Notas iniciais
Editado em: 03/03/2013

O telefone gritou nos ouvidos de ambos a realidade, fazendo com que eles se levantassem alarmados. Haviam perdido a noção de tudo: do tempo, do lugar... Betty começou a recolher suas roupas espalhadas pelo chão e a se cobrir com elas, tímida. Armando, para deixá-la mais à vontade, pegou suas próprias roupas e foi ao banheiro vestir-se.

Ao telefone, Aura Maria disse a Betty que um empresário queria falar com ela. Betty mandou dizer que ia retornar a ligação em 10 minutos porque estava muito ocupada. Aura Maria, sabendo que Armando não estava em seu escritório porque Sandra o havia procurado lá e não o havia encontrado, suspeitou do que estivesse acontecendo na presidência, mas não disse nada, só sorriu maliciosa e com orgulho da amiga.

Betty desligou o telefone e começou a vestir-se. Foi um ato algo mecânico, sua mente estava atrasada, presa em outra dimensão, se deliciando com as carícias de Armando. Não conseguiu parar de sorrir.


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Armando foi outro que agarrou-se ao chão do passado e se recusava a voltar. Queria reviver aquele momento repetidamente até poder conseguir se satisfazer de tudo aquilo. E por mais que estivesse com Betty, sempre sentia que nem todos os beijos e todas as carícias possíveis que ela o fizesse sentir não seriam suficientes, sempre haveria aquela falta, aquele espaço vazio a ser preenchido, um buraco negro que o puxava para dentro de si com uma força assustadora, e, por isso, precisava desesperadamente dela em todos os momentos, todos os segundos. Observou-a se vestir pela porta do banheiro... Era linda. Linda como uma imagem de sonho que às vezes ele pensava que desmancharia no ar, porém, como naquele momento passado, sua força era tão real que lhe doía o peito, uma dor boa, como a nostalgia da infância... Simplesmente, amava-a. E era isso, e isso era tudo... Terminou de se vestir.


****


Betty estava começando a pôr o blazer quando Armando voltou. Ele já estava vestido, apenas os cabelos estavam um pouco desalinhados. Ele foi até Betty e a ajudou com o blazer e depois a abraçou.

– Isto foi uma loucura, Armando! — Betty disse, a cabeça afundada em seu peito.

– Sim. Uma maravilhosa loucura! – ele disse e procurou seus lábios para beijá-la, mas logo Betty interrompeu o beijo e disse entre risos:

– Preciso fazer um telefonema, Armando.

– Está bem... – ele respondeu – faça seu telefonema, eu espero.

– Não, senhor! – e foi empurrando-o em direção à porta – o assunto é sério e não vou conseguir me concentrar com você aqui...

– Está me expulsando do seu escritório Beatriz? – ele disse, sobrancelhas erguidas, fingindo indignação.

– Sim! Estou! Vá trabalhar, Dr. Mendoza! –

E com sua risada habitual, Betty o empurrou para fora.

– Mas que mulher cruel, Beatriz! Você se aproveita de um pobre indefeso como eu e depois me despensa dessa forma! – ele fez cara de ofendido.

Betty riu mais ainda e fechou a porta antes que, novamente, ela não conseguisse resistir a ele.

Armando chegou a sua sala muito feliz. Sentou-se e viu sobre a mesa uma porção de papéis e muito trabalho a fazer, mas sua mente se recusava a concentrar-se naquilo. Ele só pensava em Betty, lembrando, com um sorriso, do que haviam acabado de fazer. Ela era maravilhosa! Ele amava a forma como ela se entregava a ele, ao mesmo tempo tímida e ávida por suas carícias. Apesar de tudo o que ele lhe fizera, sua entrega era incondicional, como das duas outras vezes em que se amaram. Ela mudara a aparência, mas continuava sendo a “sua Betty”. A mulher que o amava sem reservas. A mesma que ele magoara tanto... Esse pensamento apareceu como um filme ruim na tela de sua memória e ele não conseguiu tapar os olhos e não ver... Simplesmente, esse sentimento de culpa não o deixava. Ele não conseguia perdoar-se por haver feito sofrer a pessoa mais maravilhosa que ele jamais conhecera. Levaria muito tempo para deixar de sentir aqueles cacos entrando-lhe na pele, se é que um dia eles acabariam... Mas de uma coisa ele tinha certeza: faria o possível e o impossível para fazer Betty feliz e, de alguma forma, compensar todos os cristais quebrados durante a vida dos dois.


