Um Novo Final
24 Capítulo 24
Notas iniciais
Chegada a hora do almoço, Manuela foi com as meninas do quartel ao Correntazo, porque elas haviam lhe contado que Betty costumava almoçar lá com elas quando era assistente da presidência e também porque disseram que Mariana previra em suas cartas tudo o que havia acontecido com Betty. Manuela ficou curiosa e resolveu ir junto com elas para conhecer o lugar e saber mais da história. Também queria saber se os empregados sabiam do romance entre a presidente da Ecomoda e o vice.
Betty foi até a sala de Armando para convidá-lo a almoçar com ela:
– Olá, mi amor! – ela cumprimentou-o, sorrindo
– Olá! – Armando estranhou o fato de ela estar ali e haver se dirigido a ele daquela forma carinhosa – A repórter já foi embora?
– Foi almoçar com as meninas no Correntazo.
Armando respirou aliviado. Poderia se desvestir daquela tensão presente e ser o namorado de Betty outra vez:
– E como está indo o seu dia, doutora Pinzón? Está se saindo bem com a entrevista? – Ele se levantou e caminhou até ela, abraçando-a – Parecia que não fazia isso há uma vida.
– Muito bem! Estou me sentindo muito à vontade com Manuela.
– Sim, ela é muito simpática – ele concordou, fazendo carinhos em seu rosto.
– E muito esperta também! – ela riu, enigmática.
– É verdade? Por quê?
– Imagina que ela me perguntou se eu sabia que você estava apaixonado por mim... – Betty manteve o sorriso nos lábios enquanto prestava atenção na mudança do semblante dele.
Armando a soltou e deu um passo atrás. A sala começou a dar voltas em torno de si e ficava difícil manter o equilíbrio. Tentou rever a sua conversa com a jornalista, mas seus pensamentos rodaram junto com a sala e ele começou a se sentir enjoado. Demorou uns segundos a conseguir formular uma frase:
– E quem contou a ela? – ele perguntou, aturdido.
– Você mesmo, mi amor – Betty constatou, dando sua risada habitual, divertidíssima com a cara que Armando fez.
Seu queixo caiu involuntariamente. A sala naquele momento parecia um barco em alto-mar.
– Não, Betty! Eu não disse nada! Juro que não disse absolutamente nada! – ele estava cada vez mais confuso.
– Eu sei, Armando! Mas ela percebeu mesmo assim.
Betty não podia evitar o sorriso triunfante por saber que o amor dele por ela era tão grande que ele não conseguia esconder, mesmo tentando.
– Como assim?
– Parece, Dr Mendoza... – ela se aproximou dele e passou a mão pela gola do seu paletó – que o senhor não conseguiu esconder seus sentimentos ao falar da sua presidente...
Armando ficou arrasado. Ele havia se saído tão bem... Até se surpreendera com a própria sobriedade, com a sua frieza... Era um caso perdido...
Revisou outra vez a conversa com Manuela tentando descobrir em qual parte deixara seus sentimentos transparecerem.
– Mas... Mas eu... – não encontrou as palavras, ele realmente não sabia onde errara. Era simplesmente uma caixa Pandora aberta... – desculpe, Betty.
Ela sorriu da frustração dele. Tão lindinho ele se esforçando para mostrar sua relação estritamente profissional com ela e fracassando porque, tão somente, o amor que sentia escapava de seu coração quando ele abria a boca.
– Está tudo bem, Armando! Eu conversei com ela e expliquei a situação. Ela não vai publicar nada.
Armando contraiu o cenho:
– Você explicou a situação?
– Sim. Disse que estávamos juntos mas que ainda não podíamos tornar isso público.
E Betty havia confessado! Manuela poderia publicar aquilo e causar um escândalo. Sua respiração acelerou:
– E você acha que ela não vai publicar nada mesmo?
– Tenho certeza de que não. Foi uma conversa em off. Não se preocupe, mi amor. “Mulheres” não é uma revista de fofoca.
