Um Novo Final
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Ao final do expediente as meninas do quartel estavam se preparando para a noite de comemoração. Betty passou por elas, vendo-as agitadas e sempre ruidosas se dirigindo ao banheiro. Foi até a sala de Armando.
– Olá! Posso entrar? – ela disse sorrindo com os olhos derretidos.
– Olá! – Armando devolveu o sorriso. – Claro que sim.
Imediatamente ele parou com tudo que estava fazendo; seus membros simplesmente paralisaram e a sua visão escureceu dos lados.
– Vim me despedir como você ordenou –Betty disse se colocando diante dele com a pasta em frente ao corpo.
– Já se vão de rumba? – ele perguntou com cara de bravo, cruzando os braços.
– Nós não nos vamos de rumba, Armando. Vamos apenas jantar e conversar.
Um som celestial chegou aos seus ouvidos de Armando, embalado suavemente em cordas de um violão clássico, deliciando-o:
– Repete, Betty!
– Disse que não vamos de rumba, vamos...
– Não, isso não. Meu nome. Repete meu nome...
Armando se levantou, quase fora de si. Segurou o rosto de Betty entre suas mãos e já se preparava para beijá-la, mas parou no meio do caminho, voltando à realidade e tentando afastar aquela imagem da cabeça.
Aquela visão de Armando vindo até si, fez com que Betty respirasse todo ar da atmosfera de uma vez e depois não conseguisse soltá-lo mais. Ela paralisou onde estava e não conseguiu fazer mais nada. Não queria que ele viesse, mas por que Armando demorava tanto para ir? Quando ele parou e se afastou, seus pulmões voltaram a trabalhar normalmente outra vez.
– Por favor, Betty! Repita! – disse com a mão apoiado na mesa, amarrando seus ímpetos ali.
– Armando – ela disse baixinho, suavemente, quase num sussurro.
Armando suspirou entre um sorriso. Tinha um nó nas artérias. Não sabia se agüentaria muito tempo aquela história de “amigos”. Tudo o que ele queria era beijá-la, abraçá-la... Sacodiu a cabeça... Apertou a mão na quina da mesa com toda sua força... Ele prometeu...
– Falou com Aura Maria? Conseguiu o endereço do tal lugar? — era melhor ele mudar de assunto antes que sucumbisse ao momento.
– Sim — ela confirmou passando-lhe um papel com o endereço e telefone do local.
– Pra que telefone, você não vai levar seu celular?
– Claro que sim – ela respondeu se lembrando que possuía um.
– Ah! Bom! – Armando guardou o papel no bolso – Está bem, Betty, vá se divertir com suas amigas. Mas, cuidado!
Betty lhe sorriu, comovida com sua preocupação.
– Até amanhã, Armando! – ela disse o nome dele bem devagar para provocá-lo.
– Até amanhã, Beatriz! – ele respondeu pronunciando o nome dela do mesmo jeito.
Eles riram um para o outro e Betty saiu. Em seguida, o mundo bateu na cabeça de Armando, acordando-o com uma pancada doída.
***
O quartel chegou ao restaurante escolhido por Aura Maria e teve uma grata surpresa. O local era realmente tranqüilo, com música ao vivo, mas bem calminha. Era bastante amplo e com uma pista de dança enorme já ocupada por vários casais. Finalmente, um ambiente agradável, nada parecido com o Santuário.
Elas acomodaram-se e foram prontamente atendidas. A música permitia que conversassem sem a necessidade de gritar.
Elas fizeram seus pedidos e conversaram muito, principalmente sobre Armando e Betty, obviamente.
– Betty, mas e aí? — Aura Maria cutucava Betty com os ombros — Você realmente quer levar adiante essa coisa de amizade?
Betty sorriu diante da inconformidade da amiga:
– Aura Maria, tudo entre mim e Seu Armando, além de ter ocorrido de forma muito errada, aconteceu de forma muito rápida, não tivemos sequer tempo de nos conhecer... É isso que eu estou tentando recuperar agora.
– A gente te entende, Betty, mas, ai, ficar perto daquela coisa mais linda do mundo e não poder tirar nem uma casquinha... — Sandra suspirou.
