Notas iniciais
Editado em: 28/04/2013

Cha cha Charlie", a música disparou no som e despertou Armando. Ela ainda tocou repetidas vezes enquanto ele se aprontava para buscar Betty, tocou repetidas vezes em sua mente no caminho para a casa dela e repetidas vezes no caminho para a Ecomoda... Duas semanas que passaram sorrindo para ele e Betty. Sentia seu Hermes cada vez mais próximo e menos desconfiado, as visitas estavam mais macias e se tornando um hábito saudável. A única coisa que trombava de ombros com ele era a necessidade de Betty em sua casa, em sua cama, sentir sua pele fundida na dele, sua respiração acariciando-lhe todo o corpo. Entretanto tinha de inventar a qualidade de ser paciente que nunca tivera.

Betty não pôde deixar de perceber os olhos dele cantando essa melodia de energia contagiante e colorida. Sorriu:

— Você me parece diferente hoje, mi amor.

Armando olhou para ela pelo retrovisor do carro:

— Diferente como?

— Parece mais... — ela mexeu nos óculos buscando as palavras — não sei explicar bem, como se a sua alma estivesse dançando...

Seu Hermes olhou Armando um tanto assustado:

— Doutor Mendoza, cuidado com esses estados de espírito... O diabo é porco, por isso tampa e destampa.

Armando sorriu. Simplesmente nada poderia estragar-lhe o bom humor.

Chegaram à empresa, ele se despediu de Betty com um selinho e esperou-a entrar para sua sala. Enquanto a olhava, viu umas modelos passarem por eles e Seu Hermes segui-las com o pescoço. Não pôde deixar de sorrir: Seu Hermes, Seu Hermes, o diabo é porco... Foi com esse pensamento que se virou topando com Inesita e quase derrubando-a:

— Meu Deus, Inesita! Me desculpe! — Armando não sabia se ria ou se ficava profundamente constrangido, as imagens do ocorrido se misturaram com a da visão de Seu Hermes olhando para as modelos.

Inesita olhou-o com as sobrancelhas erguidas. Armando pedindo desculpas... Em outra situação a mandaria olhar por onde andava.

— Tudo bem, meu filho, não se preocupe.

E um raio em um segundo cruzou a mente dele, cortando-a em camadas de ideias que lhe pareceram perfeitas. Segurou Inesita pelos ombros:

— Inesita! Você caiu do céu hoje! Preciso que me faça um favor!

— Sim... — ela disse sorrindo, tamanha a agitação do olhar dele.

— Em dez minutos chame Seu Hermes ao ateliê... E gaste mais dez minutos distraindo-o com as modelos. Certamente isso não vai incomodá-lo.

Inesita piscou os olhos, estranhando. Não conseguia ligar uma coisa à outra:

— Mas o que eu faço, Seu Armando? Seu Hermes não parece ser o tipo de homem que sai atrás de modelos.

Armando olhou na direção por onde Seu Hermes seguiu, sorrindo:

— Diga qualquer coisa, Inesita! Invente que duas delas brigaram e peça que as aconselhe...

— Mas, Doutor, não seria uma coisa muito correta...

O sorriso grudara nos lábios dele e teimava em ficar.

— Por favor, Inesita! Por mim!... E por Betty!

Inesita sorriu, como resistir àquela expressão?

— Está bem, está bem...

Armando deu-lhe um beijo na bochecha:

— Muitíssimo obrigado, Inesita! Muitíssimo obrigado!

E saiu em direção à sua sala cantarolando enquanto Inesita ia para o ateliê.

Aura Maria esticou o pescoço, esperando-o entrar. Em seguida virou-se pra Sandra:

— Hmm, Seu Armando hoje, hein... Será que ele e Betty...?

— Que jeito, Aura Maria?! Ele teria que pedir permissão para o Seu Hermes! — Sophia, que acompanhara a conversa, disse.

— Quem diria, Seu Armando... — Sandra falou.

— É... — Sophia concordou.

