Notas iniciais
Editado em: 25/04/2013

Armando não conseguia mais articular as palavras de modo que fizessem lógica e a todo momento tinha que voltar atrás para explicar o que disse. Seu corpo saíra da sala de Betty, mas, se o procurassem, era lá mesmo que o encontrariam... Ao lado de Paula, quem estava era um holograma de carne, mal feito.

Betty esfregou os olhos cessando o choro e respirou fundo. Chorar era o que ela sempre fizera e o que nunca adiantara... Ergueu-se de suas lágrimas e decidiu fazer algo diferente. Não iria implicar com Armando e nem com Paula, isso não era de sua natureza, mas mostraria a ele o que ela era capaz de fazer com as armas que tinha. Diante de tudo veria o quanto Armando a queria... Sorriu com as ideias espocando na sua mente e a adrenalina que isso lhe jogou nas veias fez com que ela se arrepiasse. Num impulso, se dirigiu ao banheiro das funcionárias para se recompor e se preparar.

Depois de ter mostrado a empresa à Paula, Armando foi com ela até a sala de reuniões, acomodou-a e chamou Sandra para que lhe servisse alguma coisa. Foi até a sala de Betty para ver como ela estava, se estava melhor, mas como ela não se encontrava. Foi em direção à sala de Nicolas e entrou sem bater. Deu de cara com fotos de mulheres espalhadas pela sala inteira e a vontade que estava de brigar com ele sumira por completo, sendo substituída por uma enorme vontade de rir, pura e simplesmente.

— Olá, Dr Mendoza! — Nicolas disse alegremente, nem parecia o o mesmo de horas atrás.

— Nicolas, o que você disse a Betty sobre o oráculo?

— Como assim? Não disse absolutamente nada...

— Me desculpa, mas alguma coisa você deve ter dito, Betty não é a mesma pessoa desde que saiu daqui.

Nicolas franziu as sobrancelhas, tentando se lembrar de algo:

— Mas, nada foi dito, sobre nada...

Armando começou a ficar impaciente:

— Ela viu todas essas figuras, não viu?

Nicolas assentiu.

— E perguntou de onde veio? — Armando continuou. — O que você disse??

— Ela não perguntou de onde veio... Só viu a foto de Claudia Helena Vásquez e me perguntou de onde eu a conhecia... E eu disse que o senhor era quem tinha me mostrado — Nicolas disse emitindo sua risada característica. — Ela até concordou comigo com relação ao seu bom gosto. — E voltou a rir.

Armando permaneceu impassível. Levantou-se da cadeira dando um soco em Nicolas, mas apertou os olhos e continuava sentado na cadeira, com as mãos pregadas no assento. Descobrira o problema. E Betty estava com ciúme de uma foto... Não podia ser... Rangeu os dentes para que conseguisse dirigir a palavra a Nicolas, e só o fazia porque sabia que ele o dissera inocentemente:

— Obrigado, Nicolas. Mas grava uma coisa somente, tenho bom gosto por amar uma pessoa como a Betty, o resto é idiotice de um playboy que morreu em um acidente de percurso.

Saiu batendo a porta forte, e Nicolas ficou sem entender, voltando às suas fotos logo em seguida.

Armando queria muito falar com Betty, esclarecer isso... Sabia o que era ter ciúme e não queria que ela continuasse com aquele sentimento venenoso. Mas que raio ela estava fazendo que sempre que passava pela presidência encontrava a sala vazia?

— Aura Maria, onde está Beatriz? — perguntou alterado.

Aura Maria se voltou para ele encolhida na sua mesa:

— Ai, doutor, a Dra Betty está no banheiro...

Armando revirou os olhos:

— Avise-a que a Dra Ruiz e eu estamos esperando-a na sala de reuniões. E, Sofia, avise Nicolas, me esqueci de falar com ele.

— Sim, doutor, já falo com ele... — Sophia se levantou, indo em direção à sala do vice-presidente financeiro.

— Obrigado. — E virou-se indo para a sala de reuniões.


Quando Betty saiu do banheiro as meninas rodearam-na, porque pressentiam que estava acontecendo algo:

— Que houve, Betty, que você se trancou no banheiro por tanto tempo? — Sandra perguntou.

— O Seu Armando está louco atrás de você! Disse que está te esperando na sala de reuniões — Aura Maria exclamou com mais medo dele que com vontade de avisar a Betty.

— Já estou indo para lá — Betty disse.

— E está toda perfumada... Hmmmm — Berta não deixou de notar.

— E toda maquiada... Tão linda... — Sophia reparou, embalada por Berta.

— Está querendo fazer uma surpresa para o Seu Armando e aquela biscate que está com ele? — Aura Maria perguntou, maliciosa.

— Porque a gente viu os dois felizes andando por toda a empresa, como se já se conhecessem... — Sandra disse.

— Vai lá logo mesmo, menina, e não deixa essa tomar seu homem, não! — Berta incitou.

