Um Novo Final
44 Capítulo 44
Notas iniciais
O despertador tocou às sete em ponto. Betty tentou se livrar daquele som irritante enfiando a cabeça debaixo dos travesseiros, no entanto sentiu sobre si o peso de Armando logo em seguida, a acordá-la. Ela não podia medir o tamanho do seu arrependimento ao concordar com a proposta dele de conhecerem a cidade em um típico programa turístico. Seria bem melhor ficar o dia inteiro na cama, aproveitando o conforto do hotel e a companhia um do outro. Mas como negar-lhe, quando ele conhecia todos os pontos do fraco do seu corpo, e o acariciava precisamente para conseguir o que queria?
Essa constatação terminou fazendo com que ela se recordasse da noite anterior, depois de saírem daquela festa tão conturbada. Foi ao entrar no elevador que Betty realmente sentiu todo o peso daquilo que vivera. Na festa, ela estava tomada pela adrenalina jogada no sangue, a fim de passar por cada situação da melhor maneira e não causar constrangimento. Contudo, sozinha com Armando, tudo o que queria fazer era chorar e ela nem mesmo sabia por que.
E ele, como se tivesse entrado em sua cabeça, abriu os braços, convidando-a a se aninhar ali, oferecendo-lhe exatamente o que ela precisava:
– Obrigada... – foi o que Betty conseguir dizer.
– Te amo, mi Betty... Você deveria ter mais consciência da mulher espetacular que é... mesmo que eu ainda ache que você me abandonaria depois disso.
Betty levantou a cabeça, olhando-o profundamente, quando todo esses medos acabariam?
– Nem para te pregar uma peça eu abandonaria você, Armando. Sempre penso que pode ser o contrário: um dia será você quem vai se dar conta de que não sou nada de mais, e aí...
Armando puxou-lhe o rosto devagar e cobriu seus lábios com um beijo suave. Não queria ficar preso naquela conversa sem sentido... Ambos tinham de superar as próprias inseguranças depois de tudo. Aproveitando a analogia de Camila, feita na última vez em que conversaram: se ambos foram da terra ao inferno, já estava mais do que na hora de terminar a jornada no paraíso.
Os dois quase não saíram do elevador, imersos um no outro, naquela doçura de sempre, e da qual dependiam; naquela doçura tão diferente de tudo que já haviam vivido... Só depois da entrada de um grupo de amigos que eles voltaram à realidade e saíram aos tropeços do elevador antes que ele se fechasse.
Abriram a porta do quarto sorrindo e comentando a gafe, mas, ao fecharem-na, Armando tomou seriamente a mão de Betty, impedindo-a de sair de perto de si. Ele colocou-se de trás dela, beijou-lhe o pescoço desnudo e os ombros. Acariciando seu cabelo e colocando-o de lado, suspirou:
– Você está tão linda que não sei se é pecado maior te deixar com o vestido ou tirá-lo...
Mas, mesmo assim, ele não hesitou em abaixar o zíper do vestido que caiu leve no chão, revelando o corpo de Betty. Armando acariciou-lhe os seios e sentiu nas pontas dos dedos a excitação tomar conta da pele dela, em arrepios febris. Betty se virou finalmente e o abraçou, alcançando os lábios dele que estavam tão em brasa como os seus. Armando foi empurrando-a, gentil, até a cama, e ali se amaram, embebidos daquele presente que eles queriam que não terminasse nunca.
E eles certamente poderiam fazer isso o dia inteiro se, entre uma carícia e outra, Armando não tivesse tido a ideia para esse passeio.
– Nosso voo sai às cinco e meia, temos de estar pelo menos às três e meia no aeroporto, Armando... Você tem certeza de que é uma boa ideia esse passeio?
– Claro que sim, Betty! Quando alguém te perguntar como foi em Caracas, você não pode responder que não conheceu nada, porque esteve o tempo todo no hotel! Além disso, as pessoas vão reclamar de mim, ou falando que sou um ditador, que só fez você trabalhar, ou que sou um perfeito idiota, porque já conheço a cidade e nem para te mostrar nada...
Ela virou de bruços, agarrando o travesseiro:
– A dizer por ontem – e ela se referia ao assalto –, creio que essa é a melhor atitude a se tomar...
Armando levantou-se, completamente nu, e ofereceu-lhe a mão, para que ela também se levantasse:
– Vamos tomar um banho bem gostoso, Dra, para podermos aproveitar nosso último dia como devemos. Estarei contigo para te proteger e nada de mal acontecerá, prometo.
Betty sorriu, mas terminou pensando em outra coisa:
– Não diga último dia, Armando, isso me deprime...
– Você quer dizer aos seus pais que tivemos que ficar mais uns dias? Posso organizar isso. – À revelia dele próprio, surgiu em seus olhos um brilho inconveniente que só acendeu todas as culpas no semblante de Betty.
Ela suspirou:
– Quem dera, mas...
– Mas, nada – ele mesmo tentou desviar o assunto –, se não podemos ficar mais, vamos aproveitar dignamente o tempo que nos resta.
– E Alejandra vai conosco? – Se Betty se lembrava, Alejandra quem tinha proposto o passeio, quando os buscou no aeroporto.
Armando negou com a cabeça, tentando não mostrar nenhum sentimento em relação a isso:
– Nem o Nicolas eu quero vá. Esse é um passeio para nós dois apenas.
Betty, então, se colocou de pé, também nua e seguiu com Armando para o banheiro. Era uma excelente notícia saber que estaria um dia livre de Alejandra, mesmo que ela fosse uma excelente pessoa. Pelo menos, seria um dia livre de intimidações...
Os dois entraram na banheira, primeiro Armando e depois Betty que recostou sua cabeça no peito dele:
– Se Alejandra não vai conosco, você poderia me mostrar os locais que você visitou quando esteve aqui daquela vez? Gostaria de ver as coisas sob sua perspectiva, Armando... Estive muito centrada em mim nessa época, admito, ainda que eu realmente precisasse, para não cair no abismo...
– Não nos lembremos disso mais, Beatriz, por favor... Isso não traz nada de bom... Não quero que esse passeio se torne algo triste. Não se trata do que foi, mas do que vai ser. Apesar de ainda não ter te comprado um anel, sou seu noivo, lembra-se? Você já aceitou se casar comigo... É hora de nos lançarmos ao futuro, construindo boas lembranças a partir do presente... É isso que eu acho. Não compensa te mostrar os lugares onde estive com Alejandra (na maioria dos casos, bares)... Compensa te mostrar os locais onde eu queria ir e não pude, porque os tormentos não me deixaram... O que a senhorita acha disso?
Betty sorriu, os olhos marejados:
– Acho que vai ser uma das melhores tardes da minha vida.
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