Um Novo Final
36 Capítulo 36
Notas iniciais
Assim que seu Hermes saiu, D. Júlia pegou o telefone e ligou para a filha. Betty estava mergulhada nos papéis à sua frente para não pensar em outras coisas e atender o telefone lhe custou esforço:
— Alô?
— Minha filha, seu pai está indo pra aí — D. Julia comunicou.
Betty piscou os olhos, como se houvesse acabado de acordar. O que ela poderia esperar dessa ida dele à Ecomoda?
— Como é que é?
— Sim, ele está indo pra aí. Ele vai dizer a você e ao Armando que levem o Nicolas para a Venezuela.
As palavras de Dona Júlia lhe soaram estranhas. Ela realmente escutara aquilo ou foram suas vontades que distorceram as palavras de sua mãe?
— Mãe, a senhora está dizendo que ele vai aprovar minha ida à Venezuela, desde que eu leve o Nicolas? — precisava confirmar.
— Sim. Seria muito sacrifício levá-lo?
Betty sorriu sentindo o bloco de concreto que levava nas costas evaporar como um milagre:
— Não, mãe, claro que não! Dos males o menor...
— Mas o que o Armando vai pensar?
— Bom, não vai ser uma ideia muito agradável, mas, como eu disse, dos males o menor.
— Tudo bem. Vou desligar porque o Hermes já deve estar quase aí.
— Ok,mãe, um beijo.
— Outro, minha filha. Fica com Deus.
Betty desligou o telefone e saiu para a vice-presidência, aproveitando o pouco tempo que tinha.
****
Armando era todo a viagem. Só conseguia ver e pensar nisso. Qualquer assunto resultava numa ideia, num plano, numa fantasia... E seria exatamente lá que...
Foi interrompido pelo clique da porta. Viu Betty, sorriu e fez todos seus planos e idéias e fantasias sorrirem junto. Levantou-se e enlaçou-a, sentindo sua pele muito leve, em um aspecto completamente diferente da Betty que saiu havia pouco do seu escritório:
— O que aconteceu que fez a senhorita ficar tão feliz?
Betty beijou-o:
— Você não vai acreditar, mi amor, mas meu pai vai deixar a gente viajar.
Armando primeiro sorriu porque ficava feliz em ver Betty bem, mas dois segundos depois não pôde deixar de agregar uma aguda desconfiança ao sorriso, porque Seu Hermes não deixaria a filha viajar somente para vê-la bem. Ficou esperando Betty dizer o resto da frase, porque deveria haver um resto. Como ela não dissesse nada, ele mesmo perguntou:
— E que mais?
Betty levantou as sobrancelhas. Armando realmente conhecia o sogro. Era melhor dizer tudo de uma vez:
— Ele quer que a gente leve o Nicolas.
Armando revirou os olhos. Betty colocou a mão no rosto dele, como que para desfazer seu aspecto chateado:
— Mi amor, você sabe que o Nicolas é nosso amigo e não vai ser um obstáculo.
— Betty, você sabe que eu até gosto dele, e não lhe diga isso, claro, mas o Nicolas em si já é um obstáculo, ele nem precisa fazer esforço pra isso.
— Armando! Não seja duro com ele. Não se preocupe, lhe arranjamos uma companhia e não teremos que nos preocupar com ele.
— Arranjamos? Nós quem?
— Ah, não sei. Alguém deve se interessar por ele...
— Como se fosse fácil... Ele é seu amigo e tudo, mas você tem que encarar a realidade...
— Armando!
— Desculpa, só estou sendo sincero... Mas vou ter que aceitar o fato de que ele vai, fazer o que... Importante mesmo é que você vai, e eu não vejo a hora de chegar amanhã logo. Pior se ele fosse e você não.
Betty riu e Armando beijou-a.
— Bom, Armando, deixa eu ir para minha sala esperar meu pai. Essa conversa não existiu, ok?
Positivo, senhorita Pinzon.
Mal Betty fechou a porta atrás de si, Seu Hermes abriu, irrompendo o escritório da filha, sem sequer permitir que ela se sentasse:
— Betty, chame o Dr Mendoza que quero falar com ele.
— Tudo bem... Mas aconteceu alguma coisa? — Betty perguntou por perguntar.