— Nossa, mas ele está tão animado... — Aura Maria estranhou.

— É, minha filha, mas cada pessoa tem um jeito de manifestar a própria loucura... — Sophia voltou a comentar.

As meninas assentiram e voltaram a trabalhar.

Assim como o planejado, dez minutos depois, Inesita apareceu, bateu à porta da sala de Betty, ligeiramente ansiosa:

— Licença, Betty, mas seu pai está na sala dele?

— Está, sim, Inesita. É alguma coisa grave? Você não me parece bem... – Betty disse, mostrando um lugar para que ela se sentasse.

Seu Hermes, que escutara seu nome ser mencionado, saiu de sua sala:

— Gostaria de falar comigo, D. Inesita?

— Sim, Seu Hermes, fico até sem graça, o que eu gostaria de pedir é até de ordem pessoal.

– Pois, sim?

— Duas modelos no ateliê, brigando por causa de modelito... Eu preciso de alguém com autoridade suficiente pra aconselhá-las...

Betty franziu as sobrancelhas. Nunca ouvira falar disso. E depois que Armando parara de escolher as namoradas pela vitrine da empresa, também nunca ouviu falar de brigas de nenhum tipo entre as modelos. Pareceu-lhe que as palavras faltavam à Inesita e Betty tinha medo de que ela pudesse não estar contando as coisas como realmente eram.

— Nossa, Inesita, mas isso costuma ocorrer? — Betty perguntou.

— Muito raro, minha filha... — Inesita não sabia o que dizer.

Betty coçou a testa:

— Mas isso é falta de profissionalismo, acho que eu mesma vou falar com elas!

Inesita arregalou os olhos, era tudo o que não podia ocorrer, mas, para seu alívio, Seu Hermes se interpôs:

— Betty, como D. Inesita disse, é melhor alguém com autoridade falar sobre isso. Se ela acreditou que eu poderia fazê-lo, deve ser porque ela acha que eu sou uma pessoa de fibra. E são percebidos os valores nos quais acredito quando se vê você, Betty. Daí se pode perceber o que uma boa educação faz com uma pessoa.

Betty esboçou um sorriso. Tudo isso porque queria ir ver as modelos...

— Certo, papai, é melhor que você vá...

— Então, eu vou. Vamos, D. Inesita.

— Sim...

Inesita sorriu sugestivamente à Betty que pensou que ela sorria por seu pai. Voltou a sentar-se à sua mesa, rindo das desculpas de Seu Hermes.

Armando ficou o tempo todo à espreita, com a porta entreaberta, esperando o momento em que Seu Hermes sairia acompanhado de Inesita. Por incrível que parecesse, estava tranquilo, certo de que tudo daria certo. Assim que os dois viraram, ele abriu a porta vagarosamente, certificando-se de que eles não voltariam, e caminhou para a sala de Betty, entrando e fechando a porta atrás de si, cantarolando a música que dançava a manhã inteira na sua cabeça.

Betty olhou-o, voltando-se novamente para os papéis que estava lendo, e, no mesmo segundo, olhou-o de novo, se deparando com aquele sorriso malicioso e triunfante. De repente tudo ficou claro para ela. Levantou-se, indo na direção dele.

— Isso da Inesita foi ideia sua... — Ela sorriu. — Está ficando muito criativo, mi amor.

Armando sorriu e abraçou-a apertado, arriscando uns passos de dança com ela que o seguia desajeitadamente, sem entender o motivo daquela felicidade toda.

Mergulhou o rosto em seus cabelos e afogou-se em seu pescoço. Betty riu. Ele voltou-se para ela para contemplar-lhe a expressão:

— E olha que você nem escutou minhas ideias para o almoço. E nem os meus planos para a noite de hoje...

E silenciou os pensamentos dela com um beijo.

— Então vamos nos sentar ali no sofá e você me conta — Betty propôs.

