Um Outro Fausto.
1 Minha Primeira Vítima.
Ainda me lembro da primeira vida que ceifei.
Era uma noite escura, a lua e as estrelas estavam escondidas por uma cortina de nuvens soturnas, carregadas de chuvas. A data era quinze de setembro, do ano de 1945, e todos estavam contentes pelo fim da segunda grande guerra. Os bares permaneciam abarrotados de todos os tipos de pessoas, Jazz e blues eram exalados freneticamente, e todos pareciam se inebriar com aquilo, juntamente com a bebida. E foi assim, num contexto festivo que a conheci, e num paradoxo, tracei seu destino fúnebre.
Caroline estava sentada em um canto do bar rodeada de suas amigas, bebia recatadamente um copo de soda, e sorria numa felicidade verdadeira. Não pude resistir, e aproximei sorrateiramente daquela mesa.
— Boa noite senhoritas – falei num tom charmoso e aveludado para o grupo de garotas.
Todas elas deram risinhos, retribuíram meu cumprimento, e depois de alguns minutos de apresentações e conversas, convidaram-me para se juntar à elas.
— Então, Senhor Federico! – Disse uma das mulheres, negra e de olhos bem escuros – Também esteve na guerra?
— Infelizmente, ou felizmente, estive sim, senhorita. Sou piloto do exército Americano.
— E onde está seu fardamento? Achei que todos os pilotos gostassem de se exibir.
— Ah sim, claramente, mas prefiro me exibir com meu sorriso e olhos claros – respondi maliciosamente.
Novamente, as jovens donzelas começaram a sorrir envergonhadas.
— E por que disse infelizmente? – Dessa vez, quem tomara a frente da conversa fora Caroline. Ela tinha uma voz doce, e controlada, bem diferente das outas que estavam na mesa.
— Retirar vidas, não é lá muito o que gosto de fazer.
— Mas servir o seu país – prosseguia ela – é o seu dever.
— Hum... Dever... É bem engraçado você tocar nesse assunto, logo agora... Bom, nem todos os nossos deveres cumprimos com prazer, já outros, eu costumo fazer com um sorriso na boca.
— E que outros deveres são esses?
— O dever de chamar uma bela dama para dançar. Dança comigo?
Caroline pareceu surpresa com minha resposta, mas o espanto durou poucos segundos, pois logo em seguida – depois de todas as suas amigas darem risinhos, e a incentivarem –, ela aceitou meu convite, e nos afastamos da mesa.
No timing perfeito, o negro que cantava um animado jazz, começou então o tão suave solo de jazz, deixando o ambiente perfeito para uma dança. E assim, começamos a nos remexer aninhados, aos som da música.
De perto, Caroline ainda ficava mais linda – sem dúvida, era a mais bela de todo o bar. Sua pele era branca e suava, destacando seus olhos verdes; tinha os cabelos loiros que escorriam feito fios dourados sobre o seu ombro. A boca carnuda estava pintada de um tom de vermelho sangue, embargado de luxúria. Era definitivamente uma deusa, encarnada nos delicados talhes de mulher.
— Você é muito convencido, sabia disso? – sussurrou ela, fitando-me com aqueles lindos olhos.
— Só o suficiente...
Caroline sorriu, e encostou o rosto em meu ombro.
— Você também é cheiroso...
— Não mais do que você!
— Então, você conta essas mentiras para todas as outras?
— Não, não, para todas as outras não – falava num tom sarcástico – Só para aquelas que me interessam.
E assim, continuámos a conversar e dançar, não sei ao certo por mais quanto tempo, até que eu a convenci de acompanha-la até em casa.
Caroline se despediu das amigas, pegou seu casaco, deu um beijo em cada amiga, e saiu do animado bar, na companhia do diabo, achando que estava resguarda por um anjo.
No caminho, continuávamos a conversar. Ela parecia me contar de cada detalhe de sua vida. Era enfermeira, e assim como eu, também fora para guerra. Órfã de pais, morava com uma tia rabugenta e alcoólatra. Apesar de tudo, contava-me cada desventura dessas com um exuberante sorriso nos lábios. O que realmente me deixou fascinado.
Quatro quadras antes de sua casa, parámos em uma praça, e nos sentamos num banco. A noite continuava com a mesma melancolia de mais cedo, sem lua, sem estrelas, mas nenhum dos dois pareceu se importar.
— Posso te confiar a mais uma coisa? – perguntou ela, olhando para o chão.
— Quantas coisas que você desejar, minha bela.
— É estranho, nunca me senti assim com ninguém e... – Caroline se interrompeu, e levantou seu rosto para me fitar com seus olhos verdes.
Reservei-me ao silêncio, esperando que ela prosseguisse, entrementes, não fora isso que aconteceu. Num segundo, Caroline lentamente se aproximou de mim sem retirar os olhos dos meus, e no outro, estávamos nos beijando.
Seu beijo era doce e delicado, seus lábios quentes contagiavam minha pele gélida e morta. Minhas mãos entrelaçavam-se com seus cabelos, e percorriam seu corpo o máximo que era permitido naquela época moralista. Foi então, em meio desses beijos, ela sussurrou.
— Você é tão gelado... Até não parece ser humano.
— E quem disse que sou?
Ela sorriu, e novamente me beijou.
— Adoro seu senso de humor... Queria poder retribuir de alguma forma.
— Então, você quer me fazer feliz? – perguntei, olhando profundamente em seus olhos.
Caroline assentiu, e me fitou atentamente.
— Quero sim! Poderia fazer qualquer coisa.
— Qualquer coisa? – tornei a perguntar, num tom bem sombrio.
— Qualquer coisa. – Confirmou.
Aquela havia sido minha deixa. Sem mais delongas, levei meus lábios até sua boca, dando-lhe um pequeno beijo, e lentamente, desci pelo seu queixo indo em direção ao seu pescoço. Na mesma hora, Caroline fechou os olhos, adorando as caricias que recebia. No entanto, os beijos suaves que recebia, não durou, e em poucos segundos, meus dentes estavam cravados em sua jugular.
Num espasmo de dor, Caroline ainda levou suas mãos em meus cabelos negros, tentando me puxar para longe, mas já era tarde demais, sua singela força humana, não se comparava a de um predador da escuridão.
O sangue invadia minha boca, tão quente e delicioso quanto o beijo de minha vítima a pouco, e um prazer frenético e lancinante penetrava em meu corpo. Não existem palavras capazes de descrever com exatidão, o prazer sucinto para um vampiro quando se está provando sangue, principalmente pela primeira vez. Era como se o paraíso se aconchegasse em seu corpo, e uma vez passando por isso, era impossível de parar.
Por essa razão, não demorou muitos minutos até que a vida abandonasse aquele lindo corpo, restando em minhas mãos, apenas a lembrança daquela jovem mulher tão feliz e cheia de vida que a conheci no bar.
Eu não podia abandoná-la em qualquer lugar, como haviam me dito, por isso, a deitei suavemente no banco que há pouco estávamos sentados. Daquela forma, mais parecia que Caroline dormia tranquilamente num sono profundo, mas tão profundo que nunca mais acordaria.
Naquele momento, pingos de chuvas caíam do céu sombrio, como se até ele, houvesse se compadecido da cruel desventura que houvera acabado de ocorrer. E assim, dei as costas a minha primeira vítima, e adentrei a escuridão de inúmeras outras que vieram a seguir.
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