Um Novo Final
20 Capítulo 20
Notas iniciais
No final do expediente, Betty tinha uma porção de coisas atrasadas e urgentes para fazer. A saída com Dona Catalina para retirar o aparelho e depois as inúmeras visitas de Armando à sua sala a haviam atrasado demais, ainda que fossem agradabilíssimas e ela mesma ficasse olhando para a porta esperando que ele entrasse. Entretanto, naquele momento não restava outro remédio a não ser ficar na Ecomoda até terminar pelo menos o mais urgente.
****
“Fora um dia divertido” pensava Armando enquanto pegava sua maleta para ir embora. Passara na presidência pelo menos umas quinze vezes, simplesmente para sentir o gosto do beijo de Betty. Mal ele chegava no próprio escritório, sentia como se não a tivesse beijado e aquilo lhe provocava uma inquietude que só passava quando ele voltava lá e a beijava de novo. Foi até o banheiro olhar-se no espelho. Sim, ainda era o mesmo Armando com a mesma idade... Muito mais radiante, mas a mesma idade.
****
Betty estava separando uns papéis quando Armando apareceu na porta do escritório com sua maleta na mão e estranhou ver que ela não estava pronta para ir embora.
– Você ainda está trabalhando, mi amor? Já é hora de irmos. Não está cansada?
Betty olhou para ele e suspirou:
– Não posso ir agora, Armando. Tenho coisas urgentes para fazer. – Volta a fixar os olhos nos papéis. – Mas você pode ir, mi amor.
Armando contraiu o cenho, como se ela tivesse lhe dito algo em uma língua estranha. Entrou na sala:
– De jeito nenhum! Se você vai ficar, eu fico também para ajudá-la.
Armando ficou feliz com a oportunidade de ficar sozinho com Betty. Nos últimos dias estava sendo difícil encontrar uma desculpa para escaparem e namorarem.
Ele deixou a pasta em um canto, junto com a chave do carro, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela, perguntando o que podia fazer para ajudá-la. Ela então lhe explicou o que estava fazendo e no que consistiam aqueles documentos todos. Não havia necessidade de explicar muito, pois Armando já estava familiarizado com tudo. Ele se pôs a ajudá-la, lançando-lhe sempre olhares furtivos, encantado com seu novo sorriso de algodão. Fazia um esforço muito grande para concentrar-se nos papéis quando o que ele queria era abraçá-la, beijá-la muito e tomá-la para si, ali mesmo.
O telefone tocou tirando-o daquele transe e Betty atendeu. Era Seu Hermes, preocupado, porque a filha ainda não chegara. Betty então lhe explicou o que acontecera e lhe disse que chegaria tarde. Depois de alguns protestos e recomendações, Seu Hermes finalmente desligou.
Betty ficou encarando o telefone com um olhar opaco:
– Meu pai nunca vai entender que não sou mais uma criança... – ela suspirou.
Armando se colocou do seu lado, bem próximo, bebendo a grandes goles o seu cheiro.
– Deve ser difícil para ele ver que a garotinha dele cresceu e está se tornando uma mulher independente. Você precisa compreendê-lo, Betty. – Ele acariciou seu rosto e seus cabelos enquanto falava.
– Sim, eu sei, Armando. E parte da culpa é minha também, que mesmo depois de adulta continuei deixando que ele me tratasse como uma menina... Não sei como ele vai reagir quando souber de nós dois...
Armando assentiu, de sobrancelhas arqueadas:
– Vai ser difícil, mas ele vai ter que entender que estamos apaixonados e que nos amamos muito.
– Ele vai se sentir enganado. Vai se dar conta que nós estivemos escondendo isso dele todo esse tempo...
– Betty, não se preocupe tanto. Seu pai a ama e, no fim, vai ficar feliz ao vê-la feliz.
Naquela altura eles estavam muito juntos, trocando carinhos enquanto conversavam.
– Porque você está feliz, não está? – Armando perguntou arqueando as sobrancelhas.
Betty sorriu e assentiu como quem já teve o vislumbre do jardim do Éden.
