Um Novo Final
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Era mais um dia normal de trabalho na Ecomoda.
Betty já superara sua crise de insegurança provocada pela aparição de Paula e conseguia olhar para Armando sem que ele estivesse atrás de uma parede de suspeitas. Este, ainda que reclamasse em toda oportunidade do fato de não poder assumir publicamente o romance com Betty, não havia encontrado o “momento ideal” para falar com Seu Hermes que, por sua vez, se mostrava cada vez mais desconfiado da proximidade de sua filha com o Dr. Mendoza. E essa desconfiança fazia com que ele redobrasse a vigilância e as cobranças sobre Betty, dificultando que o casal encontrasse momentos para ficar a sós. Porém, com a proibição aguçando-lhes o paladar, eles seguiam cada dia mais apaixonados e desfrutavam intensamente de cada segundo que podiam conseguir juntos.
Apesar dos pesares, os últimos dias haviam sido tranquilos. Armando estivera calmo, todavia, mesmo que não tivesse tido mais ataques, continuava se mostrando ciumento com relação a qualquer homem que se aproximasse dela quase a escondendo no seu bolso. Betty só achava graça das situações, já estava se acostumando à ideia de que ele não iria mudar.
Naquela tarde, eles estavam trabalhando na sala de Betty. Depois de muitos beijinhos e carinhos, com muita dificuldade, ela conseguiu fazer Armando concentrar-se no trabalho, fazendo-o sentar-se do outro lado da mesa.
Aura Maria bateu na porta e entrou na sala, interrompendo-os, para avisar que D. Catalina estava ali e queria falar com Betty. Esta abriu um imenso sorriso e disse para Aura Maria que fizesse a amiga entrar. Entretanto o semblante alegre de Armando escorreu completamente, manchando-lhe a roupa. Ele também gostava muito de Catalina, mas não podia evitar a insegurança que sentia cada vez que ela se aproximava de Betty.
Catalina, com seu sorriso radiante de sempre, os cumprimentou. Armando viu tudo desfocado, e, de repente, o ambiente da sala de Betty encolhe-se em figuras medonhas. Ele então se levantou e disse que ia sair para deixar que elas conversassem à vontade, mas Catalina pediu que ele ficasse porque queria que ouvisse a novidade que tinha para contar.
Armando sentiu um frio na espinha, as figuras da sala sacudiram ainda mais, todavia sentou-se novamente.
— Vocês já devem ter ouvido falar da revista “Mulheres” — Catalina disse. — É uma revista obviamente, voltada para o público feminino, lançada por um grupo de amigas minhas e que na próxima edição comemora 1 ano de existência.
Armando ficou mais tranquilo ao perceber que a equipe da tal revista era composta de amigas de Catalina. Pelo menos ela não apresentaria nenhum outro amigo bem-sucedido e bem-resolvido do leque que possuía.
— Sim, sim. — Betty disse. — Não só já ouvi falar como também já li. É excelente a revista. Não é uma típica revista feminina, com receitas e dicas de beleza e coisas assim...
— Isso mesmo, Betty! Ela é dirigida exatamente a mulheres que tem o seu perfil. Mulheres independentes, modernas, dinâmicas...
Betty sorriu, questionando-se mentalmente se D. Catalina estava, de fato, falando dela. Contudo não podia disfarçar a satisfação em receber um elogio como aquele, coisa com a qual ela não estava acostumada.
— Já ouvi falar na revista e já a vi nas bancas, mas nunca li, claro – Armando disse meio entediado com aquela conversa, quando, em realidade, estava absolutamente ansioso para saber o que Catalina realmente queria.
Catalina sorriu para o amigo. Armando era um homem moderno em muitos aspectos, mas em outros era o típico “macho latino-americano”. Claro que ele não leria uma revista feminina... E se lesse nunca admitiria.
— Pois bem — Catalina continuou. — Minhas amigas editoras da revista me incumbiram de uma tarefa muito especial, que cumpro com o maior prazer, e por isso estou aqui...
Ela sorriu enigmática.
— E qual é essa tarefa, D. Catalina? — Betty estava curiosa.
Armando diz a mesma frase em pensamento.
— Elas querem uma entrevista com a presidente da Ecomoda para a edição comemorativa de aniversário. Com direito a foto de capa e tudo o mais!