Armando encarou-a com os olhos vazios. Não parecia muito convencido disso:
– Eu sei, Betty. E também não me importa que o mundo inteiro saiba que estamos juntos e nos amamos, mas acho que não seria a melhor forma de contar à sua família e à minha...
– Não se preocupe com isso. Manuela não vai publicar nada. Não agora, pelo menos.
E Betty o segurou pela nuca buscando seus lábios para um beijo doce. Armando esqueceu seus temores e a abraçou apertando-a contra si, intensificando o beijo, tentando compensar a falta que ela lhe fizera toda a manhã.
– Eu vim aqui para convidá-lo a almoçar comigo – ela disse ainda com os lábios colados aos dele e com a respiração acelerada.
– Não podemos esquecer o almoço e ficar aqui assim juntinhos, aproveitando que não tem ninguém mais na empresa?
Betty se embriagou das carícias dele, e está prestes a dizer sim...
– Não, Armando! Não podemos! Sempre perdemos a noção do tempo... E Manuela vai voltar.
– Mas você disse que ela já sabe de tudo...
Betty riu e se soltou dele, imaginando a cena: Manuela chegando e pegando-os no flagra, num momento íntimo.
– Onde quer ir almoçar hoje, doutor?
– Onde você quiser, doutora – suspirando.
– Eu pensei em ir lá no restaurante do amigo da D. Catalina. Gostei de lá. É um lugar agradável.
Os olhos de Armando caíram no canto do rosto. Ele quase pediu pra ela repetir porque ficou louco e escutou uma coisa muito absurda.
– E não faça essa cara porque eu nem conheço o amigo da D. Catalina! – Betty exclamou.
Ele respira fundo, olhou pra cima... Que cruz...
– Esta bem, Betty! Vamos então. Tenho que admitir que o lugar é agradável mesmo.
****
Manuela adorara o almoço com as meninas do “quartel”. Usara seu treinamento de repórter para arrancar muitas coisas das amigas de Betty, o que não fora muito difícil, e descobrira muito mais coisas sobre Beatriz Pinzón Solano durante o almoço do que durante toda a manhã na empresa. Descobrira que a doutora Pinzón tinha muita história para contar. Havia um grande mistério que ela ainda não sabia qual era. E descobrira também que o relacionamento dela com o Dr Mendoza era, sim, do conhecimento de suas amigas do quartel, e que ele começara muito antes de Betty tornar-se presidente da empresa. Mas infelizmente esta era uma história para outra reportagem...
Ela estava com as secretárias ainda no corredor, acabando de chegar do almoço, quando Betty e Armando saíram do elevador. Também estavam acabando de chegar. Betty era só sorrisos enquanto Armando a olhou um tanto envergonhado.
– Como foi o almoço, Manuela? As meninas te trataram bem? – Betty perguntou.
– Foi ótimo, Betty! Elas são excelente companhia! E muito divertidas.
As meninas riram e concordaram, falando todas de uma vez.
– Sim. São mesmo! – Betty confirmou.
– Só estamos com saudade da companhia da doutora... – Aura Maria acabou confessando.
– É, você faz muita falta, Betty... – Sandra acompanhou a amiga.
– Eu também sinto muita falta de vocês. Mas a gente combina, eu e Armando...
Armando sorriu palidamente. Apesar de gostar muito das meninas, o ultimo lugar onde se imaginava era no Correntazo.
E então cada uma se encaminhou para seu posto, deixando Manuela sozinha com o casal. Ao vê-los juntos Manuela só confirmou que eles estavam realmente muito apaixonados e ela não entendeu como é que alguém poderia não perceber aquilo... Bem... Nem todos eram tão observadores quanto ela...
Betty disse para Armando que tinha muito trabalho a fazer e que ia para sua sala. Armando ficou para trás. Sentiu-se desconfortável, mas respirou fundo, tomou coragem e se dirigiu à Manuela, chamando-a para sua sala. Manuela assentiu tranquilamente e o acompanhou.
Chegando lá ele se sentou e lhe mostrou a cadeira para que ela se sentasse.
