Um Outro Lado da Meia-Noite

29 Compreendendo as indiferenças


Notas iniciais
Olá galera, Mais um capitulo para vocês, Boa leitura

Dylan é arrogante e debochado consegue me irritar até quando me deseja bom dia, entretanto me diverte. Passar as madrugadas tentando ajuda-lo com o pó mágico foi bom para me distrair, chegamos perto de conseguir o resultado de mudança de forma quando o caldeirão de ferro em que cozíamos a poção virou uma bacia de bronze e depois se desintegrou. Sério, quem foi o ser brilhante que criou um pó feito á base de líquidos? Uma madrugada enquanto limpávamos a bagunça da cozinha, perguntei á Dylan:

– O que aconteceu com Donatella?

Havia sonhado com ela aquela tarde enquanto cochilava debaixo da cama, depois passei o resto do tempo pensando em como ela e sua filha deveria estar. Dylan me olhou confuso:

– Donatella?

– A meretriz que iam queimar por bruxaria na praça.

– Morreu.

O olhei incrédula, Dylan guardava as coisas nas caixas como se tivesse respondido á uma pergunta qualquer. Por um segundo pensei que fosse mentira, mas não vi nenhum sorrisinho irônico ou tom de deboche.

– Mentira – disse mais para mim que para ele

– Não, ela realmente morreu. Na verdade já estava morta quando a retirei da pira.

– Uma pessoa morre e você informa como se comentasse sobre o tempo – falei chocada

– Desculpe minha falta de sensibilidade, mas o modo com que informo a morte não alguém não muda o fato dessa pessoa estar morta. Mas se quer saber eu lamento pela sua amiga e pela filha dela.

– Adália! – aquela sensação de piedade e culpa que tanto me irrita me invadiu — Era apenas uma criança ainda...

– Não! Não quis dizer isso – disse Dylan gesticulando – A menina não morreu, queria dizer que lamento por ela ter ficado órfã tão cedo.

– Adália não é órfã, ela tem o pai. Ele está vivo, né?

– Não tenho ideia de quem é o pai da menina – disse arqueando a sobrancelha.

– Achei que você conhecesse Edwin, afinal foi ele quem te pediu para tentar salvar Donatella, não foi?

A expressão confusa dele já respondia minhas perguntas, e me fez pensar em outras perguntas:

– Por que você tentou salvar a vida de Dona se não a conhecia? Oh Poderosa Vênus, é claro que você a conhecia... por que não imaginei isso antes...

– O que foi que você imaginou? – perguntou me interrompendo

– Ela vendia prazer e você é homem, simples.

Dylan ficou tão vermelho quanto possível, senti-me ligeiramente envergonhada – não o bastante para causar inveja á um tomate como ele ficou, mas ainda assim envergonhada – esqueci que não estava falando com Leonel, não que eu fosse enfiar minha cabeça no fogão ou sair correndo para o quarto e me trancar pelo resto dos dias. Recuperei-me da crise de timidez e retomei minha postura indiferença desumana – foram essas as palavras que Julieta usou para descrever minha expressão facial natural, ela não acredita que eu tenha morado tantos anos entre freiras, não a culpo no lugar dela eu também não acreditaria. Dylan também se recuperou do espanto, disse:

– Tem uma imaginação maliciosa senhorita.

– Vai dizer que estou errada em pensar que vocês eram... qual é a palavra, amantes?

– Realmente não está errada, impressionante sua capacidade de dedução – disse dando um de seus habituais sorrisos irônicos e perguntou provocativo – aliás, de onde você conhecia a Dana?

Ignorei a provocação, se o deixar me irritar acabamos discutindo inutilmente.

– Não conhecia, o acaso me levou á conhecer a filha dela, me simpatizei por Adália, resolvi ajudar Donatella... tentei pelo menos.

Pobre Adália, pelo menos ela ainda tem um pai, isso se Edwin não for nenhum desalmado que deixa uma criança abandonada á sorte, talvez ela tenha sido enviada para um familiar ou orfanato para ser criada até poder se virar sozinha. Por que fui querer saber sobre a Donatella? Estava tão bem acreditando que ela e a filha estavam em algum vilarejo tranquilas vivendo suas vidas do melhor modo possível. Dylan disse algo em irlandês – estou começando a detestar esse idioma.

– O que disse?

