia de Belaya – disse ela com o mesmo tom simpático que me fazia desejar muito mal á ela – Este é George Linnett o conselheiro-mor da Ordem das Bruxas e Magos de Risveglio.
O homem se levantou com um irresistível sorriso e a mão estendida, já disse que não gosto desse tipo de cumprimento formal? Entre os humano-normais não há problema nenhum, mas entre nós bruxas... um toque é o bastante para saber segredos inconfessáveis quando o bruxo é habilidoso o bastante para ultrapassar as barreiras mentais das pessoas. Ignorei a mão estendida dele, dizendo:
– Não é não.
– Gardênia
Ignorei também o tom repreensivo da doutora mantendo meus olhos focados no George a minha frente. Aproximados quarenta anos, alto, magro, bronzeado saudável, nariz reto, cabelos cor de carvão, olhos azuis. Faltavam os cabelos grisalhos, olhos frios e pele enrugada.
– Achei que o Senhor Conselheiro tivesse uns setenta anos, eu vi ele uma vez.
– Esse á quem se refere era meu pai – disse ele com voz grave em um tom divertido – Ele faleceu á pouco tempo e o conselho me escolheu para substituí-lo. Sou George Linnett III
Não era George III que estava na minha frente, eu o conhecia também. Parecia muito, realmente. Mas para ser ele, esse em minha frente precisaria ter uma cicatriz no pescoço próximo ao queixo, e ter olhos de cor azul-prateado diferentes do belo par turquesa que exibia e ser menos simpático do que estava sendo. Muito menos simpático. Não sabia o que eles queriam comigo, mas se queriam me fazer de tola, que fosse. Eu estava entediada mesmo.
– Achei que precisava ter pelo menos cinquenta anos para ser o Conselheiro-mor de uma região.
– Essa é uma das Regras do Conselho, mas infelizmente dos bruxos de nossa Ordem eu era o mais qualificado para exercer o esse oficio.
– Mas nesse caso não deviam enviar um Conselheiro do Magistério? Segundo a Lei da Tradição, nenhuma Ordem Mística ou Clã ou Sociedade deve reger acima das leis antigas. Escolherem o senhor como novo Conselheiro-mor sem que aja escolha livre dos bruxos e bruxas de Risveglio não é agir contra as leis de nosso povo?
– Liberdade de escolha infelizmente não era opcional neste caso, precisávamos de alguém para representar nossa Ordem e como já disse eu era e sou o mais qualificado para fazê-lo.
– E em quais qualificações julgaram o senhor como o mais apto á nos representar?
– Está tentando contrariar o julgamento dos conselheiros da magia?
– Ah! – exclamei balançando a cabeça negativamente, assumindo meu papel de paciente impaciente – Estou fazendo isso de novo, me desculpe.
– Fazendo o que? – ele perguntou confuso
– Gardênia tem o habito de distrair a atenção das pessoas, senhor Linnett – explicou a doutora me olhando do modo repreensivo que as pessoas sempre me olham quando falo o que não devo.
– Me desculpe senhor conselheiro, não fiz por querer. Eu fiquei nervosa. Por que o senhor veio me visitar? Eu fiz alguma coisa? Aconteceu algo com meus irmãos? É por isso que minha irmã e meu amigo não vieram mais me ver? Eles estão feridos?
– Gardênia, respire – Dra Lucero pediu se levantando, eu tinha simulado uma crise nervosa á poucos dias e ela sabia que eu começaria a me debater se não ficasse “calma”.
Parei de falar respirando com muito exagero, mantive meus olhos no falso George. Era da semelhança dele com o verdadeiro George que eu havia imaginado familiaridade, me perguntei se a Dra Lucero sabia disso, que estava diante de um impostor. Desviei minha atenção para ela, péssima hora para ela se importar com a sanidade de sua paciente louca, ela expressava apenas preocupação por mim. Quando ela finalmente aceitou que eu estava bem e que não ia atacar o falso George, saiu nos deixando á sós, percebi então que ela acreditava que ele era quem dizia ser ou fingia melhor que eu – provavelmente ela é boa mentirosa.
– Você está bem, Gardênia? – perguntou ele me fitando com as sobrancelhas unidas
– Estou, logo vão me trazer um chá que vai me fazer dormir então vou acordar melhor – mudando de louca perigosa para louca distraída me foquei na janela atrás da mesa da doutora, onde podia ver o pé de macieira solitário cercado por pedrinhas brancas e bancos de madeira – Veio me dar uma noticia ruim, não é?
