Um Novo Futuro
34 Folhas de Outono
Notas iniciais
Jennie acordou ligeiramente assustada com o pesadelo que tivera durante a noite. Abriu os olhos e achou que estaria deitada em sua cama simples no Refúgio, mas não. Não estava no Refúgio. Seu pesadelo era real. Olhou em volta, ainda meio desnorteada, sentiu seus pulsos reclamarem de dor e viu que se encontrava amarrada. E não era apenas nos pulsos, os tornozelos também estavam presos por cordas grossas. Sentiu uma presença ao seu lado.
– Jennie?
– Marcus. — Sussurrou, sua voz expressava medo, porém também possuía um pouco de sono. — Onde estamos?
– Não se lembra? — Sussurrou ele em resposta. Logo a mente de Jennie fora invadida por um turbilhão de emoções que a fizeram estremecer. Agora tudo se tornara mais claro em sua mente. Eles se encontraram com George Campbell, o líder dos Rebeldes, Logo depois chegaram seus seguidores e os fizeram refém, levando-os para o meio da floresta; Agora ela, Marcus e Derek estavam a mercê dos Rebeldes, que fariam o que lhes fosse possível para tomar o Refúgio. Arrepiou-se ao pensar nessa possibilidade. Hayley e Joe estavam no Refúgio, se os Rebeldes invadissem, eles estariam mortos. Logo, seus pensamentos vagaram para os dois. Será que eles estavam bem? Será que já haviam sentido nossa falta no Refúgio? E os pacientes da Ala Médica? Ainda estão vivos? São tantas, perguntas. Jennie balançou a cabeça, tinha coisas mais importantes para se preocupar. — Jennie? Está tudo bem? Está meio pálida...
– Não se preocupe comigo, Marcus. — Tranquilizou-o. — Temos que pensar em alguma maneira de escapar daqui. Onde está o Derek?
– Ali no canto, perto daquela árvore, está vendo? — Sussurrou ele. Logo, Jennie avistou a silhueta de Derek encostada em uma árvore. Parecia estar desacordado. Aproveitou e tentou examinar o local. Parecia uma campina. As árvores estavam cheias de folhas secas que caíam lentamente. Jennie lembrou-se de que estavam no Outono, sua estação do ano favorita. Desde criança sempre gostara de ver as folhas desgrudando-se das árvores e caindo, fazendo uma trilha leve e lenta até o chão. Jennie ficava hipnotizada com tal fenômeno.
Sua atenção fora tirada quando observou outras duas silhuetas andarem pela campina. Ambos pareciam homens, por volta dos 30 anos ou mais. Jennie não soube identificar. Eles andavam em volta da campina e nem sequer prestavam atenção nos três reféns que ali repousavam. Estavam mais distraídos conversando descontraídamente sobre algum assunto que Jennie não conseguira ouvir. Permaneceu quieta, apenas observando. Os homens continuaram a conversar e, de vez em quando, soltavam gargalhadas.
– São dois idiotas. — sussurrou Marcus. — Eu estou observando eles desde a hora que eu acordei. Eles só fazem barulho, se continuarem assim vão atrair zumbis. Além do mais, eu fingi que ainda estava dormindo e ouvi uma conversa. Parece que eles não são bem-vistos pelos outros Rebeldes. Pelo que eu ouvi, esses dois nunca tiveram uma missão perigosa, são dois idiotas que se distraem fácil. Temos que tentar tirar alguma vantagem disso. Estou pensando em algum plano...
– Tudo bem, e o que fazemos enquanto isso? — perguntou Jennie, queria se distrair de alguma maneira, o medo começava a paralisá-la. Mas as palavras de Marcus lhe proporcionaram um estranho alívio.
– Nada, apenas fique quieta e não se mova demais. Quanto menos atenção chamarmos, melhor vai ser ser. Tudo bem? — Perguntou ele, provavelmente notou o meu nervosismo, porque logo depois tentou me tranquilizar. — Não se preocupe Jennie. Vou fazer o possível para salvar nós três. Vai ficar tudo bem, logo você estará em casa.
– Tudo bem. — Respondeu ela, seu coração ficou profundamente aliviado. Tudo ficaria bem.
Percebeu um pequeno movimento perto da árvore. Era Derek. Ele havia acordado. Os Rebeldes pararam a conversar e Jennie prendeu a respiração. Será que eles haviam percebido? Suspirou de alívio quando os Rebeldes voltaram a rir. Derek mantinha um olhar fixo nos dois “guardas” que não cessaram sua conversa. Jennie viu os olhos de Derek se encherem se determinação e ela soube que ele faria alguma coisa.
Algo imprudente.
– Derek, não! — sussurrou Marcus, atônico. — Se fizer isso, eles vão nos matar!
Marcus gesticulou com as mãos, tentando atrair à atenção de Derek e rezando para não ser percebido pelos soldados. Por um milagre, Derek olhou para ele.
