Um Novo Final
43 Capítulo 43
Notas iniciais
Ao regressarem ao salão de festas, Betty agarrou a mão de Armando que apertou-a de volta, em cumplicidade:
– Vai dar tudo certo, mi Betty, confie em mim.
Enquanto caminhavam, ela podia sentir o olhar de todos perscrutando cada centímetro de si mesma, procurando qualquer pequena abertura na sua pele para meterem-se dentro dela e desordenar-lhe até alma. Não soube como seu corpo expressou tudo o que estava sentido, ainda que o tivesse feito de alguma maneira, porque Armando levou sua mão aos lábios e passou o braço por cima de seus ombros. Aquilo ajudou bastante, sem dúvidas, e fez com que o ar se tornasse mais suportável para os próprios pulmões que se esforçavam para trabalhar, ali.
Armando agarrou-a pelos ombros para poder segurá-la e impedir uma fuga, o que causaria mais constrangimento. Sentiu, por um raio de segundo, que Betty quis deixar sua mão para correr em direção à saída, e isso não podia acontecer. Assim que a abraçou, sentiu o corpo dela tombar para seu lado, buscando apoio. Isso fez com que ele quase se arrependesse de ter voltado, teria sido melhor irem embora, mas... deixar que essas pessoas “vencessem” e pensassem que Betty era qualquer uma? Jamais! Essas pessoas não poderiam sair daquele evento sem saber quem era, de fato, Beatriz Pinzón Solano! Abraçou-a com mais força. Ela tinha que saber, e saber de novo!, que ele estava ali.
Antes de chegarem à mesa, o casal foi interpelado por Alejandra:
– Vocês estão bem? – seu semblante era genuinamente preocupado, ainda que Betty não soubesse a quem exatamente essa preocupação essa direcionada.
– Está tudo bem – Armando disse. — Peço desculpas pelo transtorno que causei, não estava raciocinando direito.
Alejandra esboçou um sorriso, enquanto meneava a cabeça em negativa:
– Contornamos bem a situação, não deixem que isso os incomode... Mas vim até vocês porque gostaria de dizer algumas palavras antes do desfile e gostaria que vocês também dissessem algumas palavras, seria possível?
Betty tentou encolher-se, naquele mesmo movimento involuntário, porém Armando segurou-a forte e projetou o peito para frente, obrigando-a a fazer o mesmo, em um gesto de autoconfiança:
– Claro. Vamos, mi amor?
Tudo o que ela pôde fazer foi assentir. Maldita seja, Betty! Quando você entenderia que era a presidente da Ecomoda?
Alejandra subiu ao palco, convidando-os a fazer o mesmo logo em seguida, e agradeceu a presença de todos, citando os nomes dos principais investidores e parceiros, tanto venezuelanos, quanto colombianos. O nome do Dr. Millar nem o da Diana foram mencionados. De fato, a Hilos Rampa sequer era um parceiro em potencial, depois de tudo por que Ecomoda pessou nas mãos dessa empresa, mas Betty agradeceu em silêncio o cuidado dela mesmo assim. Alejandra, em seguida, explicou um pouco sobre a implantação da franquia na Venezuela, assim como sobre os cuidados tomados durante todo o processo, aqueles mesmos que Armando e Betty puderam ver ao visitar a loja do shopping. Mais uma vez, cuidadosa, Alejandra não citou o nome de Marcela Valência, que até merecia ser citado, para dizer a verdade. Ela falou também um pouco sobre a figura de Don Hugo, de seus designs, e da sua importância para a moda na América Latina. Aplaudida de pé pelos presentes, ela agradeceu, por último, à presença de Betty e Armando e pediu-lhes, formalmente, que dissessem algumas palavras.
O discurso de Betty foi rápido, porém objetivo e muito focado na parte de que ela mais gostava: as finanças. Beatriz traçou com suas palavras todas as vantagens da implementação do sistema de franquias em geral, e da franquia venezuelana, em particular, não somente para a junta executiva e para a própria empresa, mas também para os consumidores venezuelanos, mostrando um conhecimento agudo sobre o mercado do país, seus pontos fracos e fortes, assim como sobre a necessidades de investimentos. Armando olhava-a orgulhoso,simplesmente. Os olhares atônitos da plateia eram suficientes para ele saber que todos engoliram a seco a curiosidade a respeito dela, embolada com as fofocas de cunho pessoal que nada acrescentavam ao cenário.
Quando Betty terminou de falar, ele acercou-se ao microfone e brincou
– Por isso ela é a presidente da Ecomoda, e não eu.
A plateia riu, mas Betty não viu nada engraçado naquela declaração cujo peso ela bem conhecia.
– Armando! – ela exclamou, tentando, sem sucesso, afastar-se do microfones.
– Mas isso não me constrange, muito pelo contrário: não poderia estar mais orgulhoso! – Ele parecia bastante à vontade com o microfone. – Ecomoda não poderia estar em melhores mãos! E nenhum investidor aqui, tanto em relação à matriz colombiana, quanto à franquia venezuelana, poderia estar mais tranquilo a respeito da confiança depositada. Todos acabaram de ver que não foi nosso relacionamento que a levou à presidência, mas seu talento, sua competência, sua tenacidade. Nosso relacionamento, na verdade, me trouxe...
Betty segurou-lhe o braço, sabendo como ele terminaria a frase. Por que ele sempre tinha que ser tão intenso em tudo? Não era exaltando-a na frente de todos que ele redimiria seus atos, ou controlaria o pensamento das pessoas.
Armando olhou-a enquanto ela lhe negava com a cabeça, pedindo-lhe que não continuasse. Ele voltou a encarar o público:
– ...me trouxe uma lucidez e uma maturidade que eu não tinha antes, e nem teria se não fosse ela. Obviamente isso refletiu no modo de toda a junta executiva gerir a Ecomoda e no meu papel de vice-presidente e encarregado das franquias... Do lado de cá, todos já conhecem a Alejandra, penso que ela está mais além de qualquer tentativa de classificação, como mulher de negócios. Ecomoda está muito feliz e muito tranquila por ter duas mulheres tão lindas e competentes à frente da gestão. Um brinde às nossas presidentes, e desfrutem o desfile.
Depois de cumprimentarem Alejandra, que assumiu seu lugar como apresentadora do desfile, Armando aproximou os lábios no ouvido de Betty:
– O que acha de escaparmos daqui e aproveitarmos devidamente nossa última noite na Venezuela? – Ele mordeu-lhe de leve o lóbulo em seguida.
Betty riu e acenou afirmativamente. Sair dali seria uma benção por si só, e estar a sós com Armando, não tinha preço. Quase pensou na segunda parte da frase que ele proferia, no entanto obrigou-se a si mesma a focar-se naquele agora e aproveitá-lo da maneira mais plena possível. Armando podia enfiar os pés pelas mãos na maioria das situações, e ele até merecia um sermão por causa disso, mas esse sentimento de sentir-se defendida e protegida, era indescritível. Deixaria os sermões para Bogotá. Era uma boa ideia. Agarrou sua mão e ela mesma tomou a iniciativa de saírem dali.
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