– Por que acha que venho trazer noticia ruins? – perguntou com suavidade
– Dias sem receber visitas e quando alguém vem me ver é o Conselheiro-mor, isso significa que algo muito importante aconteceu e as coisas importantes sempre são acompanhadas de coisas ruins.
– De fato as noticias que trago não são as melhores – olhei para ele desejando estar com a expressão neutra que geralmente eu mantinha – Verbena e seu amigo Leonel Cellini não têm vindo visita-la devido á acontecimentos graves em Ferrara. Como deve ter sido comunicada pelos mesmos na última visita, Oods estão á procura de seu sobrinho, Andreas Marshall. Nos últimos dias eles estão empenhados em alcançar os objetivos deles. Tanto Verby quanto a família Cellini estão focados na proteção de Andreas. Isso justifica a ausência deles, quanto á minha presença se dá a outro problema na qual á senhorita esta envolvida.
Voltei minha atenção para a janela, o falso George chamou minha irmã de Verby, todos a tratam por baronesa ou senhora Quarini. Me foi ensinado que se trata uma pessoa de modo informal quando se á certa proximidade e confiança para tal ato. Chamar minha irmã pelo apelido de família significava que ele era intimo de Verbena. Recapitulando minhas memórias recentes, Verbena me falara sobre George com a mesma proximidade que eu usava para me referir á Leonel. Mas esse não era George, não o verdadeiro. Há quanto tempo esse desconhecido estava agindo como George Linnett e por quê?
– Eles estão bem? – perguntei interrompendo algo que ele dizia e que sequer ouvi – Minha família?
– Sim, estão bem. Estão sobre a proteção do Conselho.
Grande coisa estar sobre proteção de um conselho liderado por um impostor. Virei-me rapidamente para encara-lo. Era por isso que ele, fosse quem fosse, estava fingindo ser George, para liderar o conselho mágico. Me arrependi de minha reação, ele perguntou:
– Algum problema Gardênia?
– Qual o motivo de sua presença? – perguntei ansiosa para que alguém entrasse ali e me levasse para o quarto onde eu ficaria trancada sozinha com meu silêncio, longe do impostor.
– Como deve saber estávamos investigando os acontecimentos ligados ao ataque da senhorita aos três caçadores humanos, há seis semanas e quatro dias, na qual foram cruelmente assassinados e marcados pela insígnia do clã Izva – ele ficou em silêncio, mas não me movi. Apenas o olhava, estudando sua expressão, ele seguiu – As acusações e provas sobre o que aconteceu não foram contestadas por ninguém, embora tenhamos, Verby e eu, procurado por uma resposta que provasse sua inocência. Não conseguimos nada.
Dei de ombros.
– Sua punição será realizada ao amanhecer de amanhã.
– Não entendi – disse baixando a mascara de distraída que eu mantinha – Matei três homens que não possuíam menor possibilidade de se defenderem de mim. Sei que a punição para meu crime é prisão perpetua. Por que serei punida amanhã? Eu não devia ser apenas enviada á prisão?
– O júri já havia á julgado e de fato deveria ser enviada á prisão há três semanas. Entretanto alguém objetou pela decisão do júri alegando sua insanidade. Por isso a mantivemos aqui, sobvigilância constante e foi confirmado que não tem menor controle sobre seus atos.
– Quem objetou? – o interrompi
– Sua irmã, Verbena. Ela pensou verdadeiramente rápida usando seu comportamento agressivo no hospital e sua estadia no sanatório para livrá-la da prisão. Por isso foi novamente julgada e foi de consenso geral que a senhorita representa perigo á todos ao seu redor, então recebera um selo classe A.
– A marca dos banidos? – um selo rúnico no centro da mão que me impediria de fazer magia.
– A marca dos banidos é um selo de classe B. Na verdade o único selo de classe A existente é o Trevo Vermelho.
Iam tirar minha magia à força.
– Não podem fazer isso – gritei me levantando – Não podem.
– Senhorita, se controle.
– Eu sou uma bruxa, não podem arrancar a magia de mim, não é justo. Não pode me punir desse modo.
Thomas e Antonio entraram seguidos da Dra Lucero, os enfermeiros me seguraram enquanto ela pressionou a mão em minha testa e apaguei.
...