– Disse que você é imprevisível, não conheço nenhuma bruxa que ajudaria uma fada sem querer nada em troca.

– Fada? Não ajudei fada alguma... Donatella era uma fada!

– Meio-fada, a mãe era humana e o pai era saturnyano.

Fadas da água que se parece com tubarões, nunca saem á luz do sol, não refletem no espelho e bebem sangue. Causam bastante trabalho para as sereias e pescadores.

– Que tipo de pessoa tem filhos com saturnyanos? São assustadores e bebem sangue. Donatella bebia sangue também? – perguntei sentindo o estomago revirando ante a possibilidade de alguém beber sangue.

– Se ela bebia, eu não sei tão pouco me interessa saber, e saturnyanos são fadas, manipular a mente dos humanos não é difícil para tais criaturas. Você está bem?

Tinha fechado os olhos e tentado me concentrar em alguma coisa menos nojenta que um cardume de saturnyanos se banhando em um mar de sangue – nem sei por que fui pensar nisso.

– Não gosto da ideia de que alguém bebe sangue para ficar vivo, é nojento.

– Pense pelo ponto de vista deles, nos dependemos da água em qual eles vivem para sobrevivermos.

Abri os olhos encarando a zombaria estampada no rosto daquele ruivo chato, voltei á me concentrar em Donatella, queria fazer outra pergunta para ele, mas agora estava curiosa para saber sobre a meio-fada.

– Se ela era meio-fada por que não se defendeu dos inquisidores? Podia ter usado magia de fada para se livrar deles.

– Como meio-humana ela não tinha todos os poderes de uma fada e ainda que escapasse dos humanos não escaparia das fadas.

– Agora estou confusa, por que as fadas tentariam fazer algo contra ela? Não eram da mesma espécie?

– Bruxos também são humanos e ainda assim somos caçados pelas pessoas normais, e fadas de origem pura não gostam de mestiços, para eles Donatella era uma aberração que não devia existir. Da última vez que falei com ela, Dana não estava mais em seu estado normal, achava que eu era alguém chamado Edwin. Dana foi entregue á absintinas e teria sido devorada por solarines se você não tivesse interferido a tempo.

– Grande inutilidade ter interferido, ela morreu de qualquer modo.

Absintinas e Solarines me fazem pensar em Oods como crianças mimadas. Absintinas ou fadas-verdes são raras de verem vistas, excelentes em manipulação de realidade e espaço-tempo, causam alucinação e enlouquecem as pessoas, quando suas vitimas perdem por completo a noção da realidade, elas, se alimentam do cérebro. Por sua vez as fadas solares desidratam suas vitimas absorvendo tudo até sobrar apenas pó – ou cinzas. Definitivamente fadas me apavoram.

– A menina Adália corre algum perigo por ser fada?

Dylan inclinou a cabeça assumindo uma expressão pensativa. Depois de vários minutos respondeu duvidoso:

– Não sei, acho que ela não herdou muitos atributos feéricos, mas isso depende da natureza do pai.

– Até onde sei Edwin é humano.

– Suponho então que ela seja mais humana que fada, mas não se pode ter certeza. Não posso te dizer que ela não corre algum perigo... se quiser posso tentar saber como ela está.

– Pode? – me animei com a possibilidade, nem sei por que.

– Claro. Qualquer coisa para te fazer sorrir.

Senti meu rosto queimando – não é sempre que consigo reagir com indiferença á certos comentários –, olhei pela janela, era dia já. Logo os criados da casa chegariam os trabalhadores já podiam ser ouvidos do lado de fora, sons distantes de vozes e passos. Pensei em Narciso, sempre pensava nele, não tinha como evitar estava tão perto de meu irmão e ainda assim precisava ignorar a distância.

– O quanto Margarida sabe sobre o que esta acontecendo? – queria perguntar isso desde que conclui que ele não era tão ruim quanto se esforçava para ser.

