Um Outro Lado da Meia-Noite
25 A face do inimigo
Olhei em volta incrédula. Estava no bosque próximo de minha casa. Eu era culpada por estar ali, pedi que as sombras me levassem para junto de uma pessoa que eu não sabia quem era. Únicas referências que eu tinha á ele era um lobo com pêlo cor de raposa e algumas conversas que tivemos contra minha vontade. O bosque foi o primeiro lugar em que pensei quando pedi que me levassem até ele, e cá estou eu. Sozinha. Á noite. Na floresta. Eu devia ter esperado.
– O que farei agora? – perguntei ás sombras que não me responderam, típico.
Minha casa não ficava muito longe, poderia... Não, eu posso ir até lá, mas isso colocaria meus irmãos em perigo. Encosto-me a uma árvore, podia também pedir ás sombras que me levassem de volta para o deposito onde estava, esperar até amanhecer e continuar sendo ajudada por Leonel, escondida... sem poder fazer nada por ninguém além de orar... É, se eu fosse uma pessoa normal eu faria isso, felizmente a única coisa normal em mim é minha capacidade de ficar entediada. Tento pensar n que fazer á seguir, mas única coisa que consigo pensar é na reação de Leo ao entrar no deposito na manha seguinte e não me achar. As sombras me cobriram como um manto, senti-me confortável, calma. Adormeci.
Passei a manhã seguinte andando pela floresta, talvez ele aparecesse como fazia, de repente. Mas isso também parecia que não ia acontecer me lavei no riacho aproveitando que era – ou devia ser – meio da semana e estavam quase todos trabalhando, os riscos de ser achada sem roupas na floresta eram quase as mesmas de encontrar o ser de olhos-alaranjados acidentalmente. Comi algumas frutinhas de gosto runs e raízes que nem sei dizer do que eram. A maldição foi ativada e subi em uma árvore e esperei o tempo passar. Permaneci alheia ao mundo por longas horas, peguei-me tentada á invocar as sombras e pedir que me levassem até George Linnett III, mas quem eu podia encontrar no fim da escuridão, era o que me assustava. Resolvi pensar em algo menos cruel que o tempo, comida. Fui tirada de meu devaneio delirante sobre um banquete de doces pelo farfalhar de um arbusto.
De onde estava vi uma raposa grande se aproximando do riacho e matando sua sede. Por alguns minutos assisti entediada á vida selvagem que estava á minha frente, somente depois dele estar quase desaparecendo no meu campo de visão, foi que percebi que aquela coisa não era uma raposa, era um lobo com pelagem avermelhada. Saltei da árvore e segui a mesma direção que Mercúrio – ou Plutão ou Urano – havia tomado, levei certo tempo para localizá-lo. O lobo andou pela orla da floresta por um tempo, então cruzou a estrada e seguiu fazendo voltas e mais voltas, ora desviando o caminho para perseguir um animal pequeno ora rolando na relva. Realmente senti vontade de gritar para ele parar com aquilo e teria feito se ele não fosse um lobo. Então ele atravessou uma cerca todo coberto por variadas trepadeiras em flores. Parei, por que ele estava entrando ali? Não podia ser uma torre alta cheia de corvos voando ao redor ou uma caverna escura cheia de morcegos famintos ou uma floresta sombria com árvores retorcidas e sem vida? Tinha mesmo que ser a fazenda de flores onde Narciso trabalhava? O que o universo tem contra mim?
Buganvílias, ciclames, gerânios, arbustos de jasmins, dálias, papoulas – por que eles estão cultivando papoulas? – e finalmente vejo o roseiral. Perco-me por um instante procurando encontrar o familiar rosto moreno de meu irmão e tão rapidamente quanto me deixei perder me recupero, o Impostor sabe que estou amaldiçoada e não sei quem pode estar observando Narciso, é muito arriscado tentar falar com ele. Estava em uma área bem mais aberta via o lobo á alguns metros na minha frente indo em direção da casa principal da propriedade, os funcionários o ignoravam com uma tranquilidade que ignorariam um cachorro comum. Estranho. O lobo parou de repente e correu, mudando seu caminho, o segui. Ele seguia o homem ruivo que colocava as rédeas em um cavalo marrom-escuro e branco.