– Em que posso ajudá-lo, Dr Mendoza?
– Betty me contou da conversa que teve com você. Deixou-me preocupado...
– Dr, tudo o que Betty me disse ficará entre nós, eu simplesmente não estou autorizada a publicar nada contra a vontade de meus entrevistados, afinal, nossa meta é desenvolver um trabalho sério totalmente avesso a sensacionalismos.
O discurso objetivo e o tom de voz dela fizeram com que Armando respirasse aliviado, soprando seus medos para longe.
– Obrigado... – Faz-se silêncio uns segundos e ele apoiou a cabeça na mão – Até agora não posso crer que deixei tão à mostra meus sentimentos por Betty.
Manuela sorriu:
– Mas foi sutilmente, Dr Mendoza. E tenho minha parcela de culpa porque tenho mania de tentar compreender as intenções por detrás dos discursos. Não posso negar que seu comportamento me surpreendeu muito, nunca havia visto um homem falar tão bem e sem mágoas de uma mulher que tomou seu posto e por isso fiquei mais alerta ao que você dizia. E esse sentimento me encantou muito, ver vocês dois juntos foi como ter esperanças de que recortes da literatura podem mesmo saltar das letras e adquirir contornos – disse se levantando – , agora tenho que ir, meu expediente por aqui se acabou.
Estendeu a mão a ele e Armando apertou-a firmemente, aquelas palavras o tranquilizaram porque ele pôde perceber a sinceridade dela.
Manuela dirigiu-se ao escritório de Betty:
– Betty, eu vim me despedir. Já tenho material suficiente para a reportagem.
– Já? Mas eu pensei que você fosse ficar o dia inteiro – Betty estava se apegando à figura dela, como se fosse uma funcionária da empresa.
– Eu também... Mas não será preciso. Com o que tenho daria quase para escrever um livro a seu respeito.
– Hum... Já vi que as meninas andaram soltando a língua, não foi?
– Digamos que disseram algumas coisas interessantes. Mas não se preocupe. Esta reportagem será apenas sobre a presidente da Ecomoda e sua trajetória como executiva. Embora eu tenha certeza que você tem muito mais história para contar...
Betty percebeu que ela sabia muito mais do que falava. Era realmente uma excelente profissional, de uma ética admirável. Sorriu a Manuela como se fosse uma de suas amigas. Passara apenas uma manhã com ela, mas fora suficiente para ver em si uma pessoa que gostaria de ter em seu circulo de amizades.
– Bem, quero agradecer-lhe mais uma vez por ter aceitado o convite e por ter permitido que eu passasse este tempo aqui com vocês. Creia-me, foi uma experiência maravilhosa!
– E mais uma vez eu tenho que dizer que eu é que agradeço o convite. Fico muito honrada por terem pensado em mim.
– Até logo, Betty! – Manuela se despediu, estendo-lhe a mão – Antes de publicar a matéria eu lhe enviarei as fotos e o texto, como lhe prometi.
– Está bem, Manuela. Espero que faça isso pessoalmente. Foi um prazer. Até logo!
Manuela foi embora e a paz volta a reinar na Ecomoda.
Betty gostara da experiência, sentira-se segura, respondera tudo o mais simples e claramente possível, sem gaguejar, não se sentiu diminuída em frente à câmera de Manuela, coisa que era de praxe sentir perto de um fotógrafo. Agora iria esperar ansiosa pelo resultado daquele encontro.
Mal a repórter acabara de sair, chegou Seu Hermes. Havia colocado seu melhor terno e até se perfumado.
Entrou no escritório da filha.
– Olá, papai! Não sabia que o senhor viria à empresa hoje! – Na realidade ela estranhara o fato de ele não ter aparecido mais cedo.
– Bem ... – ele abriu bem os olhos – É que lembrei de umas coisinhas que tenho que terminar. – Olha para os lados, como procurando algo – Onde está a repórter, Betty?
Ela arrumou os óculos, começava a entender:
– Ela já foi, papai. Acabou de sair.
