Um Outro Lado da Meia-Noite
38 Encontro
— Tem alguém em casa? – gritei – Oi!
Quem apareceu para me guiar me fez sentir o coração parando de bater. Não era nenhuma das pessoas que eu esperava, mas podia ser alguém desconhecido. Me sentira melhor e menos... Traída. Ele sorriu, mas não era um de seus sorrisos debochados que eram acompanhados por aquele brilho divertido nos olhos. Esse era diferente, falso.
— Devia ter pegado um dos cavalos em vez de vir á pé – falei tentando não gritar, chorar e usar todas as forças que eu tinha para derrubar o palácio das cinzas.
— É você devia sim – ele disse sem entonação – Teria nos poupado de esperar. Vamos, Morticia.
Céus como pude me deixar enganar com aqueles olhos alaranjados brilhantes? Dei um passo na direção que ele ia, teria ido para o lado oposto, mas fui incapaz de reunir forças para fugir do que estava por vir. Não sei quando minha vida se tornou uma tragédia de marionetes onde os cordões eram manipulados por criaturas corrompidas pelas trevas. Infelizmente para eles, apesar de eu ser uma daquelas pessoas estúpidas que colocam o bem dos seus entes queridos antes de qualquer coisa inclusive a própria segurança, eu nunca fui o tipo de pessoa que se deixa manipular por ser ingênua, talvez meus medos sejam um ponto fraco que qualquer um que me conheça possa usá-los contra mim, mas sendo franca estão todos errados ao meu respeito. Eu nunca fui flor que se cheire. Posso me esconder pelo tempo em que for preciso para que não coloquem as garras em mim, tolice daqueles que insistem em me caçar e me achar na tentativa idiota de fazer algo contra mim. Cuidado com as tentações, Pirata, ela esconde segredos que não devem ser revelados. Foi isso ou algo muito parecido, que a senhora Gale disse á George quando ele era o capitão de um navio pirata. Parece-me ter sido em outra vida, e de certo modo foi. Foi em uma vida em que eu era uma boa pessoa, uma bruxinha que realmente acreditava que coisas boas aconteciam quando se fazia coisas boas. Mas não é verdade, não importa o quanto você seja uma boa pessoa, nunca é o bastante. Pobre George, se ele tivesse levado o aviso da velha vidente em consideração, teria apenas me levado até minha irmã e me esquecido, mas não. Ele precisa tentar me fazer mudar de ideia, precisava baixar à guarda e me deixar contamina-lo com... argh! Estou fazendo de novo, me culpando pelas decisões erradas que as pessoas próximas á mim tomam e que destroem suas vidas. Ás vezes eu me odeio por ser assim. Seria melhor se eu fosse sempre indiferente, insensível. George foi quem escolheu ir pelo pior lado das trevas, Verbena também. Sinto uma pontada de mágoa, quando foi que ela mudou de lado? Por quê? Minha irmã sempre foi tão concentrada, tão forte, tão melhor que todas as outras bruxas que conheço.
As palavras de Leonel ecoaram na milha mente: você não é a única pessoa boa capaz de fazer coisas ruins... Verbena foi corrompida pela escuridão... eles serão poderosos e imortais. Imortalidade soa tão ridículo quando se pensa no assunto, quem quer viver para todo sempre? Ver todos os outros partir? Não, minha irmã não teria petulância para tanto. Ela viveria sozinha, enlouqueceria. E me lembro de que ela não estaria sozinha, estaria com ele, o pirata. E mesmo que vivessem por mil eternidades teriam todas as companhias humanas e frágeis que quisessem desfrutar. Gerações e gerações de pessoas passando por suas vidas, se bem que, nem em um pesadelo viver para sempre seria ruim, muito menos com todo o poder que as sombras representam. É terrível eu concluir que viver para sempre não seja tão má ideia, mas o que posso fazer? Sou curiosa. De repente estava imaginando um casal se encontrando em uma rua escura por acaso quando passavam pela mesma cidadezinha enquanto iam para lados opostos do mundo, então trocariam novidades sobre os últimos cem anos que passaram sem se ver e combinariam se encontrar em alguma década futura para tomarem um chá e repassar o quão maravilhoso era poder ser imortal e ver a vida passando ao redor como se fossem livros que liam com atenção, depois iam atrás de outro livro e outro, sempre se apegando á um personagem para logo depois se despedir dele e ir conhecer outro personagem... Por favor, Morticia, está comparando a vida das pessoas com livros?E por acaso estou errada em fazê-lo?
