Notas iniciais
Editado em: 27/04/2013

Frestas de luz solares insistiam em escapar através da cortina e dançar no rosto de Armando. Ele piscou algumas vezes, relutante em despertar daquele sono tão bom. Quando finalmente conseguiu abrir os olhos, se deparou com sua Betty ao seu lado, dormindo tranquilamente, com um esboço de sorriso nos lábios. Seus cabelos ainda tinham alguns cachos do penteado espalhados pelo travesseiro e seu corpo nu estava parcialmente coberto pelo lençol. Lembrou-se então de tudo o que ocorrera durante a noite, das carícias, das palavras de amor sussurradas no calor do desejo, das risadas, da forma sempre tão intensa, total e confiante com que ela se entregava a ele, mesmo quando ele propunha novas carícias e jogos eróticos que sempre a deixavam tímida de início... Lembrou-se de como eles se amaram sem pressa e sem medo do relógio, porque nenhum dos dois teria que levantar no meio da noite e ir embora...

Ficou a observá-la. Sentia-se especialmente feliz naquela manhã, porque com a ajuda de Catalina, a fada madrinha de Betty, eles finalmente tiveram a oportunidade de, pela primeira vez, amanhecerem lado a lado, como há muito ele ansiava.

Levantou-se com todo cuidado para não acordá-la. Queria preparar o café da manhã para servir-lhe na cama. Vestiu seu roupão e silenciosamente se dirigiu até a cozinha. Sorriu ao percorrer o caminho até lá e perceber as mudanças que Betty já havia feito em seu apartamento durante aquele período em que estavam juntos. Detalhes apenas, mas que faziam a diferença, como algumas mudanças de objetos aqui e ali; alguns objetos mais coloridos trazendo mais vida ao ambiente e, em meio a tudo isso, várias fotos dela que ele havia “roubado” quando Manuela as enviou para a aprovação de Betty antes que fossem publicadas na revista.

Ele gostaria de ter preparado algo especial para aquela ocasião. Porém, só ficara sabendo que Betty passaria a noite com ele na tarde anterior e não tivera tempo de fazer nada. Mas queria que aquela experiência fosse inesquecível para ela.

Ao chegar à cozinha, entretanto, se percebeu em um território totalmente desconhecido. Voltou para a sala para se certificar de que ainda estava em sua casa, olhou em volta e caminhou de novo para a cozinha.

Na geladeira não havia praticamente nada. Nunca se preocupara em comprar coisas para a casa, não ficava lá... Quando estava com Marcela tudo se materializava nos lugares certos, mas havia muito que ela saíra de sua vida e levara suas mágicas.

Olhou para o fogão de sobrancelhas erguidas e depois para o microondas, aquilo não era sua casa, impossível que fosse. Tudo parecia muito grande e aquele branco dos eletrodomésticos gelava-lha as vistas. Olhou o armário, receoso de encontrar o bicho-papão, e voltou mais uma vez para a sala, com medo daquele lugar tão estranho. Pegou o telefone e ligou para “Flor Colômbia”, uma floricultura de sua confiança, de modo a pedir uma cesta de café da manhã especial. Pediu as coisas de que lembrara o nome, coisas simples, pães, frutas, chocolates, arepitas¹... Pediu para que colocassem na cesta vários presentes, todavia desistiu logo em seguida, pediu tudo separado. Antes de desligar advertiu o atendente para que fosse muito rápido de modo que ele não perdesse a paciência.

Em seguida ligou na portaria avisando que um entregador apareceria com uma encomenda para ele, e que de maneira alguma deviam tocar lá para anunciar. Podia mandar subir direto, por sua conta e risco.

Rapidamente as coisas lhe foram entregues e Armando voltou a cozinha, com o objetivo de armar uma bandeja bem bonita para servir Betty na cama, já que a única contribuição que ele seria capaz de dar era essa. Colocou as sacolas em cima da pia e abriu-as, abrindo as caixinhas e deixando os quitutes à mostra. Examinou tudo para ver do que precisaria e em seguida olhou em volta encostando-se na parede, os olhos arregalados. Onde estavam todas as coisas de que precisava? Bandejas, copos, talheres, forrinhos, pratos... continuou pregado na parede um tempo, tentando olhar através das portas dos armários. Percebeu que aquilo era ridículo e decidiu agir logo antes que Betty acordasse.

A principio, tentou fazer o mínimo de barulho para não acordá-la, mas a sua falta de paciência tapou-lhe os ouvidos com os dedos e ele começou a tirar tudo para o meio da cozinha, cada vez mais descontrolado de raiva por não encontrar o que queria.