— Não. Eu decidi permitir a sua ida à Caracas, ponderei e percebi que será um evento importante e o corpo executivo da empresa não poderá faltar. Então, por isso, é igualmente necessário que o Nicolas esteja presente.
Betty assentiu, abrindo um sorriso nos lábios. Ir sem estar brigada com o pai era realmente um alívio, já sentia os dedos da culpa longe do seu pescoço. Seu Hermes continuou:
— Mas, além de presidente da empresa, você também é minha filha, e eu necessito falar com o Dr Mendoza em particular.
Betty contraiu as sobrancelhas. Estava muito bom para ser verdade... Agora a conversa estava ficando estranha.
— Exatamente, em particular — Seu Hermes já adivinhava o olhar de sua filha. — Se quiser, pode pedir a Aura Maria que transfira as suas ligações para a vice-presidência já que o Dr Mendoza não estará lá mesmo.
Betty começou a perder o controle das próprias possibilidades que vinham em sua mente e sentiu um gosto de pânico na boca:
— Ai, pai, pelo amor de Deus, o que o senhor vai dizer ao Armando?
— Betty, se eu fosse dizer a você a conversa não precisava ser em particular, a senhorita não acha?
Ela respirou fundo e saiu. Já não bastava a vergonha de ter que levar o Nicolas, como se não pudesse sequer viajar sozinha, agora o pai vinha com mais essa.
Abriu a porta da vice presidência e bateu-a, assustando Armando:
— Que foi, mi amor? — Se cada vez que ela entrasse por aquela porta, estivesse com um humor diferente, ele ficaria doido.
Betty olhou-o um bom tempo antes de dizer. Milhões de pensamentos rasgavam sua mente em diferentes direções, se colidindo, capotando, explodindo:
— Meu pai quer conversar com você na presidência.
Armando olhou para os lados, um pouco surpreso, mas tentando parecer natural para não preocupá-la ainda mais:
— Comigo?
Betty foi até ele sentando-se na cadeira da frente:
— Sim. Eu sinto muito, Armando...
— Sente muito? Não vai mais viajar?
— Não, quer dizer, vou! Mas sinto sobre isso! Primeiro por a gente ter que levar o Nicolas e depois pelo meu pai querer conversar com você. Eu sei que não é justo, nem com você nem comigo.
Armando levantou-se, fazendo-a levantar-se e abraçando-a. Se ela fosse viajar, ele encarava qualquer coisa:
— Mi amor, calma. Já estou tão satisfeito de você viajar comigo que o resto não é nada. Daremos um jeito.
Separou-se dela e beijou-lhe de leve os lábios:
— Não farei o Seu Hermes esperar muito. Agorinha estarei de volta.
Beijou-a de novo, como que buscando coragem e animo nos seus lábios.
Armando demorou um tempo incalculável para fazer um caminho de dez passos. Ele imaginava as recomendações de Seu Hermes, mas na voz dele as coisas ficavam muito mais medonhas. Tudo o que tinha pra falar se apagava imediatamente após cada pensamento da resposta do sogro e ele terminava como se não tivesse pensado nada.
Bateu na porta, abriu-a e entrou. Seu Hermes esperava-o. Que visão estranha: ele estava grandíssimo naquela cadeira e Armando pensou como seriam as coisas se Seu Hermes fosse o presidente da empresa... Como as pessoas se vestiriam, se comportariam, o que diriam... E ele ficava cada vez mais maior. Sacudiu a cabeça:
— Licença, Seu Hermes.
— Sente-se, Dr. Mendoza.
Armando mecanicamente puxou uma cadeira e se sentou. Seu Hermes respirou fundo antes de começar a falar:
— Dr. Mendoza, hoje de manhã minha filha me disse que o corpo executivo da empresa tem um compromisso muito importante na Venezuela.
— Sim, senhor. É a inauguração...
Seu Hermes levantou a mão fazendo um gesto para Armando se calar e disse:
— Na verdade, não me interessa muito o que seja. Só sei que, no começo, me senti tentado a não deixar minha filha ir, porque, afinal de contas, o senhor é o namorado dela e pega muito mal ela viajar com o senhor, sozinhos, como se a minha filha não tivesse nem honra nem família.
