Um Novo Final
39 Capítulo 39
Notas iniciais
Uma brisa fria entrou pela porta aberta da sacada e arrepiou a pele de Armando, acordando-o. Ele sentou-se na cama e logo se recordou de que estava em um hotel em Caracas e que compartilhava o mesmo quarto com Betty. Virou-se para procurá-la na cama e, com os olhos já mais acostumados à semi-escuridão, a viu encolhida. Pobrezinha, está com frio... Seu coração se encheu de ternura. Ele puxou o lençol e a cobriu cuidadosamente. Depois, com a maior cautela possível para não acordá-la, levantou-se e foi fechar a porta da sacada. Sorriu ao lembrar-se de que tudo havia começado ali, quando Betty estava a admirar a vista e ele a abraçou por trás, começando a acariciá-la e a beijá-la, até que foram parar na cama, amando-se com uma entrega incondicional...
Voltou à cama, enfiou-se debaixo do lençol e ficou a contemplá-la. Estava muito feliz por haver conseguido convencê-la a acompanhá-lo à Venezuela. Sentia uma imensa falta de seus beijos, de seu corpo. Com Seu Hermes por perto, vigiando, eram escassos os momentos em que podiam desfrutar um do outro. Tinha ganas de despertá-la e amá-la outra vez, mas ela dormia tão tranquila que ele controlou seus impulsos e apenas deu-lhe um leve beijo nos lábios, no que Betty moveu-se, sussurrando seu nome e encostando o corpo no dele. Armando sorriu encantado, o coração transbordando: ia ser difícil dormir outra vez, principalmente com ela assim tão próxima. Sentiu seu corpo reagir e, sem hesitar, atraiu-a mais para perto. Betty repousou a cabeça em seu peito e entrelaçou as pernas nas dele. Armando já estava excitado e, a cada minuto, o esforço que fazia para controlar-se era maior. Tentou desviar o pensamento, procurou pensar na Ecomoda, na franquia da Venezuela, mas era impossível concentrar-se em outra coisa que não fosse o corpo nu de Betty colado ao seu. Assim, levado por seus instintos, começou a acariciá-la levemente: passeou as mãos por todo seu corpo, com toda a reverência, ao mesmo tempo em que beijavas seus cabelos e sua testa. Betty começou a reagir às carícias, colando ainda mais o corpo no dele e emitindo gemidos delicados, que enlouqueceram Armando de vez. Ele, então, começou a beijá-la na boca e Betty correspondeu, ainda adormecida, acreditando que sonhava. Mas o beijo se tornou mais intenso, fazendo-a se despertar e perceber, maravilhada, que não se tratava de um sonho:
- Mi amor, já é de manhã? — ela perguntou ainda sonolenta, aproveitando que Armando havia deixado seus lábios para beijar seu pescoço.
- Não, mi vida, ainda é noite — ele respondeu sem deixar de beijá-la.
- E por que você está acordado?
- Porque você estava com frio e fui fechar a porta da sacada que havíamos deixado aberta.
Enquanto respondia suas perguntas, ele continuava com as carícias, demorando-se nos seus seios, mordiscando-os, sugando-os.
Betty, já totalmente desperta, se abandonou às carícias de Armando com total confiança. Deixou que ele explorasse seu corpo com as mãos e com a boca. Sua mente estava totalmente vazia, só pensava em ser parte do momento, como um braço ou uma perna, em sentir toda a paixão que ele despertava nela. Ecomoda, seu pai e tudo o mais podia esperar...
Quis como nunca explorar o corpo de Armando como ele fizera com o seu e dar-lhe tanto prazer quanto ele lhe dava. Deixando a timidez de lado resolveu tomar as rédeas da situação, virando-se por cima dele e acariciando-o lentamente, atenta em cada reação daquele corpo. Armando se deixou acariciar, testando seus próprios limites. Betty repetiu o mesmo caminho que ele havia feito em si, primeiro com as mãos, depois com a boca, até que ele não agüentou mais:
- Betty, mi amor, não posso mais... — ele mal conseguiu formular a frase, as palavras saíram como um sussurro.
Armando tentou colocar-se por cima dela, mas ela o impediu, posicionando-se sobre ele e o guiando para dentro de si, começando a mover-se vagarosamente em princípio, torturando Armando que, totalmente arrebatado, a agarrou pelos quadris e começou a movimentar-se em um ritmo frenético, dominado pelo desejo. E como num transe, como se estivesse embriagado, seguiu seus instintos e explodiu num ataque contra si mesmo, tão intenso que mal se deu conta que Betty também o seguiu logo após, caindo rendida sobre o seu peito.
