Um Novo Mundo
1 Um
Sou uma semideusa. Há seis anos eu descobri isso, mas vou contar de um jeito mais detalhado.
O despertador tocou. Um pequeno objeto redondo e azul que me lembrava da pior coisa que eu tinha na minha vida: acordar. Certo, havia coisas bem piores na minha vida, mas foi uma hipérbole. Fui saindo lentamente do meu sonho, que continha as coisas e situações mais diversas e estranhas que não se deve sonhar aos sete anos de idade, quando preguiçosamente levantei as pálpebras. O quarto era pouco iluminado por uma luz, que era azul por causa das cortinas azuis. A cama estava tão quentinha que tinha vontade de nunca mais sair daquele paraíso tão sonhado. Mas mesmo com tão pouca idade sabia que tinha de me levantar. Tateei a cabeceira da minha cama, depois a parede, em seguida a escrivaninha de madeira, e somente então o despertador. Apertei o botão que o desligava, me descobri muito lentamente, desejando não ter que fazer aquilo, e me sentei na cama. Eram cinco e meia da manhã. Cocei minha cabeça (que, a propósito, continha os mais bagunçados fios de cabelo do mundo) e sentei-me ainda sonolenta e analisei o quarto com fadiga. Estava tudo como sempre: os livros organizados em ordem alfabética nas prateleiras de madeira roliça, as paredes cor de azul bebê, o piso de mármore polido e cheiroso por causa do desinfetante Blue Marine, a escrivaninha de estudo, o guarda-roupa com portas de correr, o espelho, a TV e o tapete felpudo e azul que tomava conta do centro do quarto. Levantei a cabeça e olhei a lâmpada que ficava no teto. Desmoronei para o outro lado, e comecei a cochilar novamente.
–Vamos, vamos, nada de moleza. Hoje é terça-feira e você tem que ir para a escola, vamos. — Minha mãe abriu a porta com violência e abriu as cortinas, revelando o Sol tão preguiçoso quanto eu entrar pela janela, mas nem isso foi o suficiente para que eu me acordasse. -Ei.- Continuei imóvel. Ela caminhou até mim e me cutucou forte no braço. Eu resmunguei alguma coisa sobre “papel toalha” e tirei a mão dela do meu braço. Já perdendo a paciência, ela caminhou até a cozinha e trouxe uma paçoca azul, que eu não sabia como ela fazia, mas que ficava simplesmente per. Fei. Ta. Colocou a paçoca na frente da minha boca, e, uma vez lá, ela não durou muito tempo até desaparecer. Sentei-me novamente na cama, acabando de engolir aquele pedaço do céu.
– Bom dia, mamãe. – Disse, esfregando meus olhos.
– Bom dia, meu amor. – Ela beijou minha testa e apontou para o despertador, que marcava cinco e quarenta e cinco, antes de ir para a cozinha novamente. – É melhor você ir para o chuveiro. – E foi o que eu fiz.
Havia um tempo que minha mãe estava estranha comigo. Ela dizia que a qualquer momento poderia acontecer algo de diferente comigo, algo que ela não podia explicar. Eu sempre dizia que tudo bem, mas na verdade não estava nada bem. Quando eu perguntava do meu pai ela ficava ainda mais estranha, como se falar dele fosse algo contagioso.
Às seis e vinte, depois de tomar banho, comer waffles, escovar meus dentes e me preparar para ir para a escola, eu estava dentro do carro. No banco de trás, com o cinto de segurança, eu lia um livro chamado Pegasus e o Fogo do Olimpo enquanto minha mãe pegava as chaves do carro e trazia minha pequena mochila azul metálico. Ela abriu a porta do carro, um Mitsubishi Eclipse 1998 de cor branca, e jogou a minha mochila para o banco de trás, e ela caiu ao meu lado. Ela entrou, fechou a porta e colocou a chave na ignição. Puxou o sinto e colocou-o, em seguida, olhou para mim pelo retrovisor.
–Pronta?-Disse ela. Eu não respondi, pois estava muito focada no livro.-Ainda não sei porque eu insisto em fingir que não sei ganhar a sua atenção.-Suspirou ela e em seguida tirou o livro das minhas mãos, mas deixou seu dedão marcando a página em que eu havia parado.
–Ei! Meu livro.-Eu reclamei.
–Eu perguntei: pronta?-Minha mãe arqueou as sobrancelhas angulosas e bem feitas. Ela era uma mulher muito bonita. Seus olhos eram escuros e tempestuosos, muito convidativos. Seus lábios finos e longos estavam realçados por um batom rosa claro. Os cabelos caiam pelos seus ombros como cachoeiras cor de chocolate, brilhantes e ondulados.
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