Enquanto abria a última porta do armário da parede, sentiu uma mão tocar seu ombro causando-lhe um choque altíssimo. Ele pulou para o lado, num susto tão absurdo que deixou as travessas de prata que estava examinando caírem todas no chão, num soar irritante que quase o fez gritar de raiva.

– Ay, mi amor, desculpa! — A voz de Betty ecoou longe em sua mente repetidas vezes a mesma frase, e demorou para que suas vistas parassem de vacilar e sua mente de soar com os ruídos das travessas. Só então ele viu Betty. E esqueceu tudo. Tempo e espaço se fundiram em sua figura, o lugar onde ele estava era ela e não pensava estar em nenhum outro.

Percebeu que ela encolhera os ombros diante dele e avançou em cima dela, envolvendo-lhe num abraço:

– Não foi nada, mi amor... Só caíram uma travessas...

Betty enlaçou o pescoço dele, escondendo o rosto em seu peito:

– Você me parece transtornado.

– Sou um inútil, mi vida, um inútil...

Betty separou-se dele e o encarou:

– Que houve, mi amor?

– Ah, estava tentando preparar um café para te servir na cama, mas cheguei a um país estranho chamado cozinha e ninguém falava a minha língua...

Betty riu, beijando-lhe o rosto:

– Que lindo, Armando... Já valeu a intenção. Ninguém nunca nem tinha pensado em fazer isso pra mim, então, realmente a intenção já foi importante.

Olhou para trás com uma expressão infantil:

– Nossa! Quanta coisa gostosa! E estou morrendo de fome.

Dirigiu-se para a pia e comeu uma fatia de mamão, lambendo os dedos. Só então Armando pôde vê-la. Seu coração derreteu-se dentro do peito. Ela estava vestida somente com a sua camisa de um tecido fino, ligeiramente transparente. Se ele forçasse as vistas seria capaz de ver sua silhueta dançando, mas não havia necessidade já que via nitidamente em sua cabeça. Uma visão muito agradável que terminava em outro canto da casa.

Ele foi até ela, abraçando-lhe por trás, acariciando-lhe o quadril por cima da blusa.

Beijou-lhe o pescoço.

– Você está absolutamente sexy vestida assim, sabia? — ele disse.

Betty virou-se para ele, comendo um pedaço de um bombom e dando-lhe o outro pedaço na boca:

– Hum, só estou com uma camisa, Armando.

Ele apertou-a mais contra si, segurando-lhe a mão com que ela lhe dera o bombom e lambendo-lhe os dedos.

– Pois quanto menos roupa, mais bonita, mi amor – disse sorrindo maliciosamente e Betty corou.

Armando beijou-a intensamente, numa tentativa frustrada de compartilhar o desejo que lhe acendera no peito e migrara para o resto do corpo. Ela abandonou-se em seus braços enquanto ele deslizava as mãos por seu corpo por cima da camisa, calmamente, vendo estendida a bandeira branca do tempo, seu amigo tempo daquele dia. Enquanto beijava-a, correu as mãos pela parte interna de sua coxas e tocando-a delicadamente como se colhesse uma rosa num dia de primavera. Betty gemeu, enlaçando seu pescoço, apoiando-se nele, fundindo-se ao seu corpo. Perdera a noção de quem era e de onde terminava Armando e se começava. Puxou o cordão do roupão de Armando, abrindo-o, e procurou retribuir as mesmas carícias, mas seu prazer era cada vez mais intenso e ela parou logo, perdendo o foco da realidade a sua volta. Tudo girava num ritmo alucinado.

Ele parou com as carícias e começou a abrir um a um os botões da camisa com que ela estava vestida, provocando-a, saboreando a urgência dela pelos seus toques, visível em sua pele e em seus olhos. Abriu um a um, como se não quisesse terminar nunca, dono dos ponteiros do relógio que ordenara parar. Quando terminou, deslizou as mãos por seu corpo nu, com toda a reverencia, deslumbrado, incrédulo de que fosse real e pertencesse a ele, receoso de que seu toque dissipasse a miragem da figura dela.

Betty, com o desejo arrepiando sua pele, abraçou Armando, beijando-o, correndo as mãos por suas costas, por sua nuca, por seu cabelo. Beijou-lhe o pescoço e as orelhas, fazendo-o sorrir e o desejo bater intenso ameaçando implodir suas sensações. Ele pegou-a no colo e a levou de volta para a cama, enquanto o beijava.

Deitou-a na cama e deitou-se por cima dela, chegando até a gaveta e abrindo-a, mostrando-lhe o preservativo que tirara de dentro.