– Vamos Marte, quero voltar antes do anoitecer – disse ao lobo e montou no cavalo.
Mantive-me olhando para eles até sumirem do meu campo de visão. Raiva e tristeza brigavam para assumir o controle de minhas emoções. Dylan Walker era ele então quem havia matado meu pai e retornado para me atormentar. Quanta audácia. Com que permissão os deuses do destino brincava assim com minha vida? Dylan Walker era o ser poderoso que vinha me causando pesadelos por tantos anos. Dylan Walker cuja irmã eu salvei. Agora fazia sentido ele não querer que Narciso e Valentine ficassem juntos, meu irmão o matará quando souber que foi ele quem matou nosso pai, isso se eu não o fizer primeiro. Tracei planos para mata-lo durante a noite, vários planos. Queria que aquele lobo me levasse até George, como pude ser estúpida de esperar isso? Por que fui pensar que seria tão fácil assim? Seguir um animal selvagem e encontrar á pessoa que eu queria?
– Encontrei – falei á mim mesma
Encontrei quem eu procurava o homem por trás da fera. Não era George o que era ótimo, seria doloroso se ele fosse o responsável por me causar tanta dor. Dylan, não era nem de longe o que eu esperava considerando que nem sabia que ele era um bruxo – Valentine é uma bruxa! Será que Narciso sabia disso? Talvez ela não fosse –, eu devia ter seguido o ruivo e seu lobo, mas agora era tarde para isso. Passei tempo demais ‘surpresa’ para reagir. Sai de onde estava e resolvi fazer um passeio pela casa dos Walker, precisava saber o que fazer em seguida. Até ali eu esperava que fosse George quem tivesse por trás da repentina bondade daquela criatura de olhos alaranjados – o que realmente não era possível, George me conheceu quando eu tinha quinze anos e os olhos-alaranjados-brilhantes me perturbava há muito mais tempo – o que eu ia fazer?
...
A melodia era suave e hipnótica, belíssima. Como alguém tão malvado podia ter aquela habilidade de tirar das teclas um som tão maravilhoso? Minha revolta e medo foram espantados enquanto ouvia Dylan tocar o piano, tão perfeito. Passei a tarde toda me escondendo no casarão, não foi difícil me esconder deles na forma de um gato, Dylan retornou para sua casa pouco depois do anoitecer, maioria dos criados já haviam ido embora, apenas Julieta ficara fazendo companhia á Valentine. Aproveitei-me do fato da moça cega e sua criada ficarem na biblioteca para fazer uma vistoria completa na casa, não achei nada incomum, normal para a casa de bruxos que moravam neste lado do mundo. Fui tirada de meu estado hipnótico quando Dylan parou de tocar.
– Errei de novo – disse ele estalando os dedos.
– Achei que tivesse errando propositalmente – comentou Valentine, sentada em uma poltrona – Eu disse que devia voltar á tocar violino.
– Já não está na sua hora de dormir?
Valentine riu se divertindo com o temperamento ranzinza do irmão, desde que ele voltara de seja-lá-onde-estava o humor da gentil ruiva mudara. Não havia me dado conta da saudade que sentia de meus irmãos até vê-los discutindo inutilmente por qualquer bobagem, fosse por Valentine estar descalça – o que parecia ser uma discussão habitual – fosse por Dylan se atrasar para o jantar ou fosse por ele ser uma “espécie em extinção que devia ser estudada pelos homens de ciência”. Passei tempos longe de minha família, mas eu sempre soube onde estavam e como estavam, agora só tinha duvidas e incertezas.
– Leve-me para o quarto Julieta – pediu Valentine se levantando – Dylan não quer mais nossa companhia.