Ele se levantou se espreguiçando, ouvi os ossos estalando e aquilo me causou arrepios. A porta se abriu em seguida, dona Dolores e sua ajudante entraram na cozinha tagarelando sobre o preparo do jantar – mal havia amanhecido e já estavam preocupadas com o jantar. Elas nos cumprimentaram, a senhora de cabelos grisalhos e uma velocidade formidável para alguém de sua idade nos enxotou da cozinha com toda autoridade que possuía, dizendo que o desjejum seria servido logo e que nosso lugar não era “na sua” cozinha. Dylan me puxou pelo braço me levando para a sala adjacente, comentou que não era seguro ficar entre Dolores e a cozinha. Era desagradável saber que a senhora que me tornou viciada em doces estava sendo manipulada, precisei enfeitiça-la quando aceitei ficar na casa dos Walker, ela simplesmente se esquecia de mim assim que parava de me olhar, era minha proteção máxima, não existir.

– Vá descansar um pouco, passou a noite acordada. Mais tarde conversaremos sobre sua irmã. Preciso ir, bom dia.

Ele desapareceu em um piscar de olhos – os feitiços mais úteis são o que mais detesto. Sentei-me á mesa e aguardei, não consigo dormir depois de amanhece, é como se ao dormir fosse perder algum acontecimento único, sempre dormi muito mal. Os pesadelos sempre me obrigaram a perder o sono e apreciar ás noites, mas nunca durmo durante o dia – com exceção dos cochilos quando estou em forma de gato, algo que sou incapaz de controlar. Valentine e Julieta apareceram alguns minutos depois, não se surpreenderam por minha presença não era a primeira e nem seria a última vez que eu permanecia sozinha em qualquer lugar da casa olhando para o nada, pensando e pensando. Julieta saiu quando terminaram o desjejum, fora buscar algumas encomendas, permaneci conversando com Valentine, ela contou-me sobre seu romance com Narciso e algumas pequenas coisas que ela se arriscava a perguntar á ele sobre minha família, temia perguntar algo errado e ele perceber que ela escondia algo, por isso nunca perguntava mais que “como eles estão”. Verbena estava envolvida com negócios que outrora pertencia ao barão e contava com a ajuda de um amigo, Margarida tinha os filhos e o marido para cuidar, a notícia que me deixou mais surpresa e intrigada fora a novidade de Magnólia estar preparando o casamento que seria realizado antes do inicio do inverno. Valentine não soube detalhar o assunto, e eu me enchi de curiosidade para saber o que tinha acontecido com minha irmã para mudar de ideia daquele modo. Trouxera-me de Ravena para impedir seu casamento de acontecer e agora decidia se casar? O que teria ocorrido para que mudasse de ideia? Ficar sem saber de coisas é algo que me enlouquece, gosto de saber de tudo – quase tudo.

Havia me transmutado em um gato quando Dylan voltou de “lugar nenhum”, da cintura para baixo suas roupas estavam cheias de carrapichos, calçava apenas uma bota enquanto a outra parecia ter sido mastigada por algum animal ruminante e todo resto estava recoberto de barro cinzento, incluindo a cabeça e os braços. Valentine perguntou onde ele estivera o dia todo respondeu que em lugar nenhum e mandou que lhe preparassem um banho, mancava ligeiramente e não parecia bem. Resolvi nem lhe dirigir palavra, ainda queria saber o que ele havia dito á Margarida com exatidão para que ela convencesse Narciso de que eu estava melhor, desaparecida. Tinha certeza que havia sido ele quem intercedera por mim desde que Leonel mencionou “um bruxo que me ajudava”, mas não sei que tipos de bruxarias ele pratica ou qual seu efeito á longo prazo, detestaria descobrir quando tudo isso acabasse que minha irmã mais velha havia se tornado um fantoche de bruxo das trevas. Para confiar em Dylan precisava saber o quão perigoso ele podia ser para minha família.

...

Ele veio falar comigo quando estávamos, Valentine e eu, sentadas em uma árvore que ficava próxima da casa principal. Mandou Valentine descer da árvore, zangado, instruí-a na descida assim como fiz na subida, quando ela pisou no chão, ele segurou seu braço.

– Você perdeu o juízo? O que pensa que estava fazendo subida ali com aquela irresponsável?

– Solte meu braço, Dylan – ela mandou com sua invejável voz suave como se tranquilizasse uma criança – Morticia não é responsável por minhas ações, ainda que fosse não se atreva a dirigir-se á ela novamente desse modo.

Fiquei surpresa, primeiro por ele tê-la soltando quando ela mandou, depois por ele ter pedido desculpas á nós duas e levou sua irmã para dentro, permaneci onde estava. Após alguns minutos ele retornou e sentou-se ao meu lado, onde antes Valentine estava sentada. Pediu desculpas mais uma vez por seus modos, por mim tanto faz o humor dele, contanto que continua me ajudando – se bem que até agora ele não havia descoberto nada á respeito de George e já fazia três semanas que estava na casa dele.

