Um Novo Final
1 Capítulo 1
Notas iniciais
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Editado em: 28/02/2013
Betty correu até o estacionamento e chegou no exato instante em que Armando se despedia de Wilson.
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Armando levou a mão ao peito pela dor que sentia. Seu coração caíra dentro de si se quebrara em milhares de cacos minúsculos. Para quem se julgava com um coração de pedra, era realmente uma surpresa. Seus pulmões se recusavam a trabalhar e o ar vinha-lhe pesado, sofrido... Wilson, à sua frente, era um vulto choroso, e ele invejou o amigo porque também queria chorar, mas estava seco de amargura e tristeza, seus olhos só ardiam, como se não dormisse há dias... De fato, não dormira.
Betty, por ter conseguido alcançá-lo, respirou aliviada e se aproximou com o coração aos pulos, o rosto vermelho e ligeiramente suado, pela correria e pelas emoções que a invadiram:
– Doutor!– Sua voz titubeou, chegou tonta aos ouvidos de Armando que estava de costas. Para ele, entretanto, foi uma explosão que fez, finalmente, uma lágrima brotar febril em seu olho esquerdo.
Ele se virou para ela:
– Podemos conversar um minuto, por favor?– Betty voltou a dizer.
Armando ficou surpreso, de uma surpresa boa, e as sensações que lhe vinham eram tão confusas que o máximo de ação de sua parte foi esboçar nenhuma ação.
– Sim, Beatriz. Diga-me – seu coração também estava acelerado a espera do que ela tinha para lhe dizer.
– Seria possível subirmos e conversarmos no escritório, doutor? Por favor?
– Sim, claro.
Os dois voltaram para dentro da empresa e entraram no elevador lado a lado. Ficaram em silêncio. Betty manteve os olhos baixos, ensaiando em pensamento tudo o que tinha a dizer, esperando convencê-lo porque não iria suportar que aquilo tudo acabasse de vez e que ele se fosse.
Armando, por sua vez, não tirava os olhos dela: estava extremamente ansioso, fantasiando a reconciliação ao mesmo tempo em que tentava afastar a mesma imagem... Simplesmente não queria visualizar imagens de coisas impossíveis.
O elevador parou. Os dois saíram. E o silêncio continuou pesado como uma tempestade. Betty caminhou na frente e Armando, com as mãos no bolso, a seguiu até a presidência. E a cena terminou chamando a atenção de todo o quartel, e de Patrícia Fernandez, que saiu correndo para o escritório de Marcela.
Betty parou na porta, esperando que Armando entrasse, fechando-a com chave. Seus movimentos eram tranqüilos, mesmo que dentro de si as emoções corressem em sentidos contrários se colidindo frequentemente, provocando-lhe espasmos quase físicos. Em seguida trancou também a porta que dava acesso à sala de reuniões. Armando, que estava em pé no meio do escritório, ainda com as mãos no bolso, acompanhava seus movimentos, e essa aparente tranqüilidade dela o irritava de certa forma, visto que a ansiedade o dominava cada vez mais diante do seu silêncio. Perguntou:
– Por que está trancando as portas, Betty? O que aconteceu?
– Não quero que ninguém nos interrompa, doutor.
Armando sentiu uma tênue luz brilhar no fim do túnel... Por um segundo, ele soube para onde correr. Mas voltou a si, não queria visualizar aquelas imagens... Queria vivê-las!
– Sente-se, Seu Armando – Betty lhe indicou a cadeira, enquanto sentava-se na sua.
Armando sentou-se e esperou ansioso pelo que Betty tinha a dizer. Sua respiração estava cada vez mais pesada, o que o fez afrouxar a gola da camisa e respirar fundo várias vezes. Betty permaneceu por uns segundos em silêncio, manuseando uma caneta, tentando resolver por onde começar, gritando com suas sensações para que se aquietassem e deixassem-na pensar. Finalmente ela o olhou nos olhos e disse:
– Resolvi que não vou deixar a Ecomoda, doutor.
Armando sentiu suas vistas estalarem. A luz anterior ficou mais forte, e a música mais alta. Ajeitou-se na cadeira para ouvir o restante do que ela tinha a dizer.
– Pensei muito e vi que aqui é o meu lugar. Minha cidade. Aqui está minha gente, meus amigos, minha família, minha vida toda. Não posso deixar tudo para trás num impulso. Além disso, dei minha palavra a Seu Roberto de que iria reparar os erros que cometi e não posso simplesmente esquecer esta promessa.
Armando não pôde evitar o desapontamento. O quadro que tinha na sua cabeça rachou exatamente no meio. Ela vai ficar, mas não será por causa dele...
– Muito bem! – Sua voz falhou, fazendo-o pigarrear – Me alegro que tenha tomado esta decisão. Me alegro muitíssimo, Beatriz! Ecomoda realmente precisa de você.
– Mas tenho algo a lhe pedir, doutor.
O quadro caiu e se quebrou. Doeu de novo. Ele se deu conta de que esse quadro era sua própria alma.
