Notas iniciais
Editado em 04/03/2013

Na casa dos Pinzon, Betty rolava de um lado para outro da cama sem conseguir dormir. Foram muitas emoções para um único dia e todas ainda dançavam em seu estômago: a crise de ciúme de Armando, a loucura que cometeram no sofá da presidência, o medo que vira estampado nos olhos dele quando a abraçou antes de irem embora... Era muita coisa para sua mente processar... Ele a amava. Ela sabia. E quando estavam juntos tudo era perfeito, mas, quando ela estava longe dele, começava a se lembrar de coisas ruins, de parágrafos daquela maldita carta. Ele lhe havia dito que as coisas mudaram no meio do caminho e ela, por mais que corresse disso, não podia evitar olhar para trás: “Em que momento as coisas haviam mudado?” Era difícil imaginar que aqueles momentos que foram maravilhosos para ela no início da relação haviam sido um tormento para ele... Por mais que tentasse convencer a si mesma de que o que importava era que ele a amava naquele momento e que se apaixonara por ela mesmo antes de mudar a aparência, ela mirava a si mesma receosa. Ainda doía muito pensar que, em algum momento, beijá-la fora um sacrifício para ele, que em algum momento ela lhe dava asco...

Irritada, ela se virou mais uma vez na cama. Precisava mandar suas lembranças embora ou não iria conseguir ser feliz com Armando. Remexeu a cabeça no travesseiro, na tentativa de derrubar todos aqueles pensamentos. Resolveu então pensar somente em coisas boas. Sorriu quando começou a se lembrar da crise de ciúme dele no restaurante. Por pouco ele não voara para cima do Dr. Millar e lhe dera uma surra... Passou a lembrar-se, então, das crises de ciúme que ele tinha de Nicolas, e ela pensava ser por causa da empresa... Essas recordações a deixaram mais tranqüila e finalmente conseguiu dormir.


****


Em seu apartamento, Armando também tinha dificuldades para dormir. Sentiu-se afogando nos lençóis e se remexia toda hora a procura de ar. Sentiu falta de sua Betty. Era tão difícil ficar longe dela, ainda que fosse por algumas horas. Era como se estivesse oco, prestes a esfarelar-se com o primeiro sopro mais forte do vento. Ele ficara traumatizado com o sumiço dela depois da reunião de diretoria, quando ela fora para Cartagena. Sofrera muito sem saber onde ela estava e se voltaria a vê-la de novo... Só de lembrar por que passara sentia o coração rasgado por mãos frias e tinha pânico de passar por tudo aquilo outra vez. Por isso a queria sempre por perto, e não sabia se Betty entenderia isso. Temia sufocá-la. Ela lhe pedira um tempo e ele não fora capaz de dar-lhe nem uma única semana...

No fim das contas, lá estava ele – um homem adulto, experiente, sentindo-se inseguro como um menino cuja mãe o deixa só por uns instantes, sem saber lidar com a intensidade dos seus sentimentos, como o ciúme que sentia dela. Esse era um sentimento inédito. Nem ele mesmo sabia que era tão ciumento... Mas sabia que precisaria controlar isso. Decidiu que faria de tudo para não sufocá-la. Tinha medo de forçá-la, de assustá-la. Procuraria ser mais seu amigo, seu companheiro, como ela lhe pedira. Ainda que fosse difícil, precisaria tentar. E pensando nisso, finalmente adormeceu.


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Ao chegar à Ecomoda naquela manhã, Betty encontrou sobre sua mesa um caderno lindo, muito parecido com seu diário, e uma rosa branca, presa sob a capa do caderno. Betty o abriu e leu a mensagem de Armando na contra capa: “Espero que nesse caderno você possa escrever nossa história de agora em diante. E tenho certeza que será uma história feliz” – Armando.

Betty emocionou-se, as sensações se alojaram em sua garganta, sua íris se turvou com todas as cores e ela teve uma visão de uma historia escrita com palavras claras. Abraçou o caderno e pediu a Deus para que realmente a história deles fosse uma história feliz.