Armando prendeu-a com os braços. Há muito que a palavra “sofá” deixara de lhe soar macia:

— De jeito nenhum, mi amor. Deixa o sofá para quando formos à sua casa. Agora eu quero mais é sentir você bem coladinha a mim. Vamos ali pra sala de reuniões que quando seu pai chegar eu saio pela outra porta.

Betty sorriu e se encaminharam para lá, de mãos dadas. Armando encostou-se na mesa e puxou ela para si, beijando-lhe o pescoço:

— Vamos almoçar juntos hoje, Betty, só nós dois, no meu apartamento...

— E em que você está pensando para enganar o meu pai?...

— Tenho tudo programado: você diz que vai almoçar com as meninas, diz que é um passeio de mulher — disse enquanto tirava o cabelo de Betty do ombro e o jogava para trás.

— Mas ele, no mínimo, vai querer me levar até o local, para se certificar de que realmente estarei lá.

— Sim, sim, sim. Você o deixa acompanhar vocês. Só faça com que ele não fique lá... Mas você vai, eu estarei no Correntazo esperando e, quando ele sair, te pego e a gente sai.

Betty sorriu, tudo de que realmente precisava era um tempo sozinha com Armando em um lugar tranquilo.

— Nossa, tinha me esquecido da sua criatividade...

— Mas, mi Betty, atualmente só uso minha capacidade intelectual contigo. Agora vem cá, quem mandou a senhorita sair do meu abraço?

— Bom mesmo que você só a use comigo — disse se aninhando ao peito dele.

Beijaram-se. Armando deslizou as mãos pelo corpo dela apertando-a contra si. Betty passava as mãos pelas costas dele, o desejo também correndo por suas veias. Ele acariciou os seios dela sobre a blusa e nenhum dos dois eram mais donos dos próprios impulsos. Nesse momento ouviu-se alguém mexendo na porta trancada e a realidade estapeou a face dos dois, acordando-os daquela embriaguez.

— Ai, meu Deus, é meu pai!

Deram-se um último beijo e Armando saiu apressado, enquanto Betty se recompunha rapidamente para abrir a porta. Assim que Seu Hermes deu o primeiro passo para dentro, Armando saiu da sala, fechando a porta cuidadosamente.

Seu Hermes voltou do ateliê com a missão cumprida. Falou de como se portam as verdadeiras damas diante de uma adversidade, e tinha certeza de que elas seriam outras mulheres daquele momento em diante. Falara com eloquência e autoridade. Sentiu-se satisfeito em ter o olhar de tantas mulheres belas direcionados para si, assim como suas mentes abertas para o conhecimento que ele tinha a oferecer.

Afastou as portas da presidência, mas elas permaneceram no mesmo lugar. Afastou com mais força e nada. Começou a tentar abri-la nervosamente, como se não pudesse acreditar que não estava conseguindo.

Betty correu e abriu-a, lívida.

— O que é isso, Betty?! Essa porta trancada?! — Seu hermes estava ligeiramente vermelho de raiva.

— Desculpa, papai, devo ter trancado sem querer... — disse virando o rosto e sentando a sua mesa calmamente, quase implorando para seu coração parar de palpitar.

Mas Seu Hermes não escutou a filha, estava olhando atrás das portas, debaixo da mesa...

Viu a porta da sala de reuniões fechada:

— Betty, Betty, cansei de dizer que o diabo é porco, você tem que me ouvir.

Abriu a porta, mas a sala estava vazia.

— Eu sei disso, papai, mas não estou entendendo. Quero mesmo é que o senhor me conte o que houve com as modelos, se será necessário eu tomar alguma providencia – controlava de forma sobre-humana o timbre de sua voz de modo que ele não vacilasse.

Mas Seu Hermes estava sentado à mesa da filha com o telefone na mão:

— Sandra, o Dr. Mendoza se encontra em sua sala?

Armando estava correndo para sua sala quando Sandra atendeu o telefone.

— O Dr Mendoza, Seu Hermes? – a secretária disse, olhando para Armando.