– Já sei. Não se preocupe. Eu não vou atormentá-la mais. Estou indo embora e você poderá trabalhar tranqüila, como lhe disse na conversa que tivemos mais cedo.
Armando se levantou e preparou-se para sair, antes que explodisse na frente dela e sujasse seu rosto de sangue e tristeza.
– Não, doutor! O que eu quero lhe pedir é justamente o contrário! Quero lhe pedir que fique. Que não renuncie à Ecomoda! Que não vá embora!
Armando voltou a sentar-se, um furacão de esperança e receio rodando dentro de si.
– Como?
– Estou lhe pedindo que fique, Seu Armando. Que não vá embora do país, que não vá embora de Ecomoda.
– Betty... Eu não entendo...
– O senhor disse que a Ecomoda precisa de mim, mas ela precisa do senhor também. Esta é sua empresa, doutor. O senhor a conhece como ninguém. O senhor a ama. Por favor, não vá
Armando simplesmente não agüentou o que estava dentro dele. Sua pele queimou e ele se escutou dizendo:
– Beatriz, vamos abrir o jogo, sim? Vamos falar às claras. Tudo o que eu mais quero é ficar aqui. Você tem razão. Eu amo esta empresa. Mas não é só por ela que quero ficar. Quero ficar por você, Betty! Porque a amo! Porque quero ficar a seu lado. Você pretende ignorar isso? Quer que eu fique e ignore o que eu sinto por você? Você me disse que resolveu ficar por seus amigos, por sua família... E eu, Betty? Eu não conto nesta sua decisão de ficar?
Betty se levantou, ficando de costas para ele por alguns instantes: estava tonta e sentiu que seu cérebro não recebeia oxigênio suficiente. Tomou coragem para dizer o que tinha a dizer. Finalmente virou-se para ele que esperava ansiosamente sua resposta, olhando-a com as sobrancelhas erguidas, numa expressão extremamente triste.
– Claro que sim, doutor! Claro que conta! Eu também o amo. Também quero ficar a seu lado. Por isso não quero que vá embora.
Armando sentiu o coração implodir. E a mesma implosão o reconstituiu fazendo com que seu sangue voltasse correr pelas veias na direção certa. Levantou-se e foi em direção a ela:
– Betty! Não sabe o que significa para mim ouvir estas palavras!
Ele a tomou nos braços, e a beijou. Betty não conseguiu resistir e se entregou ao beijo tão ansiado pelos dois. Foi intenso, um beijo desesperado, pelo muito tempo em que estiveram separados e pelo medo que sentiram de se perderem definitivamente.
Depois de um longo tempo nos braços um do outro, Betty tentou se afastar dele.
– Ainda precisamos conversar, doutor. Não lhe disse tudo o que eu tinha para dizer.
Armando se alarmou e soltou-a. Ela caminhou para longe dele e disse:
– Eu o amo, doutor! Nunca deixei de amá-lo. E hoje acredito que o senhor também me ama. Mas eu preciso de um tempo.
– Um tempo, Betty? Como assim, precisa de tempo?
– Doutor, aconteceram muitas coisas... Eu preciso de um tempo para poder me acostumar com tudo. Para poder digerir tudo, superar... O senhor me disse quando regressei que havia mudado, que era outro homem...
– Sim, Beatriz! E é verdade!
– Não duvido. Mas preciso de tempo para conhecer este novo homem...
Armando pensou nos seus próprios planos de reconquistá-la pouco a pouco, de provar-lhe com o tempo que a amava.
– Sim. Eu a entendo, Betty. Precisamos recomeçar nossa relação. Você precisa aprender a confiar em mim outra vez. Eu preciso lhe provar que sou digno de sua confiança e de seu amor. Era justamente isso o que eu pretendia fazer, mas aí apareceu aquele maldito francês querendo levá-la embora... E eu enlouqueci!
Betty percebeu a angústia na expressão dele ao referir-se a Michel. Não queria que ele sofresse mais por isso, Michel sempre foi seu amigo e jamais seria capaz de ocupar o lugar de Armando no seu coração.
– Mas isso já está resolvido. Eu não vou embora. Vou ficar!
– Você não sabe o quanto isso me deixa feliz! Eu estava arrasado, Betty! Pensando que a tinha perdido para sempre.
Betty quase não resistiu a abraçá-lo.
– Mas eu estou aqui. Não vou a lugar nenhum!
– Sim,“mi amor”!– exclamnou, aproximando-se dela dela para abraçá-la.Betty, no entanto, se afastou.
– Quero lhe pedir algo.
– Tudo o que você queira, Betty!
– Quero que sejamos amigos. Que possamos recomeçar nossa relação do zero, como amigos, inicialmente.
– Amigos!? – disse, decepcionado. Mal a tivera de volta e uma proposta como essa tinha de lhe aparecer como uma parede de vidro entre os dois?... – Quero ser muito mais que seu amigo!