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Durante o resto da tarde, Armando foi ao escritório de Betty várias vezes. Não conseguiu ficar no seu escritório, nasceram plantas cheias de espinhos em sua cadeira e as paredes daquele lugar brincavam de se encontrar e querer esmagá-lo como a um inseto. Sempre aparecia com uma desculpa diferente, com a única intenção de vê-la. E sempre acabava lhe roubando uns beijinhos. Betty pensava como ela havia sido tola ao pensar que eles poderiam ser apenas amigos... E deu graças a Deus pelo fato de seu pai não ter ido à Ecomoda naquele dia. Ficara em casa trabalhando em assuntos da Terramoda.

Na hora de ir embora, Armando entrou em seu escritório outra vez:

– Olá! Vim me despedir – ele diz da porta, segurando sua maleta de executivo.

– Também já estou indo – ela tirou as chaves do carro de dentro da bolsa.

– Eu gostava mais quando você não tinha carro e eu a levava para casa... – ele disse com aspecto de desconsolo, aproximando-se.

Betty pegou sua bolsa, passou a mão no rosto dele, beijou-o nos lábios e disse:

– Eu também!

Armando, usando uma só mão, a abraçou pela cintura, trouxe-a para junto de si e a beijou. E um segundo dura toda a eternidade, e toda eternidade não é suficiente como um segundo.

Após o beijo, Betty analisou toda a situação pela qual os dois estavam passando, e inevitavelmente a figura de seu pai espocou em sua cabeça como um sinal de alerta. Disse:

– Armando, precisaremos ser mais cuidadosos quando meu pai estiver aqui.

Armando pensou de onde ela desenterrou Seu Hermes, mas sabe que ela tinha razão. Se ele descobrisse, nunca mais deixaria os dois em paz...E ele precisava tanto de um pouco de paz...

– Claro, mi vida! Eu sei disso! Ainda bem que ele não veio à empresa hoje! – disse com um risinho maroto.

– Então, vamos?

E, soltando-se dele, começou a sair do escritório, mas, quando percebeu que ele não a acompanhava, virou-se e o viu parado segurando sua maleta com as duas mãos e olhando para ela entristecido.


****


E como ele odiava aquela hora de ir embora. Nunca passou tanto tempo na empresa, e nunca ficou tão satisfeito por estar lá... Mas sua vida praticamente girava em torno dela e, por mais que soubesse que não era algo saudável, não se sentia absolutamente sufocado ou preso ou mal com isso, sentia-se assim quando ela não estava por perto, quando se sentava no sofá de seu apartamento e tudo parecia demasiadamente grande, monstruoso, e prestes a engoli-lo, bastasse ele se mover...

– O que foi? – Betty voltou a aproximar-se dele.

– Eu não quero ficar longe de você até amanhã! – ele confessou, brincando, mas havia muita verdade ali.

Para Betty, escutar aquilo foi como ouvir uma declaração de amor. Se tivesse coragem, pularia no colo de Armando, cruzaria as pernas em volta do seu corpo e o encheria de beijos... Ao mesmo tempo, seu coração deu um nó, porque sabia o quanto ele ficava sozinho naquele apartamento, e o quanto ele odiava isso, afinal, todas aquelas mulheres não era puramente medo da solidão?

Ela voltou a acariciar seu rosto. Ele fechou os olhos e recebeu aquelas carícias como uma cura de seus males interiores...

– Eu te amo! E sempre estarei com você, assim como você sempre está comigo. Mesmo que não seja fisicamente — Betty disse.

– Eu sei, mi amor! – ele disse, colocando a maleta no piso e segurando o rosto dela com as duas mãos. – Eu sinto isso também. Mas estive tão perto de perdê-la. Quando penso nisso ainda sinto medo. Por isso necessito tê-la assim, bem pertinho de mim.

Se ele conseguisse enxergar dentro dela completamente, nunca mais teria sequer vestígios daquelas incertezas...

– Não pense mais nisso. Você não me perdeu. E sabe o que mais? Nunca me perderia. Mesmo que eu tivesse aceitado a proposta de Michel, eu continuaria sendo sua — Betty confessou, em retribuição.

O nome de Michel, no entanto, feriu a alma de Armando, e foi tudo o que ele conseguiu escutar do que Betty dissera. Seu coração ameaçou parar.

– Não diga isso, Betty! Nem em sonho! Nem brincando!

Ele a apertou tanto que Betty sentiu dificuldades para respirar. Mas não reclama, era tão bom estar assim junto dele ...

– Eu sofri um bocado, pensando que a havia perdido para sempre, quando você foi para Cartagena e eu nem sabia onde você estava, nem se ia vê-la outra vez...