A criada que estava sentada reta em uma cadeira acolchoada se levantou prontamente, estendendo a mão para Valentine e a guiando para fora do salão. Dylan as acompanhou até a porta desejando bons sonhos a irmã e a criada. Quando elas se trancaram no quarto – que eu sabia ficar alguns metros de onde estávamos – o bruxo trancou a porta e se virou para o salão:
– O que quer? – o tom dele mudou do gentil que usava com a irmã para seco
Senti meu felino coração pulsando com mais força. Ele havia me descoberto! Felizmente para mim, minhas pernas travaram e enquanto eu procurava coragem para me mover, uma esfera de luz vermelha enevoada surgiu diante do piano assumindo uma forma humanoide impossível de identificar:
“Recusou meu chamado, por quê?” – perguntou a nevoa vermelha.
– Tenho coisas mais importantes para fazer que discutir Imogen.
“Discutiremos enquanto agir como uma criança. Precisamos você em Esferah”.
– Minha resposta continua sendo a mesma. Não vou.
“Não pode fugir das responsabilidades para sempre”
– Minha responsabilidade é cuidar de Valentine. Vocês sabem se cuidar muito bem sozinhos.
“Devlin quer a família toda reunida, você precisa ir”.
– Quer dizer Angus e Endora querem. Certo?
“Dá na mesma”
– Sabe que não, se fosse escolha da Senhora Devlin seria deste lado essa reunião, para que aqueles sem magia pudessem participar.
“Não discutiremos isso novamente, Dylan. Você virá nem que eu tenha que arrasta-lo”
– Tente – disse ele se aproximando da nevoa vermelha
“Não me provoque. Sou mais velha que você, isto não é um pedido é uma ordem. Veremos-nos amanhã na casa de Noah e não se atreva á não comparecer”
De onde estava não poderia dizer com precisão se o ruivo estava vermelho ou se era apenas reflexo da projeção vermelha enevoada, mas ele parecia estar zangado e deixava isso transparecer na voz:
– Me recuso á encontrar novamente com aqueles mentirosos, não vou e ponto final.
“Não pode se esconder de sua família para sempre. Precisamos de você”.
– Não são minha família! – ele gritou fazendo as chamas das velas e da lareira se apagarem.
Os olhos dele brilharam alaranjados contra a luz vermelha emitida pela projeção que iluminava o salão, não havia mais nenhuma duvida de que Dylan era o bruxo que eu procurava, não depois de ver aqueles olhos novamente. Por alguma alucinação bizarra pensei em “Descei ás profundezas do palácio afundado... pois lá, na escuridão, espreita o monstro ctônico, submerso nas águas rubras de sangue... da lagoa que não reflete as estrelas”. Por todas as bruxas, eu devia ter entrando na casa e buscado pelo que procurava e não permanecido ouvindo Julieta ler para Valentine, ou talvez eu culpe Dante Alighieri por ter descrito o submundo com tantos detalhes que me fariam ter pesadelos durante meses. A bruxa que se projetava em vermelho disse em um tom triste:
“Suas palavras magoam. Não se esqueça que sua mãe também era parte de minha família, primo”.
Então ela desapareceu, ficou apenas o escuro do salão que logo foi iluminado pelas velas nos candelabros e pela lareira que se acenderam. Uma garrafa vinda sabe se lá de onde voou para a mão de Dylan que se sentou na poltrona onde antes Valentine sentara-se. Permaneci por um tempo á mais onde estava pensando. O que eu sabia sobre aquele ruivo? Seu pai, Julian Walker, havia comprado a Fazenda Floresça da família Caravagio e transformado o pomar em uma plantação de flores por que sua esposa adorava flores. Sobre a senhora Walker eu não sei nada, além da recente informação aparente que ela era bruxa – isso se não entendi errado o que a nevoa vermelha disse. Dylan é malvado e tem problemas com a família, com exceção de Valentine que é uma pessoa de quem gosto. Usa magia negra e tem um lobo como bichinho de estimação. Matou meu pai quando provavelmente era uma criança e nas últimas vezes que o vi ele parecia estar disposto á me ajudar. Desejava profundamente que sua disposição permanecesse, do contrario eu voltaria á estaca zero.
