Notas iniciais
Editado 02/03/2013

Betty finalmente se sentiu mais calma para voltar a sua sala e continuar seu trabalho.

– Você tem certeza de que já está bem? – ele disse, segurando-a pelas mãos.

– Sim, mi doctor! Estou bem agora. Já posso voltar a trabalhar – ela respondeu sorrindo-lhe.

– Está bem! Mas se precisar de mim, é só me chamar.

– Eu sei.

– Vamos almoçar juntos hoje?

Ele disse isso e a realidade caiu como uma árvore cortada entre os dois. Betty se lembrou de que estava na Ecomoda em mais um dia de trabalho, e não no castelo do reino encantado onde passou a maior parte da sua vida, ainda que Armando, de forma inconsciente, insistisse em levá-la lá.

– Ai, Armando! Que pena, não vai dar.

– Por quê? – ele perguntou frustrado, a árvore caíra bem em cima dos seus planos.

– Já tenho um almoço de negócios.

Ele pensou que Betty só poderia estar louca em aceitar um almoço assim, sem consultá-lo, ele era o vice-presidente da empresa, tinha que saber essas coisas...

– Almoço de negócios? E com quem? – perguntou novamente só pra ter certeza de que escutara certo o que ela disse.

– Com Doutor Millar, gerente de Hilos Rampa.

“Aquele estúpido”, pensou Armando, revirando os olhos. Estúpido pelo fato de ter nascido homem e por roubar sua Betty exatamente no dia em que ambos resolveram não serem mais apenas amigos... E Armando tinha planos! Não gostou nada, nada...

– E por que esse “negócio” não poderia ser feito aqui mesmo na Ecomoda? – ele perguntou, sobrancelha erguida, desconfiado.

– Armando, você sempre tinha almoços de negócio, isso é normal! – Betty estava sem entender o interrogatório dele.

– Mas você vai sozinha?

Ela olhou-o de lado, cenho contraído. Entendera o porquê daquilo:

– Não, Nicolas vai comigo — ela explicou.

Armando olhou-a com uma expressão fechada. Quase subiu no sofá de ódio. Aquele mala sem alça do Nicolas era incapaz de defender Betty mesmo de um bebê de colo. Aquele cegueta! Não. Nicolas é que ele não aceitava que fosse de maneira alguma...

– Ah, não, Betty, sozinha com o Nicolas, não. Eu também vou! Afinal sou o vice-presidente desta empresa. E não quero ficar longe de você.

Betty sorriu. Também não queria ficar longe dele. Adorou a ideia:

– Por mim está bem — ela disse, sorrindo.

– Que hora será esse almoço?

– À Uma hora.

– Estarei pronto à uma hora então.

– Certo! Agora tenho que voltar a trabalhar.

– Sim, mas me dê um beijinho antes – ele pediu, com carinha de criança mimada.

Betty lhe deu um beijinho rápido, e ele fica olhando-a, insatisfeito:

– Isso não é um beijo, doutora!

Ele a tomou nos braços e se beijaram intensamente.

Betty interrompeu o beijo, antes que as coisas fossem muito longe. Tentou soltar-se delem mas, Armando, achando a brincadeira engraçada, terminou por rir e apertou-a contra si com mais força.

– Deixe-me ir, Armando! – ela pediu, divertida.

– Por que eu sempre tenho que deixá-la ir?

– Por que estamos em horário de trabalho – ela disse entre risos, porque ele estava dando vários beijos em seu pescoço – e somos somente amigos...

Aquilo, ainda que já não fosse mais tão sério, lhe fazia ranger os dentes. Ela aproveitou a deixa e finalmente se soltou. Saiu rindo para seu escritório.

Armando ficou alguns segundos em pé no meio da sala olhando para a porta por onde ela se fora. Queria ir até lá. Não queria nem que ela se tivesse ido... Mas não foi, só se deliciou com esse sentimento descompassado, sorrindo.

Em seguida, se lembrou de uma conversa que teve com Mário Calderón há algum tempo, antes de se apaixonar por Betty. Lembrou-se de ter dito a Mário que não sabia o que era o amor e que era muito cético em relação a isso, que não acreditava um dia encontrar alguém que o completasse e o fizesse sentir o que era o verdadeiro amor (Cap. 34). Ele sorriu para si mesmo... Aquilo parecia ter acontecido em outra vida. Nunca se sentiu tão feliz em estar tão completamente equivocado. Como poderia imaginar que essa mulher existisse e que seria Betty? E naquele momento, ela fazia parte de si como um órgão que, se lhe fosse tirado, era morte na certa. Também nunca se sentira tão satisfeito em estar tão preso assim à alguém. E ainda bem que era à Betty... Qualquer outra pessoa certamente não saberia lidar com isso como ela faz.