– Sandra! — Inesita exclamou.
– Com todo respeito, claro — Sandra voltou a dizer.
– A gente podia tirar as cartas para ver no que isso ia resultar, hein, Betty — Mariana propôs.
– Obrigada, Mariana, — Betty disse — mas suas cartas sempre acertaram... Prefiro ficar na dúvida.
Todas riram, e continuaram conversando banalidades.
****
O quartel estava no local há cerca 40 minutos, quando Betty sentiu uma mão em seu ombro. Virando-se, assustada, deu de cara com Armando que lhe sorriu inseguro sem saber se ela ia gostar da surpresa ou não.
Betty já imaginava que ele iria aparecer por ali, mas, além de não imaginar que fosse tão cedo, não podia conter a surpresa em vê-lo, nem a excitação em pensar que ele foi lá só para vê-la.
Armando estava lívido, como se tivesse cometido um ato criminoso. Mas, desde que Betty saíra, ele parecia um morto-vivo vagueando pelo escritório, sem rumo... morto-vivo? Não. Um vivo-morto, como um rabo de um lagarto puxado que se remexe freneticamente sem motivação. Isso até esbarrar com Freddy. Então, algum pretexto espocou em suas idéias ajudando-o a manipular o amigo até aquele lugar. Não era uma coisa de que se orgulhava, mas era por um bom motivo e, além do mais, levaria o amigo até a sua amada. Um ato generoso...Entretanto, tinha medo de que o olhar de Betty o despisse e lhe visse a alma, como ele sempre sentia que ela fazia desde... Desde sempre.
– Seu Armando! O que faz aqui? — Betty exclamou, desajeitada.
Armando quase que não conseguia articular as palavras. Olhou para o amigo que já se colocava ao lado de Aura Maria. Ela, por sua vez, estava com uma expressão de quem não tinha gostado muito da surpresa...
– O que acha que faço aqui? — Armando disse. — Vim trazer Freddy para ver sua reina e vim ver se a senhorita está se comportando bem.
Betty não disse nada e Armando ficou mais apreensivo.
– Está aborrecida por eu ter vindo? — ele terminou dizendo.
– Não. Claro que não — Betty não dizia mais que a verdade.
No fundo ela esperava-o chegar aquele tempo todo, se sentia fraca quando estava longe dele, e, ainda que isso fosse até um pouco absurdo, não era algo que a incomodava.
Um garçom se aproximou e perguntou se os cavalheiros iriam se sentar. Ao receber uma resposta afirmativa, logo voltou com duas cadeiras a mais e anotou os pedidos dos recém chegados, enquanto eles se acomodavam ao lado de suas amadas. Sandra, Sofia, Mariana e Berta pensaram que a noite agradável tinha acabado. Mas se surpreenderam com um Armando alegre e simpático, que conversava animadamente com todos. E assim a noite foi passando, muito divertida.
****
A banda começou a tocar músicas românticas. Armando levantou-se e convidou Betty para dançar.:
– Doutor... O senhor sabe que eu não sei dançar!
– Betty, quando vai deixar de me chamar de doutor?
– Eu me acostumei a pensar assim em você: como “meu doutor”...
– Está bem! Chame-me como quiser... Vamos dançar?
– Tenho vergonha!
– Venha, vou lhe mostrar que não é tão difícil. Além disso, a pista está cheia de casais, ninguém vai reparar em nós.
Betty decidiu acompanhá-lo, sob o olhar atento do quartel.
– Amigos... Sei! — Sofia constatou.
Armando levou Betty até o centro da pista. Ele a abraçou enquanto ela repousava os braços sobre seus ombros. Eles começaram a movimentar-se lentamente e ele disse a Betty em seu ouvido:
– Solte-se, Betty. Deixe que eu a conduza.