Ele abraçou-a, sem saber muito bem de onde ainda tirava forças para fazê-lo. Permaneceu deitado em um estado semi-inconsciente, tomado por uma gostosa sonolência:
- Te amo, Betty! — sussurrou em um fio de voz.
Betty piscou umas duas vezes bem devagar. Antes de voltar o contorno do cenário à sua frente, ela não sabia onde estivera durante aquela pequena morte:
- Também te amo, Armando... Demasiado... E... Isso foi incrível, isso é incrível! — ela respondeu, sem se mover.
- O que, mi amor?
- Cada vez que nos amamos é melhor que a anterior... Quando penso que não tem como ser melhor, você me surpreende.
Armando, com os olhos fechados, ainda sorriu, vaidoso:
- E ainda tenho muitas coisas para lhe ensinar, doutora...
- Sim?
- Hum, hum! A senhorita por acaso não conhece minha fama?
- Qual delas seria, dentre todas que o doutor tem?
- A de ser um ótimo amante, obviamente...
- Ah, claro! Nota-se que por isso as mulheres viviam correndo atrás de você, melhor dizendo, vivem correndo...
- Sem dúvida! — ele disse para provocar.
- Muito bem... E a outra fama que o Sr. tem é a de ser extremamente modesto, Seu Armando!
- Mas estou mentindo por acaso? Não sou um excelente amante?
- Hum... Não tenho do que me queixar... Ainda que... Também não tenho como comparar... Bem... Teve o... — sua voz por um segundo sumiu — Miguel, mas... Ele não conta.
Betty sentiu rachar algo dentro de si... Talvez fosse a fortaleza de concreto onde trancafiara todas aquelas lembranças. Ainda que certas coisas já parecessem ter textura de sonho, a matéria-prima não deixava de ser pesadelos.
Armando teve que levantar a cabeça do travesseiro para saber se Betty ainda estava ali, ela simplesmente se apagara no seu abraço. Não pôde pensar em nada que não fosse no espaço que esse canalha ainda tinha em suas memórias. Sentiu o ciúme subindo-lhe o esôfago e jamais saberia conviver com aquilo dentro de si:
- Por que não conta?
Betty permaneceu em silêncio, já descendo em círculos para o centro, vendo-se naquela situação, querendo com todas as forças avisar a si mesma de tudo o que estaria por vir...
Armando se sentiu um pouco perdido, sozinho naquela cama:
- Beatriz, sei que isso faz parte do seu passado... Um passado que você quer esquecer. E se você não quiser falar sobre isso, tudo bem, eu entendo. Mas às vezes é melhor falarmos sobre o que nos atormenta, colocar tudo pra fora. Só quero que saiba que se você quiser falar disso um dia, estou aqui para ouvi-la.
Se Armando precisava exteriorizar suas emoções para matá-las em sessões de exorcismo, Betty tinha certeza de que podia matá-las sufocadas no esquecimento:
- Já não me atormenta como antes, Armando. Apenas me traz péssimas lembranças...
E elas já estavam todas diante dos seus olhos, embaçadas pelo tom e pela distancia, mas ainda assim, respingavam em chuva no seu rosto, fazendo-o contorcer de frio e incômodo.
- Bom, pra falar a verdade, Betty, eu gostaria, sim, de saber como foi sua primeira vez, não nego. Mas sei que não tenho o direito de lhe pedir isso...
- Não é isso, Armando. É que... Não sei como falar sobre isso com você...
Armando já havia se arrependido por haver-lhe perguntado isso e entregado-a de bandeja a todos aqueles instantes dos quais ela queria se esquecer. Acariciou suas costas nuas, querendo tirá-la daquela roda de lembranças de tons de negro e trazê-la de volta para seu lado:
- Tudo bem, Betty... Esquece que te pedi isso... Não tem importância...
Betty encostou as costas na cama e respirou fundo. O espetáculo já estava passando diante do espírito, o mais difícil havia sido feito:
- Sabe, quando penso nisso, parece que aconteceu há séculos, em outra vida, com outra pessoa... Parece tão distante...
Armando contraiu as sobrancelhas, tensionado entre a necessidade de saber tudo e a tortura por ver Betty tão pouco densa como estava.
- Foi horrível, Armando... — ela disse encolhendo-se e abraçando as pernas.
Armando também se sentou na cama, deu um beijo em sua têmpora a puxou para si, acariciando seus cabelos.
- Então não fale mais nada... Não falemos mais sobre isso.
- Não, eu quero falar. Se não enfrentar isso hoje e agora não vou fazê-lo nunca e talvez você esteja certo.
- Mas talvez não valha a pena se torturar tanto...
Betty respirou fundo mais uma vez, ignorando o comentário dele:
- Eu não queria, mas ele me pressionava, dizia que nosso relacionamento parecia do século XIX. Eu tinha medo de que ele fosse embora, estava iludida...