– Pensei que ela iria passar o dia inteiro aqui.... – ele suspirou, decepcionado.
– Sim. Era esse o plano original, mas ela disse que já tinha o material suficiente para a reportagem...
Seu Hermes cruzou os braços, coçou o queixo:
– E por que essa repórter não vai à sua casa, falar com sua família? Ver os seus diplomas?
Betty imaginou Seu Hermes mostrando os diplomas a Manuela, contando-lhe a história do Tio Lázaro e conteve o riso.
– É que a reportagem é sobre meu trabalho aqui na empresa, papai. Mas não se preocupe, ela me perguntou sobre a minha qualificação e eu lhe contei sobre todos os cursos que fiz.
Seu Hermes sacudiu a mão no ar:
– Ah! Muito bom! Muito bom!
Nesse momento Armando entrou no escritório:
– Mi a... – parou a frase no meio quando viu Seu Hermes.
Tudo aconteceu numa fração de segundo, mas para Armando a cena correu num slow-motion irritante, como se estivesse sonhando. Quanto mais avançava, mais ficava. Ele arqueou as sobrancelhas, respirou fundo, como que aspirando todas as palavras do ar, e continuou a frase de onde parou.
– Mi amiga Betty...
Betty viveu a cena na mesma velocidade. Escutou as palavras de Armando e seu pensamento gritou para que ele não continuasse, abanando as mãos avidamente. Fechou os olhos para sumir daquela situação. Quando ele terminou a frase, a ansiedade parou de forçar sua cabeça dentro do tonel de culpas previstas e ela pôde respirar.
Seu Hermes colocou a mão na cintura e focou a vista em Armando. Que absurdo foi aquilo que ele disse? Era inconcebível! E ele sabia que o diabo era porco!
– Como é que é? – Seu Hermes perguntou.
Armando se fez de desentendido:
– Perdão?
– Do que o senhor chamou a minha filha?
– De amiga, Seu Hermes, não é o que somos?
Seu Hermes ergueu uma sobrancelha achando aquilo muito esquisito:
– É assim que vocês chamam um ao outro dentro da empresa agora? – Cruzou os braços e colocou uma das mãos sob o queixo. Armando respirou fundo as palavras:
– Sim... Não... Quer dizer, foi um gracejo...Digo, uma brincadeira...
– Ah... E não se esqueça de uma coisa, mocinho, o diabo é porco, por isso tapa e destapa. Cuidado com seus gracejos, porque começa assim e só Deus sabe onde termina!
Armando tomou ar para falar, Seu Hermes o interrompeu:
– E minha filha, como o senhor já deve ter percebido, é uma moça de família, criada nos moldes tradicionais, para ser uma moça decente... Ai do senhor se esses gracejos começarem a ficar frequentes.
Armando sorriu da expressão de Seu Hermes e engoliu o sorriso fazendo uma cara ridícula de sério:
– Desculpa, Seu Hermes, não ocorrerá mais.
– Lembre-se de que o diabo é porco. Uma lição importante.
E foi entrando para sua sala, deixando o casal na presidência.
Armando acompanhou com os olhos a saída de Seu Hermes e ainda ficou alguns segundos olhando para a porta. Então se virou para Betty que o olhava ainda assustada. Ela se levantou e caminhou para a sala de reuniões, para poder conversar com Armando que a seguiu.
Os dois começam a rir se livrando do clima de chumbo de ambiente.
– Ufa! Essa foi por pouco! – Armando passou a mão pela testa.
– Sim... E você tem razão, Armando, precisamos conversar com ele. Meu pai precisa saber logo de tudo. Não é justo...
– Precisamos sim, Betty, e vamos fazê-lo logo. Mas hoje não, já chega todo o esforço que fiz para esconder tudo de Manuela e não adiantou nada...
– Ah, sim e você está mais calmo agora que falou com ela?
– Sim. Manuela me pareceu uma pessoa muito honesta. Creio que você tem razão, não há porque nos preocuparmos com isso.