Olho distraidamente para as paredes com seus conjuntos de espelhos enquanto caminho seguindo Dylan, como eu pude me deixar envolver por ele? Devia ter percebido que uma vez monstro sempre monstro e percebo com estranheza que não estou nem um pouco furiosa com o fato de que ele está aqui, me levando para sei lá onde. A imagem de uma criatura disforme cruza o espelho me fazendo olhar para trás, então me lembro de que são espelhos mágicos e devem estar mostrando algum lugar distante. Olho para a cabeleira ruiva á cinco passos na minha frente, e toda a decepção, o medo e a tristeza que senti minutos antes quando o vi ao chegar sumiu. Não sobrou nada, aparentemente sou capaz de separar razão e emoção só não sei se isso é bom ou ruim, sempre que me desligo da realidade, sempre que paro de me importar, sempre que assumo ares de indiferença para com os problemas repetindo á mim mesma que nada posso fazer para mudar o rumo dos acontecimentos... coisas ruins acontecem. Pelo canto dos olhos vejo o lampejo daquela criatura novamente, será que estão vigiando alguém? Ah! Se concentre, digo á mim mesma num sussurro inaudível. Coisas ruins não acontecem por que eu permito que aconteça por que se eu interferir, por que se eu ficar me cobrando, acabo por cometer erros, como quando salvei Valentine daqueles homens na floresta e tudo acabou virando uma série de problemas nas quais me afundei mais e mais. Diminuo o ritmo encarando o espelho, devo estar vendo coisas, tendo alucinações. Valentine estava esperando um filho de meu irmão, e eles iam se casar, eu queria que fossem felizes, mas tinha Dylan, como nossos irmãos seriam felizes quando soubessem que aquele ser monstruoso me traiu? Tudo bem que não tínhamos nada, nem mesmo um acordo, ele basicamente tinha cumprido o que dissera, ia me levar até George e não era isso que ele estava fazendo? E lá vou eu novamente justificar o que os outros fazem. Por que não sou apenas má? Sou uma bruxa das trevas, podia ser mais fácil para eu ser maligna, queria ser como Dylan. Ele é mal e não se esforça para fingir ser diferente, fui eu quem fantasiou que ele tinha um lado bom e oculto, mas não tinha lado nenhum, ele era mal e pronto. Então percebo uma coisa nos reflexos dos espelhos, algo que faz sentir calafrios.
♦
— Seja bem vinda ao meu Palácio, irmã – disse Verbena abrindo um sorriso afável e congelado, como se ela tivesse treinado aquilo.
Por todos os deuses e criaturas celestiais de todos os mundos, era Verbena mesmo. Minha irmã favorita. Meu coração acelera tanto que de repente paro de senti-lo, sinto falta de ar também e as coisas estão ficando embaraçadas. Perco o equilíbrio das pernas e desabo chorando. É minha irmã. Ali. Me olhando com olhos cruéis e verdes, trajando branco dos pés á cabeça e segurando o cajado em cuja ponta brilha um rubi tão vermelho quanto brasa quente. Verbena, minha irmã boa e cheia de luz é uma traidora, uma... uma... rainha das trevas. Como ela pôde? Eu já tinha concluído isso, mas vê-la apenas afirmava tudo, e como eu queria estar errada. Estupidamente errada.
— Pare de chorar – ouvi a voz dela que soava tão sádica... – De todas as pessoas que conheço você sempre foi uma das poucas de quem gostei por ser incapaz de demonstrar esse tipo de emoção, sempre foi tão fria, indiferente, cruel. E agora está chorando como a estúpida da Meg. Vamos Mort, mostre seu lado natural, cheio de raiva e desprezo, cheio de escuridão.
Olhei para ela, como podia sorrir enquanto falava daquele modo? Como podia querer que eu tirasse minha máscara e deixasse transparecer tudo que jurei que não seria? Com um movimento gracioso ela me ergueu no ar, fazendo com que eu ficasse em pé. Enquanto se encaminhava até onde eu estava imóvel. Aquele sorriso congelado no rosto, o mesmo sorriso maníaco que eu mostro quando quero esconder algum pensamento ruim ou algo do gênero. A segui com os olhos até onde conseguia por que ela caminhava ao meu redor.