Armando seguiu fazendo carinhos em seus cabelos, enquanto os olhos dela miravam fixamente um ponto do quarto, ainda que estivessem, de fato, perdidos no passado:
- Não houve nenhum tipo de carícia, ou palavras de carinho. Foi um ato mecânico. Nem sequer nos despimos, imagina... A única coisa que eu senti foi dor. Mas, claro, sua única intenção era ganhar a aposta... Foi isso. Nada mais.
- Mas você estava apaixonada por ele... Sofreu por ele... — sua voz era esquelética.
- Eu pensava que estava... Acho que no fim dá na mesma... Ele havia sido o único homem a prestar atenção em mim. Mas nunca senti por ele nada parecido com o que sinto por você. Eu sofri, sim, mas hoje sei que foi muito mais pela aposta, por ter sido humilhada, por terem jogado com meus sentimentos como jogaram, do que propriamente por tê-lo perdido.
Armando não conseguia imaginar nada do que ela estava dizendo. Via-se somente a si mesmo, sua cara em todas essas cenas, num pesadelo que atraía uma ciranda de lembranças mais, cantando e rodando em sua mente, de maneira retorcida e desordenada: ela e ele na casa de Calderón, onde ela lhe entregava a vida quase descarnada e ele não sabia o que fazer com aquilo, como um pai covarde; o plano de seduzi-la por desconfianças estúpidas; as saídas para os lugares imundos onde ele a levava, morto de vergonha por estar com ela...
Nesse momento ela olhou para ele, vendo no fundo dos seus olhos a escuridão que o abraçara:
- Você não é igual a ele, mi amor. Nunca foi. Você sempre me tratou com carinho, mesmo quando ainda não me desejava. Você não tem nada a ver com Miguel, ele era um estúpido, alguém como Roman e sua turma toda. Você é um cavalheiro, meu príncipe...
Armando tentou, sem absolutamente nenhum sucesso, esboçar um sorriso. Pobre Betty, por mais que toda a história tivesse vindo à tona, ela o sabia através de uma carta, através de palavras jogadas num papel que, por mais duras que fossem, eram "horríveis" e "tétricos" cujos graus e nuances não se podia imaginar precisamente. Mas ele era o que havia visto tudo, presenciado tudo, vivido tudo. Ele era o que se havia mirado ao espelho, pegando a escova de dentes com as mãos tremendo de asco por beijá-la. Ele se havia visto perfeitamente conversando com Mário, contando todos os detalhes daquela sordidez com os olhos brilhando obliquamente em soberba e repulsa... Ele era muito pior que Miguel. Miguel só queria se deitar com ela, fazendo o favor de deixá-la em paz logo em seguida, não queria envolvê-la, não queria fazer-lhe promessas de futuro, não queria estar com ela por um ano, transformando-a na amante de um homem casado, fazendo-a descer num inferno onde queimavam em azeite todas as suas ilusões não cumpridas...
Betty passou a mão pelo seu rosto, tentando distorcer sua expressão, desfazendo o caminho para onde os pensamentos dele teimavam a ir:
- Armando, se você se vê tão assim como Miguel, pensa que nossa história é uma revanche de tudo isso. A minha revanche.
Ele finalmente sorriu, era uma boa maneira de ver as coisas:
- Sim, Betty, você derrotou o vilão transformando-o em mocinho, o que me parece bastante nobre.
Ela sorriu, aninhando-se no peito dele:
- Mas nem de longe você é como ele, e nem de longe nossa história é uma repetição desse passado... Lembra que uma vez você me disse que nunca soube o que era o amor, até se apaixonar por mim?
- Sim. É verdade!
- Pois eu posso dizer o mesmo. Eu também não sabia o que era o amor, o de verdade. Este que eu sinto por você. O que eu sentia por Miguel era uma ilusão.
E entre as reticências do passado e do futuro, dormiram nos braços um do outro.
***
Acordaram bastante tarde. Armando despertou-se primeiro, as costas doloridas pela maneira como adormeceu, todavia, não tinha preço olhar para Betty recostada em seu peito, dormindo com o semblante tão tranqüilo, totalmente diferente de quando tiveram aquela conversa estranha da madrugada. Respirou fundo, aliviado, notando, ao revisitar aqueles momentos, que se sentia mais leve e menos ressentido de si mesmo, como se tivesse exorcizado alguma coisa nele próprio, superando o propósito da conversa. Escorregou cuidadosamente a cabeça para o travesseiro para aliviar um pouco as costas, no que Betty remexeu-se, virando-se para o outro lado. Armando, então se ajeitou na cama e esticou a mão para a mesa de cabeceira, pegando o telefone e requisitando o serviço de quarto. Feito isso voltou para junto do corpo de Betty, passando o braço sobre a cintura coberta pelo lençol. Betty, com isso, virou-se, achegando-se a ele. Armando terminou cochilando.