– Deveria usar um copo – falei saindo de debaixo do móvel em que havia me escondido
Ele se virou rapidamente me lançando na parede – eu devia ter imaginado que não sou a única pessoa que reage mal quando surpreendida pelas costas. Dylan não me soltou de onde estava me mantendo e tão pouco saiu de onde estava apenas levou a garrafa á boca, depois de alguns goles ordenou:
– Revele-se
– Não vai funcionar – falei, me sentindo de repente tranquila, não parecia tão assustador agora que tinha um nome e um rosto.
– Quem é você? – perguntou apontando com a garrafa para mim
– Morticia Belaya – respondi sem demora, precisava da ajuda dele, precisava ser sincera.
As sobrancelhas claras dele se uniram enquanto me olhava analiticamente. Deixou a garrafa na poltrona e veio até mim. Não disse nada, então eu falei.
– A última vez que te vi você estava saindo da casa de minha irmã, a baronesa Verbena Quarini. E da última vez que você me viu, estava me salvando de quebrar a perna depois de um salto de oito metros de altura.
– Não duvido de quem seja apenas não esperava te rever tão cedo.
Isso foi inesperado, comentei:
– Não parece surpreso com minha... presença.
– Não estou – respondeu fazendo sinais com as mãos, um feitiço – Tenho me surpreendido com a senhorita desde que te reencontrei, logo não me surpreendo com mais nada que fizer.
Muitas perguntas e comentários me vieram em mente, mas precisava manter concentração. Perguntas sobre tudo o que me intrigava teriam que ficar para depois.
– Não é possessão e não vai conseguir me fazer mudar de forma, então poupe seu tempo – falei quando senti o frio de um feitiço percorrer meu corpo.
– Sei disso, posso sentir o encanto ao seu redor. Uma maldição poderosa, quem irritou desta vez para ser amaldiçoada? – perguntou curvando os lábios em um sorriso
Ele estava se divertindo com minha situação? Que...
– Pode me soltar? Já não sinto mais minhas patas.
Ele me soltou da parede, cai sobre minhas quatro patas e o observei indo e voltando até a janela bagunçando os cabelos com as mãos, como se pretendesse arranca-los. Subi em uma mesa pequena onde havia um castiçal aceso ao lado da poltrona. Ia continuar falando, mas ele se adiantou á mim de repente chateado com algo que não era eu em sua frente.
– Por que se arrisca tanto? Não tem nem um pouco de medo sobre o que pode te acontecer se te pegarem?
– Prefiro não pensar na minha morte – respondi sincera, ele me olhou zangado.
– A senhorita é... – ele rosnou alguma coisa que não tem tradução em palavras, então parou de se agitar – Como me descobriu?
– Segui seu lobo com cara de raposa até aqui.
Ele suspirou parecendo aliviado, o que me deixou curiosa. Perguntei-lhe
– Por quê? Como achou que eu tivesse te descoberto?
– Por um instante pensei que tivesse vindo procurar por seu irmão. Ele está sendo vigiado de perto depois de sua demonstração de magia gratuita.
– Minha demonstração de magia? Fui eu por acaso que escureceu o céu e apareci usando o corpo de uma ave gigantesca? Ninguém havia me visto até você voar em minha direção.
– Você estava sangrando e parecia á um suspiro de desmaiar, devia me agradecer por não te deixar quebrar o pescoço ao pular daquela altura.
– Não me deixou cair por que quis não me lembro de ter pedido sua ajuda – ele estava me irritando.
– Estava apenas tentando retribuir um favor, é tão difícil assim pra você ser... Humana?
– O que acha que sou? Uma fada por acaso? Sou muito mais humana que você – gritei, mas não devo ter parecido muito honesta, não na forma de um gato domestico.
Ele se curvou ligeiramente ficando á minha altura – que estava no braço da poltrona.
– Se não quer minha ajuda, diga, o que você quer de mim?
Adivinhe.
– Não quero sua ajuda, mas preciso. Isso se ainda estiver disposto á me ajudar.
O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Ele permaneceu ali. Parado. Olhando-me. Estava começando a achar que tinha perdido meu tempo quando ele foi até a poltrona em frente e se sentou ereto.
– Você vai me causar dor de cabeça – falou – Mas tenho uma divida á pagar com a senhorita.