Betty levou alguns segundos para entender o que D. Catalina acabara de dizer.
Armando afundou na cadeira, relaxando. Enfim, não envolvia nenhum jantar de negócios com nenhum executivo. Sendo assim, para ele estava ótimo. Além do mais, isso não era mais do que Betty merecia. O trabalho que ela vinha desenvolvendo era digno das mais altas premiações. Todavia, afundado na cadeira, alguma coisa em seu peito ainda o incomodava. Ele sentiu sobre suas costas o papel de coadjuvante a entortá-lo ligeiramente para frente.
Betty ainda estava fazendo a ligação entre uma revista como a “Mulheres” e uma pessoa como “ela”. E o fato de ela não conseguir estabelecer uma era algo muito ruim, ou algo muito bom?
— Comigo? — foi tudo o que conseguiu dizer.
— Sim, Betty! Como eu disse, você se encaixa perfeitamente no perfil de mulher para o qual a revista está direcionada. Quem melhor do que você?
— Ai, D. Catalina! Eu não sirvo para essas coisas! — Betty respondeu, rindo. — Meu negócio é ficar aqui na frente da tela desse computador, nesse escritório, administrando a empresa.
— Não, Betty! — Catalina não concordava. —Você se saiu muito bem no lançamento da coleção. Além disso, vai ser muito mais fácil. Elas vão mandar uma repórter aqui para entrevistá-la. A proposta é acompanhar um dia de trabalho seu, claro, se não for te atrapalhar. E as fotos seriam feitas aqui mesmo. A própria repórter também é fotógrafa.
Armando observou a conversa calado, dividido entre o orgulho imenso que sentiu de Betty, a alegria de ver seu talento reconhecido e o medo e a insegurança de vê-la alçar voo sozinha...
Betty ainda estava em dúvida. Olhou para Armando que lhe sorriu, numa expressão neutra. Ela compreendeu que esta decisão teria que tomar sozinha.
— Eu até poderia concordar, D. Catalina – Ela abaixou os olhos sem querer olhar para Armando – mas quando me perguntarem como foi que consegui o posto de presidente desta empresa, como foi que cheguei até aqui, o que eu direi?
As palavras de Betty atingiram Armando como um tapa de luvas. Ele manteve o rosto firme, entretanto sentiu-o vermelho e latejante.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala. Silêncio esse feito de espectros de passado.
Betty permaneceu de olhos baixos e Catalina também abaixou os seus, sem saber o que dizer. Armando olhou para Betty, esperando que ela o encarasse. E quando ela finalmente o fez ele lhe disse:
— Beatriz, você pode ter chegado a ocupar esse posto por caminhos tortuosos, mas nunca duvide um minuto sequer da sua capacidade e competência para fazê-lo.Você, mais do que ninguém, merece esse posto, por tudo o que fez por essa empresa. Se a Ecomoda ainda existe é graças a você.
Betty lhe sorriu com o coração apertado e com as emoções bem abraçadas.
— Eu sei, Armando! Mas não estou falando sobre isso. O que eu estou querendo dizer é qual história vou contar quando me perguntarem como cheguei até a presidência da empresa?
— Pois, diga-lhes que você salvou a empresa da ruína a que o seu ex-presidente havia levado e por isso você foi alçada ao posto de presidente, o que não é mentira, afinal.
Armando imprimiu toda transparência que conseguiu à sua fala e alcançou o efeito desejado, porque o ambiente ficou um pouco mais leve, pelo menos respirável. E Catalina percebeu, com alívio, que a relação dos dois estava mais fortalecida do que ela pensava.
— Eu não vou dizer isso, Armando! — Ela não iria falar mal de Armando dessa maneira, mesmo que fosse verdade.
— Vai, sim. Se você não disser eu mesmo digo! — Armando disse, sorrindo ternamente.
— E se elas quiserem saber por que mantenho o ex-presidente como meu vice, se ele era tão ruim assim? Hum?
— Bom, aí você pode dizer que é porque é loucamente apaixonada por ele e não pode viver longe nem um minuto... — Armando brincou, acabando de vez com o clima pesado.
— Bobo!
Os três riram.