Betty acordou, abrindo os olhos suavemente, deparando-se com a figura de Armando adormecida. Uma enchente de sentimentos transpassou por si. Permaneceu olhando-o com os olhos bem abertos, enquanto tentava organizar aquela torrente de planos e lembranças e pensamentos. Certas coisas ainda pareciam difíceis de acreditar: ela ali, com ele, compartilhando a mesma vida, o mesmo caminho, as mesmas emoções. E seu semblante estava totalmente tranqüilo, como ela há muito tempo não via. Nesse momento soube que fez a coisa certa ao enfrentar seu pai e vir para a Venezuela com ele. Não havia outro lugar no mundo onde ela quisesse ou devesse estar. Quis que esse instante durasse pra sempre, mas ele abriu os olhos logo em seguida, e ela percebeu que tudo poderia ficar melhor ainda.
Armando nunca seria capaz de imaginar uma forma e delimitar em palavras aquilo por que foi tomado quando despertou e se deu com aqueles olhos sorridentes. Invadiu-lhe uma espécie de epifania, um farol no meio do presente, norteando até o último dia da sua vida. De repente sabia o porquê de tudo e sabia da importância de cada passo até aquele destino. E soube o que tinha que fazer depois, coisa de que nunca soube durante toda sua vida.
Beijou Betty na testa, fazendo-a recostar no seu peito:
- Bom dia, mi amor.
- Bom dia, mi amor! Que horas são?
Armando virou-se, olhando o relógio no criado-mudo:
- Onze e meia — disse tranqüilo.
Betty sorriu e ele sorriu de volta. Enfim, em paz com o relógio. Em outras ocasiões seria impossível estar desfrutando da companhia dela. Lembrou-se das escapadas para o seu apartamento: da primeira vez, ele vestiu as roupas do avesso, da segunda vez, saíram às pressas devido às ligações do Seu Hermes, tudo isso por brigarem com relógio.
Permaneceram um tempo degustando aquele instante em silêncio, até que a campainha tocou, assustando-a:
- E quem pode ser?
Armando levantou-se, enrolando-se no roupão:
- Ah! Deve ser o serviço de quarto que eu pedi — disse já abrindo a porta.
Betty arqueou as sobrancelhas, observando-o entrar de novo no quarto com um carrinho cheio de comida.
- E a que horas você pediu isso, que não vi?
Armando sentou-se na beirada da cama, comendo um pedaço de mamão e dando-lhe outro pedaço na boca:
- Um pouquinho mais cedo, quando acordei. Era pra ser uma surpresa, mas você acordou mais cedo.
Betty sorriu, sentando-se ao seu lado, enrolada no lençol:
- Já é uma surpresa para mim, ver semelhante café da manhã.
Mordiscou um pedaço de uma arepita, oferecendo o outro a Armando:
- Não são tão boas como as colombianas.
- É verdade!
Armando sorriu, mais para si próprio. Era disso que se tratavam, então, todos os mitos sobre raros momentos em que a falta de sentido de tudo parecia tão ordenada, em que não havia nenhuma pergunta a se fazer. E por essa eternidade, prometida nesse instante, já sabia que não podia viver sem isso, tal modo se sentia acostumado.
Beijou o rosto de Betty em agradecimento. Qualquer coisa que dissesse poderia estragar tudo, assim que preferiu não arriscar.
Entre comparações de cultura, planos para o dia e carícias inocentes, terminaram o café da manhã. Betty pulou da cama olhando o relógio, dizendo que precisava tomar banho e ir para o salão onde Alejandra lhe marcara hora para arrumar-se:
- É o mesmo salão onde vão arrumar as modelos, então se eu for mais cedo, não atrapalho e posso averiguar o andamento do trabalho em relação ao evento sem precisar inventar qualquer desculpa.
Armando sorriu:
- Ah, Betty, para de ser tão preocupada com isso... Não tenho dúvidas de que Alejandra fará um excelente trabalho, depois da visita de ontem...
- Sim, mas eu preciso estar a par de tudo e... — levou a mão à boca numa expressão de susto — Armando, não preparamos os nossos discursos!
Armando contraiu o cenho:
- Perdão?
- O que a gente vai falar na apresentação de hoje!
Armando sorriu mais uma vez, enternecido:
- Tranquila, mi amor, não se preocupe... Na hora sai alguma coisa, é só chegar e falar.
- Armando, estou super nervosa, jamais poderia pisar lá e falar qualquer coisa... — ela disse já separando um terno de roupa para vestir durante o dia. — Farei o seguinte: vou preparar o que vou falar enquanto me arrumam e depois você lê e me diz o que você acha.