Betty não sabia se ria ou se chorava disso tudo. Decidiu não fazer nada por enquanto porque ria melhor quem ria por último, e estava decidida ser a última a rir... Foi para a sala de reuniões.

Antes de entrar respirou fundo. A menininha dentro de si saiu do cômodo onde ela a fechara e balançou a cabeça em uma negativa. Sentiu-se ruir. Contudo, ao abrir a porta e ver Armando e Paula conversando tão próximo, levou a sua menininha gentilmente de volta e trancou-a, segura do que fazia. Atrás de si chegou Gutiérrez, seguido de Nicolas. Sentaram-se. Armando lançou um olhar a Betty como que pedindo para eles conversarem um minuto depois e ela abaixou as vistas, o sangue quase evaporando das veias.

Deu-se inicio à reunião. Paula e Armando falavam do contrato, enquanto Betty analisava os números.

— Há somente uma coisa que não entendo, — Betty disse se esforçando ao máximo para parecer natural — está bem aqui — E colocou o dedo sem dizer o que era. — Dr Mendoza, pode se sentar ao meu lado e me explicar de novo? — Seu coração estava quase sacudindo seu corpo.

Armando prontamente obedeceu e explicou, achando estranho ela não ter entendido uma coisa tão simples. Contudo, se deliciou com o convite e com aquela proximidade. A reunião continuou e enquanto ele falava percebia o olhar de Betty despindo sua roupa e queimando-lhe a pele. A cada minuto ficava mais difícil manter o autocontrole e em dois ou três momentos ele chegou a gaguejar. Não via a hora de ceder sua vez de falar à Paula para que ele pudesse se recompor, e quando o fez, sentia-se suado e sufocado pela gola da camisa.

Entretanto, não parou por aí... Enquanto Paula falava ele sentiu a mão de Betty lhe acariciando a perna por baixo da mesa. Petrificou-se ali sem saber o que fazia. Olhou em volta e ninguém percebia nada, e quando olhou para Betty ela sustentou seu olhar de uma forma tão sensual que uma cena improvável dos dois fazendo amor em cima daquela mesa lhe pulou na mente, arrepiando-o. Betty subia a mão gradativamente, o que ia deixando-o mais louco e mais longe daquele ambiente, com sua imaginação desgovernada. E o desejo queimava dentro dele impedia-o de fixar-se nos assuntos que eram tratados pelos demais. Ele tentou desesperadamente controlar seu corpo, mas este não o obedecia mais. Olhou para os lados novamente, receoso que alguém percebesse o estado em que se encontrava. Betty, no entanto, não teve piedade e continuou a acariciá-lo por baixo da mesa, deliciando-se com as reações dele e o esforço que fazia para não deixar que os outros percebessem.

As pessoas continuaram falando de negócios ao redor deles, mas Armando ouvia apenas sons distantes, que não conseguia distinguir. Sua mente não conseguia acompanhar a conversa. Olha para Betty e quando pensou que estava a ponto de cometer uma loucura, Betty pediu licença e disse que precisava de uns minutos para resolver um assunto, retirando-se da sala, lançando-lhe um olhar cheio de segundas intenções. Ele entendeu perfeitamente o que ela queria. Alguns segundos depois ele também se retirou, gaguejando alguma desculpa que a maioria dos presentes não conseguiu entender e foi atrás dela com o coração galopando e sem conseguir raciocinar direito.

Ele a procurou na presidência, mas ela não estava lá. Irritado, já ia retirando-se para procurá-la em outro lugar quando viu a porta do banheiro aberta. Caminhou até lá e a viu. Entrou fechando a porta com chave atrás de si. Agora ela iria saber o quanto era perigoso provocá-lo daquela maneira. Ela estava de pé em frente ao espelho, com a torneira aberta. Molhava os dedos e passava-os no pescoço e no colo. Ele a observou por alguns segundos: ela tinha os olhos fechados e os lábios entreabertos. Estava linda, corada, com os primeiros botões da blusa abertos. Ela não se manifestou, mas tinha plena consciência que ele estava ali. Armando então aproximou-se silenciosamente e a abraçou por trás, apertando-a contra seu corpo. Ela encostou a a cabeça nos seu ombro e suspirou, sem abrir os olhos. Sentiu a excitação dele e enlouqueceu com os beijos que ele começou a depositar em seu pescoço. Não conseguiu evitar um gemido quando as mãos dele percorreram seu corpo com urgência.

Lá no fundo uma voz lhe dizia que era uma loucura o que estavam fazendo, que eram os presidentes de uma grande empresa e não podiam se comportar daquela forma, abandonando uma reunião de negócios no meio... Mas ela não queria pensar nisso, só queria entregar-se às sensações poderosas que as carícias de Armando provocavam. Ele já ultrapassara a barreira da roupa e acariciava a pele de seus seios sob o sutiã e Betty já não tinha mais vontade própria, derretendo-se nos braços dele.