– Dessa vez não vou esquecer...

Sentaram-se na cama. Betty com os olhos bem abertos numa expressão quase infantil que o encantava demasiadamente.

– Posso...? – ela disse, corada, quase num sussurro.

Armando sorriu, seus olhos brilharam:

– Vai ser perfeito, mi amor – disse adulado.

Betty chegou bem perto dele e colocou-lhe o preservativo timidamente enquanto ele se acendia com o toque dela.

Armando deitou-se e a trouxe para cima dele, e enquanto ela se movimentava no ritmo que mais lhe aprazia, convidando-o a perda total do controle, ele se norteava por sua imagem de anjo de sonho, ainda que tudo se incendiasse a sua volta.

O caleidoscópio das sensações de ambos ia tornando cada vez mais arrebatado, fazendo que Armando soerguesse as costas e sentasse na cama, abraçando-a, enquanto a fazia se movimentar cada vez mais rápido sobre ele, até que o caleidoscópio explodiu em milhares de fogos no quarto, ofuscando completamente suas vistas, desaparecendo com ele e o mundo. Beijou Betty docemente, segurando seu rosto com uma mão e virando-se de modo que ela se deitasse na cama. Tirou o preservativo e levantou-se se dirigindo ao banheiro. Em questão de segundos voltou, deitando-se por cima dela.

Ficou olhando-a:

– É mentira que você seja minha... Certamente acordarei só em meu apartamento e ele estará coberto de fuligem, como sempre esteve.

Betty acariciou seu rosto:

– Mentira que “você” seja meu... Afinal, quem sou eu, não é...?

– Como assim, mi amor?! Você é a mulher mais linda do mundo, mais inteligente do mundo, mais sensível e... O maior presente que eu poderia ganhar na minha vida...Posso te confessar uma coisa?

Ela assentiu com a cabeça:

– Passei até a crer em Deus depois que você voltou pra mim, impossível que essas coisas ocorram por acaso.

Beijou-a deslizando as mãos por seus seios, por sua barriga, pelas coxas, até parar em seu ponto entre elas:

– Sua vez de ir até o fim – disse malicioso.

Ele beijou-lhe o pescoço, percorreu com sua língua um caminho intenso, passando pelos seios de Betty, por sua barriga, até chegar em seu ponto mais íntimo. Betty gemeu e movimentou os quadris enquanto ele a acariciava, cada vez mais intensamente, até que o universo explodiu dentro dela numa chuva de estrelas de um prata febril. Ela puxou os ombros de Armando trazendo-o para si e ele se deitou ao seu lado, abraçando-a, aninhando-a em seu peito.

Ele sorriu, beijando-lhe a testa. Estava, simplesmente, feliz.


****



Seu Hermes acordou e ligou para a casa de Catalina. Catalina atendeu, sonolenta, e disse que Betty tinha acabado de sair para a empresa, para ligar para lá depois de uns minutos. Seu Hermes coçou a cabeça. O celular desligado e o diabo que é tão porco...


Acontece que havia muito que ele olhava Betty sair saltitando de casa feito uma gazela no campo. Estava sorrindo demasiadamente e seus olhos eram duas janelas abertas esperando alguém passar pela rua. Alguém... Especificamente alguém. Alguém que vivia atrás dela, que não conseguia fazer nada sem ela, alguém que a seguiu o coquetel inteiro indecentemente indiscreto, quando não estava atrás dela com as próprias pernas, seguia-a com os olhos, com o espírito, emanando um odor de ciúme que esfumaçava todo o ambiente, poluindo-o... E ele sabia muito bem que o diabo era porco e não gostava nada, nada daquilo. Observou-a durante dias seguidos, tentou rondá-la nos dias em que ia à Ecomoda e, ainda que tudo seguisse na santa paz, parecia que a paz reinante esforçava-se para sorrir ficando falsa demais na foto que tirava suas vistas. Tsc, tsc, tsc... Seu olfato sentia o cheiro do erro, e dessa vez ele não iria deixá-lo sair correndo e entrar por baixo da mesa forrada. Tinha que mudar de tática, e quando desceu para tomar café, ainda estava de pijama. Dona Júlia olhou-o, estranhando:

– Mas, Hermes, você não ia trabalhar hoje?

Ele sentou-se cobrindo o rosto com o jornal aberto:

– Desisti, estou cansado da festa e quero levar meu carro à oficina.

Dona Júlia sentou-se perto dele, encostando a mão em sua testa.

– Que foi, mulher?! – Ele sacudiu as mãos, afastando-a.