– Tem todo direito de extravasar sua raiva quando está irritado, mas tome cuidado com o que diz, pode magoar as pessoas.

Por alguns minutos ele permaneceu calado, então respondeu a pergunta que havia lhe feito aquela manhã sobre Margarida:

– Sua irmã sabe de quase tudo o que está acontecendo com você, incluindo os verdadeiros motivos por quais você foi presa até sobre a invasão das fadas ao mundo-humano.

– Precisava mesmo contar que matei aqueles homens?

– Precisava, ela achou que estava mentindo sobre você estar presa então mandei que ela fosse confirmar com Sir Narcisista e a baronesa...

– Se chamar meu irmão de Narcisista mais uma vez arranco seus olhos – informei lambendo minha pata esquerda, um ato involuntário.

– Desculpe – disse sem nenhuma sinceridade e prosseguiu – Quando ela confirmou que você era mesmo um “desvio da natureza”, essas foram ás palavras dela, resolveu aceitar me ouvir. Então expliquei para ela sobre o amuleto que protegia Andreas e a importância de te manter longe do conselho de magia, ela também sabe sobre a possibilidade do conselheiro-mor ser um impostor e sabe que você está aqui.

– Margo sabe onde estou?

– Sabe. Ela queria ter certeza que você estava bem, então disse que estava morando em minha casa e que ficaria protegida aqui.

– Á quanto tempo ela sabe disso?

– Contei á ela na manhã seguinte em que você apareceu me procurando, havia pensado em não contar, mas ela estava preocupada com seu sumiço.

Margarida preocupada comigo era novidade, corrigi-o:

– Margarida devia estar preocupada com a vida de quem cruza meu caminho, isso sim.

Dylan se calou, me desloquei no ar e fiquei diante dele, seus olhos estavam alaranjado-brilhantes.

– Me coloque onde estava, agora – mandei, me agitando no ar

– É muito desconfortável falar com você na forma de um gato. Feche os olhos e não os abra até que eu mande.

Fomos envolvidos por sombras, fechei os olhos para não ver tudo o que já tinha visto até chegarmos do outro lado, quando ele me pediu para abrir os olhos, estávamos em uma floresta e eu era humana.

– Floresta Sombria

Ele olhou ao redor como se procurasse algo, respondeu começando á caminhar, o segui.

– Sim, agora podemos voltar a conversar. Disse que sua irmã estava preocupada com quem cruza seu caminho, ela me perguntou algo sobre você ter matado uma cortesã. Depois de socorrer Donatella você passou três dias desaparecida antes de ir me procurar, o que fez durante esse tempo?

– Se quer saber se é verdade que matei mais uma pessoa, é. Na verdade uma bruxa que entregou Dona para os inquisidores... não me olhe assim, não foi a primeira e nem a última vez que me obrigaram a matar alguém em defesa própria.

– Me lembro da expressão de choque em seu rosto esta manhã pelo modo com que informei a morte de Donatella e agora fala como se desejasse bom dia que matou alguém e matará novamente.

– Não disse que vou matar alguém e não me aponte o dedo, não é melhor do que eu. Bruxo das trevas que usa magia negra e possui corpos de animais inofensivos.

Ele me lançou um olhar irritado, por um segundo pensei que havia falado demais, mas no segundo seguinte estava debaixo dele no chão. Nem vi o que aconteceu, ele apenas me jogou no chão, tentei me soltar dele, mas ele segurou meus punhos, se aproximou bastante de meu rosto e sussurrou:

– Eles vão ouvir.

Tentei ver alguma coisa, mas a única coisa que vi foi ás árvores altas e senti o cheiro de sangue, o braço dele estava sangrando aquilo me deixou em pânico – já disse que não me dou bem com sangue?

– Está ferido – sussurrei tentando não respirar o cheiro enjoativo de sangue fresco.

Dylan piscou e mandou que não me movesse, então saiu e me deixou ali sozinha. Não ousei me levantar, apenas virei o pescoço de um lado para o outro. O que é que estava acontecendo?

Notas finais
O que acharam? Dylan afinal não é tão ruim quanto a Mort pensa