Ele a virou de frente para si e se apossou de sua boca devorando-a. Continuou a percorrer o corpo dela com as mãos, acariciando suas pernas por baixo da saia, subindo cada vez mais. Ela então começou a puxar a camisa dele de dentro da calça para poder acariciar seu peito, como ela adorava fazer e ele adorava que ela fizesse. Armando a levantou pela cintura e a sentou sobre o balcão. Com mãos experientes retirou sua meia de seda e a lingerie. Betty o beijou no pescoço, no peito e acariciou suas costas. Ele não pôde mais se conter e a possuiu num impulso. Betty o acompanhou agarrando-se aos seus ombros com força, arranhando-os sem perceber. Ela perdeu a noção de si mesma, já não sabia mais onde estava, só tinha consciência de Armando e de seu próprio corpo. As sensações iam crescendo, crescendo e ela se sentiu explodir em mil pedaços.

Ele leva algum tempo para retomar o fôlego e quando consegue, olha para ela assustado:

— O que foi isso, Beatriz? O que aconteceu com você?

Betty, por sua vez, desatou num ataque de riso, escondendo a cabeça em seu ombro e deixando Armando na companhia das interrogações.

Ela ria porque se sentia aliviada da adrenalina que corria por baixo de sua pele desde o momento em que decidira fazer aquilo, ria porque havia conseguido deixar Armando louco sem sequer conseguir olhar mais para aquela top model sem tamanho e ria porque fora tudo mais maravilhoso do que ela podia imaginar.

Armando acariciou seu cabelo, sorrindo desse ataque dela:

Mi amor, que está passando com você? — ele disse entre um sorriso meigo e um olhar doce.

Betty colou seus lábios nos dele e se beijaram ternamente:

— Eu sei e não sei, mi amor... Só sei que... foi ótimo...

Armando sorriu:

— Foi fantástico, mais que isso ainda... — disse beijando-lhe a testa.

— E você nem prestou atenção em Paula mais... — disse ainda sorrindo.

Armando tomou-lhe o rosto entre as mãos. Queria dizer-lhe tantas coisas... Que ele nunca olhara para outra mulher desde que fizeram amor pela primeira vez, e que ele nunca olharia porque se sentia imensamente satisfeito por estar com ela, porque estava completo e pleno, e só se sentia vazio quando ela estava longe. Mas Betty disse antes que ele pudesse formar as frases na cabeça.

— Armando, deixamos uma reunião para trás, temos que voltar...

Ele, num susto, a realidade nos olhos como o sol do meio dia, deu espaço para que Betty descesse da pia e eles se arrumaram rapidamente.

— Vai primeiro, Betty, eu vou logo em seguida.

Ela assentiu e saiu. Armando aguardou uns momentos e voltou também, de braços dados com as lembranças.

Tanto na vez em que Betty chegou quanto no momento em que Armando adentrou a sala, todos olharam-nos como duas atrações turísticas do passeio do domingo. Um misto de suspeita e susto rondavam o olhar de todos, e Betty queria sumir se fosse possível, ao passo que Armando mantinha o semblante tão satisfeito que nem parecia que os dois fizeram a mesma coisa.

A reunião correu normalmente depois disso. Os tópicos foram esclarecidos, o contrato assinado e eles se despediram de Paula enquanto os demais saíam da sala de reuniões.

Quando ficaram sozinhos, Armando cerrou a porta atrás de si enquanto Betty colocava o contrato dentro de sua pasta.

— Beatriz, precisamos conversar.

Betty deixou a pasta arrumada em cima da mesa. Esperava por isso, mas ainda tinha medo dessa conversa.

— Estou ouvindo — ela disse, tentando parecer natural.

Ele chegou bem próximo a ela e passou a mãos pelos seus cabelos.

Mi amor, eu te amo tanto que não quero nem que a possibilidade de eu olhar para outra mulher passe pela sua cabeça.

Betty respirou fundo e olhou-o:

— É que... Eu não tenho nada a ver com o tipo de mulher com que você sempre sonhou.

— Não diz isso, por favor. Você é muito mais do que sonhei, e isso é um fato.

— Eu fiquei louca quando Nicolas me mostrou aquela foto de Claudia Helena Vasquez, dizendo que você tinha um ótimo gosto... Eu me vi e... sou completamente o oposto...

— Você tem toda razão, é completamente o oposto de uma foto...

Betty sorriu. Armando continuou:

— É um ser humano, completo e lindo em todos os sentidos... O que seu amigo Nicolas esqueceu de dizer é que quando ele me perguntou o meu tipo de mulher ideal, eu disse que não havia conseguido pensar em ninguém que não fosse você, e como ele não aceitou...

Betty riu daquele seu jeito característico.

— ... eu disse o tipo que o mauricinho do Armando antigo gostava... Mas, embora tenhamos a mesma face, mi amor, não sou ele, e me sinto satisfeito por não ser... Graças a você... E esse novo Armando é muito feliz porque tem a mulher perfeita para ele ao seu lado. E todas as outras perto dela são apenas retratos ambulantes na rua...

Betty sorriu. Abraçou-o e se beijaram longamente, carinhosamente, sem pressa de sentirem um ao outro.