– Hermes, meu querido, você está bem?

– Claro que estou bem! Espero é continuar bem e que não seja nada... – pensou alto e se deparou com os olhos de D. Júlia bem abertos – com o carro, Julia, com o carro!

Dona Júlia se levantou, voltando a secar as vasilhas que usara para fazer o café da manhã.

Seu Hermes continuou calmamente a leitura, segurando as bordas do jornal com força, amassando-o. Terminado o café, ligou para a Ecomoda. Betty não chegara. Tentou o celular. Desligado.

Dona Julia chegou atrás dele silenciosamente, enquanto ele ainda estava com o telefone no ouvido.

– Pra quem você está ligando, Hermes?

Seu Hermes virou-se pra ela, por um segundo com os olhos arregalados e pálido, mas pigarreou e retomou a postura:

– Ah, Júlia, não me amola! Vou me arrumar.

E saiu pisando forte para o quarto.

– Meu Deus, o que será que esse homem tem... — D. Julia sabia que algo não estava certo. Voltou para a cozinha.


****



Betty acordou sobressaltada. Meu Deus, cochilaram! Agora estavam atrasados. Ela chamou Armando que se recusava a acordar, perdido no seu mundo de sonhos. Insistiu, e quando disse que já eram quase nove e meia e que provavelmente seu pai estaria lá os esperando, Armando acordou sobressaltado e se sentou na cama, mas a informação que enviara ao cérebro de vestir-se rapidamente parou no meio do caminho e ele sorriu:


– Não vou bancar o ridículo hoje, Betty...

Betty acabou sorrindo também, se lembrando do dia em que saíram catando ambos as respectivas roupas pela casa:

– Ok. Mas aonde você colocou as minhas coisas?

– Aqui dentro do armário.

Ele se levantou, nu, e abriu o armário, encontrando rapidamente a bolsa com as coisas de Betty. Ela flutuou em si mesma, admirando-o. Era perfeito. E era dela. Algo quase impossível, mas não conseguia imaginar outra realidade.

Armando voltou e colocou a bolsa em cima da cama:

– Tudo aqui. Pode ficar tranquila. — ele disse, se curvando sobre ela e beijando-a. – Não acredito que vamos ter que trabalhar ainda, Betty.

– Ah, mi amor, mas tenho tanta coisa a resolver! Impossível faltar hoje...

Armando franziu as sobrancelhas, totalmente abandonado. Betty sorriu.

– Mas não podemos ir depois do almoço? Você diz que dormiu até tarde...

– Tenho medo de meu pai já estar na empresa. Veremos.

Betty se virou e pegou o celular no criado-mudo. Mal ela o ligou e ele já começou a tocar. Era Catalina:

– Betty, estou tentando te ligar há muito tempo! Já está na empresa?

– Ainda não, Catalina, por quê?

– Seu pai já ligou atrás de você! Disse que tinha ido para lá!

– Ai, meu Deus. Vou ligar na empresa pra saber se ele já chegou.

– Ok, Betty, tchau.

– Tchau.

Betty olhou para Armando que já vestia suas roupas:

– Já ligou atrás de mim, e aqui no celular já consta umas cinco chamadas não-atendidas... Três são dele...

– Só dizer que estava sem bateria.

– Sim. Vou ligar na empresa.

Ela ligou na Ecomoda e Aura Maria diz que ele ligara umas três vezes atrás dela, mas que não aparecera. Betty começou a sentir uma pontada insistente na cabeça. Aquilo não podia acontecer:

– Aura Maria, se ele chegar, liga no celular do Armando, 'tá bom?

– Certo, Betty! — Aura Maria disse de maneira sugestiva.

Encerrou a chamada e voltou a desligar o celular. Vestiu-se rapidamente entre os abraços e os beijos de Armando, que a divertiam muito, comeram alguma coisa e foram para a empresa.

Chegando à Ecomoda, Betty ligou mais uma vez para Aura Maria, do celular de Armando e Aura Maria disse que seu Hermes ainda não aparecera por lá. Ambos expiraram a ansiedade e entraram, abraçadinhos, casal de capa de romance que fez as meninas do quartel suspirarem. Entraram para a sala de Betty. Armando a abraçou por trás e deu beijinhos em seu pescoço. Ela riu.

– Ah, mi amor, agora que vai ser mais difícil sair de perto de você — ele confessou.

Betty se virou e enlaçou a cintura dele.

– Obrigado pela noite mais perfeita da minha vida — Armando continuou.

Betty sorriu, tímida, escondendo a cabeça em seu peito:

– Mas você teve tantas noites com tantas pessoas...

