Um Novo Mundo
2 Um verão muito esquisito
Estava fazendo um lindo dia no Acampamento. Um dia tão lindo que me fez lembrar meus oito anos de moradia no Brasil... Era ótimo viver lá. Mas então meu pai se separou da minha ex-madrasta e decidiu, loucamente, ir morar em Seattle. Posso me lembrar da minha pequena ponta de revolta e tristeza quando ele disse sobre a mudança, afinal, eu tinha muitos amigos lá. É realmente muito ruim quando você cria seus laços de amizade, cria uma certa afinidade com as pessoas e então, quando você se dá por conta, está em outro espaço totalmente diferente, com pessoas e costumes diferentes. Me recordo de todos meus amigos. De cada um deles. Afinal, é difícil esquecer quando as pessoas deixam uma marca em você.
Nós havíamos formado um grupo de cinco, os cinco estranhos da classe. Não conversávamos com ninguém, não nos encaixávamos na personalidade das outras crianças. Elas queriam sempre fazer brincadeiras e comer guloseimas, enquanto nós queríamos criar e descobrir coisas, ler grandes livros e jogar xadrez. Tínhamos uma curiosidade peculiar... Não dá pra colocar isso em palavras. De todos, quem mais me entendia era o Lucas. Não me leve a mal, eu amava a Bianca, a Amanda e o Mycon, mas o Lucas me compreendia melhor. Ele entendia minhas estratégias no xadrez, tinha os mesmos gostos literários que eu e me ajudava nas minhas criações; isso tudo, descobri mais tarde, era porque ele gostava de mim. Eu, particularmente, nunca me senti atraída por garotos altos, magros, morenos e do cabelo estilo índio, como o Lucas, mas ele era muito legal. Acontece que eu nunca liguei pra esse tipo de coisa, eu sempre quis descobrir novas coisas, estudar e quase não sobrava tempo para que eu me penteasse, imagine para namoricos de criança.
Então, com oito anos, me mudei para Seattle. Na Smart Sheet, uma dracnae apareceu na classe. Ela quase conseguiu me pegar, mas aí um garoto/bode apareceu na entrada da sala, com seus cabelos negros roçando suas bochechas rosadas e encostando levemente em seus ombros e transformou a criatura em pó. Bryan está sempre atrasado, nunca foi pontual. Ainda não sei porque não tiraram a licença de buscador dele, a minha já foi a quarta vez em que ele chega quase quando não adiantaria mais.
Aí, quando eu descobri que era semideusa, atravessei os limites mágicos do AMS determinado pelo Pinheiro da Zeuza Fabulosa e tal, passei a ficar mais no acampamento. Meu pai concordou com isso, porque disse que eu estava crescendo e estava ficando sem tempo pra ele e para a sua biblioteca. Sim, meu pai é bibliotecário. De vez em quando ainda sinto a falta dele, mas é melhor, porque desse jeito não estou fazendo ele correr perigo.
Pensei em tudo isso enquanto analisava a lâmina da minha espada, Thárros(se pronuncia Sáros), que significa "Coragem" em grego. Ada fez ela para mim, e gravou em sua base a escrita "θάρρος", traduzindo, Thárros. Eu a chamo, digo, Ada, de Senhora das Forjas. Seu pai deve se orgulhar dela...
Olhei para o meu relógio de pulso. 14:15. Onde estaria Annie, Ada e Bryan? Fiquei de esperá-los em frente ao Lago de Canoagem para podermos treinar um pouco, às 14:00, no entanto, já eram 14:15. Continuei a alisar a lâmina de Thárros, perdida em meus pensamentos, quando eu avistei Annie e Ada correndo em minha direção e me gritando. O cabelo estilo chanel de Annie esvoaçava contra o vento, e Ada, com suas perninhas curtas, custava a acompanhar o ritimo de Annie. Quando finalmente chegaram, sem fôlego algum para me contar qualquer coisa, tentei acalmá-las.
–Ei, ei! O que é isto? Acalmem-se! Calma, calma. Annie, o que aconteceu?
Ela murmurou algo do tipo "chunam" no meio da sua reposição de ar, então me voltei para Ada, que já havia até se sentado no chão.
–Gui, você não imagina o que aconteceu!-Ela me disse, com os olhinhos arregalados. Apesar de Ada ter apenas 10 anos, eu confiava nela. Me sentia segura com sua presença.
–Eu realmente não imagino, mas se você quiser me contar...
–Chorão!-Ela não deu conta de falar mais nada. Desabou de costas no chão. Estava demasiada exausta pela corrida.
–Quem? Digo, o Chorão, Chorão?! O Chorão do Brasil?!
–Sim, Gui. O Chorão do Brasil.-Respondeu Annie, agora um pouco mais calma.-Ele está aqui, no Acampamento Meio-Sangue.
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