Ela foi ao escritório de Armando para agradecer-lhe o presente, mas não o encontrou lá. Saiu desapontada e foi perguntar a Sandra onde ele estava. A secretária lhe disse que ele saíra a tratar de assuntos sobre as franquias e pediu para avisá-la que só voltaria na hora do almoço.

Betty ficou ainda mais desapontada, como se Armando tivesse saído e levado consigo o cenário colorido que ela havia visto momentos atrás. Não entendeu por que ele não a esperara chegar para depois sair. Voltou a sua sala e pensou em ligar para o celular dele: olhou para o telefone, pegou-o, mas não quis agir como Dona Marcela. Resignada, voltou com o telefone no gancho, só lhe restava esperar.

Por volta de 11h30minh Armando lhe telefonou.

– Alô? — ela respondeu à ligação.

– Olá, mi amor!

– Armando, onde você está? Por que não me esperou? – ela perguntou ansiosa, levantando-se.

– Eu tinha muitas coisas para fazer, Betty – ele surpreendeu-se com o tom urgente da voz dela. – Você encontrou o presentinho que lhe deixei?

– Sim, encontrei. Mas por que não me ligou antes? – ela perguntou, brava.

– Calma, mi vida... – Amando sorriu do tom autoritário dela, saboreia-se com o pensamento de que ela o estava esperando colada ao telefone.

– Está bem! Desculpe! Não quero controlá-lo. É que senti sua falta – ela disse, mais calma.

– Sentiu? De verdade?

– Senti! – Betty tinha um coral no timbre de voz.

– Que bom! Mas diga-me: Você tem compromisso para o almoço hoje?

– Por enquanto não.

– Ótimo! Vou levar um almoço para nós dois e almoçaremos aí na empresa. Que tal?

– Para mim, está bem.

– Estou chegando ao restaurante. Logo estarei aí.

– Certo, estou esperando. Não demore! – ela respondeu, ansiosa.

– Não demorarei!

– Acho bom!

Eles se despediram e desligaram. Depois desse telefonema Betty se sentiu mais tranqüila, os contornos voltaram para os cenários. Ela ficou à espera ansiosa de que Armando chegasse logo.

Quando finalmente ele chegou, a empresa já está praticamente vazia. Quase todos tinham saído para almoçar. Ele foi direto para a sala de Betty e lhe abriu um belo sorriso quando a viu. Ela estava vestida de vermelho, cor que realçava sua pele e seus cabelos negros. Estava linda! Ele a viu mais linda a cada dia...

Betty, por um momento, respirou todo o ar do ambiente e ele não lhe foi suficiente. Não entendia como era possível que depois de tanto tempo ele fosse capaz de provocar aquelas reações nela. Entretanto, só queria que elas não parassem nunca, nunca. Ela levantou-se para ajudá-lo com a comida.

- Acho melhor almoçarmos na sala de reuniões, não?

Betty concordou e eles levaram tudo para a sala de reuniões. Enquanto preparavam a mesa, eles se esbarraram e Armando aproveitou para segurá-la pela cintura e dar-lhe um beijo ávido, prontamente correspondido por Betty. Ao separar-se de Betty, de repente sentiu um alerta em tapa na sua cabeça:

– Seu pai veio à empresa hoje?

– Veio sim, mas foi almoçar com Nicolas.

–Ainda bem! Então vamos ao nosso almoço. Espero que goste do que eu trouxe.

Eles almoçaram tranquilamente enquanto conversavam sobre coisas da empresa, sobre coisas sem importância. Ainda brincaram e se divertiram bastante.

– Então além de “hiena” eu tenho outros apelidos? – Armando disse entre uma garfada e outra, entre um sorriso e um aspecto sério.

– Tem sim – ela disse, rindo – mas eu não vou falar!

– Como não? – Ele pousou o garfo. – Agora eu fiquei curioso. Pode falar!

– Não! – Betty balançou a cabeça negativamente com a mão na boca.

– Agora já começou, pode ir até o fim! – Armando estava decidido a não comer nada enquanto ela não falasse.