Eles não puderam mais resistir e se beijaram até sentirem perder o fôlego. Betty gemeu, dizendo seu nome entre outras palavras desconexas, e ele se sentia maravilhado com cada reação do corpo dela enquanto o acariciava. Ele a sentiu completamente entregue e, levantando-se, a levou até o sofá. Estavam em um caminho sem volta. Livraram-se de suas roupas, sem nem perceber como. Nenhum dos dois conseguia raciocinar. As sensações iam crescendo até atingirem um nível insuportável e explodirem em um êxtase arrebatador. Seus corpos tremeram, transpiraram, seus corações galoparam. Armando se esforçou para olhar Betty e ver seu semblante transtornado pelo prazer, pois isso o fazia sentir-se bem. Ela era sua mulher, somente dele. Com essa sensação de felicidade ele desabou sobre o corpo de Betty que o abraçou e assim eles permaneceram até que pudessem retornar do mundo mágico onde estavam.
Algum tempo depois, Betty, já totalmente desperta, continuou acariciando os cabelos de Armando que descansava a cabeça entre seus seios. Pensava na loucura maravilhosa que acabaram de fazer, em todas as sensações... Memorizara uma por uma, como um filme quadro a quadro... Pensou também na outra vez em que fizeram amor naquela sala, e o quão perfeita foi, versos de poesia pura... Seus pensamentos, entretanto, a levaram para uma via escura e íngreme sem que ela se desse conta, e se viu perscrutando espectros de outras mulheres que poderiam também estar ali. Sua garganta queimou nesse momento e ela não controlou a vontade de perguntar, mesmo sabendo que Armando poderia não gostar da pergunta.
– Armando?
– Sim, mi amor? – ele respondeu com voz sonolenta.
– Você já fez isso outras vezes, aqui na Ecomoda, com outras mulheres?
Armando despertou imediatamente depois de toda a água fria que ela lhe jogara de uma vez. Levantou a cabeça e a encarou, vendo-a longe demais. Por um raio de segundo sentiu, desesperado, a sua falta.
– Não, Betty. Nunca – ele afirmou peremptoriamente.
– Não mesmo? – Betty se encolheu em si mesma com medo da resposta, mas não conseguiu não olhar.
– Não acredita em mim? – A figura dela praticamente sumiu, e ele teve vontade de gritar.
Betty respirou fundo, porque a afirmação dele lhe chegou tão baixa aos seus ouvidos, como se tivesse que se esforçar para escutá-lo. Sabia que esse Armando era outro Armando, mas esse Armando poderia não querer falar do outro... Tinha que acreditar no que ele dizia, mas teve medo de que aquele lugar, o lugar de ambos, já estivesse manchado com um passado, como uma folha borrada...
– Eu acredito... Mas é que você pode estar dizendo isso somente para não me magoar...
– Não, mi amor. Eu nunca cheguei as “vias de fato”, digamos assim, com ninguém mais aqui na empresa.
– E por que não? – ela perguntou já se sentindo a folha branca outra vez...
– Não sei... – pensativo – Acho que eu tinha maior autocontrole antes. Mas com você eu não tenho... Nenhum... Com você minhas emoções falam mais alto.
Betty sorriu diante da revelação e Armando mais uma vez ficou encantado com seu sorriso.
– Eu amo você, Beatriz! Não consigo colocar em palavras o quanto
– E eu amo você, Armando! E estou tão feliz que tenho medo...
– Medo de que, mi vida? – ele perguntou, segurando seu rosto
– Medo de acordar um dia e descobrir que foi tudo um sonho. Medo que aconteça algo que o afaste de mim...
– Não, mi amor. Não é um sonho. E nada, a não ser a morte, vai me afastar de você...
Ela o encarou, espantada, ficando rígida. Por um segundo essa hipótese passou por sua cabeça como uma lâmina a rasgar-lhe a vida, e ela se assustou imensamente.
– Não diga isso, Armando! Nem de brincadeira!
– Desculpe! Me perdoe, mi vida! Não fique assim...
Armando a beijou avidamente como se quisesse varrer de sua memória o que dissera.
Sentindo seu corpo amolecer outra vez, Betty interrompeu o beijo, antes que se deixasse levar pelo desejo de novo.
– Doutor, ainda temos algumas coisinhas para fazer...
– Sim, Beatriz, emos muitas coisinhas para fazer... – ele murmurou, recomeçando as carícias.
– Não, Armando! – Ela riu — Estou falando do trabalho, dos papéis, mi amor... Ainda não terminamos.
– Depois, Betty... Primeiro temos outros assuntos para resolver muito mais importantes...
Ela desistiu de tentar resistir porque sabia que era uma batalha perdida. E eles se amaram outra vez, mas lentamente, saboreando cada sensação, cada carícia..