— Tantas sombras. Vi isso em você desde que era muito pequena. Sempre achei que ser uma profetisa pudesse ser uma maldição, sempre temi o que via quando alguém cruzava meu caminho até o dia em que conheci ele, seu amigo. George. Ele é um homem tão fabuloso e você o deixou escapar por entre os dedos apenas por que tem medo do que é. Uma Cria Das Trevas. Eu via isso desde que você era uma garotinha, desde antes de papai me pedir para ficar de olhos abertos caso você fizesse alguma coisa incomum. Ah! Papai, ele prezava tanto por você. A filha preferida dele, a irmã preferida de Narciso, a bruxa preferida da Família – então ela gritou furiosa – Morticia de Gardênia a preferida de todo mundo.
Sua voz se quebrou no fim, me despertando para a realidade. A olhei nos olhos verdes tão diferentes dos meus. E fiz o que ela fazia até poucos segundos antes de gritar comigo, sorri.
— Achei que tivesse enlouquecido, mas você apenas é uma idiota manipulável que de deixou tocar pelas sombras e não soube lidar com o fato. Deixe-me te curar, Verby.
Ela gargalhou até que lágrimas se acumulassem nos cantos dos olhos.
— Me curar Morticia. Você acha que estou doente? Que preciso de ajuda? Eu nunca estive tão bem, tenho todo poder que você renunciou e o amor de George. Quando Andreas chegar nós iremos canalizar vocês e seremos imortais. Serei a rainha das sombras.
— Não será coisa nenhuma. Vamos irmã, você assumiu o Palácio das Cinzas e se converteu á magia negra, você deve ter sentindo em algum lugar dentro de você uma pequena mudança quando nesta manhã me proclamei soberana dentre todos regentes das trevas. Não importa quantos reinos você tome para si, permanecerei sendo a rainha das...
Ai! meu rosto queimou ao receber o golpe do punho dela. Senti até o gosto de meu sangue na boca, o soco dela feriu o interior de minha bochecha.
— Não devia ter feito isso, tocar na sua rainha, majestade, que coisa mais inadequada...
Outro soco, desta vez no lado oposto. Olhei para ela sentindo o sangue se acumular na minha boca, cuspi em seu vestido branco muito elegante, manchando o tecido delicado de vermelho, o que me rendeu um golpe de um feitiço que ela lançou. Senti frio. Muito frio e perdi a consciência.
♦
Meu rosto estava dolorido, meus lábios ardiam e ainda tinha aquele gosto horrível de sangue na boca. Me forcei á abrir os olhos para me certificar que o fato de que não conseguia levar á mão ao rosto era por que estava presa, de fato tinha os braços presos por algemas grossas que me prendiam á parede, haviam me prendido em uma cela. Genial. Olhei ao redor, irritada. Tinha que me solta, mas conhecendo minha irmã que infelizmente é muito mais inteligente do que qualquer pessoa que eu conheça, aquelas algemas não eram apenas para me forçar a ficar presa na cela, também bloqueavam magia. Percebi o homem esguio sentado do lado de fora de minha jaula, ele parecia muito distraído olhando para mim com seus intensos olhos cor de turquesa e sorriso perfeito.
— É você mesmo? – me ouvi perguntando.
O sorriso dele se alargou,mas não saiu de onde estava tão pouco disse nada por longos minutos. Quando comecei a crer que ele era uma ilusão, respondeu-me.
— Depende de quem pensa que sou, Majestade.
— O Capitão de um navio pirata, George Linnett – respondi me inclinando para frente, mas as malditas algemas não permitiam que eu me distanciasse da parede fria.
— Não, não mais. Um dia eu fui esse dai, mas conheci uma rainha selvagem chamada Libuse Leemyar que me transformou nisto que vê agora.
Ri.
— Então não é quem procuro, é só mais uma pessoa perdida nas sombras. É uma pessoa de verdade, não é?
Ele inclinou a cabeça, me olhando com especulação como se medisse minha sanidade, então perguntou com cautela.
— De que está falando, Morticia?