— Bem... — Catalina disse. — Se me permitem, acho que não vão perguntar isso, mas de qualquer forma não é tão estranho o fato de Armando estar aqui como vice-presidente já que ele é um dos maiores acionistas da empresa, não?
— É verdade, D. Catalina, a senhora tem razão.
— E então, Betty? Você aceita?
Betty olhou outra vez para Armando e desta vez percebeu no olhar dele o brilho de que ela precisava para se sentir encorajada.
— Sim. Eu aceito, D. Catalina.
— Ótimo! — Catalina exclamou. — Fico muito feliz, Betty! Vou ligar para minhas amigas já mesmo. Veja aí na sua agenda qual dia a repórter poderá vir, assim já deixo tudo marcado.
Elas combinaram o dia e Catalina ligou para a revista agendando tudo. Em menos de um mês Betty estaria estampando a capa de uma revista de circulação nacional.
****
No dia marcado para a entrevista, Betty acordou mais cedo para poder dedicar-se um pouco mais à sua aparência. Iria se sentir bem mais segura apresentando-se da maneira que julgava devida. Caprichou no cabelo, prendendo parte dele atrás da forma que ela gostava de fazer e que achava que lhe conferia um ar mais profissional, além de destacar seu rosto. Fez a maquiagem básica de sempre, apenas realçando os pontos favoráveis, como o maquiador de Cartagena ensinara, usando cores que combinavam com a roupa nova que ela havia comprado no dia anterior, seguindo a orientação de D. Catalina. Era um terninho de executiva, porém não tão sóbrio. Cor de vinho com camisa branca. Tinha um corte moderno e feminino que salientava sua cintura, seus quadris e a saia era um pouco mais curta do que ela estava habituada a usar.
Ao terminar de se arrumar, deu uma última conferida no espelho. Gostou do que viu. Estava discreto, porém não sem graça. Ela achava que havia conseguido fazer o que D. Catalina lhe recomendara — passar a imagem de uma jovem executiva competente e séria, porém moderna e sofisticada.
A preocupação em aparecer bem nas fotos, no fim das contas, cedeu lugar à preocupação a respeito do que Armando diria quando a visse daquele jeito. Foi para a empresa com essa preocupação atrapalhando o trânsito de suas idéias.
Chegando à Ecomoda todos a receberam encantados, desmanchando-se em elogios ao look que ela exibia. Todos, as meninas do quartel, Freddy e Wilson, sabiam que aquele era um dia muito importante para Betty e receberam orientações para se comportarem bem sob uma promessa de que ela iria tentar fazer com que colocassem uma fotografia deles na reportagem.
Antes de ir para seu próprio escritório, Betty passou pela sala de Armando, mas ele ainda não havia chegado. Isso não era comum. Ela pensou que não era de se estranhar, todavia, diante da postura que ele vinha adotando com relação àquela entrevista, procurando manter-se à margem, dizendo que era algo que ela deveria fazer sozinha, porque o mérito era todo dela, porque aquele era o momento dela. Mas Betty necessitava dele ao seu lado. Não conseguia se sentir segura sozinha. Sentia-se muito pequena longe dele. E, naquele momento, só conseguiria se tranquilizar depois da aprovação dele para o seu visual.
Foi para sua sala e deu ordens para que lhe avisassem assim que Armando chegasse. Ficou andando de um lado para outro, ansiosa, sem conseguir concentrar-se em nada. Começou a se sentir mal e o pensamento de desistir daquilo tudo lhe chegava agradável... Precisava desesperadamente falar com ele antes da entrevista, para sentir-se mais segura.
****
Armando demorou a dormir e se levantou um pouco tarde no outro dia. Demorou pensando em como agiria, o que faria e deixaria de fazer para que a tal repórter não soubesse do romance dos dois e não inventasse de publicar nada e causar um escândalo nos dois lados da família, mesmo que ele fosse maior de idade e não devesse nada aos pais. Acordou se amaldiçoando porque queria estar perto de Betty. Sabia que ela se sentiria desamparada, pois conhecia sua insegurança, ainda que fosse equivocada. Fez tudo correndo e voou para a Ecomoda.