Armando fez um gesto para que ela lhe transferisse ele e correu para sua sala. Sandra continuou:

— Está, sim, vou passar pra ele... Ah, não precisa, não? Ok, então... Siiim, ele já está há bastante tempo aqui... Tem certeza de que não quer que eu passe pra ele?... O senhor que sabe... Então tá...

Sandra desligou o telefone e olhou para as meninas:

— Ai, pobre Betty com esse pai dela. Acredita que ele me ligou pra saber se o Seu Armando estava aqui na sala dele pra ver se ele estava ou não com Betty?

— Mas que ele estava com a Betty, ele estava, a gente viu o homem sair de lá que nem um tiro, né? — Sophia comentou.

— E entrar que nem um tiro também. O que será que eles estavam fazendo lá dentro? — Aura Maria era pura malícia.

— Muita coisa é que não deu pra fazer, nesse tempinho... — Sandra concluiu.

O telefone de Sandra tocou. Era Armando querendo saber o que foi feito da ligação de Seu Hermes. Sandra disse que não era nada de mais e Armando soube que ele estava mesmo querendo checar se ele esteve na presidência. Respirou fundo. Calculara mal o tempo em que deveria ter ficado lá. Pensou se isso não teria uma consequência grave para Betty, não poderia colocar tudo a perder a essa altura, com tudo dando certo entre eles.


****



Betty olhou o pai seriamente. Depois da cena que ele fizera, tinha todo o direito de ficar chateada:


— Papai, eu peço desculpas de verdade por ter trancado a sala, mas te falei que foi sem querer. Foi vergonhoso para mim isso que o senhor fez: checar com a Sandra se o Armando estava na sala dele... Eu não tenho mais 15 anos, papai... Desde quando revelamos tudo para o senhor, tanto eu quanto Armando estamos nos portando muito bem, você me conhece, pai, para que ficar fazendo isso?

— Betty, eu posso até conhecer você, mas também conheço muito bem a fama desse doutor Mendoza ...

— Pois, então, espero que depois de checar, tenha ficado claro que ele não esteve aqui.

— Hmm... Sim... Mas, se esteve, foi muito veloz...

— É porque não esteve... Mas chega de falar disso, vamos voltar ao trabalho. Quero saber se devo demitir as modelos que brigaram.

Seu Hermes arregalou os olhos, como que transportando para uma outra dimensão, não muito enquadrada nos moldes tradicionais...

— Não, filha, claro que não! Foi uma briguinha de nada, a Inesita exagerou. Conversei com elas e resolvi tudo, pode ficar tranquila. Agora eu vou pra minha sala. E, da próxima vez que eu sair, quero essa porta aberta. Nem trancada nem fechada: aberta!

Betty suspirou:

— Sim, papai, aberta... Vou ali falar com Nicolas e já volto.

— Certo.

Betty saiu, mas parou em frente à mesa de Aura Maria.

— Betty, seu pai pegou vocês? — Aura Maria perguntou, preocupada.

— Não, Aura Maria, mas quase... Essa situação está ficando insustentável, meu Deus...

— Mas você e o Seu Armando têm se encontrado em off por aí, né? — Aura Maria voltou a perguntar.

Betty sorriu do comentário da amiga e não pôde deixar de pensar no tempo em que não fazia amor com Armando. Sentiu saudade do gosto da pele dele. Disse:

— Aura Maria, daqui uma meia hora, uma hora, mais ou menos, chama as outras meninas e vai ate a minha sala me convidar pra almoçar, diz que é uma reunião de mulheres, qualquer coisa...

Aura Maria sorriu maliciosamente:

— Humm, estou entendendo, Betty, pode deixar que a gente te leva pra almoçar hoje, nem que seja a ultima coisa que fazemos!

— Obrigada. Se meu pai me procurar, estou na sala do Nicolas, ok?

— Ok.

Betty entrou na sala do amigo e desmontou-se na cadeira.