Após saciarem seus corpos, terminaram o trabalho mais urgente, e deixaram a Ecomoda, cansados, porém muito felizes. Na volta, repetiram o mesmo ritual de quase todos os dias: Armando a seguiu em seu carro e esperou até que ela lhe acenasse, lhe atirasse um beijo e entrasse em casa em segurança, para só então seguir para seu apartamento.
****
No dia seguinte, Betty acordou, escolheu com cuidado a roupa que iria usar, fez a maquiagem básica de sempre, caprichou nos detalhes, arrumou os cabelos, prendendo parte deles, e sorriu para o espelho. Quem lhe devolveu o mesmo sorriso era uma mulher radiante e bonita, diferente daquela com quem estava acostumada a se encontrar nas manhãs cinzentas pelas quais tinha passado... Sorriu de novo. Estava ansiosa para chegar logo à Ecomoda e descobrir se Armando ainda estava com toda aquela vontade de beijá-la do dia anterior, porque ela, sim, estava com muita vontade de beijá-lo.
Armando sonhara com Betty a noite toda. Cobria aquela boca linda de beijos de sabores diversos e faziam amor descompassadamente na sua cama como se fossem as duas únicas pessoas do mundo. Acordou com dificuldade, se agarrando nos lençóis para não sair de onde estava, mas a sua consciência lhe disse que ele também a veria no mundo real e então ele abriu os olhos e foi direto para o banho. Queria muito sentir os lábios de Betty novamente. E não via nada na sua frente senão isso. Foi para a Ecomoda cantarolando e batendo os dedos no volante.
Betty chegou à empresa feliz, radiante e louca para encontrar Armando. Por onde passava recebia elogios pelo seu novo sorriso e agradeceu encabulada. Ainda não se acostumara a ouvir elogios por sua aparência física e ficava sempre muito sem jeito.
Chegou a sua sala e encontrou uma cesta de flores do campo, suas diversas cores espocando cheiros diferenciados no ar, talvez pelos movimentos de Aura Maria ajeitando-as, doida para saber o que estava escrito no cartão. Betty aproximou-se, sorrindo, lembrando-se do dia em que Armando lhe dera um buquê de rosas vermelhas e prometera que não seria a última vez que ela receberia flores. Ela pegou o cartão diante de uma curiosíssima Aura Maria e leu, emocionando-se com as palavras que ela sabia serem sinceras:
“Flores de muitas cores para mostrar como passei a enxergar o mundo depois que você entrou em minha vida. Te amo. Do seu Armando”.
Dirigiu-se à sala de Armando, deixando uma decepcionada Aura Maria para trás porque não lhe contara o teor do cartão. Deu uma leve batida na porta e entrou. Assim que a viu, Armando, que estava tentando fazer uma ligação, soltou imediatamente o telefone e foi até ela, sorrindo, acolhendo-a num abraço apertado.
– Bom dia, mi amor! Você está linda esta manhã! Aliás, você está linda todas as manhãs! Você está sempre linda! Você é linda!
– Bom dia! – ela respondeu sorrindo com o rosto apertado contra o ombro dele.
– Você já viu as flores?
– Sim, são lindas! Obrigada, mi amor! Principalmente pelas palavras que me escreveu.
– Não escrevo nada diferente do que sinto, Beatriz.
Eles entregam-se a um beijo doce, saboreando um ao outro sem pressa.
Ficariam assim por muito tempo mais se não fossem interrompidos por batidas na porta que os trouxessem de volta à Terra. Separaram-se a contra gosto. Armando contraiu a expressão extravasando a dor do tombo levado.
– Entre — ele disse, ríspido.
Era Sandra, avisando que ele tinha uma chamada de um empresário franqueado de Porto Rico. Só então ele se deu conta de que deixara o telefone fora do gancho.
– Atenda, Armando. Depois conversamos.
Armando não gostou nem um pouco da interrupção, mas caminhou de volta a sua mesa, revirando os olhos, para atender ao telefone, amaldiçoando-o em pensamento.
Betty retornou a sua sala e olhou encantada novamente para as flores, parecia uma pintura impressionista, salpicada de cores e tons. Suspirou e começou a organizar suas coisas para trabalhar. Alguns minutos depois, Nicolas entrou para entregar-lhe uns papéis. Estava mais encurvado que o natural e já não tão arrumado como de costume. Betty percebeu o semblante triste do amigo e disse:
– Nicolas, ainda triste por causa da oxigenada?
– Ah, Betty! Isso nunca vai passar – ele confessou, fazendo seu característico gesto com as mãos.