Armando meneou a cabeça mostrando que estava atento. Seu Hermes continuou:
— E ela tem os dois, como o senhor já deve ter percebido há muito tempo, motivo pelo qual eu arrisco a dizer que o senhor veio a gostar dela.
Especialmente pelo pai que ela tem... pensou Armando, porque tinha que esperar o turno para dizer alguma coisa, nem nisso mandava mais.
****
Quando Betty saiu da vice-presidência, o andar estava um deserto. Pegou o telefone de Aura Maria e ligou na recepção:
— Recepção Ecomoda, Freddy seu criado.
Desligou o telefone sem dizer nada. Sorriu. Essas meninas eram terríveis. Viram Armando entrar na presidência e já fizeram um 911. Isso até a fez despreocupar-se com o que poderia estar passando lá dentro. Sobre o que as meninas poderiam estar falando? Dirigiu-se ao banheiro, onde sabia que elas estavam.
****
Na presidência, Seu Hermes ainda falava:
— Pois, Dr Mendoza, eu, como empregado desta empresa, entendo perfeitamente que é necessária a presença do corpo executivo em tal evento. Então dei a permissão para Betty ir. Para isso Nicolas, como vice-presidente financeiro, os acompanhará, e sei que a presença dele será muito importante. Espero que o senhor esteja de acordo comigo.
— Perfeitamente — o aviso já não era novidade para Armando.
— Ótimo. Com relação a essa parte está tudo resolvido. Agora, o senhor sabe que Betty, muito mais que presidente desta empresa, é uma moça decente, educada nos moldes tradicionais e, é claro, diferentemente dessas com as quais o senhor está acostumado, ninguém nunca a tocou, se é que o senhor que me entende.
Armando encostou as costas na cadeira. Se Seu Hermes descobrisse da missa a metade...
— Minha filha é uma moça muito ingênua e pode nem estar consciente das suas segundas, terceiras e quartas intenções, por isso fica me dizendo que tem que ir como presidente e um monte de coisas com as quais eu sei que o senhor não está preocupado.
— Seu Hermes, eu realmente... — Armando disse, se inclinando para frente.
Seu Hermes levantou a mão de novo e Armando voltou a afundar-se na cadeira:
— Não adianta o doutor arrumar pretextos para esconder os seus planos, porque eu os conheço. E esse é mais um motivo pelo qual Nicolas acompanhará vocês: ele será os meus olhos, a minha boca e os meus ouvidos. Qualquer passo que os senhores derem em falso em Caracas eu saberei. Estou te avisando porque não é que eu quero pegar os dois em flagrante, quero é evitar isso, por isso estou sendo seu amigo.
Que cruz, meu Deus... — Armando pensava enquanto assentia.
****
Betty entrou vagarosamente no banheiro, encostando-se na parede para não aparecer nos espelhos e estragar a conversa das meninas. Estava interessante aquele jogo, ela fazendo a mesma coisa que o quartel. É, não era à toa que fazia parte dele, estando na direção da empresa ou não.
— ...meninas, Seu Hermes confia em Betty — Inesita terminava a frase.
As meninas riram, lançando um olhar cínico em direção a Inesita, implorando para que a amiga deixasse de ser inocente. Sofia levantou as sobrancelhas:
— Na Betty ele pode até confiar, mas no Seu Armando tenho certeza de que não confia, não. Além do mais, o pobre homem pensa que a filha ainda é virgem...
Aura Maria pôs a mão em frente a boca, disfarçando a risada.
— Seu Hermes vive em outro mundo. Só ele mesmo pra acreditar que um homem como Seu Armando vai ter uma relação platônica com a filha dele — Sandra disse.
— E só Seu Hermes para acreditar que a Betty ia resistir a um homem como Seu Armando. Ai quem me dera ter um homem daquele só pra mim... — Aura Maria observou.
— Pelo amor de Deus Aura Maria! Respeite o Freddy! — Inesita não gostou do comentário de Aura Maria que se encolheu.
— Ai Inesita, é só uma fantasia. Eu nunca trairia meu grilinho — Aura Maria respondeu.