– Sim, Manuela não será uma preocupação. Mas meu pai, sim. Estou me sentindo muito mal escondendo isso dele. Eu sei que fui eu quem quis que fosse assim, mas agora já não sei se fizemos o certo... E ainda tem seus pais...
Armando perdeu o desvio da conversa e ficou parado na estrada:
– O que tem meus pais, Betty?
– Armando, seus pais vão ficar muito decepcionados. Eles queriam muito que você se casasse com Dona Marcela.
Armando ergueu as sobrancelhas tentando não dar muita importância ao assunto, o que de fato, para ele, não tinha. Mas realçou para demonstrar isso a Betty:
– Betty, meus pais já sabem que meu relacionamento com Marcela se acabou. Já se conformaram com o fato de que eu não vou me casar com ela. E, pra falar a verdade, eles já devem imaginar que estamos juntos.
Betty sentiu seu rosto queimar como num tapa dado de surpresa:
– Como assim?
– Bem, minha mãe sabe de toda a história. Marcela contou-lhe. E ela acompanhou todo o meu sofrimento quando você se foi... E ela deve ter contado a meu pai... Tenho certeza que não vai ser uma surpresa para eles.
– Seus pais sabem de toda a história?
– Sim.
Betty sentiu o chão sobre os seus pés amolecer e engoli-la aos poucos numa espécie de tortura. Afogou-se em meio àquela terra e não conseguiu ver a mão de Armando para se agarrar a ela:
– Meu Deus! E o que não devem pensar de mim...
– Não, Beatriz! Se tem alguém nessa história que deve se sentir envergonhado sou eu. Fui eu que...
Betty o interrompeu. Ela o sentiu segurando-a e tirando-a daquele lamaçal. Também não o deixaria cair:
– Sim, sim, eu já sei de tudo o que você vai me dizer... Mas isso não apaga o fato de que eu me envolvi com você enquanto você ainda era comprometido com Dona Marcela.
Armando não sabia o que dizer a ela. Em sua mente, ele tem todas as culpas, mas Betty não via assim. Queria dizer-lhe algo, porém ela o surpreende dizendo:
– Mas chega! Não vamos começar com isso outra vez. Sempre estamos na mesma... Damos voltas e voltas e voltamos ao mesmo lugar. É hora de deixar o passado para trás. O que aconteceu, aconteceu e não pode ser mudado.
Aquelas palavras correram pelo sangue de Armando revigorando-o.
– Isso mesmo, Betty! Deixemos o passado e pensemos no futuro. Temos um futuro inteiro pela frente, não? – disse sorrindo-lhe e se aproximando com a intenção de abraçá-la.
Betty se distanciou:
– Não, Armando. Lembre-se de que meu pai está aí...
– Está bem, mi amiga Betty! Acho que já tivemos emoção suficiente por hoje, não?
Betty riu divertida, lembrando-se da cena, naquele momento, aliviada:
– Sim, mi amigo Armando! É melhor deixarmos para conversar de noite na casa de Dona Catalina – ela deu-lhe uma piscadela e encaminhou-se para sua sala.
– Está bem! – Armando lhe piscou de volta sorrindo e entrando em sua sala.
Ao final do expediente Betty saiu de seu escritório acompanhada por seu pai e encontrou todas as meninas do quartel, animadíssimas, no corredor, conversando sobre o jantar na casa de D. Catalina para o qual foram convidadas.
– Ai, Betty! Muito legal da parte de Dona Catalina convidar a gente para o jantar! – Aura Maria se sacudia para dizer essas palavras.
As outras todas concordaram.
– Claro que ela iria convidar vocês, afinal, são minhas amigas – Betty respondeu.
– E a que hora nos encontramos lá, Betty? – Sandra quis saber.
– Às 8 h, meninas. Vou para minha casa me arrumar e nos vemos lá, então.
Seu Hermes que escutara tudo calado até agora, se manifestou:
– Vocês agora não fazem outra coisa a não ser andarem de festa em festa por aí...