— E aí, Betty? — Nicolas a cumprimentou.

— E aí, Nicolas? Pode continuar com seu trabalho, só vim aqui porque disse ao meu pai que viria aqui.

— Ah, tudo bem. Fique à vontade. Mas você não me parece bem, o que houve?

— Hoje meu pai quase que me pega com Armando na minha sala. E eu me vi simplesmente no meio de um cruzamento. Se obedeço ao meu pai e só me encontro com Armando lá em casa, magoo o Armando, e se agrado ao Armando e me encontro com ele às escondidas, acabo mentindo para o meu pai, coisa que eu detesto...

— É... Muito complicado, muuuito complicado...

— É... Porque eu amo o Armando, preciso dele e tudo o mais, mas também preciso da aprovação do meu pai — suspirou. — Preciso de um favor seu.

— Não sendo dinheiro emprestado — ele disse, rindo — pode falar.

Betty balança a cabeça em negativa, sorrindo:

— Pode ficar tranquilo, não vai te custar muito, não. Depois de uns vinte minutos que meu pai estiver fora na hora do almoço, ligue e faça-o voltar a qualquer custo, não importa o que.

— Hum... E será que ele vem mesmo?

— Claro, ele te considera como um filho. Além do mais, você o conhece, sabe as palavras exatas para persuadi-lo.

— Sei não, mas vou tentar.

— Você não vai tentar, Nicolas, você vai ter que conseguir.

— E o que eu ganho em troca?

Betty olhou-o de soslaio:

— E desde quando o senhor anda ficando tão interesseiro?

— É brincadeira, Betty, brincadeira, pode deixar comigo.

— Então, me deixa voltar para a minha sala. Obrigada, Nicolas, de verdade.

— De nada, Betty, estamos aí pra isso.

Betty voltou para sua sala, para seus papéis e para o vazio que sentia. Aura Maria entrou pouco depois, entregando a Betty um bilhete e fazendo um gesto com a cabeça mostrando que ele veio da vice-presidência. Seu Hermes, em sua sala, não percebera nada.Betty pediu para que Aura Maria esperasse e o abriu. Leu o bilhete:

— (Mi amor, me desculpa. Seu pai ficou muito desconfiado? Não quis ir aí pra não levantar suspeitas. Nosso plano para o almoço está de pé. Um beijo, mi vida, que espero dar pessoalmente a sós. Do seu, Armando.)

Betty sorriu e escreveu sua resposta sob o olhar curioso de Aura Maria que permanecia com o pescoço esticado.

— (Meu pai realmente ficou chateado, mas sinto que ele não quer acreditar que você esteve aqui, então contentou-se com a resposta que eu dei. O plano para o almoço está de pé e aguardo esse beijo ansiosa. Te amo. Betty)

Dobrou o papel e entregou a Aura Maria que saiu. Encostou-se na cadeira. Estava ansiosa, mas essa adrenalina que lhe contraía os músculos era agradável. Queria muito estar com Armando. Olhou em direção à sala do pai e suspirou: Ai, pai, porque o senhor não é como todo mundo?

Chegada a hora do almoço, tudo estava combinado. As meninas haviam falado com Betty e Seu Hermes havia dado permissão, desde que pudesse levá-la. O plano B já fora bolado e Armando estava para sair, um pouco mais cedo para esconder-se, quando Mariana ligou para sua sala e anunciou a chegada de Margarida e Roberto Mendoza. A oxigenação no cérebro de Armando falhou por um segundo. Ele deitou a cabeça na mesa:

— Que cruz, meu Deus, que cruz!

Pegou o telefone e ligou para Aura Maria que transferiu a ligação para Betty.

— Diga, mi amor — Betty atendeu.

— Betty, mudança de planos.

— Como assim? O que houve?

— Meus pais chegaram e estão subindo.

O sangue de Betty parou de circular por um momento fazendo com que ela perdesse o instante:

— Como?

Nesse momento os dois entraram na sala de Armando.