– Que divida? – perguntei rapidamente, não me lembro dele me dever nada além da vida de meu pai que ele tirou.
– Salvou minha irmã, Valentine está sob meus cuidados e quase a perdi.
– Gosto de sua irmã, não a salvei para que ficasse me devendo algo.
– Sei disso – ele abriu a mão e a garrafa voltou a voar para a mão dele – Não esperaria outra coisa da senhorita.
Isso me deixou curiosa, não evitei a pergunta:
– O que quer dizer com isso?
– Quero dizer o que disse, mudou muito da criança poderosa que quase me matou para uma noviça generosa que mal me pareceu capaz de usar magia quando exposta ao perigo.
– Exposta ao perigo quer dizer você me atacando na forma de uma raposa monstruosa quando eu estava completamente desprevenida?
Mais silêncio, não sou boa em ser boa pessoa, nem mesmo quando preciso e ele estava me tirando a paciência com aquele modo de agir. Estava fazendo um esforço enorme para não começar a perguntar sobre seus motivos para me querer tanto mal, ele me dera motivos para odia-lo antes mesmo que eu soubesse o que significava ódio. Agora queria retribuir um favor que nem me devia, podia pelo menos ser menos... menos... menos ele mesmo e tentar não me dar mais motivos para desejar-lhe mau.
– Ainda está disposto á me ajudar? – questionei, quebrando aquele silêncio desagradável.
– O que quer que eu faça por você? – perguntou inclinando-se ligeiramente para frente.
Essa era a pergunta para qual eu tinha muitas respostas que me levariam á lugar nenhum, o que ele podia fazer por mim. Ajudar-me a esclarecer que não fiz o que fiz por mau? Impossível. Levar-me para junto de meus irmãos novamente? Arriscado. Provar que havia um Impostor no conselho de magia e que ele me queria morta por sei lá que obsessão? É isso não seria mais difícil que salvar uma pessoa de uma fogueira diante de quase trezentas pessoas.
– Preciso que me ajude á encontrar George Linnett III.
– Quer que eu te ajude á se encontrar com o conselheiro-mor que mandou mata-la? – ele me olhou como se eu fosse louca
– Não esse George, o outro. O capitão do navio Leemyar.
– Um pirata? Quer se encontrar com um pirata? Para que?
Não tinha menor ideia do para que até ele me perguntar, então como se tudo ficasse claro. Sabia o que queria e o que faria.
– Quero ter certeza que esse Linnett que todos conhecem é um impostor. Preciso saber o que aconteceu com o George que eu conheci, preciso dele. Mas não sei onde ele está e nem como acha-lo.
– E por que acha que o conselheiro-mor é um impostor?
– Por que ele é gentil demais e mente com a mesma naturalidade que sorri. Se parece muito com o outro, mas não é a mesma pessoa. Eu sei que não são.
– Sabe como?
– Eu conheço o verdadeiro. Só me ajude a encontrar quem procuro e te deixo em paz para voltar á me odiar sem interrupções.
– Você tem problemas e bem sérios
– Eu sei disso – respondi – Se não tivesse problemas não teria vindo te pedir ajuda.
Dylan voltou ao seu estado irritante de silêncio, não gosto do modo estranho com que ele me olha desconfiado, como se esperasse ser atacado – não que eu não desejasse enfiar as garras no pescoço dele, mas estava inofensiva demais naquela forma para feri-lo sem me ferir.
– Mostre-me o pirata – pediu
– Não posso, não faço magia nesta forma física.
– Apenas pense nele e eu o verei – disse se aproximando de mim
Saltei da poltrona me afastando dele.
– Não vou deixa-lo me tocar – informei
– Não seja tola, garota. Se lhe quisesse machucar já teria o feito. Se quer minha ajuda terá que ser do meu modo.