– Ai, Seu Hermes! Deixem os meninos. Eles são jovens tem que se divertir – Inesita tentou acalmar o pai de Betty.
– Sim, Dona Inesita, mas com responsabilidade! – Seu Hermes respondeu.
– Claro, papai! Estaremos todas juntas e na casa de Dona Catalina. Não se preocupe.
– Não esqueça, Betty: O diabo é porco!
Nesse momento Armando se aproximou do grupo.
– Dr., o senhor também foi convidado para o jantar, não? – Aura Marie perguntou.
– Claro que sim, Aura Maria!
E, virando-se para Betty:
– Quer que eu passe por sua casa, Beatriz?
– Não será necessário, Dr., – Seu Hermes respondeu antes de Betty. – Minha filha irá com Nicolas.
Armando ficou decepcionado, mas como consolo soube que teria algumas horas ao lado de Betty, longe dos olhares recriminadores de Seu Hermes. E entre amigos. Os amigos de Betty, que ele já passava a considerar como seus amigos também.
– Então está bem. Nos veremos todos lá! Até logo – Armando disse caminhando para o elevador sob os olhares de um Seu Hermes cada vez mais desconfiado... Hum! Sinto que algo não me cheira bem...
E todos começaram a descer, conversando animadamente sobre o jantar daquela noite.
****
Armando se arrumou demoradamente, cuidou de cada detalhe da sua aparência de modo a se apresentar o mais perfeitamente possível para Betty. Adorava fazer tudo aquilo para ela, ainda que sempre tenha sido vaidoso. Contudo, pelo menos no presente momento da sua vida, sua vaidade possuía algum sentido. Optou por deixar de lado o terno e a gravata por ser um jantar entre amigos, uma situação informal.
Betty também planejou sua produção pensando no que agradaria mais Armando. Simplesmente se derretia quando ele a elogiava e sentia cada vez mais urgência nisso. Como Catalina disse que seria um jantar casual, ela optou por uma roupa simples, um jeans, uma camisetinha branca com um casaquinho da mesma cor por cima. Armando nunca a vira assim, será que ele gostaria? E como ele iria?
As meninas do quartel chegaram primeiro e, mesmo estando muito animadas, entraram tímidas na casa de Catalina, acompanhadas por um inédito silêncio. Entretanto Catalina sabia o que as agradava e, imediatamente, colocou uma música dançante no som, disse para elas se servirem das bebidas que colocara na mesa de centro e em poucos minutos o próprio silêncio, embriagado, começou a soltar a língua. Nesse ínterim, chegou Armando. Todas do quartel repararam sua aparência. Estava vestido com uma camisa social azul clara por fora de uma calça jeans. Ele cumprimentou Catalina e procura por Betty, mas esbarrou nos olhares curiosos do quartel. Aquilo o sufocou e, enquanto Catalina lhe servia um drinque e se dirigiu à cozinha para terminar o que estava fazendo, ele se dirigiu à sacada. No caminho foi barrado por Freddy que o cumprimentou fervorosamente:
– Doutor! Um prazer imenso tê-lo aqui conosco, em nossa humilde festinha! Divirta-se bastante, e – fez um gesto mostrando-lhe a própria roupa – belo traje, discreto e informal. Não é, meninas?
As meninas assentiram imediatamente. Armando sorriu sem graça:
– Obrigado, Freddy, é certo que me divertirei.
Tudo o que ele queria era que Betty chegasse logo. Pediu licença e se dirigiu à sacada, permanecendo só por um tempo.
Pouco depois a campainha tocou e ele mesmo se dirigiu à sala para atender, seguro de que era Betty. Seu coração pulou dentro do copo de uísque e ele abriu a porta, dando de cara com Nicolas que pediu passagem com a mão e entrou direto na direção da bandeja de frios. Ele deu passagem a Nicolas e quando se virou de novo, viu Betty caminhando em sua direção, linda, de jeans, de cabelo solto e com um aspecto muito natural. Ele olhou pra trás e viu todo o quartel amontoado no sofá que dava vista para onde ele estava. Pegou a maçaneta e puxou a porta, fechando-se do lado de fora. Deixou o copo de uísque na beirada da janela e abraçou Betty na tentativa de afrouxar aquele fio que o puxava para ela e que apertava seu peito cada vez mais, à medida que ela está longe.