— Verbena sempre gostou de bonecas de trapo, quando criança ela me ensinou a fazer montes deles. Vodu é uma arte, ela dizia. Todos os tipos de títeres sempre a interessou, principalmente os espantalhos, eu nunca gostei deles, sabe. Os homens-palha, prefiro os bonequinhos de vodu tradicionais costurados com trapo ou feitos de barro.
— Está me enrolando com que pretexto, Morticia?
É claro que ele já me conhecia, se conhecia Verbena. Aquela traidora sabe como posso entrar na cabeça de algumas pessoas quando essas se distraem, pequenos truques que se aprende vivendo como apanhadora de sonhos.
— Pretexto nenhum, apenas pensando em como ganhar sua confiança para que me solte. Mas acho que não vai funcionar.
— Inacreditável como não mudou todos esses anos. Permanece a mesma.
— Não é verdade, eu mudei sim. Estou pior. Onde está sua noiva real? Quero falar com ela, ainda somos irmãs até onde me lembro.
— Verbena desistiu de te esperar acordar,ela foi buscar o menino. Está ansiosa para se livrar de você.
— Não é ansiedade, é só medo de mudar de ideia e se arrepender.
Então me dei conta de uma coisa, estávamos conversando. Eu e ele. Conversando.
— O que vocês vão fazer comigo? – questionei assustada – Por que está sentado aqui conversando com sua prisioneira como se fosse tão natural?
— Não é minha prisioneira, Majestade. Você é prisioneira de sua irmã.
— Então me solte – pedi
Ele riu. O mesmo som agradável que eu me lembrava.
— Um segredo á ser guardado, aquela sua amiga vidente tinha razão, eu devia ter te deixado partir.
— E não deixou? – mas do que ele falava agora?
— Eu te desejei desde o minuto em que a vi caída na relva lá no vale das ninfas. Você parecia com a descrição dos livros sobre um anjo, emanava uma força estranha, atraente e repulsiva ao mesmo tempo. Terrível de todos os modos e mesmo assim fui incapaz de conter o impulso de pegá-la nos braços e querer protegê-la de tudo. Mas você não precisava de minha proteção, era eu quem precisava de proteção contra você. Um beijo foi o bastante para me transformar nisto. Eu fui um homem bom, não o mais exemplar de todos, mas fui bom. Paguei um preço alto para descobrir o perigo de beijar uma súcubo.
— Não sou um súcubo! – gritei ofendida.
E com motivos, ser chamada de manipuladora de sonhos é uma coisa aceitável, mas ser chamada de demônio do pesadelo. Demônio? Já é bastante ouvir as pessoas normais falarem de bruxas como uma aberração da natureza, ser chamada por um bruxo – que foi um pirata e agora é das trevas – de súcubo é uma ofensa imperdoável. E eu nunca causei um pesadelo que seja em ninguém, normalmente sou arrastada para pesadelos alheios involuntariamente ou na maioria das vezes sou eu quem tem pesadelos terríveis, quando uso minha habilidade para algo é para fazer coisas boas. George me olhou com completa inexpressão e balançou a cabeça em afirmação.
— Tem razão, não é um súcubo. É coisa pior. O mundo estava desmoronando em caos e discórdia, e você, a rainha das sombras se contentou em sentar e esperar que tudo se resolvesse por intermédio de outros. Diga-me, Majestade, o que a fez despertar para a realidade e assumir seu fardo? Foi sua irmã ter enlouquecido com o poder?
Verbena...
— Onde está minha irmã? Sua noiva?
— Ela foi buscar o menino, seu sobrinho tem tanto poder que é surpreendente ele ser capaz de controlar tudo aquilo sendo uma criança ainda. É claro que seu amuleto o ajuda, mas mesmo assim é fascinante.
— Verbena vai matar o Andreas?
George se levantou e começou a se afastar da cela onde me jogaram. Disse:
— Não sei, nem me importo com ela e os planos malucos. Já tenho você o resto não me interessa.
Que? ele me tinha? Chamei por ele, mas ele não me respondeu. Que estupidez Verbena tinha feito e por quê? poder? Ela já tinha poder, para que mais. Como gritar e espernear tentando me libertar se provou inútil depois de alguns minutos, preferi esperar. Algo ali me impedia de usar magia, me impedia até de atrair as sombras que sempre estiveram ao meu lado.
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