Chegada a hora de ir para o almoço, que seria no Le Noir, Armando foi à sala de Betty, onde Nicolas já se encontrava.

– Vamos? ele disse a ela, ignorando o outro.

Nicolas estranhou. Virou-se para Betty e disse, num sussurro:

– O cabeção também vai?

– Sim. O Armando também vai, Nicolas – ela respondeu, reprimindo o riso.

Armando escutara, e tinha a visão mais que nítida da sua mão afundando o nariz do cegueta...

– Muito engraçado, Nicolas! – ele disse de olhos semicerrados.

Betty propôs que fossem e todos saíram do escritório. Chegaram à portaria e Armando e Nicolas se dirigiram cada um aos seus respectivos carros, deixando Betty parada, no meio do caminho, divertidíssima com aquela situação.

– Vamos em meu carro — Armando disse, mal-humorado.

– Não, eu vou no meu. Agora tenho carro! – Nicolas respondeu, balançand as chaves.

Armando imitou-o sem Betty ver.

– Está bem. Eu vou com Armando e você vai no seu carro, Nicolas.

Armando sorriu vitorioso, aprovando o arranjo. Era isso mesmo o que ele queria, mais tempo sozinho com sua Betty, e menos tempo com aquele mala.

Ele dirigia feliz, cantarolando e batendo os dedos no volante, mas olhou para o lado e viu Betty calada. Ela parecia mergulhada em alguma lembrança e isso lhe gelou a espinha... Tinha medo de todas as lembranças de Betty como pesadelos que lhe roubam o descanso à noite.

– Que foi, mi amor? – ele interrompeu o transe de Betty.

– É tudo muito estranho isso! É uma loucura!

– O que? – ele perguntou com medo do que ela pudesse responder, e rezou para que não fosse nada relacionado aos dois.

– Outro dia eu estava almoçando no Le Noir com minhas amigas e era apenas sua assistente. E você estava almoçando com Doutor Millar, e era o presidente da empresa. Hoje nós vamos almoçar com o mesmo Doutor Millar, mas...

– Você agora é a presidente e eu sou apenas o vice... E isso, claro, por bondade sua – embora ele estivesse aliviado por Betty não ter pensando nada a respeito da relação passada dos dois, ele tinha que admitir que esse almoço seria muito mais estranho que os outros em que ele já participou. Sem contar que o Dr. Millar não era dos mais discretos.

Betty não gostou do que escutou de Armando. Não era bem por bondade dela que ele estava na vice-presidência. E se fossem medir bondade ali, realmente ela seria a mais beneficiada. Por bondade dele é que ela tivera uma chance, por bondade dele ela conseguiu mostrar seu trabalho e por bondade dele é que ela obteve o reconhecimento de todos, ainda que tenham optado pelo caminho mais tortuoso que visualizaram.

– Não diga isso! Você é o dono da empresa!

– Errado, Beatriz! – ele disse sorrindo, melancólico – a dona da empresa é você, lembra?

Ele sabia que era difícil dizer tal frase com naturalidade, mas a última coisa que queria era Betty se dar conta do quanto isso o machucava. Antigas lembranças lhe entravam na carne derrubando um gosto de fel no seu sangue, e não queria que a mesma coisa acontecesse com Betty, não suportaria isso nunca. Ela estava onde estava porque merecia, mais que qualquer um, ninguém podia duvidar disso, e por isso mesmo fazia questão de evidenciar a sua incapacidade, foi o que ele sempre fora, incapaz, com seu curso estúpido de engenharia industrial que durante muito tempo fizera questão de mostrar como escudo, como se um papel cheio de letras substituísse sua cabeça vazia...

Os olhos de Betty se encheram de lágrimas quando ele disse aquilo. E doía mais ainda a naturalidade com que ele pronunciara tais palavras, como que querendo tirá-la da lama onde se metera. Estava nessa com ele até o pescoço e não merecia esse esforço. Não era dona de nada, e o que mais queria era não só sair daquilo, mas tirar Armando consigo porque nunca duvidou das intenções dele, e nunca duvidaria.

– Não brinque com isso, Armando! Eu não sou dona de nada. Isso é só no papel. Você sabe disso – respondeu indignada.