- Por mim, tudo bem...
- Agora vou para o banho... Gostaria de me acompanhar, Dr. Mendoza? — perguntou, lembrando-se da recomendação dele.
Armando sorriu malicioso. Levantou-se, respondendo ao comando dos próprios músculos, mas pensou que poderia aproveitar esse momento para adiantar uma surpresa que queria fazer-lhe à noite. Respirou fundo, buscando forças para recusar o convite tão tentador:
- Ay, mi amor... Melhor vá você. Vou fazer algumas ligações... Camila inclusive me pediu que ligasse pra ela, pra contar da inauguração e eu queria falar da... Da surpresa de ontem.
- Camila? — Betty disse, as sobrancelhas erguidas.
- Sim, Betty, é que eu tenho uma irmã chamada Camila...
- Eu sei quem é, Armando, eu transfiro os cheques pra ela.
- Então, por que o susto?
- Não, por nada, desculpa. É que você nunca a tinha mencionado, até agora... Mas não é nada. Um dia você me conta dela.
- Acho que nunca tive a oportunidade de falar dela, não sei. Mas alguma hora falamos de tudo isso, não se preocupe.
- Então já saio.
Entrou no banheiro.
Armando, assim que a escutou ligar o chuveiro, pegou o telefone e discou o número de Alejandra, com a idéia fixa da surpresa que queria fazer a Betty. Entretanto, assim que escutou a voz da amiga, um calafrio entrou-lhe pelos ouvidos, juntamente com a voz dela:
- Alejandra? Fala com Armando, como está?
Alejandra quase deixou o telefone cair quando escutou a voz de Armando. Respirou fundo, gritando para todos os nervos do seu corpo se acalmarem:
- Tudo bem, Armando. E você, como está?
- Tudo bem! Estamos muito bem instalados e muito satisfeitos. Mas te ligo para te pedir um favor. Será que podemos nos ver?
- Bom, estou saindo pra almoçar e depois disso vou para o hotel a ver se está tudo certo para o evento. Se você quiser podemos nos encontrar na cafeteria.
- Ok, me parece bem! A que horas?
- Ás duas e meia, pode ser?
- Pode, sim. Mais uma vez obrigado, Alejandra.
- De nada, Armando. Então, nos vemos agorinha.
- Combinado, e bom apetite.
- Obrigada, até mais tarde.
- Até.
Desligou o telefone e notou que o chuveiro ainda estava ligado. Esfregou as mãos, contente. Procurou uma roupa para se trocar e deixou-a estendida sobre a cama. Em seguida pegou outra vez o telefone e discou o número da irmã:
- Alô, Camila, me escuta? Fala com Armando.
Depois de escutar uns ruídos estranhos, veio a voz dela:
- Oi, Armando, cariño! Como você está?
- Bem, melhor agora que finalmente pude falar com você. Que horas são aí?
- São sete e quarenta da noite. Estou indo pra exposição. Vendi três quadros ontem e se tudo der certo hoje vão mais três. Também me fizeram uma proposta pra ilustrar uma antologia, e você sabe que este é o tipo de trabalho que eu gosto...
Armando sorriu. Era impressionante como a voz serena da irmã amanhecia sua alma:
- Ah, que bom, minha irmã! Parabéns pelas vendas dos quadros! E mi angelito, como vai?
- Miguel Ângelo está cada dia mais lindo! Agora está aprendendo a ler e a escrever. A professora ensina em francês na escola e me desdobro pra ensinar espanhol em casa. Me impressiona como ele ainda não esteja totalmente perdido.
- É bom que ele aprenda espanhol. Ele assumirá a Ecomoda um dia.
- Armando, cariño, o menino acabou de completar 6 anos e você já quer transformá-lo num burocrata! Já não basta Don Roberto dizer isso pra ele, você também?
Ele riu alto:
- Desculpa, Camila, desculpa... Mas, falando no nosso pai, estivemos conversando e ele disse que você pediu a babá para deixar menino com eles.
- Que absurdo, eu deixei o menino... Dona Margarita fez um senhor drama. Eu o teria deixado, tranquila, com a babá, o teria trazido comigo pra Paris, antes de haver cogitado essa possibilidade. Mas ela disse que era tudo pelo bem dele, que ele não poderia perder aula, que ele estava acomodado com a companhia deles, que eles tinham todas as condições de cuidar dele, que ela queria mesmo passar uma temporada na Suíça, então pra que uma babá... Tive que deixar. Mas deixei a babá lá também, disfarçada de empregada, Dona Margarita pode querer educar o menino da mesma forma que educou a gente, é bom ficar precavida.
Armando riu outra vez, diante da calma dela em dizer tais coisas, essa calma disfarçada... mas o fez para afastar a tristeza que tudo isso lhe causava:
- Se a senhora também não fosse tão difícil, hein...
