Notas iniciais
Editado em: 28/04/2013

O encosto da cadeira onde Betty se apoiou, assim que desligou o telefone, era feito de tristeza. Uma tristeza macia e úmida que se entrelaçava em seu corpo como uma segunda pele. Ouvir falar dos pais de Armando foi como se seu passado corresse à sua frente e ela pudesse deslumbrá-lo adiante novamente. Era muito decepcionante o modo como julgava ser vista pelos dois. Como se não bastasse ser de origem humilde e ser feia, ainda foi responsável pela separação dele e de Marcela... Mas, não, ela não foi a responsável, não podia se culpar por desfazer uma relação que começou desfeita... Contudo, fora amante dele, mesmo sabendo que ele era um homem comprometido e isso era um buraco negro que sugava para si todas as qualidades que poderia vir a ter.

Estava debruçada sobre a mesa quando todas as meninas entraram em sua sala dizendo que já era hora do almoço e confirmando o encontro no Corrientazo.

Ela levantou a cabeça:

— Eu não vou mais, meninas.

— Mas como assim, Betty?! Que houve? — Aura Maria estava preocupada.

— Não, nada de mais... Apareceu um compromisso de última hora...

— Mas, Betty??? — Aura Maria fazia gestos perguntando do plano que elas haviam combinado.

— Foram os pais... — Mariana fez um gesto com a cabeça indicando a vice-presidência. — Não foram?

— Pais de quem? — Sandra perguntou.

— Como assim, Sandra? Não viu Seu Roberto e Dona Margarida??? —Sophia cochichava.

— Não! Estão aqui? — Sandra perguntou, surpresa.

Betty acenou afirmativamente.

— Onde eu estava que não os vi? Eu, que sou a secretária do Seu Armando? — Sandra continuou com sua surpresa.

As meninas fizeram gestos que não sabiam.

— Vão tranquilas, meninas. Bom apetite — Betty disse.

— Eu peço alguma coisa pra você antes de ir, então — Aura Maria ofereceu.

— Sim, obrigada, Aura Maria.

Saíram todas grudadas uma na outra da presidência.

Seu Hermes saiu da sua sala arrumando a camisa. Deparou-se com a filha cabisbaixa, em silencio:

— Vamos? — ele chamou.

— Ah, papai, descobri que não posso... Apareceu um erro de conta aqui nas saídas da empresa e eu preciso descobrir onde...

— Então eu fico e te ajudo.

— Não, não precisa, papai, não é nada tão grave assim.

— E o Dr. Mendoza? — ele já pensou que era uma desculpa para Betty ficar a sós com Armando.

— Almoçando com os pais.

— Hum... Então Dr. Roberto está na cidade... Depois tenho que conversar com ele, afinal, nossas famílias têm que se conhecer...

E Betty ainda havia se esquecido disso, o que contribuiu ainda mais para seu baixo astral. Seu Hermes continuou dizendo:

— Eu vou almoçar. Você ia comer com suas amigas e por isso eu disse a Júlia que almoçava em casa... Mas estarei aqui na empresa... A qualquer hora, não se esqueça disso, mocinha. Quer que eu traga alguma coisa pra você?

— Não, Aura Maria já pediu o meu almoço, papai. Obrigada.

— Tudo bem. Fica com Deus, minha filha.

Ainda bem que ele sairia. Tudo o que Betty queria era um momento a sós... com o próprio momento.

Armando voltou para a Ecomoda sozinho, ainda não havia acabado o horário do almoço, a conversa com os pais não fora longa. Passou pela presidência para verificar se Betty estava por lá, todavia, ficou surpreso ao ver que realmente estava. Significava que ela nem tinha saído.

Bateu na porta aberta. Betty sorriu, mas um sorriso fosco:

— Olá, mi amor, como foi com seus pais?

Armando fez um gesto perguntando se Seu Hermes estava lá e ela disse que não. Então ele correu e curvou-se para beijá-la.