Betty fez o que ele mandou e aos poucos sentiu-se relaxar. Os braços de Armando começaram a apertá-la mais forte, colando seu corpo ao dele. Suas mãos passeavam por suas costas em carícias suaves. Betty repousou a cabeça em seu ombro e ele beijou seus cabelos. A música continuou a tocar e eles cada vez mais colados um no outro. Betty levantou o rosto para olhá-lo e, mesmo na semi-escuridão da pista, ela conseguiu ver um brilho de cobiça em seu olhar. Armando, então, enfiou o rosto entre os cabelos dela e começou a lhe dar pequenos beijos no pescoço. Betty gemeu baixinho enquanto passava os dedos pelos cabelos dele e o acariciava na nuca. Ela sentiu sua respiração acelerar junto ao seu pescoço.
– Betty, – ele disse descompassado – vamos sair daqui, por favor!
Ela não se opôe, não tinha como resistir enquanto ele a levou pela mão para fora do restaurante, para um canto escondido e mal iluminado.
– Eu te quero tanto, Betty! — disse isso mergulhando de vez em um beijo sem poder se conter mais, enquanto suas mãos corriam o corpo de Betty avidamente.
Ela não conseguia pensar em mais nada, diluida naquelas sensações. O beijo ainda se prolongou por um tempo que nenhum dos dois soube definir, até que Armando, sem soltá-la, lhe disse ao ouvido:
– Vamos embora daqui, Betty. Vamos a algum lugar onde possamos estar a sós. Por favor!
Os planos de Betty, naquele momento, gritaram com ela, repreendendo-a por estar fazendo o que fazia. Betty se sentiu pequenininha e voltou ao mundo real, amuada pela repressão sofrida.
– Armando – vacilou com a voz trêmula – você prometeu que me daria um tempo...
– Eu sei, Betty – ele respondeu enquanto lhe dava pequenos beijos pelo rosto –, sei que lhe prometi, mas eu a quero tanto! Preciso tanto de você! Você também não sente o mesmo?
– Você sabe que sim!
E ela viu novamente os olhos de reprovação dos planos que havia feito.
– Então, Betty? O que esperamos? – ele disse, angustiado.
– Por favor, Armando! Eu não posso simplesmente deixar as meninas aí e desaparecer.
– Ah! Betty! Por favor! – ele quase lhe suplicava.
– Precisamos voltar lá para dentro — ela disse se soltando dele, ainda que ele relutasse em deixá-la ir.
Ela o segurou pela mão e começou a puxá-lo de volta para dentro.
– Vá na frente, Betty — Armando cedeu, por fim. — Eu já vou indo. Preciso de um tempinho para me refazer.
– Você não está bravo comigo, está?
– Não, não estou bravo com você, mi amor. Como poderia? – ele lhe sorri passando os dedos pelo rosto dela – Vá, Betty. Eu já vou!
Ela ficou em dúvida, mas ele a empurrou gentilmente pelos ombros e ela caminhou de volta ao interior do restaurante, sempre virando-se para olhar para ele.
****
A veia da têmpora de Armando pulava descompassadamente. Ele afrouxou a gola da camisa. Precisava de um banho frio, estava suando às bicas. Foi direto para o toalete e quase se afogou na pia.
****
Betty voltou à mesa sob os olhares curiosos de todos, mas ninguém disse nada.
Alguns minutos depois Armando retornou, o cabelo molhado, o rosto vermelho. No entanto agora o casal não conseguia mais participar da conversa como antes. Parece que estavam em um mundo só deles, alheios ao que acontecia ao redor. Pela maneira como se olhavam, qualquer um podia perceber que eram muito mais que apenas amigos.
Na hora de irem embora, Armando assumiu a conta e todos deixaram o restaurante.
Ele acompanhou Betty até seu carro depois de ela ter se despedido das amigas. Estava com o semblante tranqüilo, diferente do Armando que lhe pedira para ir-se com ele.
– Foi uma noite linda, Betty! Finalmente Aura Maria encontrou um lugar decente!
– Sim, foi linda!
– Desculpe-me por descumprir nosso trato...
Betty não respondeu, apenas abaixou a cabeça, tímida.
– Ainda podemos seguir o que planejamos? – Ele chegou bem perto dela e ela teve medo de abraçá-lo e voltarem à situação inicial.