- Mas e você, cariño? Conte-me, já passou a inauguração das franquias da Venezuela, como foi tudo?
- Não, será hoje! Estou muito ansioso, quero fazer uma surpresa pra Betty! Tomara que tudo dê certo!
- Uy, surpresa! Tomara que seja o que estou pensando... Tenho muita admiração por essa moça, você sabe, por tudo o que você me disse... Como é mesmo o nome dela?
- Beatriz, Camila, e também a chamamos de Betty, como você já escutou muitas vezes nessa conversa...
- Beatriz... Soa muito poético... Quem vai ao inferno buscar quem?
Armando sorriu:
- Cada um com seu inferno particular, cariño.
Escutou a risada de Camila do outro lado da linha.
- Mas, conte-me como vai tudo na Venezuela, vamos sair de temas difíceis.
- Na verdade era sobre isso que queria te contar. Betty e eu levamos um susto ontem. Estávamos supervisionando um dos pontos de vendas e, a Alejandra, a representante da empresa que comprou a franquia...
- Sei, aquela sua amiga que te ajudou muito na Venezuela...
- É, mas não desvia do assunto... A Alejandra nos diz que Marcela a havia ajudado. Foi uma sensação estranha... Desde que Betty e eu nos acertamos, a Marcela simplesmente desapareceu da minha vida. E vendo seu trabalho na loja ontem... Não sei, cariño, me trouxe lembranças boas... Será que me explico?
- Está falando com a pessoa que mais entende disso. Cuja ligação ultrapassa os limites da metáfora.
- Mas me senti estranho. Lembrei-me fortemente de quando a acompanhei para a reestruturação dos pontos de vendas em Bogotá. Era tudo tão leve. Eu gostava de estar com ela!
- Mas você não acha que é um alivio se dar conta disso? Pensar que por um momento, um instantezinho que fosse, você gostou dela verdadeiramente pra sempre? Que tudo não foi uma farsa como você tende a pensar?
Armando sorriu:
- Sim, me sinto menos horrível, não há dúvida.
- Menos horrível, não, cariño, você nunca foi horrível. Ansioso, bobinho e influenciável por um tom de voz mais forte, com certeza, mas lembre-se de uma frase do Wilde que diz que homem é um animal racional que perde sempre a cabeça quando é chamado a agir pelos ditames da razão. E o senhor ainda é latino-americano, se isso diz alguma coisa. Mas não horrível porque você me machuca, sério.
Ele suspirou, contente:
- Nem preciso falar que é por isso que eu também gosto tanto de falar com você.
- Bom, você já sabe onde me encontrar. Este mês em Paris, mas no outro pode ligar em casa. Inclusive, aproveita pra falar com Miguelito e ajudá-lo com o espanhol.
- Bom saber! Agora te deixo, cariño, porque tenho um dia e uma noite cheia, mas te ligo assim que puder pra te contar do evento.
- Ok. Um abraço grande! E um abraço pra sua esposa. Falamo-nos em breve.
- Um beijo! — disse rindo pelo comentário dela.
Desligaram. Nesse momento Betty saiu tímida do banheiro, envolvida num roupão, encostando as costas na parede do quarto:
- Armando, desculpa, mas acabei ouvindo sua conversa sem querer...
Armando saltou de susto na cama:
- Tudo o que, mi amor?!?
- Tudo o que você disse pra ela...
- Pra ela, quem??? — Ele continuava imóvel, segurando na base todos os seus pensamentos vacilantes.
Betty respirou fundo:
- Ay, Armando, não torna isso mais difícil, como que pra ela, quem? Pra sua irmã.
Armando abaixou a cabeça. Quase não pode esconder dela o alivio em saber que Betty não escutara sua conversa com uma outra pessoa. Mas não pôde deixar de se sentir descoberto na sua confissão, ainda mais sobre a Marcela, que era um tema tão doído entre os dois.
Betty se sentia uma invasora, todavia não podia interromper aquele momento em que ele confessava o que sentira ao mencionar o tema de D. Marcela. E nem queria. Havia ainda muitas fendas entre o passado e o presente, fendas com entonação de perguntas...
- Desculpa de verdade, mi amor. Mas eu sei que se aparecesse aqui na sua frente enquanto você falava com ela, atrapalharia não só o momento, como atrapalharia você em si.
Armando virou-se pra ela com o cenho contraído. Ao que parecia, ele estava preocupado com uma coisa e ela com outra totalmente diferente:
- Como assim, Betty?
- Você tem esse jeito de exorcizar seus problemas para matá-los. Se eu interrompesse, você não poderia fazer isso.
- E você não está chateada porque eu falei disso pra minha irmã, e não para você?