— Eles acabaram de entrar na minha sala – Armando escondia seus planos debaixo do tapete, exatamente o mesmo onde seus pais pisavam.

— Viemos te chamar pra almoçar — Margarida cochichou.

— Acabaram de me chamar para almoçar, você vem conosco? — Armando disse fazendo um gesto para que os dois se sentassem.

Em verdade, Betty perguntara “como” se referindo a alusão que Armando fizera a pais. Roberto e Margarida na Ecomoda, ela não podia acreditar... Era a primeira vez que o casal os visitava depois que ela e Armando se reconciliaram. Sentiu um gosto retorcido na boca e as imagens que vinham em sua mente eram ásperas como a culpa que a incomodava e quentes como a vergonha que sentia por tudo... Não era de seu amor por Armando, disso ela nunca teve vergonha, mas de todas as situações a que se submeteu para vivê-lo. Sentiu-se feia e opaca como sempre fora, como se uma chuva de verdade caísse por sobre sua cabeça e começasse a borrar toda a pintura que ela fizera tão cuidadosa. Queria chorar. Queria sumir. Queria ser digna da benção dos pais de Armando. Queria ser livre. De culpa. De incômodo. De insegurança...

Não tinha estrutura para ver Roberto e Margarida.

— Não, mi amor. — ela respondeu. — Ainda não me sinto pronta para encará-los... Ai, não sei... Mas hoje, não, preciso me preparar...

— Ah, o que é isso, meu anjo! Não vai ser nada comparado ao que eu passei – ele, sentindo o peso daquelas palavras, tentou brincar.

Betty sorriu tristemente gelando o telefone:

— A gente combina isso depois. Vocês devem ter muito que conversar e eu prefiro deixar vocês á sós, ok?

— Você que sabe...

— Fica assim, então. Um beijo, mi amor, bom apetite.

— Um beijo, mi Betty, te amo.

Desligaram. Armando ficou olhando o telefone: se sentia mal, responsável por aquele estado de espírito dela... E não havia nada que pudesse convencê-lo do contrário.

Dona Margarida não conseguia esconder o constrangimento que sentia ao ouvir Armando dizer aquelas palavras. E ele conversava com uma ternura que ela não tinha ideia de que o filho era capaz de sentir. Por que não com Marcela? Essa pergunta era um raio a estalar e partir o quadro do futuro que ela desenhara tão carinhosamente.

Armando recuperou seu lugar na realidade e cumprimentou os dois com um abraço:

— Deveriam ter me comunicado que chegavam hoje, eu os teria buscado no aeroporto.

— É que decidimos de ultima hora, meu filho, mas... Se estivermos atrapalhando alguma coisa, podemos marcar esse almoço para um outro dia — Margarida disse, uma pontada de chantagem emocional.

Já que tinha que ser, que fosse logo, Armando pensou.

— Mas é claro que não, mamãe! Vocês absolutamente nunca atrapalham! Além do mais, é um prazer muito grande recebê-los. E os senhores apareceram em um momento muito oportuno. Há muitas coisas que preciso falar com vocês...

Margarida sentiu um arrepio na espinha. Sentia exatamente o que era. Sentia que não queria sentir. Ainda assim, toda suspeita do mundo era muito mais leve que um grama de certeza.

— Alguma coisa grave? — Roberto perguntou.

— Não, papai, não se preocupe. Somente coisas boas! — Armando respondeu.

Roberto se sentia satisfeito com o amadurecimento do filho. Se havia mudado por Betty, então ela o merecia. E ponto final.

— Percebo mesmo que seu semblante está muito melhor — Roberto observou.

Armando assentiu, sorrindo:

— Então, vamos?

Os dois acenaram afirmativamente e saíram.