– Chamavam-no de “Ogro” – ela colocou as mãos sobre a boca outra vez, rindo.

– Ogro, eu? – ele disse indignado, se afundando na cadeira, como se alguém o empurrasse para o lugar dele.

– Sim, e Sofia o chamava de “besta peluda” – ela disse, rindo mais ainda da cara de ofendido e surpreso que ele fez.

– Puxa! Vejo que meus funcionários me têm em alta conta... – ele se sentiu espetado com uma agulha fina.

Betty não deixou de perceber. Sentiu que o cortou, mesmo que brincasse com uma faca de plástico.

– São apenas brincadeiras, Armando. Elas gostam muito de você.

– Imagina se não gostassem! – Armando voltou a pegar o garfo entre um meio sorriso.

– E Nicolas o chama de “cabeção” – ela riu outra vez.

– Sim... – com cara de bravo. – Essa eu já tinha escutado; como se ele pudesse falar muito...

Armando a olhou nos olhos e pergunta:

– E você, Betty? Como me chamava?

Betty se sentiu perdida entre os tantos adjetivos com os quais o construíra em sua mente todo esse tempo. Mas era uma perdição agradável da qual ela não queria se encontrar, nem ser encontrada.

– De Seu Armando, ou doutor, do que mais iria ser?

– Mas era assim que pensava em mim?

– Não... – ela confessou tímida e abaixou a cabeça.

– Como você pensava em mim, Betty?

– Como o um príncipe, sempre... – ela disse enrubescendo junto com todos os pensamentos de outrora.

No principio Armando ficou honrado com o comentário, mas o passado arrombou a porta do deslumbramento e sujou tudo de negro, como era típico de ele fazer.

– E seu príncipe na realidade era um sapo... – ele não pode evitar a frase clichê.

Betty quase se levantou de susto pelo comentário dele. Absolutamente que não era assim... Ou era?...Não era!

– Não! Meu príncipe encantado era e continua sendo um homem maravilhoso! — ela disse.

Armando abaixou a cabeça e levantou a insegurança:

– Só você consegue enxergar isso em mim, Betty!

– E como você pensava em mim? Porque como me chamava eu já sei...

– Como assim? Eu sempre a chamei de Betty ou Beatriz, depois que descobri que seu nome não era Imperatriz...

– Vocês me chamavam de monstrinho! – Betty disse tentando sorrir, mas soou algo muito pálido.

– Eu, não! Calderon a chamava assim!

Ele ficou em silêncio por alguns instantes, como que relembrando de algo. Pegou sua mão e disse:

- Eu sempre pensei em você como “minha Betty” – diz sorrindo ternamente.

– Sempre?

– Sim. Desde muito antes de me apaixonar por você. Eu sempre pensava em você assim. Sempre tive uma sensação de posse com relação a você.

Eles terminaram o almoço e recolheram as coisas. Betty foi ao banheiro porque necessitava limpar o aparelho dos dentes. Quando ela voltou, Armando já estava com os papéis sobre a mesa, pronto para falar de negócios. E assim eles o fizeram. Nicolas chegou do almoço e se juntou a eles. Depois da pequena reunião, Armando retornou à sua sala e não foi procurar Betty nenhuma vez, ao contrário do que fizera no dia anterior.


***


Betty passou o dia sem conseguir se concentrar no trabalho, a urgência em ver Armando se tornou uma sombra cada vez maior e mais fria. Mas ela não queria ir até lá e deixá-lo pensando que ela o estava controlando. Tinha que respeitar a vontade dele em não querer estar com ela. Mas, por quê?... As possibilidades rangiam os dentes no seu espírito e ela ficava cada vez mais assustada com os sons. Fixava o olhar na porta, vendo nitidamente Armando abri-la e pedir licença para entrar. Mas o ato acontecia sem ruído e ele sumia tão logo entrava. Era bom que ele fosse logo, antes que ela morresse de uma hipotermia na alma.