Chegou sem cumprimentar ninguém e foi direto para a sala de Betty. Quando abriu a porta simplesmente ficou paralisado quando a viu. Olhou-a da cabeça aos pés. Betty não parava de surpreendê-lo. Quando ele achava que ela não podia ficar mais linda, ela se reinventava e se mostrava de um jeito maravilhoso. E era sempre a sua mesma Betty... Sentia-se maravilhado com isso, na obrigação de ser criativo como ela e reconquistá-la todos os dias. O mundo parou de girar, os relógios pararam de tic-taquear só para que ele pudesse admirar sua deusa de todas as mitologias. E então ele se sentiu pequeno e transparente como um vidro fino, teve medo de que ela voltasse ao pedestal de onde havia descido. Revirou-se dentro de si porque não era digno de dizer nada.
Betty estava impaciente com o silêncio dele. Era evidente a admiração em seus olhos, mas havia algo mais que ela não conseguia identificar...
— Armando! Que bom que chegou! Estava muito nervosa, pensando que você não chegaria antes da repórter.
— Por que, mi vida? — ele perguntou, aproximando-se dela, ao sentir a angústia em sua voz, e segurando suas mãos.
— Estou insegura. Você acha que estou bem assim? Que vou passar a imagem de uma executiva competente, séria e moderna?
Armando olhou-a de novo e só conseguia pensar nela sem nada...:
— Eu acho que você vai passar a imagem de uma executiva competente, séria, moderna e muito sexy... — ele lhe disse com um ar malicioso. – E o pior é que não vai poder dizer que tem namorado! – Como ele odiava essa parte...
— Você acha que a roupa está muito insinuante? Está exagerada? Acha que vou passar uma mensagem errada? Devo me trocar?
Armando sorriu. Como ela era linda:
— Não, não, mi amor! Você está divina! Perfeita! É que eu queria ter esse segredo só para mim... E agora todos verão como você é maravilhosa! Mas não saberão que você já tem dono... — ele disse com cara amuada.
— Não importa que os outros não saibam, mi amor. Eu sei e você sabe!
Armando não se conteve mais e a beijou num impulso, mas Betty logo interrompeu o beijo antes que ele estragasse toda a “produção”.
Ele a encarou triste, queria-a em demasia.
— Depois, Armando. Depois da entrevista teremos um jantar com D. Catalina. Ela disse que faz questão de celebrar o que considera uma grande vitória minha.
— Está bem, está bem! O que se há de fazer...
— Armando, tenho algo a lhe pedir...
— Sim, mi vida.
— Precisamos nos esforçar para nos comportar apenas como companheiros de trabalho. Você entende, não é? Não quero que pensem que cheguei até aqui por sua causa, ou...
— Sim, Betty! Sim, sim! — ele a interrompeu. Já haviam conversado sobre isso — Pode ficar tranquila. Nossa relação será estritamente profissional hoje. Eu prometo. Passei a noite quase inteira pensando em como faria isso, por isso me atrasei. Quero que seu dia seja perfeito, perfeito.
— Obrigada, mi amor! — Betty sorria.
Armando quase perdeu o controle outra vez diante daquele sorriso:
— Mas você promete que serei recompensado pelo sacrifício depois? — ele disse colando seu corpo no dela.
— Prometo, doutor! – Ela levantou a mão direita em juramento.
Ouviram batidas na porta. Era Aura Maria avisando que a repórter já chegara.
Armando lhe deu um beijo na face e disse:
— Vai dar tudo certo! Você só tem que ser você mesma, porque você é absolutamente maravilhosa, doutora Pinzón!
E saiu para seu escritório pela sala de reuniões.
Betty sorriu enquanto ele saía, então respirou fundo e pediu à secretária que fizesse a repórter entrar, com o estômago dando-lhe socos por dentro.
Alguns segundos depois Aura Maria voltou acompanhada por uma jovem que deveria ter mais ou menos a idade da própria Betty. De cabelos curtos, vestindo jeans e camiseta, com uma bolsa pendurada em um dos ombros e uma pasta na mão. Ela tinha um sorriso muito simpático no rosto agradável e sem maquiagem.
— Olá! Eu sou Beatriz Pinzon. Muito bem vinda! — Betty estendeu-lhe a mão.
— É um prazer muito grande conhecê-la, Dr. Pinzón! Meu nome é Manuela Santana — a repórter apertou firmemente a mão que lhe fora estendida — Deixe-me lhe dizer que é uma grande honra para nós que a senhorita tenha aceitado nosso convite, doutora.