Chegaram ao Le Noir e se acomodaram. Armando mirou os pais nervosamente, sem saber exatamente o que o esperava. Ele percebia que seus pais já sabiam de seu relacionamento com Betty. Sua mãe ainda estava em Bogotá quando eles finalmente se reconciliaram. De início, ela parecia haver aceitado esse relacionamento, visto que já havia se conformado com o fato de que seu grande sonho – ver ele e Marcela casados – não se realizaria. E após ver todo o sofrimento de seu filho quando Betty o abandonou, após a fatídica junta, ela estava decidida a colocar como prioridade a felicidade de seu filho e, principalmente, a não cometer outro erro como o que cometera com Camila; ainda que para isso tivesse que engolir seu orgulho e aceitar uma “nora” de origem humilde, que não pertencia ao Jet Set colombiano.

– E como foi a viagem? — Se Armando não falasse qualquer coisa, provavelmente morreria sufocado em expectativas.

– Bem, meu filho. Um pouco cansativa... Você sabe que já não temos idade para ficar de avião em avião por aí, cruzando o atlântico — Margarida disse.

– O que é isso mamãe, a senhora ainda é muito jovem. Aposto que ainda dá trabalho para meu pai, han? Com certeza ainda atrai muitos olhares masculinos...

– Deixe de bobeiras, menino! — Margarida disse, entre um sorriso.

— Mas sou obrigado a admitir que de vez em quando eu percebo mesmo alguns olhares de terceiros para sua mãe... — Roberto brincou.

Os três riram.

— Vocês dois me respeitem, por favor — Margarida não parara de sorri, lisonjeada.

— E como vai a empresa, Armando? — Roberto perguntou.

Armando não pôde deixar de esboçar um sorriso... Encostou-se na cadeira, relaxado:

— Não poderia estar em melhores mãos. Beatriz tem feito um trabalho excelente! Do jeito que estamos, muito em breve sairemos do embargo e levantaremos a empresa.

A pele da face de Armando brilhava enquanto ele falava de Betty:

— Eu nem seria capaz de falar tudo o que ela vem fazendo... Tem um cuidado quase maternal... — ficou em silencio, um segundo, como que refletindo sobre o que dissera. — Cuidado esse que eu deveria ter tido, mas...

Seu Roberto mexeu na cadeira e pôs a mão no ombro de Armando:

— Não falaremos mais disso, Armando. O que passou, passou, você bem sabe... Temos que agradecer a Deus por estarmos de pé, e é isso...

— Sim... — ele respondeu ao pai. — E agradecer à Betty.

— E você e ela? Estão bem? — Margarida perguntou com medo de pronunciar as palavras, como se pertencessem a um feitiço poderoso capaz de transformar a sua realidade.

— Sim, muito bem! Apesar de que meu relacionamento com Betty é radicalmente diferente dos outros que eu já tive.

— O que você quer dizer com isso, Armando? — Roberto estava curioso.

— Ah, pai, se eu te contasse tudo na íntegra o senhor não acreditaria... Mas fique satisfeito em saber que seu filho se tornou um homem exemplar, daqueles que pedem permissão ao pai da namorada para se encontrar com ela e toma um chá de cadeira nas visitas.

Seu Roberto sorriu:

— Eu até pagava pra ver isso... O pai a mantém nas rédeas curtas, han?

— Mas, meu filho, você não está acostumado a isso... Vale a pena? —Margarida tentava achar alguma esperança de que aquilo poderia não dar certo.

— Com toda certeza do mundo vale a pena... — Armando respondeu. — Se não for pra eu ficar com ela, não quero ficar com mais nenhuma outra...

Ela percebeu que seu filho nem hesitara em responder, como já hesitara tantas vezes e por coisas muito menores. Era dolorido demais ouvir aquilo, mas, paradoxalmente, agradeceu a Deus por ter colocado alguém capaz de trazer o verdadeiro Armando à tona.

Os pratos foram servidos e eles almoçaram em silencio.

Notas finais
Cha cha charlie é uma canção parte do filme Baila Comigo, lançado em 2005. Eu queria ter colocado o link, mas não achei em lugar nenhum. Me comprometo a continuar buscando, até lá, paciência >.<.