Betty assentiu com a cabeça.
– Então — ele propôs — entre no carro que eu vou acompanhá-la em meu carro até sua casa.
– Não precisa! Fica muito longe de sua casa.
– Não discuta comigo! – ele protestou em tom falsamente autoritário – Eu vou acompanhá-la porque assim me sentirei mais tranqüilo. Não quero você sozinha por aí a estas horas.
– Está bem! – Não adiantava discutir.
Armando a acompanhou por todo o trajeto até. Quando chegaram, ele espera que ela estacionasse descesse do carro e entrasse. Antes de entrar ela lhe acenou da porta e ele acenou de volta. Quando Betty fechou a porta ele ficou ainda alguns segundos olhando para a casa, pensando em como a amava aquela mulher e em como não concebia a vida sem ela.
****
No dia seguinte, apesar de ser sábado, Betty acordara cedo como sempre. Abriu o guarda-roupa e sentiu um nó no coração, percebendo que não usaria um terninho para trabalhar. Sábado... Desde que havia começado a trabalhar na Ecomoda ela detestava os fins de semana, porque isso significava dois dias longe de Armando. E especialmente naquele sábado ela queria muito estar ao lado dele. Sentiu-se perdida, andava de um lado para outro da casa sem conseguir concentrar-se em nada. Tentou assistir televisão e não encontrou nada interessante. Tentou ler, mas não conseguiu prestar atenção. Tentou ajudar sua mãe em alguns afazeres domésticos, mas estava tão distraída que Dona Júlia acabou dispensando a ajuda dizendo que ela estava era atrapalhando. Sem ter o que fazer, Betty foi até seu quarto e viu o saco com os cartões e lembrancinhas que Armando deixara no dia em que conversara com sua mãe. Ela, então, espalhou tudo pela cama e começou a reler os cartões, com outros olhos, sabendo que tinha sido ele a escrever, sabendo que ele já a amava quando escrevera. E a diferença lhe parecia bem clara, tanto que não pôde entender como não percebera anteriormente: suas dedicatórias eram mais profundas que as de Mário Calderon. Percebe também que ele realmente havia sentido muito ciúme de Nicolas, que isso o havia torturado muito...
Betty ficou horas lendo e relendo aqueles cartões, até que sua mãe lhe chamou dizendo que havia um telefonema para ela. Era Aura Maria convidando-a para uma sessão de “cinema em casa”. Ela, Sandra e Mariana haviam alugado uns filmes, estavam convidando Betty para assistir e também haveria leitura de cartas, obviamente. Todavia, ela teria que dormir lá. Inicialmente Betty não se sentiu muito animada, mas depois pensou que podia ser uma oportunidade para encontrar-se com Armando. Entretanto, ela teria de pedir permissão ao seu pai... De toda forma ela aceitou o convite sem dizer nada às meninas sobre a permissão, confiante de que se encarregaria de convencê-lo.
– Papai, recebi um convite pra passar o fim de semana com as meninas na casa da Aura Maria, vamos dormir lá...
Seu Hermes mexeu os óculos e contraiu as sobrancelhas:
– Como é que é? Vocês vão todas...
– Sim, pai, vamos ver um filme, conversar um pouco e dormir.
– Tsc tsc, não, mocinha, você não vai. O diabo é porco e essa casa com esse monte de mulher sem responsabilidade não é lugar para uma moça decente.
– Mas, pai...
Dona Julia escutou a conversa da cozinha e foi em socorro da filha:
– Ai, Hermes, por favor, conhecemos as amigas de Betty, são todas uns doces... Além do mais, deixa a menina se divertir um fim de semana, que coisa...
Seu Hermes olhou Betty por um tempo, imóvel, até que balançou a cabeça e subiu as escadas:
– Não se esqueça de que o diabo é porco, por isso tapa e destapa!
Betty sorriu aliviada:
– Obrigada, mamãe...