Ponto para ele. Pensei no George “Capitão”, foquei apenas nele para que não houvesse meios de Dylan ver mais nada em minha mente. Olhava para o homem ajoelhado em minha frente, podia sentir a leveza da espada que empunhava acima de minha cabeça, não ia matar aquele tolo homenzinho, apenas lhe causar medo por tempo suficiente para que não quisesse mal á nenhuma donzela que visse. Então atrás de mim uma voz de tom brincalhão disse: “Se todas senhoritas inofensivas do mundo fossem como vossa majestade, seriamo-nos os homens quem usaria vestido e cobriria o rosto em recato”. Virei-me para o capitão do navio que estava encostado á uma porta que tentara abrir horas antes. O sorriso nos lábios dele refletia-se nos olhos azul-prateados, a pele moreno-bronzeada contrastava com a calça preta e a camisa branca de mangas, ele era esguio e bonito, sua presença me confortava o bastante para me fazer relaxar os braços e baixar a espada. Me afastei dos dedos de Dylan, ele já tinha visto o bastante.
– Você foi uma pirata também?
– Achei que não se surpreendesse mais comigo – falei sem responder a pergunta dele.
– Não me surpreendi, agora entendo por que age tão diferente das noviças ou moças ou bruxas de sua idade.
Algo gritava dentro de mim que meu capitão estava em perigo e precisava de mim. E eu precisava da ajuda daquele petulante ruivo debochado que bem podia se afogar em seu vinho.
– Não me compare, o mundo funciona melhor quando as pessoas tem a liberdade de serem diferentes. Voltando á George. Esse á quem eu devia respeitar é um impostor. Algo aconteceu com o verdadeiro.
Por um instante ele pareceu distraído com si mesmo – acho que ele tem problema de concentração –, perguntou-me em tom de desinteresse completo.
– Aconteceu algo como o que?
– Não sei. Pareço saber? Não o vejo há mais de quatro anos e de repente apareceu o Impostor no sanatório e disse que iam selar o trevo vermelho em mim por que sou perigosa, e agora estão me caçando para me matar.
– Não devia ter fugido deles.
– Mesmo? Se entregue a eles então e os deixem drenar sua magia com um maldito selo. Nasci bruxa, morrerei bruxa.
– Com tanta determinação deveria parar de fugir.
– Não estou fugindo – falei com mais calma – Estou apenas seguindo caminhos diferentes daqueles que me caçam.
– Um caminho perigoso que pode te colocar em maiores apuros que apenas ser caçada por sua Ordem.
– De fato o caminho que escolhi é perigoso, afinal me trouxe até você.
Finalmente consegui deixa-lo sem respostas debochadas ou sorrisos irônicos. Ele olhou para os pés e ficou em silêncio, será que eu falei demais ou ele estava pensando que eu cometi um erro em ir atrás dele? Por que eu ainda tinha sérias dúvidas se não estava me colocando em um perigo maior indo pedir-lhe ajuda. Sentia que ia desabar á qualquer minuto se ele continuasse calado daquele modo, mas não falei nada. Não queria e não ia deixa-lo perceber o quanto eu estava apavorada com a possibilidade de que se ele não me ajudasse eu estava perdida. Sou mais forte que isso.
– Já pensou que seu amigo pode ter mudado nos últimos quatro anos que se passaram desde que o viu pela última vez? Você entrou para o convento, ele pode ter abandonado a pirataria e se tornado um bruxo das trevas.
É podia, mas... aquele George que eu conheci era diferente de mim, ele era bom. Não que eu seja má.
– Ele não faria isso.
– Como pode saber? As pessoas mudam...
– Nem todas – o interrompi zangada – Algumas pessoas não podem mudar o que são e alguns são sempre bons e não um...
– Um monstro como eu? – perguntou ele quando me calei – Sei que sou a última opção dentre as pessoas de quem você quer ajuda, contudo não tem outra opção. Mas á algumas regras que deve seguir.
– Não te devo obediência
– Então saia da minha casa e tente achar seu pirata, sozinha.
Eu realmente queria o matar, lentamente.
– Diga o que quer – conformei-me com o fato de que precisava dele, mas obedecê-lo?
– Quero que não saia daqui, ficará em minha casa até que encontre seu amigo.
– Por quê? Posso muito bem me cuidar sozinha.
– Você se arrisca muito, mais que o necessário. Aqui ficará segura, mas não poderá sair, seu irmão está sendo vigiado de perto.