Betty sorriu:

— Mas ele enfatizou que voltaria a qualquer momento.

Armando sentou-se na cadeira, de frente para Betty, e pegou o telefone:

— Wilson, assim que você vir o Seu Hermes chegar, liga aqui na presidência.

— Certo, Seu Armando! — Wilson respondeu do outro lado.

— Se ele entrar e eu não for avisado, você está demitido, escutou? — Armando ameaçou.

— Sim, senhor, Seu Armando.

— Então repete — Armando precisava ter certeza.

— Se o Seu Hermes entrar sem o senhor saber, estou demitido.

— Então está combinado.

Desligou o telefone e levantou-se, trazendo Betty para si e sentando-se no sofá com ela em seu colo.

Beijaram-se. Em seguida Betty deitou a cabeça no ombro dele, escondendo seu rosto ali, na tentativa de entrar em Armando e conseguir se esconder completamente de tudo.

— Que foi, mi amor? Nem saiu para almoçar... — ele estava preocupado.

— Não foi nada, Armando... Conta-me como foi seu almoço... Vocês falaram de mim? — ela disse ainda com a cabeça deitada no ombro dele.

Armando sorriu. Beijou os cabelos dela:

— E eu consigo falar de outra coisa?

Betty sorriu e levantou a cabeça.

— Ah, que bom, consegui fazer você sorrir — Armando brincou.

— Mas me conta... Você falou da gente?

— Bom, sim...

— E eles aprovaram?

Armando ergueu as sobrancelhas, a frase chegara tropeçando aos seus ouvidos:

— Se aprovaram? Betty, comigo é diferente, a meus pais eu só comunico as coisas...

— Mas como foi?

Ele sorriu. E ela ainda insistia no que ele considerava um adorável disparate:

— Calma, mi amor! Por que você está tão ansiosa? – ele disse jogando o cabelo dela para trás – Deixa as neuras pra mim... Em primeiro lugar você não tem que se preocupar com a aprovação dos meus pais, só com a minha – beijou-a rapidamente, deslizando os lábios para o pescoço dela fazendo com que sua respiração acelerasse ligeiramente – e a minha aprovação você tem com os maiores índices possíveis.

Betty sorriu mais uma vez, pelas palavras e pelo gesto dele. Beijou-o e, em seguida, acariciou-lhe o rosto:

– E em segundo lugar...? – Se havia um primeiro lugar, também havia um segundo. Os olhos dela tinham um brilho ocre pela ansiedade, mas ainda assim era um brilho.

– Bom, em segundo lugar – Armando a silhueta dela com as mãos enquanto beijava-lhe a orelha. Betty gemeu baixinho e passou os dedos pelos cabelos dele. Armando respirou fundo controlando o incontrolável, e voltou o rosto para ela – em segundo lugar, ninguém reclamou de nada... Minha mãe perguntou se estávamos bem e eu disse que estávamos maravilhosamente bem... O que é uma grande verdade.

Começou a brincar com os botões da blusa de Betty e conseguiu desabotoar três até o momento em que ela se deu conta e segurou a mão dele com os olhos bem abertos de surpresa, assim como o seu sorriso.

– E ela perguntou com que tom?

Armando ergueu as sobrancelhas:

– Perdão?

– Ah, não sei, Armando, ela estava perguntando num tom triste ou... Se bem que... – Ela se encolheu, mas ele a trouxe de volta, colando-a novamente nele.

– Mi amor, mi amor, não se preocupe com isso... Se você tem um filho, o que mais deseja para esse filho? Que ele seja feliz, não é? Pois, minha mãe sabe que no fundo só serei feliz com você... Então...

– Então...? – Nada a satisfazia.

Ele tocou de leve a ponta do nariz dela com o indicador:

– Fim de papo, mi Betty, fim de papo... Além do mais teremos só mais uns minutos aqui, juntinhos, vamos parar com essa conversa sem saída e aproveitar...