— Além do mais Seu Armando parece enfeitiçado. Só tem olhos pra Betty. Já repararam na maneira como ele olha pra ela? — Berta reparou.
Mariana se levantou, admirando-se no espelho:
— Sim... Com uma carinha de bobo... Tão lindo o amor!
Sofia, que estava encostada na pia, sentou-se onde Mariana estava sentada:
— E se fosse só a maneira como olha... Ele não tira as mãos de cima dela! Só se segura um pouco quando Seu Hermes ta por perto. Porque, quando ele não está, os dois vivem se agarrando.
— Sofia, não seja maldosa, eles estão apaixonados, é natural que sejam carinhosos um com o outro — Inesita ralhou.
Berta remexeu-se onde estava:
— Meninas, vocês já perceberam como Seu Armando anda comportadinho ultimamente? Outro dia ouvi duas modeletes comentando que ele já nem as cumprimenta direito.
— Betty amarrou ele direitinho... — Mariana disse.
— Deve ser feitiço mesmo. E dos bons! — Sophia concluiu.
— Sophia! Não diga bobagens! — Inesita disse.
— Que feitiço que nada. Seu Armando se apaixonou pra valer, ta caidinho pela Betty... Isso acontece, Sofia! — Mariana voltou a dizer.
— Eu só não sei como eles estão fazendo para ter um tempinho de... intimidade, digamos assim. Com a marcação cerrada do Seu Hermes — Aura Maria estava curiosa.
— Isso só comprova que Seu Armando está realmente apaixonado. Por que aguentar Seu Hermes... — Mariana falou.
— Eu só quero ver quanto tempo vai durar isso... Pobre Betty! — Sohpia suspirou.
— Sophia, quer deixar de ser pessimista! — Inesita exclamou.
Sophia levantou-se de novo. Não parava quieta:
— Não é pessimismo, Inesita, é realismo. Todos nós sabemos muito bem como é Seu Armando. Eu quero ver como vai ficar a Betty quando ele começar a andança com as modelos de novo, como ele fazia com a Dona Marcela.
— Seu Armando mudou, Sophia, amadureceu. Além do mais, ele nunca amou Dona Marcela da forma como ele ama a Betty. E ele sofreu muito por ela, não vai se arriscar a perdê-la — Inesita respondeu.
— Seu Armando não quer saber de modelo nenhuma não. Não foi você mesma que disse que ele vive agarrado na Betty, Sofia? — Aura Maria defendeu.
— Sim, mas até quando ele vai esperar? — Sophia não estava convencida.
— Esperar o que, mulher? Ele não tem que esperar nada, não. Tenho certeza de que eles dão um jeitinho de enrolar o Seu Hermes. Também, eles não perdem oportunidade, não. Já cansei de entrar na presidência e ver os dois muito carinhosos, mas muito carinhosos mesmo, se é que vocês me entendem... — Aura Maria disse, gesticulando efusivamente.
Todas se voltaram para Aura Maria, esperando detalhes:
— E você entra sem bater Aura Maria? — Inesita perguntou.
— Claro que não Inesita! Eu sempre bato. Mas é que às vezes eles estão tão... tão... entusiasmados que nem me ouvem disse sorrindo maliciosamente e sacudindo os ombros.
Sandra começou a rir:
— Eu também já entrei na vice-presidência e peguei os dois nos amassos.
Berta levantou-se e colocou Sandra no centro da roda:
— Menina, então conta isso logo!
Betty estava no meio do caminho entre os sorrisos diante daqueles comentários, que eram bastante favoráveis a ela, e a indignação pelo fato de que elas realmente não deixavam passar nada. Teve total noção de que as meninas não iriam poupá-la, mesmo sendo amiga delas. Mas sabia que as meninas não faziam por mal e por isso sorria. Melhor se pudesse ver o semblante de cada uma ao pronunciar aquelas palavras, contudo ela participando da conversa, a conversa não seria esta.
****
Armando ainda escutava seu Hermes na presidência.