– Não faça nada, Derek! Por favor! — sussurrou Marcus, sua voz soava como uma súplica. Derek gesticulou como se não entendesse. Logo depois sua atenção voltou para os homens e ele avançou.
Jennie fechou os olhos. Derek havia acabado de assinar a pena de morte para todos ali.
Derek agarrou com toda força que possuía o pescoço de um dos homens, acabando finalmente com a conversa que durara a manhã toda. Colocou o braço em volta do pecoço do homem e apertou. O outro ficou estático por 2 segundos, mas logo tirou a arma do cinto. Apontou-a para Derek de maneira desajeitada. Derek, por sua vez, usou o corpo do homem que segurava como escudo. Marcus tentava desesperadamente soltar a corda que prendia seus tornozelos, precisava ajudar Derek. O Rebelde armado, gritou e logo apontou sua arma para cima.
Disparou.
Jennie prendeu a respiração novamente, seu coração palpitava freneticamente. Ela queria tapar os ouvidos, mas as mãos amarradas não lhe permitiram.
– Abaixa logo essa merda de arma, seu desgraçado! — Gritou Derek. — Anda logo ou eu quebro o pescoço do seu amiguinho aqui!
O homem foi, lentamente, abaixando a arma. Derek relaxou um poco o braço.
Não devia ter feito aquilo.
O Rebelde que ele segurava sentiu que Derek havia relaxado os músculos e se aproveitou dessa brecha. Mordeu a mão de Derek com toda a força que possuíam. Ele gritou de dor. O homem fugiu e o outro atirou.
Jennie não conseguiu contar quantos disparos foram dados em Derek. A única coisa que podia ter certeza naquela hora era que ele estava morto. Marcus estava boquiaberto, mas ainda tentava soltar-se das cordas, porém seu esforço foi todo em vão. Os homens gargalharam e cuspiram no corpo de Derek. O barulho era tanto que ninguém percebeu que não estávamos sozinhos.
Jennie escutou um grito de agonia. Seu coração congelou quando viu um zumbi. Não conseguira se lembrar da última vez em que lutara contra um. Mas não pensava em lutar. Só conseguia olhar horrorizada para a cena.
Um zumbi de aparência horrenda mordera o braço direito de Marcus. Ela gritou, ás lágrimas rolaram pelas suas bochechas. Precisava salvá-lo! Porém antes que pudesse se mover, viu Marcus finalemnte conseguir soltar seu braço esquerdo, pegar um pedaço de madeira do chão e cravar nos olhos do zumbi.
Silêncio. A única coisa que havia era a respiração acelerada de Marcus no chão. Jennie não perdeu tempo e arrastou-se para ajudar. Com o impulso, acabou tirando uma de suas botas, livrando os pés das cordas.
– Marcus! — chamou-o com a voz embargada de choro.
– Droga...- Ele sussurrou. — Jennie, você tem que fugir, aproveita essa chance, anda.
–Mas, eu não posso deixar você. — sussurrou de volta.
– Pode sim e é exatamente isso que vai fazer. — respondeu ele. Logo depois puxou o rosto de Jennie com uma das mãos e beijou-a. — Eu amo você. Agora você tem que ir, eu vou me transformar logo.
Jennie ia responder, mas escutou passos na sua direção. Por um instante achou que eram mais zumbis, mas não. Eram os Rebeldes. Jennie arregalou os olhos ao ver que eles apontavam a arma para Marcus.
– Não se mexe, moça. Seu amigo aí foi mordido, não terá mais nenhuma utilidade para George. Anda logo, eu só tenho uma bala. Agora dá licença e deixe eu atirar.
Jannie congelou. Não permitiria que Marcus morresse. Algo lhe dizia bem no fundo de seu coração que Marcus tinha que viver. O homem apontou a arma e se preparou para puxar o gatilho. Jennie usou todo o que ainda lhe restava e se atirou sobre o homem com a arma.
Fora tudo muito rápido. Jennie ouviu o disparo, o grito de Marcus e viu o choque atravessando o rosto dos homens. Logo depois sentiu uma dor aguda no peito. Caiu no chão e de repente, só conseguia olhar para o céu. Estava tão lindo, tão claro.
O sons a sua volta estavam abafados e Jennie não conseguia discerni-los. Mas podia escutar a voz de Marcus, não entendia o que ele dizia, mas parecia estar em um completo desespero. Queria poder tranquilizá-lo como ele a tranquilizou. Mas não conseguia mais falar. Ficou deslumbrada ao observar as folhas caíndo das árvores. As folhas estavam perfeitamente douradas. Jennie gostava delas assim, lhe passavam paz. Lembrou-se de sua mãe, ela também gostava de observar a folhas no Outono. Jennie sentiu-se confortada, finalmente iria ver sua mãe e seu pai. Deixou de sentir o corpo, de repente podia ouvir as batidas de seu coração. Não sentia mais dor.
Sua visão começou a desaparecer, impedindo Jennie terminar de assistir o espetáculo de Outono que tanto gostava.
Logo depois, em um último sopro de vida, seus pensamentos cessaram, para sempre.
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