Beijaram-se apaixonadamente, esquecendo por algum tempo de seus pais e de todo o resto do mundo, enquanto arrancaram à unha os imprevistos pregados entre e um e outro e se saborearam na fenda que abriram, até que o telefone tocou avisando que Seu Hermes já havia chegado.

Final do expediente, Armando passou na sala de Betty. Seu Hermes havia ido ao banheiro.

Armando olhou para os lados, procurando-o e Betty apontou o dedo em direção ao banheiro da presidência. Armando correu, então, e deu-lhe um beijo rápido, apertando-a contra si:

– Então, vamos dançar hoje? — ele convidou.

Betty se sentia muito cansada. Aquela visita dos pais de Armando tinha realmente lhe pesado nas costas. Além do mais o empecilho que representava seu pai não era dos menores, nem dos mais fáceis de transpor.

– Tem certeza de que quer isso, Armando?

Armando acariciou o rosto dela, seu olhar pesou nele também:

– Na verdade, mi amor, só queria passar um tempo sozinho contigo fazendo o que for...

Nesse momento Seu Hermes abriu a porta e Armando dá um pulo pra trás.

– Olá, Dr Mendoza — o pai de Betty o cumprimentou.

– Olá, Seu Hermes, podemos ir?

– Ah, sim, sim, vamos.

Saíram os três se despedindo, ao longo do caminho, dos funcionários que ainda estavam na empresa.

Armando não sabia de onde surgia aquela tranca na sua garganta sempre que se deparava com Seu Hermes. Fez o trajeto calado, ensaiando as palavras certas como se não pudesse errar em um discurso muito importante. E tudo isso para o simples fato de chamar Betty para sair. Como era complicado esse namoro, que cruz! Por outro lado, sem Betty, era simplesmente impensável pensar.

Chegaram e foram carinhosamente recebidos por Dona Julia que os esperava com a mesa pronta para o jantar. Seu Hermes sentou-se a mesa, todavia Armando permaneceu de pé atrás de Betty segurando em seu ombro.

– O que foi? Pode sentar — Seu Hermes disse.

As palavras ferviam e evaporavam na cabeça de Armando:

– Sim... Não, não, obrigado, Seu Hermes. Na verdade eu gostaria de pedir uma coisa ao senhor hoje.

– Está esperando o quê? Peça!

Armando sorriu totalmente sem graça. Respirou fundo:

– Na verdade eu gostaria de pedir permissão para levar Betty a... —Armando apertou de leve o ombro de Betty como que pedindo ajuda.

– Ao cinema! — ela completou a frase.

– Isso. É coisa rápida, a gente volta cedo, não precisa se preocupar...

A tranquilidade do semblante de Seu Hermes foi se contraindo em rugas graves de expressão. Ele olhou Armando de esguelha, um olhar agudo de desconfiança:

– E o que te faz pensar que já pode ir tirando minha filha de casa a essa hora da noite?

Armando escorregou dentro de si e caiu de costas. Levantou-se tonto:

– Bom, Seu Hermes, eu acho que já dei provas do meu caráter e das minhas intenções para com sua filha... Além do mais é um programa rápido e voltaremos cedo.

Dona Julia se interpôs:

– Ai, Hermes, é só um cinema... Meu Deus, homem!

Seu Hermes coçou o queixo:

– Eu sei, mulher, eu sei! Mas o diabo é porco e certas coisas não necessitam muito tempo... Eu sei do que estou falando.

Betty franziu as sobrancelhas. Armando riu por dentro. Definitivamente, Seu Hermes não foi um santo na juventude.

– Papai, eu pediria que o senhor confiasse, se não em mim, na educação que me deu.

Seu Hermes coçou o queixo mais uma vez:

– Hum... Não.

Armando esperou que ele continuasse a falar, que tentasse justificar, mas Seu Hermes permaneceu calado.

– Mas, papai!