- Claro que não, Armando, ainda que de todas as formas eu esteja aqui e esteja ao seu lado. Mas sei que falar de certos assuntos ainda é muito difícil...
- Ainda mais sabendo que o assunto em questão, mi amor, é muito difícil para você...
Ela sentou-se ao lado dele na cama:
- Para nós dois, creio... Mas admito que ainda há muitas coisas que eu gostaria de saber...
- Por exemplo?
- Será que posso? Aprendi desde cedo que existe muita coisa que não convém perguntar...
- Mas essa regra não se aplica a mim. Já que estamos falando disso, aproveitemos a oportunidade.
- Gostaria de saber uma coisa sobre o dia da reunião da diretoria na qual apresentei o balanço real... — ela perguntou tímida.
Flashes de memória perpassaram os olhos de Armando pelo lado de dentro. Ele fechou o semblante num aspecto pensativo:
- Sim, Betty. O que tem ela?
- Antes da reunião, naquela conversa que você teve com o Dr. Calderón...
Armando fechou os olhos, visualizando em três dimensões aquela lembrança. Seus sonhos, as possibilidades, as impossibilidades, a realidade... Tudo colidindo em sete vias, cobrindo de confusão as saídas imagináveis...
- Beatriz — ele a interrompeu -, você só escutou parte da conversa. Nós falamos na hipótese de convencê-la a tirar férias, mas era para poupá-la, para que não estivesse aqui durante o casamento e sofresse mais do que o necessário.
Betty os observava pela janela da sua antiga sala:
- Não era bem isso que o Dr. Calderón estava dizendo. Ele queria mandar-me para algum lugar distante para que não houvesse a possibilidade de eu aparecer na última hora e estragar o casamento. Ouvi bem.
Armando apoiou os cotovelos nas pernas, abaixando a cabeça e enrolando-se sobre si mesmo:
- Betty, escute tudo o que tenho para dizer, sim?
Betty assustou-se. Ele a via pela fresta da janela por onde ela o espiava:
- Naquela manhã eu acordei com uma certeza: a de que não poderia me casar com Marcela Valencia, porque finalmente havia me dado conta de que estava profundamente apaixonado por você. Eu já sabia disso, mas não queria acreditar. Na noite anterior, quando fui encontrar-me com você após o lançamento da coleção, não tive mais como fugir desse sentimento, dessa verdade que não podia mais negar...
As cenas vinham-lhe rápido demais à cabeça, ainda que, em meio a toda aquela bruma, mostrassem uma direção clara e acolhedora: o momento em que se fechava com Betty em sua sala depois da coleção, feliz por haver sido bem sucedido... Ali se via diante da única pessoa com quem queria compartilhar aquele acontecimento... E o abraço que ela lhe deu, o beijo, depois de tanto tempo de frieza e ironias, era uma promessa de que tudo poderia se ajeitar se ele tivesse forças e seguisse adiante.
- Ah, mi amor, eu estava realmente disposto a cancelar o casamento depois da reunião da diretoria e disse isso ao Mário. Mas, claro, ele me convenceu que eu não poderia fazê-lo, me disse que se o fizesse as conseqüências seriam terríveis; não só para mim, mas para a Ecomoda. Pela primeira vez na vida Mário estava dizendo algo sensato. Reagi, reclamei, disse que não era justo sacrificar minha vida pela empresa, mas ele colocou as coisas de uma forma que fez com que eu me sentisse um egoísta por ter posto a empresa naquela situação e, de repente, querer abandoná-la à própria sorte, para manter minha felicidade, o meu bem estar. Era a empresa de minha família, a empresa que meu pai havia levado anos para colocar no posto em que estava. Então percebi que não haveria outro caminho, que eu teria que casar-me com Marcela, se isso significava a salvação da Ecomoda, mesmo estando completamente apaixonado por você. Quando Mário sugeriu que te propuséssemos umas férias, só pensei em poupá-la, em protegê-la, porque sabia que seria difícil para você ver-me casar com outra mulher. Não sei o que passou pela cabeça de Mário, aliás, posso imaginar. Mas não importa, não eram as mesmas razões, as dele e as minhas. Eu só queria protegê-la.
Betty começava a enxergar as coisas de um lugar mais alto, podendo ver bem melhor o quadro completo desenhado pela situação, em que os detalhes sumiam na distância:
- Então se naquela reunião tivesse ocorrido tudo bem, se eu tivesse apresentado o balanço maquiado e o Dr. Valencia não tivesse descoberto o embargo, você teria se casado com Dona Marcela?