– Por favor. É muito importante para mim. Mais do que reaprender a confiar no senhor, eu preciso sentir-me mais segura, mais forte. Por favor, sim?
Armando deu um suspiro resignado. Isso, definitivamente, não era pior que perdê-la, afinal de contas.
– E até quando seremos apenas amigos?
– Não sei... Vamos deixar que as coisa aconteçam naturalmente.
– Está bem, Beatriz! Se é assim que você quer, assim será. Mas não se esqueça que este amigo a ama. Muito!
Betty sorriutimidamente:
– Não esquecerei, Seu Armando!
Ele reivirou os olhos em um aspecto abandonado:
– Isso vai ser uma tortura! Mas vou me esforçar para fazer o que você está me pedindo.
Betty lhe deu outro sorriso tímido, para, logo em seguida, ficar séria.
– Agora, doutor, preciso que o senhor me ajude a expulsar daqui o doutor Valência. Ele se auto-proclamou presidente da Ecomoda e não quer sair.
Armando suspirou irritado.
– Vamos. É hora de expulsar Daniel Valência daqui!
Ao final da conversa, Daniel saiu, ofendendo Betty mais uma vez. Armando fez menção de segui-lo, mas Betty o deteve.
– Até o último momento este tipo teve que ser venenoso!
E, segurando-lhe o queixo, voltou a lhe dizer:
– Mas não vá amargar-se por isso. Você sabe que eu sempre a amei.
– Sim, doutor!
– Não me diga mais doutor!
– Está bem, Seu Armando!
– Não, tampouco Seu Armando! Ou então me verei na obrigação de dizer-lhe sempre “Doutora Pinzon”.
Betty sorriu de forma característico:
– Essa risada! Fazia tanto tempo que não ouvia essa risada!– Tentou beijá-la. Ela, porém, se afastou: – Amigos, doutor! Lembra-se?
– Ai, Deus! – ele suspira – Claro, amigos...
– Agora temos que redigir outras cartas, anulando nossas cartas de renúncia...
– É verdade. Temos que renunciar às nossas renúncias...
Os dois riem da situação.
– Imagina! Daqui a pouco não vão mais nos levar a sério...
Eles riem novamente.
– Então eu vou para o meu escritório redigir minha outra carta aos executivos e acionistas. Também preciso cancelar minha passagem e minha reserva no hotel — Armando constatou, levantando e caminhando em direção a porta.
Betty o impediu:
– Doutor, espere um minutinho. Tenho outra proposta a fazer-lhe.
– Outra proposta? – ele arqueou as sobrancelhas – O que é desta vez?
– Quero que o senhor ocupe a vice-presidência executiva da empresa. Eu sei que seu lugar de direito é a presidência e tenho certeza de que o senhor vai recuperá-lo. Mas enquanto eu estiver aqui como presidente, eu gostaria de tê-lo a meu lado ajudando-me a administrar a Ecomoda.
Armando foi pego de surpresa e se comoveu com a oferta. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela complementou:
– Não aceito “não” como resposta!
Armando terminou sorrindo.
– Bem, se você não aceita um não como resposta, sou obrigado a aceitar.
Eles sorriram um para o outro deixando evidente o amor que sentiam... Mesmo assim, Betty lhe estendeu a mão, apenas:
– Amigos?
– Amigos, Betty! – Ele envolveu com as suas a mão que ela lhe estendeu, sem tirar os olhos dos dela.
– Então, depois de redigir outra carta, vou pedir a Gutierrez que trate de toda a papelada para que o senhor assuma seu novo posto o mais rápido possível e para que comunique minha decisão a todos.
Betty tinha uma expressão de felicidade. Seus olhos brilhavam. Armando tinha muita vontade de tomá-la em seus braços e beijá-la até tirar-lhe a respiração... Mas seria paciente, sabia que ainda havia muita dor no coração de Beatriz. Faria como ela queria. Iria reconquistar sua confiança e provar-lhe que era digno de seu amor. Não poderia estragar tudo daquela vez.
– Ok! Doutora Pinzon! Vou agora mesmo redigir minha carta.
– Está bem, Doutor Mendoza!
Ele se dirigiu à porta, voltou-se em dua dirção, piscou o olho para ela e saiu. Betty sentiu-se feliz. Tinha certeza de que naquele as coisas dariam certo e seriam como deveriam ser entre os dois.
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Armando entrou para sua sala, satisfeito. Tirou a gravata e atirou-a longe, se sentando em sua mesa, sem conseguir conter o sorriso em seus lábios. Ela não quisera que ele se fosse, ela dissera que o amava...E naquele momento eles teriam a oportunidade de mudar o final de suas histórias. Iria devagar, como ela queria... Iria se controlar para mostrar que mudara. E mudara de verdade, fora salvo, tinha um coração pulsante graças a ela. Conseguia vê-la em sua mente sem que isso lhe provocasse repulsa de si próprio e da própria vida. As coisas seriam diferentes...
Notas finais
Espero que tenham gostado =D
Abraços, pessoas!
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