– Já me disse isso.
– Que bom que estava me ouvindo, desta vez.
Dylan já estava saindo da sala quando lhe perguntei curiosa:
– Disse que todos que eu conheço estão sendo vigiados, vocês não?
– Nós?
– Sua casa. Afinal foi por ter socorrido Valentine que decidiram que sou perigosa e toda essa perseguição começou.
– Sou Irlandês, não respondo á Ordem dos Magos de Risveglio. Eles não podem vigiar minha casa sem ter permissão da minha Convenção. Depois de terem a ameaçado para que eu parasse de investigar onde não devia, creio que não irão envolver minha convenção em seus assuntos.
Achei que ele fosse inglês, mas devia ter imaginado que com todo aquele “faça assim e não assim” e cabelos cor de cenoura que era irlandês, se vestisse de verde, colocasse um chapéu e um sapato de fivela poderia ser confundido com um leprechau, tinha o humor de um, pelo menos.
– Mas você mora em Ferrara, não devia responder ao conselho de magia local?
– Não permitem que eu saia da convenção.
– Por quê?
Ele ficou parado olhando para um ponto qualquer acima do piano, tive a impressão que a voz-da-névoa-vermelha iria aparecer novamente e responder minha pergunta, então Dylan deu a resposta menos gentil de todas:
– Não é da sua conta, senhorita – e saiu batendo a porta.
Mal educado. Tudo bem, eu agora estava entrando em outro nível de loucura. Fui pedir ajuda á ele? Á criatura de olhos alaranjados que deixara claro que queria me fazer sofrer por alguma coisa que eu provavelmente era culpada – não posso dizer que sou inocente de tudo por que ás vezes sou bastante irresponsável e faço coisas um pouco inconsequentes. Por que os olhos dele ficam alaranjados? Ah! Se concentre Morticia. Pode ter cometido o pior erro de sua vida indo pedir ajuda á ele. Teoricamente foi ele quem ofereceu ajuda, apenas aceitei. Por que eu perco meu tempo ouvindo á mim mesma? No fim das contas sempre tomo a decisão errada mesmo. Não dormi – mais ou menos – pareceu uma eternidade até que eu assumisse a forma humana novamente, estava decidida á voltar para o deposito onde Leonel havia me escondido, pelo menos eu estava parcialmente segura lá. As sombras vieram ao meu chamado, pedi-lhes para me levar dali. Para minha completa insatisfação – pânico, nervosismo e curiosidade –, elas se recusaram.
– Por que não podem me tirar daqui? – perguntei-lhes ansiosa – Ele é perigoso, matou meu pai e já deixou claro que me quer mal.
As sombras não gostaram do que eu disse se agitaram dizendo que as ações dele não eram diferentes da minha, eu também já havia matado pessoas que eram pais de crianças, crianças humanas e indefesas como nunca fui. Explicaram-me que como sombras era impossível agir contra os feitiços que pairavam sobre aquela casa, Dylan era um bruxo das trevas e como tal as sombras não podiam fazer nada para me libertarem, infelizmente.
– Achei que não pudessem ser rastreadas por seres das trevas, são sombras. Estão além da magia negra.
Sim, eu estava certa. A magia que regia as sombras era antiga e mais poderosa que qualquer magia negra conhecida – não que eu entendesse algo sobre magia antiga – e ainda assim, Dylan pertencia á um nível diferente de bruxos das trevas, assim como eu. Essa informação me fez entrar em pânico.
– Como assim, ele é como eu?
As sombras disseram que lamentavam, eu havia as renegado quando criança, elas ainda me serviam, mas meu treinamento no mundo sombrio havia sido interrompido muito antes de começar. Havia leis que nem mesmo elas podiam ignorar, e lembraram-me que “Não devia recusar ajuda quando esta me fosse oferecida de bom grado assim como nunca devia recusar á ajudar alguém que precisasse de minha ajuda”. Eu teria que aceitar a ajuda de Dylan, mesmo que não confiasse nele. Permaneci fitando o escuro vazio pensando no que as sombras disseram, Dylan é como eu, isso era ruim, muito ruim. Para ele.
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