****
Armando acordou, olhou o relógio. Ainda era cedo, mas ele não iria trabalhar. Maldito sábado. Voltou a dormir, mas sua cama estava áspera e o travesseiro parecia um bloco de granito. Mexeu-se de um lado para o outro por horas, mas não conseguiu pegar no sono. Jogou as cobertas para o lado bruscamente e se levantou resmungando. Foi direto para o banho. Demorou-se. Depois vestiu seu terno e se descobriu sem absolutamente nada para fazer. O apartamento estava absurdamente grande e ele se sentiu absurdamente pequeno. Havia só ele. Sentia-se como em um país estrangeiro, para onde era obrigado a ir tratar de negócios... Maldito sábado! Bateu no braço do sofá. Se ele permanecesse mais tempo naquele estado certamente seu próprio apartamento o engoliria.
Pegou o telefone e discou o número da casa de Betty.
Ela mesma atendeu, já que a mãe estava assistindo televisão e o pai consertando algum velho objeto na garagem.
– Alô! – ela disse com o coração aos pulos, já esperando que fosse ele.
– Betty? – agora, sim, ele via o sol sair lá fora.
– Armando? – ela perguntou sentindo o coração disparar mais ainda ao ouvir aquela voz.
– Olá, mi amor! Que bom te ouvir! Estou sentindo muito sua falta...
– Eu também...
– Não posso esperar até segunda-feira para vê-la outra vez, Betty! – com voz chorosa.
– Nem eu... – ela sorriu enternecida – Mas acho que não precisaremos esperar até lá...
– Como assim?
Betty lhe contou sobre o convite de Aura Maria e diz que ia passar a noite lá.
– Mas você acha que elas me deixarão participar?
– Não sei – ela riu. – Mas você pode dar uma passadinha por lá, só para me ver...
– Então me dê o endereço, mi amor – ele estava, finalmente, animado.
Betty passou-lhe o endereço. As sombras começaram a deixar o apartamento de Armando e também deixaram o rosto de Betty, fugindo do dia claro, lá fora.
****
Betty passou o dia todo imaginando sua noite. Ficou pelos cantos da casa rindo e suspirando, a expectativa do encontro cada vez maior. Quem não lhe ajudava é o próprio dia que parecia uma lesma sobre a linha do tempo, se arrastando irritantemente como se não quisesse chegar ao fim da linha. Resignou-se em se arrumar mais cedo, tranquilamente, a fim de se distrair um pouco.
Armando olhava para o relógio constantemente. Sempre que o olhava tinha ganas de avançar contra o ponteiro, só para não ter que olhar para ele, estacionado no mesmo lugar, tantas vezes seguidas. Um tempo depois já estava com vontade de atirá-lo para fora do apartamento. Para se distrair resolveu dar umas voltas, providenciar um vinho para as meninas, para não chegar de mãos vazias. Pegou as chaves do carro e saiu.
Quando chegou a noite, Betty, já arrumada, pegou suas coisas e foi para a casa das meninas, mal podendo esperar para ver Armando. Torceu para que ele não demorasse, de maneira que pudessem aproveitar todo o tempo que conseguissem juntos porque na tarde daquele dia, simplesmente, faltava uma perna.
Chegando lá, viu que as amigas já espalharam almofadas pela sala e encheram de petiscos uma mesinha de centro. Era um cenário engraçado, mas a deixava feliz porque Betty nunca participara de um programa como aquele, nunca tivera amigas como aquelas em toda sua vida. E como elas foram importantes... Como gostava de cada uma... À exceção de Berta e Sofia, todas estavam ali. Até mesmo Inesita.
Ela se acomodou, perto da janela, e tão logo se sentiu confortável, seus pensamentos descortinaram a imagem de Armando, deixando-a indecisa: não sabia se contava ou não para as amigas sobre a ida de Armando. Decidiu contar porque não queria enganá-las. Esperou uma oportunidade, e quando Aura Maria perguntou se todas já chegaram para começarem a ver o filme, Betty pediu para elas esperassem um pouquinho mais e disse que chamara Armando para se juntar a elas. Todas se viraram para Betty ruidosamente, se mostrando muito entusiasmadas com a notícia. Disseram, todas ao mesmo tempo, que Betty e Armando poderiam ficar à vontade e que ele podia participar tanto da sessão de cinema e da leitura de cartas se quisessse, só não podia dormir lá, por causa dos vizinhos que eram sempre muito intrometidos... Continuaram conversando todas ao mesmo tempo, eufóricas por terem o chefe em sua casa. Fizeram perguntas a si mesmas a respeito de como ele seria fora da Ecomoda, e Betty só sorri porque também se fez as mesmas perguntas e não sabia respondê-las.