— Eu entendo, Dr Mendoza, que depois de um tempo sem... sem... "o senhor sabe o que eu estou falando", eu sei que com o tempo um homem vai ficando estressado e tudo o mais, ainda mais no seu caso, que sempre esteve acompanhado da mulher que quis onde quis. E por isso eu também compreendo a sua urgência em estar sozinho com a minha filha. Mas, não, não é bom, a Betty não é qualquer uma, ela é uma menina de valor. Olhe, se a necessidade for muita, o senhor pode ligar pra uma dessas suas amigas, só pra... só pra... "o senhor sabe do que estou falando". Só pra se aliviar mesmo, aliviar o estresse... Mas respeita minha filha enquanto o senhor estiver em Caracas...
Armando arregalou os olhos. Por mais que esperasse absurdos da parte do sogro, aquilo havia passado da conta. Não podia ser impressão dele, Seu Hermes preferia que ele traísse a filha a estar com ela:
— Seu Hermes... — ele finalmente disse.
— Diga.
— Uma dúvida que me surgiu...
— Estou ouvindo.
— Isso que o senhor esta me propondo... Isto... O senhor fazia isso pra respeitar a honra da D. Julia?
Ele tinha que perguntar isso, só pra saber quem estava mais doido...
Seu Hermes se ajeitou na cadeira, pigarreou,se ajeitou na cadeira de novo:
— A minha pessoa não é tema da conversação de hoje, Dr Mendoza, gostaria que o senhor não tentasse me confundir mudando de assunto.
Armando levantou as sobrancelhas:
— Perdão, Seu Hermes. — Era melhor não discutir nada, vai ver ele mudava de ideia.
— Pois, então, Dr Mendoza, eu espero realmente que o senhor tenha entendido tudo o que eu quis dizer. Pelo bem de nossas famílias, do juízo da minha filha, vamos fazer as coisas como têm que ser, certo? E, ao final de três dias, quero os três aqui, sem delongas, por favor. Porque pela minha filha eu posso muito bem pegar um avião e ir pra essa Venezuela buscá-los.
****
Sandra contava o episódio que presenciara de Betty e Armando na vice-presidência:
— Nem tem muito tempo, foi esses dias agora. Entrei na sala do Seu Armando e estavam os dois no sofá, dando aquele amasso. Seu Armando quando me viu, caiu do sofá, ficou branco, coitado. Daí a cena: Seu Armando no chão, com a camisa aberta, o cinto frouxo e Betty com a saia levantada.
Todas riram, menos Inesita:
— E você nem pra ficar com vergonha, Sandra!
— Não, no começo eu fiquei super sem graça, mas depois achei situação engraçada. Fiquei imaginando como seria se eu chegasse cinco minutos depois.
— Mas eles também nem pra trancarem a porta — Berta disse.
Todas riram maliciosamente, cada uma com um pensamento pior.
— E você nem pra falar nada! — Berta disse a Sandra. — Se não surgisse essa oportunidade, a gente nunca ia ficar sabendo disso...
— Mas, falando nesses amassos, será que eles se divertem enquanto a gente ta trabalhando? — Aura Maria observou.
— Agora que você está falando disso, se é sempre eu não sei, mas sabe que um dia... Quando teve uma reunião com uma mulher, uma bonitona, a Betty saiu da sala de reuniões, daí passou um pouco saiu o Dr Armando — Berta disse.
— Eu não me lembro...
— Eu deveria estar em outra parte — Sophia disse.
— Mas eu estava bem por aqui mesmo e ouvi os dois... vocês sabem... no ato mesmo — Berta confessou.
Todas se voltaram para Berta.
— Meu Deus! Onde eu estava? — Aura Maria disse.
— E não era um ato dos mais comportadinhos, não... — Berta continuou.
Aura Maria sacudiu as mãos:
— Quem diria, todo mundo pensando que a Betty é toda tímida, e ela se divertindo em plena luz do dia na empresa. Ah, não, então a gente já sabe que na seca esses dois não estão...
— E nesse dia, não foram gemidinhos contidos, foram ruídos mais altos, se é que vocês me entendem... — Berta reparou.
Todas arregalaram os olhos. Mariana começou a rir alto:
— Meu Deus! Eu quero voltar pro andar de cima, ah, não!
— Ah, a Betty podia contar essas coisas pra gente! — Aura Maria disse.
Inesita bateu a mão nas pernas, em protesto:
— E ela ia dizer o que, Aura Maria?! Por favor!