— Imagine... A honra é minha em ter sido convidada. — Betty riu. – Mas, por favor, pode me chamar de Betty, é assim que todos me chamam.
Betty gostou de Manuela logo de cara. Percebeu que se sentiria à vontade com ela e isso era um grande alívio.
— Claro! — Manuela concordou. — Já estava me sentindo muito estranha chamando-a de doutora... Afinal, você é tão jovem...
— Mas, sente-se. — Betty apontou-lhe a cadeira e sentou-se em seu lugar à mesa da presidência.
Manuela sentou-se também e elas começaram a conversar sobre como seria a entrevista.
— Antes de mais nada — a repórter começou — eu não quero atrapalhá-la. Meu objetivo é acompanhar um dia normal de sua vida aqui na empresa. Quanto às perguntas, você as responderia ao longo do dia, ou na hora do almoço.
— Para mim está bem.
— Gostaria também de saber se poderia dar uma volta pela empresa, conversar um pouco com os empregados.
— Claro! Fique à vontade.
— E quanto às fotos, eu irei tirando ao longo do dia, das situações que achar interessante. Mas não se preocupe, antes de publicarmos mostraremos todas elas a você e submeteremos nossas escolhas à sua aprovação. O mesmo vai acontecer com o texto final, de maneira que não falseemos suas ideias.
— Perfeito, Manuela! – Betty já estava tranquila com a presença da moça. Não seria constrangedor tê-la na Ecomoda como ela pensara.
— Para começar, eu gostaria de tirar umas fotos suas agora, no início do dia. Posso?
— Eu não sou muito fotogênica, nunca gostei muito de tirar fotos, mas faça o seu serviço.
Manuela arrumou a câmera, levantou-se e dispara vários flashes em direção a Betty que apenas sorriu.
Assim a manhã foi passando. Manuela entrou e saiu da Presidência várias vezes, conversou com as meninas do quartel, com Nicolas e observou Betty trabalhar. Às vezes fez algumas perguntas sobre o que ela estava fazendo e sobre o funcionamento da empresa, tirando fotos de vez em quando, algumas de surpresa.
Em um determinado momento o telefone tocou, Betty atendeu e era Armando. Manuela observou a conversa e, quando Betty desligou o telefone, disse:
— Este Dr. Mendoza é o ex-presidente da empresa, Betty?
Betty olhou-a tentando não esboçar nenhuma reação e rezou para que tivesse sido bem sucedida. Esforçou-se para parecer o mais casual possível ao falar de Armando.
— Sim, ele mesmo. Agora ele é o vice-presidente executivo da empresa e continua sendo um de seus maiores acionistas.
Betty sentiu que começava a pisar em terreno minado e seu coração acelerou.
— Ah! E eu posso conversar com ele também?
Todos os outros funcionários da área executiva e até os próprios executivos já haviam aparecido, ansiosos para falar com ela e até para serem fotografados, menos o Dr. Mendoza que ela nem sabia que estava lá, até Betty falar com ele por telefone.
— Creio que sim. Converse com Sandra, você a conheceu, não? A secretária alta...
— Sim, claro.
— Ela é a secretária do Dr. Mendoza. Creio que ele poderá recebê-la sem problemas.
— Então vou já perguntar pra ela...
Levantou-se e saiu imediatamente.
Manuela pensou que seria interessante a conversa com Dr Mendoza. Queria ver como ele se sentia por ter perdido o posto para uma mulher. E ela sabia como os homens poderiam ser mesquinhos em situações similares.
Armando se surpreendeu quando Sandra disse que a repórter queria vê-lo, pois não esperava que ela fosse querer falar com ele também. Não imaginava o tipo de pergunta que ela pudesse lhe fazer, e isso o desequilibra va da corda frágil por onde estava caminhando. Intrigado, pediu que Sandra a fizesse entrar.
— Bom dia! Armando Mendoza – ele se apresentou e estende-lhe a mão.
— Bom dia, Dr. Mendoza, eu sou Manuela Santana, a repórter que veio entrevistar a Drª Pinzon.