Enquanto o quartel divagava sobre Armando e jogava indiretas à Betty, ela olhava constantemente pela janela, ansiosa, esperando que ele aparecesse. Mesmo assim, ainda se sentiu surpresa quando viu seu carro parando na porta e ele saindo abotoando o paletó do terno, com um embrulho nas mãos. Ela, por um momento, perdeu a sensibilidade nas pernas, mas respirou fundo e se levantou para recebê-lo. As meninas se levantaram do chão e espiaram pela janela, rindo baixinho entre si, enquanto Betty caminhou para a porta. Ele tocou a campainha e ela abriu a porta no mesmo minuto: daí ambos não enxergaram mais nada, explodiram em milhões de pedaços, suas moléculas atraídas umas pelas do outro, se unindo num abraço apertado, perdendo ambos a respectiva constituição física...
Mariana, então, apareceu na porta, morta de pena, mas tinha que dizer para eles entrarem devido ao comportamento dos vizinhos intrometidos, que, certamente, iriam ficar olhando pra eles.
Eles entraram, Armando entregou o vinho que comprou a Aura Maria e Betty o levou para sentar-se no sofá onde estava antes que ele chegasse. Ele se sentou, um pouco incomodado, rodeado pelo quartel em uma situação totalmente informal, pessoas totalmente diferentes das quais ele estava acostumado, mas não podia negar que estava feliz por estar ao lado de Betty.
O filme começou, mas os dois estavam totalmente alheios ao que acontecia porque só estavam interessados um no outro, sentados lado a lado de mãos dadas. Olharam-se o tempo todo e trocaram carícias comportadas por causa das meninas e da promessa de serem “apenas amigos”.
Depois do filme, Aura Maria propôs a leitura das cartas, mas Armando e Betty não quiseram. Elas foram para uma mesa, num cômodo ao lado, interligado, enquanto o casal ficou na sala conversando, muito juntinhos, trocando carinhos. Armando segurou as mãos dela e as levou aos lábios, acariciou seus cabelos e seu rosto com toda a reverência.
– É um alívio muito grande estar com você aqui, agora. Passei o dia ziguezagueando pela casa feito um zumbi antes de te ligar. Fiquei com medo da minha casa hoje.
Betty sorriu, derretida:
– Aconteceu a mesma coisa comigo... Nunca na minha vida odiei tanto um final de semana...
Ele sorriu e beijou-lhe a face, de leve:
– Vamos dobrar a carga horária da Ecomoda. Trabalharemos 24hs, finais de semana e feriados...
Ela riu, de sua forma tão característica:
– Se quiser comentar isso com as meninas, elas estão ali do lado, mas aproveita e pensa em uma maneira menos cruel de morrer, para sugerir a elas também...
Ela deitou a cabeça em seu ombro e suspirou.
– Agora suas amigas vão ter que chamar um guincho para me tirarem daqui... Não saio por bem, nunca. Só se você for comigo.
– Não posso, Armando, meu pai pode ligar aqui a qualquer hora só pra poder se certificar de que estou aqui... Mas estar com você era o que eu mais queria, você não tem idéia...
– Ah, tenho, sim, porque era o que eu mais queria também... Mas acho que vou tirar a noite de hoje, sozinho, para traçar estratégias de guerra de como te tirar de casa para você passar um tempo comigo, só comigo.
– Já está tramando me seqüestrar?
– Absolutamente.
Eles não se conteram mais e se beijaram. Mas Betty terminou se separando dele antes que intensificassem o beijo.
As meninas ficaram enternecidas ao ver como Seu Armando tratava Betty. Todas ficaram olhando-os de onde estavam
- Não acha que eles se dão super bem? — suspirou Sandra. — Queria um namorado assim para mim...