Betty sorriu, um sorriso esquelético, sem sentimento, de quem sorri automaticamente, mas chora por dentro por se lembrar de um passado peçonhento.

– Sim, entendo. Você se esquece de que passei por tudo isso também?

Armando olhou-a. Realmente não havia o que dizer...As lembranças vieram-lhe gritando aos olhos, ardendo-lhe os ouvidos. Ela tinha razão...

– Nós nos magoamos muito, não é, Betty?

– Sim... Mas não vai acontecer mais, Armando, sei que não.

Eles estavam abraçados e Betty com a cabeça em seu ombro.

Armando sorriu...Eram tão raras as vezes em que ela pronunciava seu nome com aquela voz de algodão.

– Adoro quando você diz meu nome!

Naquele momento Aura Maria entrou no escritório:

– Betty, já posso ir? Você preci... – ela parou a frase no meio quando os vê abraçados – Desculpem.

– Pode ir sim, Aura Maria, eu não preciso de mais nada. – Betty disse a última frase olhando nos olhos de Armando sem se soltar dele.

– Até amanhã, então.

– Até amanhã! — Betty e Armando disseram ao mesmo tempo.

Depois que Aura Maria se vai, Betty disse:

– Vamos? Não podemos ficar aqui toda a noite.

– Eu ficaria o resto de minha vida assim...

– Eu também! Mas tenho que ir, se eu chegar tarde hoje de novo, meu pai vai me enlouquecer.

– Então vamos... – Armando suspirou. – Já que não tem outro jeito.

– Vai me escoltar até em casa outra vez, doutor? — Betty perguntou, soltando-se do abraço.

– Claro! Você sabe que eu não gosto de vê-la andando sozinha por aí...

– Que chique, agora eu tenho um guarda-costas!

Ela foi caminhando na frente, seguida por Armando, e continuou provocando-o:

– Tem medo que alguém me sequestre, doutor?

– Nunca se sabe o que pode acontecer por aí, por estas ruas, Beatriz! Nunca se sabe...

Eles desceram sorrindo e brincando um com o outro até a garagem, onde se despediram com um beijo, diante dos olhos de um surpreso Wilson, que não entendeu nada, e entraram em seus carros.

Betty saiu primeiro e Armando a seguiu de perto por todo o trajeto. Uma quadra antes de chegar a sua casa Betty estacionou e Armando, sorrindo, já entendendo o que ela queria, estacionou logo atrás. Desceu e foi até o carro dela, parando ao lado da janela:

– A senhorita está com algum problema com o carro? Algo em que eu possa ajudá-la?

Betty fez cara de preocupada, se divertindo com a situação.

– Sim, creio que você pode me ajudar, mas para isso você teria que entrar aqui um minutinho.

– Pois não! À sua ordem.

Armando deu a volta e entrou no carro rapidamente. Assim que ele fechou a porta, ela o enlaçou pelo pescoço e o beijou, deixando-o surpreso.

– Senhorita, o que você faria se eu não estivesse aqui para ajudá-la? – ele disse entre um beijo e outro no seu pescoço.

– Hummmmm ... Acho que teria que pedir ajuda a outra pessoa...

– O que? – Armando exclamou, fingindo-se bravo – E a quem você iria pedir ajuda, hein? Quem poderia lhe ajudar assim como eu?

Betty riu:

– Ninguém, doutor, tem razão. Ninguém poderia me ajudar como você.

O beijo começou a ficar mais intenso e Armando percebeu que tinha que deixá-la ou não conseguiria mais.

– Betty, vamos, sim? Você tem que ir para casa, e eu só irei embora quando a vir entrar.

Betty contraiu as sobrancelhas, um pouco decepcionada, o trajeto foi rápido e ela queria aproveitar mais uns minutos com Armando.

– O que aconteceu? Você não disse que não queria ficar longe de mim? – ela perguntou, provocando-o.

Armando sorriu. Queria fazer amor com ela ali mesmo se pudesse. Visualizou a cena em sua mente e lhe parecia tentadoramente perfeita. Porém...

– Sim, mi vida, mas se eu não for embora agora, nós vamos acabar fazendo amor dentro do carro. E corremos o risco de sermos presos, ou interrompidos por Roman e sua turma.

- Então, vamos... – ela sabia que ele tinha razão, mas ainda assim queria apenas mais uns minutinhos com ele...

Armando lhe deu um último beijo e voltou a seu carro, seguindo-a até sua casa. Esperou até que Betty entrasse e com um suspiro foi embora, torcendo para que a noite passasse logo.