– Veja: — Seu Hermes finalmente disse — eu tenho que admitir, doutor Mendoza, que o senhor tem se comportado muito bem com Betty na minha frente... Mas, eu já fui jovem e sei que na frente dos pais é uma coisa...

– Seu Hermes... — Armando tentou argumentar.

– Não, não precisa falar nada... — Seu hermes o interrompeu. — Certas coisas mudam com o tempo, mas certas coisas não mudam. Os instintos humanos não mudam. Por quê?

Porque o diabo é porco... — pensou Armando com desdém.

– Porque o diabo é porco... — Seu Hermes disse. — É uma coisa que eu canso de dizer.

A campainha nesse momento tocou:

– Julia,vai atender a porta... Então, eu mesmo acompanharia vocês dois ao cinema, porque é uma coisa que um pai decente faria, mas trouxe trabalho pra casa e isso tem que estar pronto até amanhã. Ainda mais porque Seu Roberto está na cidade e pode querer conferir esses fechamentos a qualquer hora.

Nicolas entrou cumprimentando Betty e Armando.

– Veio jantar, Nicolas? — Seu Hermes já sabia das visitas na "hora certa" de Nicolas.

– Não, Seu Hermes, vim só ver como vocês estavam — Nicolas disse.

– Mas vai ficar pra jantar, não, é, meu filho? — Dona Julia convidou.

– Se a senhora insiste... Já posso comer agora? — Nicolas terminou revelando o real motivo de sua visita.

Armando acompanhava a cena de sobrancelhas erguidas no mais profundo estranhamento... Mantinha uma esperança de que o despertador tocaria a qualquer minuto e ele acordaria para mais um dia de trabalho.

– Então sua resposta final é "não" , papai? — Betty voltou no assunto principal. — Não vai considerar que somos duas pessoas adultas e responsáveis? Não há mesmo o que fazer para que nos permita ir?

Seu Hermes olhou em volta e se deparou com a figura desajeitada de Nicolas no sofá, de olho na comida. Sorriu. Aquelas visitas na hora das refeições o irritava e seria uma vingança, ao mesmo tempo em que poderia ter os olhos em cima dos dois sem estar presente:

– Bom, pensando melhor... Há uma forma de eu permitir que saiam.

– E qual seria? — Betty pensou que por um momento, o pai estivesse lúcido.

– Se Nicolas for junto.

Armando esfregou os olhos. Não poderia ter se esquecido de programar a TV pra despertá-lo. Para Betty, essa saída, dos males, fora o menor. Nicolas era seu amigo. Nicolas olhou para os dois lados, sem entender.

– Hein? — foi tudo o que Nicolas disse.

– Nicolas, hoje eu quero que você acompanhe Betty e Armando ao cinema — Seu Hermes propôs.

– Mas, Seu Hermes, eu vou de vela? — Nicolas perguntou.

– Não, você vai como amigo do casal — Seu Hermes respondeu.

– Dá na mesma. Não tem nem uma companhia pra mim? — Nicolas perguntou.

– Tem, Nicolas: Deus. Você vai com uma missão, certo? Então a melhor companhia é Deus — Seu Hermes falou.

Nicolas se mexeu no sofá olhando para Betty e Armando. Este se mantinha de cabeça baixa esfregando os olhos e Betty, vendo-o daquela forma, se sentia a pessoa mais estúpida do mundo. Mas ainda assim pedia com um gesto de cabeça para que Nicolas aceitasse, porque realmente era o único modo de sair com Armando. Pelo menos por enquanto.

– Eu vou, né? — Nicolas aceitou.

– Certo, então podem ir, mas até meia-noite quero Betty em casa. E olha que estou sendo bonzinho.

Betty pegou Armando pela mão e saiu arrastando-o para fora de casa. Nicolas foi atrás dos dois. Armando saiu sem proferir nenhuma palavra: por que o despertador não tocava?

Ainda do lado de fora ele seguia sem acreditar no que estava vivendo. A situação era absurda demais para ser real. Perdido em sua perplexidade escutou Betty dizer a Nicolas:

– Obrigada, Nicolas! Se não fosse por você, meu pai não deixaria a gente sair hoje.