****
Betty ficou para trás para se retocar um pouco, e já subiu com o coração pulando na expectativa daquele encontro. Quando viu Armando na porta e não viu mais nada, só apressou o passo em sua direção e o abraçou como se estivesse abrindo a porta de casa.
– Olá, mi amor, pensei que não chegasse mais.
Beijaram-se docemente como se o tempo fosse uma peça de decoração:
– Chegou tem muito tempo?
Armando sorriu, enlaçando sua cintura:
– Uns dez minutos, mais ou menos.
– E já pensou que eu não chegasse mais?
Ele sorriu sugestivamente.
– É melhor entrarmos – Betty propôs.
Os olhos de Armando se ajoelham num tom de súplica.
– Não, mi amor! Vamos aproveitar a festa aqui mesmo... – sorriu maliciosamente, com algo acendendo nas idéias – e podemos ir daqui para o meu apartamento... – disse distribuindo beijinhos em seu pescoço.
Betty ri, encostou os seus lábios no dele, num selinho, provocando-o:
– Ah, não podemos fazer isso, mi amor. Não posso fazer uma desfeita dessas com minhas amigas...
Os olhos de Armando se arrastaram ainda mais:
– Mas seria um tempo tão bem aproveitado...
– Hoje, não, mas... Podemos combinar melhor em outra ocasião...
– Bom, promessa é dívida...
– Então vamos entrar agora.
Armando a prendeu nos seus braços:
– Só depois de um beijo.
Beijaram-se com mais intensidade, como se ele ainda quisesse convencê-la a sair dali. Separaram-se, ele abriu a porta e todas do quartel se movimentaram rapidamente.
Betty cumprimentou as meninas.
– Nossa, meninas, olha como a Betty está diferente com esse novo look. Tão linda! Parece mais a nossa amiga Betty que a presidente da Ecomoda – Aura Maria exclamou.
Betty sorriu. De onde Aura Maria tirava essas coisas?
– Isso é indiferente, meninas, vocês sabem que são minhas melhores amigas, pra sempre – Betty disse.
– Ah, que lindo, Betty... – Sophia disse. – Também gostamos muito de você. Mas eu concordo com Aura Maria, essa roupa ficou muito bem em você, não ficou, Seu Armando?
Armando tombou a cabeça em sua direção, sem querer perder mais uma oportunidade de admirá-la:
– Divina, como sempre...
Betty sentiu que a sua roupa lhe caiu melhor naquele momento. Deu um selinho em Armando, tímida, por estar entre as meninas. Armando também ficou tímido, mas recebe aquela demonstração carinhosamente.
Quando o casal se separou, se deram com as meninas olhando-os, abraçadas umas com as outras. Freddy foi até eles e se colocou no meio dos dois:
– Pois, doutor, doutora, fiquem à vontade. Mi casa su casa.
Catalina se deu conta da presença de Betty e de Nicolas e saiu da cozinha para cumprimentá-los. Abraçou Betty e disse que já, já as coisas sairiam, ela só queria acabar de supervisionar o trabalho da sua ajudante e em pouco tempo se juntaria à turma.
Antes que Betty decidisse sentar-se com as meninas para conversar, Armando puxou-a pela mão em direção à sacada. Não a dividiria com ninguém naqueles momentos em que tinha a oportunidade de ficar só com ela. Ele puxou a porta de vidro da sacada, e percebue que as meninas fecharam a cara. Sorriu. Apesar de estranhíssima a curiosidade delas, impossível dizer que não era engraçado.
Betty vai até o parapeito e Armando a abraça por trás.
– Suas amigas daqui a pouco estão todas amontoadas aqui querendo saber o que estamos conversando – Armando comentou.
Betty sorri:
– Você parece se divertir com isso.