****


Se alguém entrasse na sala durante a tarde, de surpresa, mandaria internar Armando. Ele andou de um lado para o outro o tempo todo, sentou, levantou, escreveu em papeis, rasgou todos, voltou a se levantar andar sentar rodar na cadeira ler... Impossível Betty estar tão perto dele e ele não ir até ela. Mas aguentaria pelo bem daquela relação. Rasgou mais papéis, dessa vez sem escrever.


***


Quando terminou o expediente, Betty não aguentando mais, sem entender o que está acontecendo, massageando o coração com a mão, foi até a sala dele que a recebeu com um sorriso de quem recebe uma benção depois de tempos de escuridão.


****


Armando se segurou para não puxá-la para si e trazê-la para dentro dele.

Betty ficou em silêncio, olhando para ele que percebeu que ela quer ia dizer-lhe algo.

– O que passa, Betty?

– Por que esteve me evitando todo o dia?

Aquela voz vacilante de Betty lhe gelou a espinha.

– Eu não estive evitando você, mi amor! – ele foi até ela e pos a mão em seu queixo – Eu só estou tentando fazer o que você me pediu.

– O que?

Que tipo de absurdo ela pôde ter pedido que refletia aquele tipo de reação da parte dele???

– Que lhe desse um tempo, lembra? Eu não quero pressioná-la.

– Por isso manteve-se distante o dia inteiro?

– Sim.

– Então, esqueça o que eu lhe pedi! – ela ordenou.

– Como assim?

– Com você é sempre oito ou oitenta, não? Não quero mais que fique afastado de mim, como ficou hoje! – enlaçando-o pela cintura e apoiando a cabeça no ombro dele.

– Muito menos eu, mi vida. Não sabe o esforço que eu tive que fazer...

Se beijaram por um longo tempo, ternamente. Depois do beijo ficaram abraçados. De repente Betty disse:

– Tive uma idéia! – ela disse, os olhos brilhando travessos.

– Qual ideia?

– Meu pai veio de carro comigo hoje.

– Ah, não, Betty! Quer dizer que nem vou poder acompanhá-la? – ele disse, decepcionado.

– Pelo contrário... Espere que eu já volto — Betty disse, saindo da sala e deixando Armando curioso.

Alguns minutos depois ela retornou, dizendo:

– Está tudo resolvido, Armando!

– O quê?

– Eu disse a meu pai que nós ficaríamos trabalhando até um pouco mais tarde, porque teríamos que rever os contratos de franquia nos quais você estava trabalhando de manhã, e que ele fosse para casa com meu carro, porque você me levaria – ela explicou, com cara inocente.

– Não acredito! E ele concordou? – Armando exclamou, surpreso.

– Sim, senhor. Relutou um pouco, mas aceitou.

– Que bom, Betty! Que delícia! Você está ficando muito espertinha, não? – ele disse, batendo com a ponta do dedo no nariz dela.

– Não! Eu sempre fui esperta, doutor! Lembra-se de quantas vezes eu o ajudei com Dona Marcela?– ela lembrou-0, rindo.

Ele, por mais que soubesse que Betty não dissera por mal, se sentiu profundamente constrangido, como se estivesse nu em publico, em cima de um palco.

– Ah! Betty! – irritado – Não fale mais sobre isso, sim?

– Está bem, está bem! Perdão!

Ele enlaçou a cintura dela:

– Estou muito feliz de podermos ter um tempinho sozinhos hoje!

– Mas não posso demorar muito, você sabe, meu pai...

– Que pena, mi amor! Por que não contamos para ele tudo de uma vez? Queria passar a noite toda com você... – ele passou a mão em seu rosto.

– E você acha que se ele soubesse da verdade, me deixaria ficar trabalhando até tarde com você? Quando ele souber de tudo, vai redobrar a vigilância, Armando.

– Tem razão! Temos que aproveitar nosso tempo da melhor maneira possível!

– E o que tem em mente, doutor Mendoza?

– Nada... Apenas ficar juntinho de você, bem juntinho... O máximo de tempo possível! – ele respondeu abraçando-a.