– Não esquenta, Betty! Os amigos são pra essas coisas. Mas eu vou querer muita pipoca, alguns refrigerantes e uns chocolates, porque não pude jantar – Nicolas esfregou o estômago.

Betty caminhou até o carro, praticamente puxando Armando pelo braço. Este, como se fosse um robô, abriu a porta para que Betty entrasse, assinalando para Nicolas entrar no banco de trás, e sentou-se ao volante, no entanto, permaneceu parado.

– Vamos, mi amor? — Betty falou.

Armando começou a despertar do transe:

– Sim, vamos.

Ligou o carro mas antes de colocá-lo em movimento o desligou:

– Pra onde vamos?

– Para o cinema, mi amor! — Betty exclamou.

– Eu sei Betty, mas para qual cinema? Qual filme vamos ver?

– Eu não sei... Nem pensei nisso...Quais são os filmes em cartaz?

– Que tal se formos ver o Gladiador?

Armando olhou para ele com a expressão incrédula: O diabo ainda por cima quer escolher o filme! Mas depois recapitulou: De qualquer forma, tanto faz, afinal tudo o que eu quero é ficar com Betty por algum tempo longe dos olhos de Seu Hermes.

Betty, que tinha a mesma intenção que Armando, aceitou a sugestão de Nicolas e por fim eles se colocaram a caminho do cinema.

Ao chegarem, Armando estacionou o carro e foi abrir a porta para que Betty saísse. Nicolas saiu do carro e já foi se encaminhando para a fila dos ingressos, quando Armando o deteve segurando-o pelo braço:

– Nicolas, tome – e lhe deu algumas notas de dinheiro. – Isso é para que você compre suas pipocas, seus refrigerantes seus chocolates e o que mais quiser, mas preste atenção: sente-se bem longe de mim e de Betty, entendeu? Eu só quero ver sua cara de novo na saída.

Nicolas, espantado com a cara de Armando, pegou o dinheiro e tratou de sumir logo.

– Pode deixar, Armando, pode deixar!

– E nem uma palavra disso ao Seu Hermes!

– Não se preocupe, eu sou um túmulo! – Nicolas fez sinais de que manteria a boca fechada.

Betty, que assistiu a cena toda, divertida, se aproximou de Armando, rindo:

Mi amor, não precisava assustá-lo assim... Lembre-se de que nós só estamos aqui por causa da ajuda dele.

– Está bem, Betty. Depois eu peço desculpas. Agora vamos que eu quero pegar um lugar especial – disse com um ar malicioso.

Já dentro do cinema, Armando escolheu a última fileira, no lado que tinha menos gente e próximo à parede. Deu uma geral e viu com satisfação que Nicolas estava sentado na terceira fileira, bem longe deles, com uma grande bolsa de pipoca em seu colo. Nesse momento a sala escureceu e começaram a passar os trailers.

Armando agradeceu a Deus o fato de o cinema não estar cheio naquela noite e, principalmente, o fato de não haver ninguém próximo ao lugar que ele escolheu. Ele relaxou e passa o braço pelos ombros de Betty:

– Afinal não foi má ideia vir ao cinema, mi amor – sussurrou no ouvido dela. – Assim podemos ficar bem juntinhos por 2 horas e longe do seu pai.

Em seguida se dedicou a depositar leves beijos em seu pescoço e em sua orelha. Betty compreendeu que ele não ia deixá-la assistir o filme e fechou os olhos para saborear o momento. Armando começou então a dar pequenas mordidas em lugar dos beijos e a passar a língua por onde mordia, enquanto, com a voz rouca e a respiração já entrecortada, continuou sussurrando:

– Sinto tanto sua falta, Betty...Te quero tanto...