– Está bem, Betty! – Ele percebeu a reação de Betty e não queria machucá-la com isso – Não precisa ficar assim! Eu não me importo. Todo mundo já sabe que eu fui um péssimo presidente, que a empresa está embargada, que eu fui substituído pela minha assistente. Não me importo mesmo. E, mais, tenho muito orgulho de você! Tenho muito orgulho que você esteja presidindo minha empresa.

Ele afastou uma das mãos do volante e segurou a dela:

– Fique tranquila, sim.

Betty deu um sorriso tímido, não muito convencida. Mas ela percebeu que Armando era sincero. E isso a acalmou e tranquilizou-a.

Eles chegaram ao restaurante e Nicolas chegou logo atrás. Entraram os três juntos e logo avistaram o Doutor Millar, que chegara e estava sentado em uma das mesas. Foram até ele.

– Olá! Como estão! — doutor Millar os cumprimentou, levantando-se da cadeira.

Ele apertou a mão de Armando e foi apresentado a Nicolas. Em seguida, ao cumprimentar Betty, levou sua mão até a boca e disse:

– Me encanta que tenha aceitado meu convite, doutora Pinzon! E quero parabenizá-la pelo lançamento da última coleção da Ecomoda! Não tive oportunidade de fazê-lo antes. Foi brilhante!

A veia da têmpora de Armando pulava como se fosse explodir em sua cabeça e ele puxou o ar pesadamente. Mais uma gracinha e esse doutor ia parar dentro de uma das bandejas usadas pelos garçons para servir sobremesa.

– Obrigada, Doutor Millar! – Betty respondeu, sem graça, puxando a mão que ele ainda segurava e percebendo que Armando estava com a cara fechada.

– Mas, sentemo-nos — doutor Millar propôs.

Todos se acomodaram, enquanto o Doutor Millar continuava dirigindo-se a Betty como se os outros dois não existissem:

– A senhorita está muito mudada, doutora Pinzon! Posso chamá-la de Beatriz?

– Sim, claro – ela respondeu, cada vez mais desconfortável sem saber como agir.

Armando massageou as têmporas e fechou os punhos numa tentativa de autocontrole.

– Eu quase não a reconheci quando a vi pela televisão — doutor Millar continuava com suas investidas.

– Sim — Armando interferiu na conversa. — A doutora Pinzon mudou o visual, mas continua a mesma executiva brilhante e competente. – Ele estava incomodado com as atenções daquele homem está dispensada à Betty, como se não houvesse mais ninguém ali, somente ela.

– Disso eu não tenho duvida! – nem sequer encarou Armando para responder, só tinha olhos para Betty.

O maitre se aproximou e lhes passou os cardápios.

O Dr. Millar seguiu conversando apenas com Betty, sugerindo-lhe pratos e bebidas, enquanto Armando olhou para o gerente em tom assassino e Nicolas escondeu o rosto no cardápio com vontade de rir.

O almoço seguiu em clima tenso. Betty não sabia como agir diante das atenções e galanteios do executivo, fez de tudo para introduzir Armando e Nicolas na conversa, mas o homem não lhes dava a mínima chance. Ela sabia que Armando estava a ponto de explodir, então, antes da sobremesa ela pediu licença e foi ao banheiro tentar espairecer e pensar em uma maneira de se desvencilhar daquela situação estranha.

– Armando, quem diria que sua assistente iria se revelar tão competente e tão bonita, não? — doutor Millar disse.

– Sim – Armando respondeu mal abrindo os dentes, só imaginando o rosto do idiota desfigurado depois de tantos socos que ele daria.

– Eu me lembro bem da última vez em que eu me encontrei com ela, aqui mesmo no Le Noir. Elaestava com suas amigas, lembra-se?

– Claro que sim.

– Mas estava muito diferente.

– Sim. Estava feia! – Nicolas disse, rindo, não pôde evitar. Mas calou-se logo diante do olhar recriminador de Armando.

– Sim – o outro concordou com Nicolas e riu também – Por que será que ela se escondia daquela maneira?

– Creio, doutor Millar, que essa é uma questão pessoal da doutora Pinzon, não acha? – Armando disse com um sorriso pálido e nervoso.

– Claro! Claro que sim.

Estabeleceu-se um silêncio pesado sobre a mesa. O gerente olhava ansiosamente para a direção do banheiro feminino, esperando que Betty aparecese e Armando olhaa fixamente para ele com vontade de esganá-lo. Nicolas, por sua vez, estava vermelho de tanto conter o riso.

Betty retornou. Dr.Millar se levantou e puxou-lhe a cadeira para que ela se sentasse. Armando pigarreou:

– Bom, creio que tudo o que tínhamos para resolver já resolvemos. Nicolas vai manter contato para acertarmos os detalhes, não é verdade, Beatriz?

