Notas iniciais
Editado em 05/04/2013

Betty estava tendo um sonho muito bom: se via dormindo abraçada a Armando após terem feito amor, um quadro cuja visão lhe causava sensações agradáveis e que ela fez questão de guardar nitidamente em sua memória. Se recusava a acordar. Tentou acomodar-se melhor para continuar a dormir quando se deu conta de que algo a segurava. Ela abriu os olhos, ainda sonolenta, e viu um braço em sua cintura. Então ela se lembrou de onde estava e sentiu um choque em seu corpo que se despertou prontamente. Deu um pulo na cama e acordou Armando.

– Meu Deus! Armando, que horas são? – Ela começou a procurar por um relógio.

– O que foi, Betty? –Ele sentou-se na cama, ainda sonolento.

– Armando, pelo amor de Deus! – Betty finalmente conseguiu ver a hora no rádio-relógio na cabeceira da cama – Já passa da uma da manhã! Meu pai deve estar louco! Preciso ir embora! Levante-se! Levante-se!

Ela estava enrolada no lençol e procurando por suas roupas pelo chão.

Armando, que só naquele momento se deu conta do que estava acontecendo, sentiu a realidade estapear-lhe a cara e se levantou começando a procurar suas roupas também.

– Calma, Betty! Calma! – Ele tentou acalmá-la enquanto se abaixava para pegar sua roupa.

– Armando, você está pisando na minha calça! – Betty já havia vestido a calcinha e tentava puxar a calça na qual Armando estava pisando. Seus movimentos eram curtos e desajeitados, nervosos, assim como ela se encontrava.

– Desculpe, Betty! – ele saiu de cima da calça dela, tentando vestir sua própria calça.

Betty, já vestida da cintura para baixo, e calçada, continuou procurando suas roupas, andando de um lado para o outro sem muito controle.

– Onde está meu sutiã? – ela olhou em volta, desesperada.

– Acho que nós o tiramos lá fora, Betty – Armando, que estava sentado na cama calçando as meias, não pôde evitar um meio sorriso ao voltar em mente para os momentos de pouco antes.

Betty saiu do quarto ainda enrolada no lençol e encontrou seu sutiã e sua blusa próximos à porta do quarto. Ela os vestiu e continuou procurando seu blazer e sua bolsa. Encontrou a camiseta branca de Armando e também sua camisa e gravata no meio da sala. Ela as recolheu e passou para ele, que nesse momento se aproximou dela:

– Suas roupas. Onde está meu blazer?

– Acho que está lá, Betty – ele apontou em direção à porta, enquanto vestia sua camisa branca.

Betty foi até lá, encontrando seu blazer junto ao paletó de Armando.

– Está aqui, e seu paletó também – Ela o pegou e o levou até Armando.

Quando Betty chegou perto dele, começou a ter um ataque de riso. Armando a olhou interrogativo, ainda que fosse ótimo vê-la rir naquela situação.

– Sua camisa está do avesso – ela disse, rindo muito.

Armando tirou a camisa num reflexo, mas ela lhe ficou presa nos braços pela manga que ele esquecera de desabotoar. Olhou para si mesmo e começou a rir da sua própria burrice enquanto Betty o ajudou a desabotoá-la.

Betty vestiu-se com seu blazer sem parar de rir, pegou sua bolsa e dirigiu-se até a porta.

– Vamos, Armando!

– Já estou indo, Betty! Já estou indo! Onde está a chave do carro?

Ele estava com a camisa ainda aberta, a gravata pendurada no pescoço e segurando o paletó nas mãos, procurando a chave, andando de um lado para outro feito uma barata tonta, contaminado pela pressão dela. Betty riu ainda mais e Armando não sabia se procurava a chave ou se arrumava a gravata. Simplesmente parou porque percebeu o quanto estava ridículo.

– Deixe essa gravata para lá! – ela conseguiu dizer entre risos.

– Não, Betty! – Armando repreendeu-a, os olhos arregalados, o rosto branco simplesmente ao pensar na figura de Seu Hermes – Imagina se seu pai me vê! Quando ele nos deixou na empresa eu estava de gravata – ele disse quando finalmente avistou a chave.

Os dois saíram do apartamento correndo, Armando ainda ajeitando a roupa e entraram no carro em silêncio, entretanto, não conseguiam evitar rir daquela situação estranhíssima pela qual acabaram de passar, situação de filme adolescente que eles há tanto tempo não encenava em suas vidas.

– Aposto que isso só acontece conosco, Armando.

Armando olhou-a rapidamente.

– Não duvido, mi amor...

– Mas foi muito engraçado, nós dois totalmente desajeitados... Acho que não temos vocação para sermos um casal clandestino.

– Mas você sabe que estou disposto a assumir nosso relacionamento, basta que você decida.