Ele beija-lhe a face:
– Às vezes, sim. Elas parecem umas crianças superdesenvolvidas. Só não me divirto quando elas realmente conseguem tirar você de mim.
– Está com ciúmes até das minhas amigas, mi amor?
– Eu??? De jeito nenhum... Bom... Talvez um pouquinho...
Ela se virou e enlaçou seu pescoço beijando-o. Do outro lado da porta o quartel, amontoado, suspirou.
Betty acariciou o peito de Armando:
– Adorei ver você vestido assim.
Armando segurou as mãos dela sobre seu peito. Deliciou-se com a carícia de suas palavras:
– Obrigado, mi vida. Preparei cada detalhe pensando em você.
Betty sorriu, encosta a cabeça no peito dele:
– Que graça. Pois saiba que ficou perfeito.
– Não mais do que você, mas...
Ele levantou o queixo dela e se beijaram. Armando intensificou o beijo e Betty sentiu o sol sobre sua pele num calor de 40º graus, a despeito na noite bogotana. Interrompeu o beijo, ligeiramente ofegante. Sorriu. Olhou para as meninas e todas estavam conversando animadas na sala:
– Mi vida, não podemos ficar sozinhos aqui o tempo todo. Não posso fazer uma desfeita dessas com Dona Catalina, ela preparou isso para mim...
Armando a puxou para si algemando-a com seus braços:
– Ah, não... – disse manhoso escondendo a cabeça entre os cabelos dela – Betty, só mais um pouquinho.
– Vamos lá , Armando, além do mais, estou com fome e de olho naquela bandejinha de frios que o Nicolas não viu... ainda.
Ele riu:
– Então, tá.
Ela abriu a porta e segurou a mão dele, saindo os dois juntos.
Ela se serviu, enquanto Armando pegou mais um uísque e em seguida se sentaram os dois no sofá da sala. Catalina se juntou à turma e todos conversaram animadamente enquanto as garrafas de uísque da qual Armando se servia e a de tequila do quartel e de Cata iam se esvaziando.
O ambiente começou a sorrir para Armando e seu espírito começou a dançar em seu corpo provocando-lhe cócegas por dentro. Ele sorriu mais, participou mais da conversa e deixou o homem tímido que chegara horas antes ali na sacada. Beijou Betty, acariciou seus braços o tempo todo, e a presença do quartel não mais o incomodava. Betty sorriu de tudo aquilo, retribuiu todos os gestos, apesar de não gostar quando ele bebia.
O jantar seguiu tranqüilo. O quartel, com o coração e a língua alegres depois das bebidas e das músicas, se manteve o tempo todo ruidoso. Catalina se divertia com a situação, se misturou com elas, dançou, cantou... Até Armando puxou Betty para o meio da sala para dançarem, cantando por cima do som e girando-a. Ela se deixou levar, divertida, estava um pouco alta também. Nicolas só pensava na comida.
A comemoração terminou no horário estipulado e as meninas se arrumaram para irem embora contrariadas, afinal, estava tudo muito bom. Para Betty e Armando o tempo voara à bordo de um supersônico.
Nicolas chamou Betty para ir embora, e Armando disse que ele pode ir que ele próprio a levava. Nicolas se despediu de todos e saiu satisfeito, podendo ir direto pra casa dormir.
O casal faz o percurso de volta conversando e sorrindo, Armando cantarolando e Betty o acompanhando deitada com a cabeça no ombro dele. Ambos queriam que demorasse o maior tempo possível a chegada. Armando fez o caminho mais longo em velocidade baixa, torcendo para que a casa dela mudasse de lugar.
Quando finalmente chegaram, eles ainda permaneceram um tempo como estavam, levados pela inércia. Despediram-se longamente, abraçados com os lábios colados, nenhum dos dois querendo se separar do outro, e quando a luz da sala se acendeu, a realidade chama Betty pra dentro e ela saiu assustada, lançando um beijo discreto para Armando que lhe lançou outro beijo, movendo os lábios dizendo que a amava e arrancou com o carro.
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