— Sim, sim. Eu sabia que Be..., digo a Drª Pinzón iria recebê-la hoje. Só não esperava que quisesse falar comigo também. Mas, sente-se — Armando indicou-lhe uma cadeira —, diga-me em que posso ajudá-la.
Ele conseguia esconder muito bem a sua ansiedade e parecia muito à vontade com a presença da repórter. Todavia, ao se sentar, esfregou as mãos nas pernas da calça, elas estavam suando. Manuela disse:
— Na verdade eu já conversei com vários funcionários da empresa. Acho importante saber qual é o relacionamento deles com a Drª Pinzón, como a veem, o senhor entende, não?
— Claro, claro que sim. E veio perguntar minha opinião sobre a Drª Pinzón também?
— Bem... Se o senhor não se importar em conversar um pouco comigo sobre esse assunto...
Armando sorriu, pensando que ele não ia se incomodar nem um pouco em falar do grande amor de sua vida. Até se aproveitou da situação, pois poderia falar dela sem ser inconveniente. Ele falaria dela o dia inteiro se deixassem:
— Muito bem. Pode perguntar o que quer saber.
— O Senhor não se sente incomodado por trabalhar tendo uma mulher em um cargo superior ao seu? — Manuela lançou-lhe a pergunta observando minimamente todas as suas reações. Surpreendeu-se ao ver que ele não se sentiu ameaçado com a pergunta, como esperava que aconteceria.
Armando recebeu aquela pergunta como se lesse o jornal de ontem. Permaneceu com o mesmo semblante ao responder.
— Não. Absolutamente. Eu me sentiria incomodado se a pessoa que ocupa o cargo superior ao meu não fosse capacitada e competente, homem ou mulher. Não é o caso da doutora Beatriz Pinzon. Ela é uma executiva brilhante. Um gênio das finanças. Altamente qualificada para o posto que ocupa. Por isso não me sinto nem um pouco incomodado. É uma honra para mim trabalhar ao lado dela.
— Mesmo tendo sido substituído por ela — Manuela tentou provocá-lo.
— Senhorita ...
— Manuela, por favor.
— Está bem. Manuela, deixe-me ver como lhe explico.
Olhou para os lados como que buscando as palavras corretas, não podia tropeçar nelas:
— Be..., digo, a doutora Pinzón, era minha assistente. Creio que você sabe, não?
Manuela assentiu. Era por isso que não estava entendendo a reação tão pacífica dele. Nunca vira um homem aceitar aquela situação tão passivamente. Armando continuou:
— Eu fiz muitas bobagens à frente da Ecomoda. Não é fácil admitir, mas é a verdade. — Deu de ombros – E Beatriz foi a responsável por salvar a empresa. Passamos por muitas dificuldades e ainda estamos em processo de recuperação. Para ser sincero, não acredito que conseguiríamos sair dessa situação difícil sem a ajuda de Beatriz.
Ele tomou um tempo para respirar.
Manuela percebe que ele deixara de chamá-la de Doutora Pinzón, a despeito de estar se esforçando para chamá-la de doutora o tempo todo, mesmo ela tendo dito que todos a chamavam de Betty. Notou também um brilho diferente em seu olhar conforme ele ia falando sobre a presidente da Ecomoda. Sorriu. Teve uma ligeira impressão de que o caso era outro, diferente dos que presenciara durante sua carreira de jornalista.
— Então, Manuela, — Armando não havia parado de falar — eu só tenho a agradecer à Beatriz por ter salvo a empresa que meu pai batalhou tanto para construir. Definitivamente não me incomodo que ela ocupe hoje a presidência, porque fez por merecê-lo. Eu me sinto feliz ajudando-a a continuar o grande trabalho que vem realizando até agora.
— Interessante... Muito interessante... E já é o suficiente. Obrigada, Dr Mendoza, serão muito úteis todas as suas informações.
Armando sorriu, aliviado julgando ter conseguido manter-se imparcial:
— De nada, às ordens.
Eles se despediram com um aperto de mão, e ela saiu, retornando à sala de Betty que a recebeu com um aspecto curioso, morrendo de ansiedade em saber o que se passou na sala de Armando, porém disfarçou quando começa a falar:
— E então, conseguiu falar com Dr. Mendoza?
— Consegui, sim. Ele foi muito simpático.
— Espero que tenha falado bem de mim... — Betty riu.