Betty sorriu. Sentiu-se abraçada por essas palavras que representavam muito para ela.

– Eu sei... Mas vamos com calma... Vamos namorar só nós dois um tempo, porque depois que meu pai souber...

Armando riu, tentando afastar a bruma de Seu Hermes que lhe causava calafrios.

Eles chegaram à casa de Betty e ela foi saindo apressada do carro. Armando a segurou pelo braço:

– Espere, Betty! Não vai me dar nenhum beijinho?

Betty olhou-o, surpresa, mas sorrindo.

– Está louco? Meu pai pode estar olhando da janela!

Armando franziu um cenho numa expressão abandonada e a soltou. Ela desceu do carro e, antes de fechar a porta, virou-se para ele e disse:

– Boa Noite, Armando!

– Boa Noite, mi amor!

Mas ela já estava longe para ouvi-lo.

Armando esperou até que ela entrasse e permaneceu ali alguns minutos mais, prestando atenção, tentando ouvir algum som. Como não ouviu nada, foi embora, lamentando que uma noite tão linda tivesse que terminar daquela maneira...

Betty entrou em casa com todo o cuidado para não fazer barulho. Deu três passos e olhou para todos os lados. Não viu ninguém, suspirou aliviada e subiu para seu quarto. Parou na porta, atenta a algum possível barulho vindo do quarto de seus pais e, como não ouviu nada, entrou e relaxou. Os pais não perceberam nada, caso contrário, estariam acordados esperando por ela. Sentou-se em sua cama e começou a pensar em tudo o que havia acontecido naquele dia. Sua relação com Armando era uma verdadeira montanha russa de emoções. Os últimos dias haviam sido extremamente conturbados e intensos. Ela esperava que, com a rotina, as coisas pudessem se acalmar e seguir um ritmo normal. Mas não pôde deixar de esboçar um sorriso ao lembrar dos últimos momentos, realmente ambos não tinham vocação para ser um casal “clandestino”, queria até ver onde isso ia parar.

Teve vontade de escrever em seu diário, mas quando o pegou lembrou-se de que Armando havia lhe dado um novo, que havia ficado em seu escritório na Ecomoda. Ela então decidiu que não iria mais escrever no diário velho. Ele era o símbolo de uma etapa já encerrada de sua vida. Guardou o diário e começou a tirar a roupa quando ouviu uma leve batida na porta. Era sua mãe:

– Betty, posso entrar? – ela disse, pondo a cabeça para dentro.

– Claro, mamãe! – ela respondeu enquanto continuava a se despir.

– Você não estava na empresa, minha filha, onde você estava?

Betty, que estava pegando seu pijama no guarda-roupa, ficou paralisada com as palavras de Dona Júlia. Pensou em uma desculpa, mas, era sua mãe...

– Como a senhora sabe, mamãe?

– Como você estava demorando muito, seu pai queria ligar para a empresa. Eu disse a ele que eu ligaria e fingi que estava falando com você, para poder acalmá-lo. Então, se ele perguntar, confirme que falou comigo, ouviu? Vim aqui para dizer isso.

– Obrigada, mamãe! Muito obrigada! – Betty estava emocionada com o gesto de Dona Júlia.

– Betty, nós não tivemos tempo de conversar nestes últimos dias, mas eu tenho certeza que você e Seu Armando se acertaram, não?

– Sim – Betty sorria, feliz. – Nós nos reconciliamos e estamos tentando nos acertar.

Dona Júlia se mostrou feliz com a notícia, mas Betty sentiu que lhe devia mais explicações:

– Nós não estávamos na empresa mamãe, estávamos no apartamento de Armando. Eu queria conhecê-lo.

– Eu imaginei, Betty. Mas por que você não quer que seu pai saiba do relacionamento de vocês?

– Porque eu e Armando precisamos de um tempo para superar toda essa história e para nos entendermos melhor. Se papai souber ele não vai nos dar paz.

– Sim, eu entendo, minha filha. Mas vocês não poderão esconder isso indefinidamente.

– Eu sei. Esperaremos apenas até que nosso relacionamento esteja mais tranqüilo, porque, por enquanto, apenas estamos tratando de superar tudo o que aconteceu e tentando reconstruir nossa relação, ou melhor, tentando construir uma relação começando do zero, desta vez da maneira correta.

– Está bem, Betty, você sabe o que faz. Mas eu quero saber uma coisa: Está feliz? É só o que me interessa, filhinha.

– Na maior parte do tempo, sim... – Betty sorriu meio sem graça.

– Como assim?

– É que é tudo muito recente e eu ainda não consegui deixar tudo para trás. Às vezes as lembranças vêm e ainda são muito dolorosas. Mas eu sei que Armando me ama e isso me ajuda a superar tudo.