Armando olhou-a um tempo, tentando ver sentido nessas palavras que pareciam tão absurdas. Fez um grande esforço para vestir de novo aquele Armando confuso, no limbo entre o que ele era e quem havia se tornado. Respirou fundo, incorporou a insistência de Mário e o seu sarcasmo disfarçado de sensatez:
- Sim, Beatriz. Não vou mentir pra você agora, eu iria me casar com a Marcela. Seria o maior sacrifício de minha vida, mas eu o faria para salvar a empresa, porque salvar a empresa não significava apenas salvar meu posto, creia-me, naquela altura do campeonato era o de menos. Salvar a empresa significava, sobretudo, salvar o trabalho e o sonho de uma vida inteira do meu pai e do Julio Valência, salvar os empregos dos funcionários e das muitas famílias que dependiam de seus salários e salvar o patrimônio de vários acionistas. Eu havia levado a empresa àquela situação, pela minha arrogância e irresponsabilidade. Eu teria que salvá-la, ainda que para isso tivesse que sacrificar minha felicidade... Confesso que, no meio daquele redemoinho de confusão e culpa, me parecia um sacrifício válido, era uma espécie de olho por olho, dente por dente com a vida...
Betty fitava-o um pouco surpresa, era bem diferente agora que podia escutar seu lado. Já nem doía tanto imaginar aquelas cenas, já nem fazia sentido ver-se tão quebrada na sua cela particular, que era o que havia se tornado sua antiga sala durante todo aquele tempo em que estivera em conflitos de ego com Armando, tentando derrubá-lo de um lugar onde ele sequer estava. E, finalmente, aquela cena da sua suposta despedida, no dia do lançamento, havia se enchido de verdade: o abraço, o beijo, as palavras ditas, sobretudo o momento compartilhado, a preocupação se ela estava com fome era verdadeira. Já não se sentia tão estúpida e tão feia...
- Betty, eu falei alguma coisa errada? — ele disse puxando-a pelo ombro para a realidade.
Betty acariciou-lhe o rosto:
- Claro que não, mi amor! Estou pensando que você já havia mudado muito. Que não sei se o Armando Mendoza que conheci, lá no início, iria se preocupar com a empresa, com os funcionários e suas famílias a ponto de se sacrificar por eles... Eu te entendo, Armando, e acho que, se as coisas tivessem ido por esse caminho, você teria mesmo que tomar essa decisão, não haveria outra saída... Mas fico muito, muito, mas muito feliz mesmo que as coisas não tenham acontecido assim!
Armando beijou-lhe o rosto:
- Eu também, mi amor! Mais que qualquer um!
Em seguida ele segurou-lhe o rosto, beijando-lhe nos lábios. Betty não pôde deixar de notar que seu beijo tinha um gosto diferente de proximidade que ela ainda não experimentara. Demorou-se nos lábios dele, sabia que tinham avançado mais um passo...
Separaram-se. Ela olhou-o com um aspecto brincalhão, lembrando-se ainda do resto da conversa com a irmã:
- Outra coisa, mi amor, a última, te prometo!
Armando sorriu divertido:
- Diga.
- Sua irmã sabe de toda nossa história?
Armando coçou a cabeça, olhando para o relógio e vendo quão tarde já era:
- Betty, meu Deus, olha a hora! Tenho que tomar banho e sair! Não, essa história fica pra depois. Prometo pelo que a senhorita quiser que te conto tudo o que a Camila sabe, em ordem cronológica.
- Tudo bem, mas eu vou cobrar. E... Aonde você vai, Armando?
Mais uma vez pego de surpresa pelas coisas que dizia sem pensar:
- Eu? Vou dar uma volta na cidade e... Te trazer uma surpresa! Verdade seja dita, não era nenhuma mentira.
Betty sorriu:
- Acho que seria impossível ter mais surpresas do que as que já tive, mas veremos o que o doutor vai aprontar. Vou me vestir, então.
Armando ainda beijou-lhe apaixonadamente nos lábios antes de pular da cama, indo para o banheiro.
Betty vestiu-se e esperou Armando sair do banho para despedir-se. Era uma pena realmente que essa viagem durasse tão pouco, já se sentia uma parte dele pra sempre. Os dias com ele eram muito mais fáceis, a vida era respirável e já não se tratava mais de vencer um dia após o outro como sempre havia sido... Agora parecia muito mais torturante voltar à realidade em Bogotá, os encontros escassos, as escapadas arriscadas... Sentia-se desconfortável com essa situação, como se nunca a tivesse vivido... Estar com ele integralmente tinha apagado tudo com uma eficácia que ela não podia ter cogitado.
Despediram-se com um longo beijo. Armando ficou olhando Betty sair enquanto pensava que muito em breve tudo seria diferente, que todos os dias seriam como estes...
Vestiu-se rapidamente e saiu em direção à cafeteria do hotel, para encontrar-se com Alejandra.
Fale com o autor