– Todas queríamos, minha filha — Aura maria corrigiu a outra. — Uma coisa linda dessa, rico e de boa família... Só que se eu fosse a Betty, já não estaria mais com ele aqui.
– Aura Maria! Comporte-se! — Inesite repreendeu.
– Ah, só estou dizendo a verdade — Aura Maria respondeu.
– Mas ela merece isso, — Inesita voltou a dizer — passou por coisas que muita gente não teria agüentado.
– É, isso é verdade — Sandra concordou. — Ficamos felizes por ela, muito felizes.
– Mas, então vamos ler as cartas logo? — Mariana chamou a atenção de todas mas ninguém enxergou Mariana, com os olhares deitados sobre o casal.
Os dois ficaram um tempo em silêncio, se curtindo até que Armando olhou no relógio e percebeu que era muito tarde:
– Meu pior inimigo é o tempo, concluo isso agora. É hora de ir-me, mi amor.
Betty olhou-o triste.
– Não me olha assim porque você me mata — ele disse, acariciando-lhe a face novamente.
– Eu te levo até a porta, mas não podemos nos demorar por lá.
– Fazer o que, não é? Nem todo tempo seria suficiente...
Levantaram-se. A despedida foi longa, Armando ia e voltava várias vezes para dar o último adeus, até que com um beijo se foi de verdade. Ela ficou olhando o carro sumir, entrou, fechou a porta e percebeu que todas as meninas estavam voltadas para ela, amontoadas no sofá. Estavam olhando-os pela janela.
– Ai, Betty, — Aura Maria disse — por que você o deixou ir embora, por que não foi com ele?
Betty só sorriu.
– Não tinha jeito, né, Aura Maria! — Mariana explicou.
– Não chateiem a Betty, meninas... — Inesita disse.
– Ah, mas não tinha quem me segurasse aqui, não! — Aura Maria retrucou.
Betty sentou-se.
– Ah, mas estava tão bonitinho vocês dois grudadinhos ali na sala — Sandra mudou o foco da conversa.
– É, ele todo respeitoso com você... — Mariana suspirou.
– Como um galã dos filmes que vimos... — Sandra acompanhou Mariana.
– Ele é outra pessoa, jamais imaginaria que fosse assim mariana voltou a dizer.
– E que viesse se juntar a nós para estar com você — Inesita completou.
– Não, Inesita, ele gosta muito de todas vocês, achou muito bom estar aqui hoje — Betty coriggiu-a.
– Mas não somos as pessoas com as quais ele está acostumado a estar, minha filha — Inesita respondeu.
– E eu nunca fui o tipo de mulher com a qual ele costumava a sair... – Betty sorriu — Então...
Todas elas riram.
– Você precisava ver a sua cara quando ele chegou! Você ficou branca — Mariana lembrou-se.
– Ah, mas não mais branca do que ele — constatou Aura Maria. — Parecia que fazia séculos que não te via...
– A gente percebe que ambos estão muito apaixonados mesmo. Parabéns, Betty, você merece — Inesita disse.
– E segura esse homem! Coloca ele na coleira, com pontas afiadas e tudo — Sandra ia dizendo, se remexendo e fazendo gestos enquanto falava. – Se ele olhar para o lado, as pontas entram no pescoço!
As meninas caíram na gargalhada.
– Bom, meninas, está tudo muito bom, mas é hora de dormirmos — Inesita propôs. — Está muito tarde.
Todas resmungaram, mas foram dormir assim mesmo.
Betty, entretanto só foi dormir bem tarde relembrando todos os ótimos momentos em que passou com ele, com um largo sorriso nos lábios.
****
Armando chegou a casa, jogou as chaves na mesa, encheu um copo de whisky e se jogou no sofá. Sentia-se um meio Armando, a outra metade deixara na casa das meninas. Queria muito estar ao lado de Betty, passar uma noite inteira ao seu lado... Também só conseguiu dormir bastante tarde entre a televisão ligada, muda, e o som tocando os jazz de que tanto gostava.
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