Segura o rosto dela com a mão e buscou seus lábios para um beijo sedento, como havia muito tempo eles não se davam. A mão deslizou de seu rosto e começa a percorrer o braço de Betty, depois sua cintura e quando chega aos seus seios ela se assustou. Apesar de sentir a pele queimando, ela se lembrou de onde estavam e o afastou um pouco olhando em volta:

– Armando, mi vida, estamos no cinema.

Armando também olha em volta e percebe que ninguém está prestando atenção neles. As pessoas mais próximas são um casal de namorados que também não parecem muito interessados no filme e o restante mantém os olhos fixos na tela:

– Ninguém está olhando pra nós, Betty.

E continua a beijá-la e a explorar seu corpo, descendo a mão para suas coxas.

E assim o tempo foi passando, o filme foi passando e Armando não desgrudou nenhum momento de Betty. Pelo contrário, se tornou cada vez mais atrevido, enfiando uma mão por baixo da blusa dela, acariciando seus seios por cima do sutiã. Betty não tinha mais vontade própria, sentiu medo que pudesse, descobri-los, mas não era capaz de afastá-lo de si. Quando ela não acreditava que Armando se atreveria a mais, ele afastou suas pernas e acariciou sua coxa por baixo da saia. Armando, entre um beijo e outro, continuou sussurrando coisas em seu ouvido e perguntando se Betty estava gostando. Como se tivesse vida própria, Betty viu sua mão acariciando o corpo de Armando, os ombros fortes, o peito, chegando à cintura, passando para as coxas. Ele então pegou sua mão e a colocou sobre seu sexo dizendo:

– Está sentindo, mi amor? Vê o que você faz comigo?

Betty sente seu rosto queimar, assim como outras partes de seu corpo...
Sem acreditar no que estava fazendo ela começou a mover a mão suavemente e ouviu os gemidos abafados de Armando que estava com o rosto escondido em seu pescoço:

– Isso é uma tortura, Betty!

Assustada, ela quis retirar a mão. Armando, todavia, não permitiu:

– Uma doce tortura, mi vida. Continua.

Betty o acariciou e ele mergulha novamente o rosto entre seus cabelos. Mordiscou de leve sua orelha:

– Te amo, Betty, te amo... Não sei mais o que eu faço porque não tem mais espaço em mim pra guardar isso.

Betty buscou seus lábios e afogou-o com um beijo, ao mesmo tempo em que intensificou suas carícias. Passou a língua pela orelha dele:

– Você disse exatamente o que eu sinto.

Entre carícias e palavras de amor, o filme terminou e as luzes se acenderam, fazendo com que os dois se separassem em um pulo.

O desejo contido chegava a doer em Armando, mas ele sabia que não adiantava fazer nada senão respirar fundo e esperar que voltasse ao normal logo. Permaneceu sentado ao lado de Betty, que o cobriu com o próprio corpo, esperando que os demais saíssem da sala.

Nicolas logo alcançou os dois:

– Muito bom esse filme! Vamos?

Armando pediu mais uns dois minutos e Nicolas se sentou na cadeira da fila da frente, esperando o fim dos créditos. Assim que a tela se apagou, Armando e Betty se levantaram e saíram silenciosos, mas de mãos dadas, cúmplices, acompanhados por Nicolas que ainda comia uns chocolates.

Chegaram a casa e Seu Hermes estava na sala, esperando-os. Examinou bem a fisionomia de todos, querendo encontrar algum vestígio de algo errado:

– Gostaram do filme? – Seu Hermes perguntou num tom tão agudo como seu olhar.

Nicolas se interpõe:

– Excelente filme, Seu Hermes! Excelente! Não é, pessoal?

Os dois olharam-se e olharam para Nicolas, pegos de surpresa:

– Sim, muito bom, valeu a pena – ambos disseram de maneira atrapalhada, se olhando, querendo convencer a Seu Hermes.

– Eu gostei mais da cena da primeira batalha, muito intensa, e vocês dois? — Nicolas estava se divertindo à custa dos dois.