— Nossa! Falou muito bem de você, Betty! Muito bem mesmo!
— Que bom! — Betty disse, preocupada com a maneira como a repórter dissera aquilo.
— Betty, o Dr. Mendoza não era noivo de uma sócia da empresa, ou algo assim? Eu me lembro de ter lido algo a respeito.
Betty sentiu uma pontada na cabeça. Era assim que se sentia cada vez tocavam no assunto “Marcela Valência” em sua presença, como se alguém lhe batesse com um martelo em seu cérebro. Respirou fundo e disse pausadamente:
— Sim. Ele era noivo de Dona Marcela Valencia que é uma das acionistas da empresa e também era uma das executivas. Hoje ela trabalha em Palm Beach, na loja que temos lá.
— Eu me lembro de ter lido que eles estavam de casamento marcado e tudo... Não era isso?
Como ela não percebera nada de diferente na maneira de Betty dizer o que disse sobre Marcela, pensou que as suspeitas dela eram de um lado só.
— Sim, estavam mesmo. Dona Marcela chegou a mandar fazer o vestido de noiva.
— E por que terminaram?
— Bem, Manuela, creio que esse é um assunto pessoal e que só os dois vão poder responder. Não creio que eu deva ficar falando sobre isso. Não seria muito ético de minha parte.Você me entende, não?
— Claro! Claro! Você tem razão, Betty.
Manuela olhou ao redor, disfarçando:
— Quem decorou esta sala?
— Ah! Foi o Dr. Mendoza. Eu ainda não tive tempo de mudar nada. Gostaria de dar um toque mais feminino, mas ainda não foi possível.
— E, Betty... — a repórter disse sem modificar o tom de voz. — Você já percebeu que o Dr. Mendoza é apaixonado por você?
E a percepção dela pegou Betty desprevenida e ela levou à mão à boca de susto, como se tivesse se tornado menina e feito uma coisa muito indevida. Ela tentou reviver toda aquela parte do dia de uma vez, mas as imagens e conversas e tons e cenários vinham todos dançando colados na sua memória e ela não sabia diferenciá-los.
— Mas... Mas como você chegou a essa conclusão? — Betty se esforçou ao máximo para conseguir articular essas palavras.
— Ah, eu deduzi pelo que ele disse de você, pelo que e como ele o disse. Começou tratando-a muito formalmente, depois se utilizou de todos os adjetivos que conhecia, abandonou o tratamento formal e a cada frase falava mais subjetivamente. Eu confesso que fui até lá para averiguar a reação dele por ter sido substituído pela assistente, mas ele me surpreendeu com a sua consciência e com a admiração que sentia por você. Então suspeitei disso. Mas pela sua reação, penso que você não sabia.
Betty olhou-a sem saber o que dizer. Imaginou-se dizendo que não, mas as palavras lhe soaram tão falsas que ela nem se atreveu a deixá-las escapar. Ficou calada, buscando alguma coisa consistente e objetiva para falar.
— Eu posso falar uma coisa para ficar entre a gente?
Os olhos de Manuela brilharam. Ela podia não publicar a história, mas tinha que saber.
— Claro, conversaremos em off, vou desligar tudo.
E deitou a câmera e o gravador na mesa, mostrando a Betty que estavam desativados.
— Eu sei que Armando está apaixonado por mim, porque eu também estou apaixonada por ele... — Sorriu nervosamente. — O que me assustou foi a rapidez com que você descobriu, porque eu achei impossível que houvéssemos deixado tão à mostra. E nem nos encontramos. Mas a verdade, que já não suporto mais esconder, é que eu e Armando estamos juntos. Mas devido a várias questões, dentre elas o meu cargo na empresa, nos impedem de assumir publicamente nosso romance. Espero que você me entenda. E que possa manter segredo.
Manuela sorriu, orgulhosa da sua intuição:
— Claro, Betty, pode ficar tranquila, seu segredo está seguro comigo, mas com uma condição.
Betty sentiu um arrepio ao escutar isso:
— Qual seria?
Manuela sorriu:
— Quando vocês decidirem se assumir, irão me chamar pra cobrir tudo.
Betty sorriu aliviada:
— Perfeitamente combinado.
E as duas apertaram as mãos em cumplicidade.
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