– Sim, eu sei que Seu Armando a ama. Pude ver isso nos olhos dele e em seu desespero, quando esteve aqui no dia que você saiu com o francês. E eu te disse isso, lembra?

– Sim, mamãe, eu sei.

– Bom, filhinha, vou voltar para a cama antes que seu pai acorde e perceba que eu não estou lá.

– Está bem, mamãe! Boa noite e obrigada por tudo!

– Boa Noite Betty! E não se preocupe, você vai ser muito feliz. Eu tenho certeza disso! E você merece!

Elas se abraçaram.


********

Armando chegou ao seu apartamento cansado, sentindo-se em parte feliz e em parte frustrado. Pareceu-lhe que seu relacionamento com Betty estava destinado a ser conturbado...

Ele se encaminhou para o quarto, mas antes parou e olhou para seu apartamento. “Impessoal”, Betty dissera. Ele concordava, pois nunca havia considerado aquele apartamento um lar. Mas, naquele momento, as coisas eram diferentes. O apartamento estava diferente pelo simples fato de ela ter estado ali com ele. O lugar nunca mais seria o mesmo. Nem deitar em sua cama seria a mesma coisa...

Ele se despiu e deitou na cama que ainda conservava o cheiro dela, na tentativa de se sentir envolvido por ele. Suspirou pensando sobre quando poderia viver seu amor por ela livremente, sem nenhuma barreira. Abraçou-se no travesseiro em que ela estivera dormindo há pouco e sorriu lembrando-se dos momentos de paixão vividos ali. Assim, com um sorriso nos lábios e abraçado ao travesseiro, ele adormeceu.

Acordou com o sol entrando pela janela e só então se deu conta de que não colocou o relógio para despertar. Virou-se para olhar a hora e viu que já passava das oito da manhã. Assustou-se e levantou-se correndo, indo tomar banho.

Já vestido, pronto para sair, ele foi pegar seu relógio guardado na gaveta do criado mudo. Quando abriu a gaveta, deu de cara com a foto dele e de Marcela, que ele escondera na noite anterior. Pegou a foto: “essa maldita foto quase estragou tudo!”, pensou. Resolveu jogá-la fora, juntamente com a outra que estava na sala. Pegou seu relógio. Neste momento viu alguns preservativos jogados na gaveta e seu sangue corre tão rápido em suas veias que evaporou, deixando-o lívido de susto. Ele se lembrou de que nas duas últimas vezes em que fizera amor com Betty ele não usara nada e eles não tomaram nenhum cuidado para evitar uma possível gravidez. Armando entrou em pânico. Pegou a foto e saiu correndo de seu quarto, passando pela sala, pegando a outra foto e jogando as duas no lixo. Quis chegar logo à empresa para falar com Betty.

Saiu como um louco da garagem do prédio, o que não era nenhuma novidade para o porteiro, que já está acostumado com Armando. Enquanto ia dirigindo pelo trânsito confuso de Bogotá, ia pensando na possibilidade de ter engravidado Betty. E, para sua surpresa, o que costumeiramente seria um pesadelo, adquiriu contornos delicados e cores alegres, fazendo-o sorrir involuntariamente. Armando se viu pensando em como seria um filho dos dois. Quem sabe uma linda menina, com os cabelos negros encaracolados e lindos olhos negros, como os de Betty. Inteligente, meiga, sensível, como a mãe, e, para o bem dela, não deveria ter nada dele. Continuou sorrindo ao constatar o rumo de seus pensamentos. Ele nunca tivera vontade de ter filhos e, agora, a possibilidade de que Betty estivesse carregando um filho seu fez com que a sua vida saísse das sombras e lhe apresentasse um caminho, como se tudo no mundo adquirisse sentido em existir... Se ainda pairasse alguma dúvida de que havia mudado, de que era um novo homem, naquele momento todas foram dissipadas de vez da sua mente. Estava com lágrimas nos olhos só de imaginar Betty grávida, os dois passeando pelas ruas de mãos dadas enquanto ela exibia sua barriga devidamente escondida por um macacão. Seu coração expandiu-se de uma forma que ocupou inteiramente seu peito, fazendo-o sentir a via-láctea na garganta... Realmente aquele era um novo Armando Mendoza! Aliás, esse era o verdadeiro “Armando Mendoza” que estava escondido sob uma fantasia tosca do playboy irresponsável que ele fora um dia. “Como foi que consegui viver tantos anos uma vida tão vazia?” Mas o passado se encontrava tão longe que era como se tudo fosse um sonho comprido, ou um pesadelo, e só naquele momento ele tivesse acordado de um coma depois de muito tempo. Parado em um dos intermináveis engarrafamentos da Carrera 15, teve tempo de olhar para o céu:

– Obrigado, meu Deus...