Armando fuzilou Nicolas com o olhar, uma vez que este sabia que os dois não viram filme nenhum.

– Ah, eu gostei de ver o Coliseu, todo estruturado... – Betty disse. Essa era primeira cena do filme, tudo de que ela se lembrava.

– E eu gostei do final, é... – Armando disse, afinal, todo mundo sempre gosta de final de filmes mesmo.

Nicolas fingiu uma cara de surpresa:

– Nossa, mas no fim ele morre, como você pode ter gostado disso?...

Armando se mexeu de forma desengonçada. Essa era nova:

– Ele morre, é... – isso era mais uma pergunta que não podia ser feita, do que uma reflexão –. Mas, por isso mesmo que gostei, nunca tinha visto um filme em que o personagem principal morria no fim do filme.

– E o amor dele pela esposa, hein...? — Nicolas queria continuar o assunto.

– Mas ele não morre? — Betty perguntou.

– É, mas quando ele morre, ele encontra a mulher dele.

Nicolas tinha que se controlar para não rir. Realmente era muito engraçado ver o casal se embaraçar para responder àquelas perguntas tão simples. Sabia que seria decapitado no dia seguinte, motivo que o fazia se aproveitar mais da situação.

Seu Hermes olhava os dois, cada vez mais impaciente. Eles viram ou não o tal filme?

– E esse é o final — disse Armando.

– É o final — confirmou Nicolas.

– Então, Betty, foi aquela hora em que você saiu para ir ao banheiro — Armando tentou justificar a pergunta de Betty.

– Ah, é mesmo! É mesmo! Perdi o final do filme, que coisa...

– Mas depois a gente vê de novo... É um filme pra se ver mais de uma vez — Armando disse.

– Com certeza.

– E aquela parte em que... — Nicolas começou dizendo, querendo continuar a brincadeira.

Armando cerrou as vistas, prestes a responder Nicolas com algo absurdo, mas Betty se interpôs antes:

– Nicolas, está muito boa nossa discussão – Ela olhou o relógio –, mas está tarde e eu preciso acordar cedo amanhã...

– É verdade, é verdade... Todos precisamos — Seu Hermes concordou.

– Então é melhor eu ir mesmo... Amanhã a gente se encontra mais pra discutir o filme... Boa noite, Seu Hermes. O senhor também tem que ir ver o filme, muito bom — Nicolas saiu rindo...

– Eu vou subir, então. Boa noite pra vocês dois — Seu Hermes se despediu.

– Eu também estou indo. Boa noite, Seu Hermes — Armando disse.

– Eu te acompanho até a porta — Betty falou.

– Não demore, Betty — Seu Hermes avisou.

– Pode deixar, papai.

Betty e Armando saíram e, assim que fecharam a porta, ele a abraçou forte e se beijaram sem pressa entre sorrisos de alívio por terem saído ilesos de tudo.

– Vou acabar morrendo com isso, a gente precisa se encontrar a sós, mi amor... Mas hoje, foi ótimo... Apesar de eu estar com vontade de esganar o Nicolas — Armando confessou.

Betty beijou-o no rosto:

– Mas Nicolas se comportou bem. E graças a ele saímos.

– Ta, ta, ta.

Beijaram-se. Armando foi encostando Betty na parede e encostando-se nela, querendo que as roupas de ambos entrassem em combustão e a pele deles pudessem se tocar e se derreter e construir um novo ser. O beijo dos dois foi se tornando mais intenso querendo dizer ao outro o que o corpo queria e as palavras não conseguiam. Ficaram assim, um tempo, um no outro, sem noção de nada, até que a luz do quarto de Seu Hermes acendeu e Armando se deu conta de que era um sinal para ele ir embora. Tudo nele doía mais uma vez:

– Tchau, mi amor, amanhã passo pra te buscar...

– Tchau...

– Vou sonhar com você a noite toda.

Betty sorriu:

– Eu também.

– Te amo. Muito!

Beijaram-se mais uma vez e ele foi embora.