Ele segurou o queixo dela, fazendo com que ela olhasse para ele:

– Essas outras tantas noites de que você fala, mi amor, pareciam a mesma história xerocada um milhão de vezes. Eu sabia de tudo e meus atos eram mecânicos como um brinquedo a pilha. Com você foi diferente... Eu estava lá! Obrigado.

Betty enlaçou o pescoço dele e se beijaram mais uma vez. Armando deslizou as mãos por seus seios que reagiram prontamente ao toque. Betty se afastou dele, ofegante. Sorriu:

– Armando, precisamos urgentemente trabalhar!

Ele passou as mãos pelos próprios cabelos:

– E eu preciso urgentemente de um banho frio. Vou pra minha sala me acalmar, – sorriu – mas eu ainda volto.

– Pois, é bom mesmo que volte, senhor vice-presidente.

Deram-se um selinho e Armando saiu. Assim que ele fechou a porta o telefone tocou. Era D. Júlia:

– Olá, minha filha, chegou há muito tempo?

– Não, mamãe, acabei de chegar. Estou esperando papai, ele ainda está aí?

– Está, sim, e foi por isso que eu liguei... Estou preocupada com seu pai, ele disse que não ia trabalhar hoje porque queria levar o carro à oficina...

Betty riu da sua forma característica:

– Está desconfiada que ele esteja com outra mulher, mamãe?

– Não, minha filha, como te ocorre isso! Só estou preocupada, ele está tramando alguma coisa.

– Bom, seja lá o que for, a gente descobre logo, fique tranquila...

– Ai, tomara, tomara... E, desculpa te atrapalhar, filha...

– Que é isso, mãe, nunca que me atrapalha. Fique tranquila, me avisa quando ele chegar.

– Certo, Betty, fica com Deus.

– Amém, a senhora também.

E Betty desligou o telefone sorrindo da preocupação de Dona Julia.

Armando apareceu com o rostinho na porta de novo. Betty sorriu. Sentiu que não faria nada naquele dia.

– Agora é sério, Betty, preciso que assine umas permissões para mim.

Abaixou o tom de voz:

– Seu pai está aí?

Betty sorriu mais ainda:

– Não, mi amor, minha mãe disse que ele não vem hoje.

– Ah, que notícia ótima!... Sem querer ofender.

Betty riu caracteristicamente:

– Não me ofende.

Ele entrou e lhe entregou os papéis que ela assinou rapidamente. Devolveu-os, porém Armando não se levantou. Perdera-se na presença dela e não tinha absolutamente nenhuma vontade de se encontrar. Betty não sabia fazer outra coisa senão sorrir. Ela adorava sentir-se tão abraçada por aquele amor dele, ainda que a sufocasse algumas vezes. Mas era assim que ela precisava ser amada por ele, e isso não a angustiava.

– Minha pele não pára de queimar por causa da nossa noite... Betty, não sei se vou aguentar dormir sem você hoje...

Betty acariciou o rosto dele:

– Ah, mi amor... nem eu...

Ele levantou-se e ela fez o mesmo. Abraçaram-se, suas peles evaporando no ar e misturando-se.


****


Seu Hermes tomou o caminho mais longo e dirigiu bem devagar até a Ecomoda. Chegando lá, passou tranquilamente por Wilson, assobiando, e também passou por Mariana que estava acostumada com sua presença e nem o anunciava mais. Tomou o elevador e cumprimentou as meninas. Perguntou pelo Doutor Mendoza e Aura Maria e Sandra se entreolharam e ele disse que o Dr Mendoza e Betty esperavam por ele, em uma reunião que ambos haviam convocado para ver o balanço parcial que ele trouxera. Aura Maria disse que os dois estavam na presidência, talvez já preparados para o compromisso. Ela fez menção de anunciá-lo, mas ele fez um gesto com a mão para que ela parasse e ela logo obedeceu, abaixando o telefone enquanto ele ia caminhando para a presidência de olho em Aura Maria para que não pegasse o telefone.

Abriu a porta sem bater. E viu aquela cena que, por mais que ele tivesse suspeitas, não podia acreditar nas imagens que chegavam aos seus olhos...


****


Betty e Armando se entregaram a um beijo apaixonado, completamente esquecidos do mundo. Envolvidos pelo amor e pelo desejo. Nem percebem a porta se abrir, e só despertaram quando escutaram Seu Hermes gritar:

– Mas o que está acontecendo aqui????

Notas finais
1 - uma espécie de panqueca de milho, típica da Colombia e Venezuela.