— Ah, sei lá — Aura Maria respondeu.
— Se os dois aqui na empresa já dão os pulinhos, imaginam na Venezuela — Berta disse.
— Vamos ver, né, às vezes ela passa três dias com o Seu Armando e acaba o sonho do príncipe encantado... — Sophia comentou.
— Credo, Sophia! Deus me livre de você hoje! — Sandra exclamou.
— Só estou sendo realista, tudo pode acontecer — Sophia respondeu.
— Pois eu acho que vai ser totalmente o contrário, esses dois vão tirar todo o atraso por causa do Seu Hermes. Serão três noites de amor selvagem — Aura Maria disse.
Todas riram concordando com Aura Maria.
— Isso se é que teve atraso, depois dessas coisas que eu estou descobrindo... — Sandra observou.
Elas se entreolharam maliciosas com suas possibilidades.
****
Seu Hermes, na presidência, concluía sua fala:
— Não tenho mais nada o que dizer... Alguma dúvida?
Armando tinha todas as dúvidas. O machismo do Seu Hermes já estava ficando insuportável, mas era melhor não discutir nada disso, ainda que ele não conseguisse sequer pensar na proposta estúpida que o sogro lhe fizera. Não podia nem pensar em dizer isso para Betty, seria uma decepção absurda. Disse, para encerrar aquela conversa:
— Está tudo bem, Seu Hermes. Pode ficar sossegado. Depois fala com Sandra para checar as minhas reservas e a da Betty para ver que estamos não só em quartos separados, como em andares separados... E, agora, com licença. Tenho que falar com ela sobre a reserva do Nicolas.
— Vocês dois podiam alugar um quarto com duas camas...
Armando contraiu as sobrancelhas. Imaginou-se na cena: chegam os três no hotel, ele pede as chaves à recepcionista e, enquanto Betty sobe para um quarto sozinha, todo o hotel o vê se dirigir a um quarto junto com outro macho. Que coisa mais asquerosa!
— Verei o que pode ser feito, Seu Hermes. Com licença.
— Siga.
Armando saiu da presidência e se viu no meio do Atacama, do Saara. Até parecia que não tinha trabalho na empresa...
— SANDRA! SAAAAANDRAAAAA! Maldita seja!!!
Bateu a mão na mesa. Finalmente podia extravasar os nervos que lhe comiam as entranhas.
Os gritos de Armando soavam a realidade e, Betty, dando-se conta de novo do que estava acontecendo, com medo de ser pega pelas meninas, saiu rápido do banheiro.
Armando, quando a viu saindo do banheiro, foi em sua direção:
— Ah, mi amor...
Betty fez um gesto para que ele fizesse silencio e ele a abraçou.
— Armando, meu pai...
Ele a soltou.
— Foi tudo tão mal assim? — ela lhe perguntou.
— Não, foi bem, eu só não resisto a você — Armando mentiu, não podia lhe contar da conversa.
Betty sorriu e Armando roubou-lhe um beijo, o que fez com que ela arregalasse os olhos, mas sem deixar de sorrir.
— Meu pai, Armando!
— Você sabe onde está a minha secretária?
— No banheiro.
Armando respirou fundo:
— SANDRAAAAAAAA!
— Mas não conte a elas que eu saí de lá.
— Hum? Você não estava com elas?
— Não e depois te conto o que aconteceu.
Betty voltou para a presidência sorrindo, enquanto Sandra saía do banheiro com as meninas:
— Me chamou, Seu Armando?
— Muito bonito, né? Até parece que não se tem nada pra fazer... Eu tendo uma conversa importante, preciso de vocês, cadê?
— Ai, Seu Armando, a gente estava no banheiro...
— Todo mundo junto, deu pra ir tudo na mesma hora... Te falar, viu...
— Mas do que o Sr. precisa?
— Sandra, veja se você consegue mais uma reserva pro voo de amanha pra Caracas pra o Dr. Mora.
Todas se entreolharam.
— É pra hoje, Sandra! Não é pra vocês ficarem com esses olharzinhos, é pra trabalhar, anda, anda! — disse batendo palmas para acordá-las.
E ele nem esperou por uma resposta, já havia aberto a porta da vice-presidência e estava fechando-a, com força.
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