– Sim. Está tudo resolvido.

Armando se levantou:

– Então vamos embora porque temos muito trabalho na Ecomoda.

Ele mal terminou de dizer e avançou para Beatriz, puxando-a gentil, porém firmemente, pelo cotovelo para que se levantasse.

– Mas já vão? Beatriz nem tocou na sua sobremesa — doutor Millar observou.

– Beatriz não gosta de doces, não é, doutora? – disse, olhando para ela duramente.

– Sim – ela respondeu, sorrindo, sem graça – Nunca fui muito de doces.

– Mas eu gosto! E não terminei minha sobremesa ainda! – Nicolas exclamou, comendo rapidamente o seu doce e falando com a boca cheia.

– Você pode ficar aí comendo seu doce se quiser — Armando disse. — Você veio com seu próprio carro. Eu e Beatriz temos que ir.

– Espero que tenhamos oportunidade de repetir o almoço. Ou talvez um jantar – doutor Millar disse, olhando diretamente para Betty.

– A Doutora Pinzon é uma executiva muito ocupada, doutor Millar, creia-me, sua agenda está cheia.

– Até logo, Doutor. Obrigada pelo convite. – ela falou virando-se de costas, porque Armando já a estava empurrando para fora do restaurante.

– Até logo, Beatriz! O prazer foi meu. – doutor Millar quase gritou, devido à distância que Betty já se encontrava.

Nicolas terminou de comer o seu doce e saiu correndo para acompanhá-los, deixando o Doutor Millar confuso sem entender direito o que se passara ali.


****



Armando continuou puxando Betty pelo braço até o lado de fora do restaurante. Ele pediu que o manobrista trouxesse seu carro e ficou ali segurando Betty pelo braço sem dizer nada. Havia manchas vermelhas e azuis em todas as imagens do seu pensamento, e ele não conseguia articular nada com sobriedade.


Betty sabia que ele estava furioso pela expressão de seu rosto e ficou só esperando a explosão.

O manobrista chegou com o carro e eles entraram.

Armando saiu dirigindo em silêncio, com os dedos brancos de tanto apertar o volante.

– Armando?

Ele não respondeu. As palavras saltaram de sua mente uma a uma e ele só conseguiu se ver espancando aquele doutorzinho estúpido até a morte.

– Armando, não fica assim...

Nada. Ele só conseguia pensar na atitude dele para com Betty e tinha vontade de entrar no restaurante com o carro em cima dele.

– Armando, sei que você não gostou das gentilezas do dr. Millar comigo, mas...

– Gentilezas, Betty!?!?!?Gentilezas!?!?!? – ele gritava – Ele só faltou devorar você na mesa junto com a comida! Ficou babando em cima de você o tempo todo!

– O que é isso, Armando!?

– Não venha me dizer que você não percebeu!

Betty tentou dizer alguma coisa, mas ele não lhe deu tempo:

– E não venha me dizer que não gostou!

– Armando!? – ela exclamou, indignada.

– É por isso que você quer que sejamos somente amigos, não é? Não quer assumir nossa relação.

– Armando, você está me ofendendo!

– Claro! Você quer ouvir os galanteios idiotas de idiotas como aquele doutor Millar! Foi isso que você ficou fazendo enquanto eu estive viajando? Frequentando almoços de negócios como este?

– Enquanto você esteve viajando, especialmente para a Venezuela, eu fiquei trabalhando! Mas você deve ter se divertido bastante com a Alejandra! – ela responde furiosa.

– Me divertindo com a Alejandra!? Eu estava mal e por sua causa! Alejandra me ajudou muito.

– Sim! Eu imagino o tipo de ajuda!

– Você está tentando mudar de assunto. Não venha com essa história de Alejandra agora. O que foi resolvido nesse almoço poderia ter sido resolvido perfeitamente na Ecomoda!

– Mas o Doutor Millar nos convidou para o almoço! O que você queria que eu fizesse?

– Nos convidou? Ou convidou você?

– Nos convidou! A mim e a Nicolas. Armando, não seja bobo, eu não vejo o doutor Millar desde o dia em que estive no Le Noir com as meninas!

– Sim. E já naquela época ele perguntava muito por você! Parece que sua “competência” o encanta! – ele disse sarcasticamente.

– Chega! Não vou mais discutir com você! Você não sabe o que está dizendo!

– Não sei o que estou dizendo... Está bem!

Eles terminaram o resto do trajeto em silêncio.