Estava tudo escuro e silencioso, abri meus olhos sentindo as pálpebras pesadas, estava exausta e cansada, sentia que podia dormir por um ano inteiro. Ergui minha mão para limpar os olhos, e percebi que minhas mãos não moveram. Eu estava paralisada e presa. Procurei me lembrar o que havia acontecido... Me lembrei de um falso George Linnett que havia assumido o conselho regional de magia, ele havia me dito que eu iria receber um selo. O trevo vermelho. O selo do trevo impede qualquer pessoa usar qualquer tipo de magia ou alquimia, nem mesmo uma poção que eu fizesse teria a propriedade mágica essencial, seria apenas um chá com gosto bom ou um pó colorido ou uma solução química sem muitos efeitos além dos efeitos legais da ciência-física. Nem mesmo uma pessoa que escolhe deixar de ser bruxo recebe um selo desses, geralmente uma marca que neutraliza as forças. Quando Magnolia fez um juramento de sangue prometendo jamais usar magia novamente, ela recebeu um selo da lua-dourada – é claro que ela não teve problemas em quebrar o selo e me amaldiçoar.
Fechei os olhos novamente, sentia muito sono. Mas algo me impedia de dormir, uma sensação de perigo. Eu provavelmente havia dormido por horas e pela escuridão no quarto e silêncio fora dele só podia ser madrugada. Ao amanhecer eu seria levada para o tribunal do conselho e diante deles seria obrigada a ler um juramento perpetuo, derramariam meu sangue contra minha vontade e me marcariam com meu sangue derramado. Um selo na forma de trevo. Uma maldição eterna da qual me privaria da magia, pior que ser gato.
O falso George havia vindo me informar que eu estava condenada. Minha irmã e Leonel estavam ocupados protegendo Andreas... mas Verbena havia tentado me ajudar apelando para o fato de que eu estava internada em um hospital de reabilitação, embora tenha certeza de que não sou louca. Verbena saberia que aquele quem veio não era George? O pior é que eu nem poderia esperar um dia a mais para perguntar á ela o que estava acontecendo. Por que ela não havia me dito que haviam me julgado e condenado e que ela havia objetado? Se aquele não era George onde o cavalheiro pirata estava? E por que ele deixou que um impostor assumisse sua vida? Se era verdade que o pai dele havia morrido... Não. Eu sou paranoica compulsiva com mania de perseguição.
Talvez o pirata que eu conheci não fosse George Linnett, ele nunca disse que era. Eu concluí que era e nunca pedi confirmação. Mas se não fosse por que eu teria tanta certeza que esse que veio me visitar hoje não era quem dizia ser? Eu estive tempos demais no convento, distante do mundo mágico, não sei nada do que aconteceu no período de quatro anos em que me dediquei á viver como uma pessoa comum. Talvez eu realmente seja uma louca e não quero admitir isso, por isso perco meu tempo imaginando conspirações e perigos em todo lugar. Eu iria de qualquer modo ser privada de magia ao amanhecer e nada do que eu dissesse teria valor, afinal eu, para qualquer pessoa sou uma louca perigosa e quem dá ouvidos aos loucos? Verbena estava ocupada protegendo nossa família, eu era apenas um problema a mais da qual eles estariam melhores se não existisse. Sem magia eu não seria mais amaldiçoada e poderia ser mantida em um asilo para doentes mentais no mundo humano. Sem magia também não poderia proteger minha família de quem quer que fosse que nos quisesse mal. Seria apenas uma Belaya á menos para aqueles Oods perseguirem.
– Papai, Vovó – murmurei para o teto escuro – Mais uma vez o nome de nossa família será ligado ás trevas. Decido-me pelo que é melhor para aqueles á quem amo e não me importa o que dirão sobre minhas escolhas contanto que eu possa manter minha família segura. Tão pouco pedirei perdão pelas coisas que terei que fazer para mantê-los protegidos.
Fechei os olhos e me deixei envolver pela escuridão pulsante ao meu redor. Senti as amarras se desprendendo dos meus braços e pernas. Ouvi sons tristes ecoando ao meu redor, murmúrios, sussurros, ronronados e gemidos. Não passou mais de alguns segundos e então senti uma brisa suave tocou meu rosto e não resisti a abrir os olhos. Estava em um lugar conhecido, árvores muito altas cujas copas impediam a passagem do sol – ou da lua neste caso. Um silêncio sussurrante, milhares de camadas de folhas secas no chão e pontinhos brilhantes piscando aqui e ali, observando a estranha que aparecera no coração da floresta sombria. Respirei algumas vezes me adaptando á escuridão da floresta, ainda estava me sentindo sonolenta e não sabia que direção seguir. Pedindo as sombras que velassem por meus sonhos, adormeci encostada á uma árvore.
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