Uma cortina cinza de um tecido frio desceu sobre os olhos de Betty. Estava tão feliz vivendo sua história de amor que não havia dado atenção suficiente a seu melhor amigo quando ele mais necessitava.
– Nicolas, venha cá. – Ela se levantou e caminhou em direção ao sofá. – Sente-se aqui, vamos conversar.
Ele a obedeceu, não muito animado com o convite. De tão encurvado pelo peso da tristeza, ele parecia menor, e o cinza da cortina de Betty ficou mais cinza ainda.
– Nicolas! Reação, homem! Você trabalha numa empresa de modas! Tantas modelos lindas...
– Ah, Betty, mas a Patty era diferente... Tinha um brilho nos olhos que nunca vi em outra mulher...
– Brilho de inveja, de ambição – ela respondeu sorrindo da sua forma típica.
– Ah, você diz isso porque não a compreende... Uma mulher deslumbrante, sem estudos e abandonada pelo marido... É difícil a situação dela, Betty, é difícil...
— Mas ela nunca amou você, Nicolas.
— Mas é porque não tivemos tempo, Betty, vê bem, tempo... Ultimamente eu a estava conquistando, bem aos poucos...
– Muito bem aos poucos, não é? Tanto que ela se foi...
– É, se foi, e deixou meu coração pequenininho, pequenininho.
– Mas você tem que pensar para frente, meu amigo, ela se foi, mas existem muitas outras...
– Não, para mim, não. O amor da minha vida se foi, para sempre. Preciso ir, Betty. Obrigado pelas palavras, mas...
E saiu da sala.
Os olhos de Nicolas estavam como duas janelas fechadas, e o coração de Betty se sufocava em vê-lo assim. Entretanto, não pensava em mais nada para poder dizer a ele, algo eficaz que o tirasse daquela depressão logo, era terrível vê-lo daquela maneira, ainda mais numa época em que tudo estava dando certo para ela. Queria compartilhar todos esses momentos com ele, mas sua voz se calava quando se deparava com ele naquele estado. Tinha que pensar em alguma coisa...
Nesse momento Armando entrou na sala de Betty, rapidamente se sentando ao lado e acordando-a com um beijo. Betty se assustou de leve, mas sorriu e lhe correspondeu aquele beijo roubado na hora certa, beijo esse que, para Armando era como drogar a sua alma fazendo-o esquecer de quem era e onde estava.
– Desculpa, mi Betty, mas fazia tanto tempo que não sentia seus lábios nos meus... Muito tempo nesse mundo, pelo menos, e aquela última vez não contou porque fui bruscamente interrompido.
– Como assim? – ela perguntou com um largo sorriso inferindo do que se tratava.
– Não nesse mundo porque você reinou sobre meus sonhos toda a noite. Você e esses lábios de ambrosia, maravilhosos.
– Então posso imaginar que passou bem a noite.
– Ah, sim, e muito bem acompanhado, sem dúvida.
Betty sorriu e abaixou a cabeça. Armando beijou-lhe a testa:
– Mas por que quando cheguei você estava triste?
Betty suspirou, como que dividindo o peso com Armando.
– Estou preocupada com Nicolas, ele está mal pela Patrícia...
– Ah, mas ele trabalha numa empresa de moda, há tantas modelos!
– Foi o que eu disse a ele, mas não surtiu efeito... E não tenho ideia do que posso fazer para animá-lo...
Armando assentiu, ficando calado logo em seguida, e Betty teve uma visão com ele e Nicolas conversando na sala deste. Seria ótimo que Armando conversasse com ele, pois entenderia melhor o que se passava e saberia escolher as palavras certas para dizer. Diante desse raciocínio a visão ganhou contornos mais nítidos, e ela disse sem hesitar:
– E se você conversasse com ele?
Armando olhou-a como se não tivesse entendido a frase:
– Eu?
– É. Você saberá conduzir essa conversa muito melhor, sabe como ele se sente, mais do que eu saberia... E eu ficaria tão mais tranquila...
Quando Betty começou a falar, Armando não estava muito animado com a proposta feita, entretanto, aquela última frase foi como um tiro de fuzil direto nos seus pretextos. Ele se remexeu no sofá:
– Se for para tirar esse véu escuro dos seus olhos... E se você me prometer muitos beijos se eu for bem sucedido na minha tarefa... Por mim, está bem.
– E se você não for?
– Daí quem te dá os beijos sou eu.
Betty riu e Armando sentiu como que presenteado em ver sua face calma outra vez.
Fale com o autor