Um Novo Final
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Quinze dias se passaram e Armando ainda não encontrara a “ocasião correta”, como ele dizia, para falar com Seu Hermes. Betty apenas se divertia com cada desculpa para adiar a tal conversa. Era Seu Hermes que não aparecia na empresa no dia em que ele se dispunha a contar, era a falta de oportunidade, o fato de nunca encontrar Seu Hermes sozinho, o humor deste que não estava agradável, ou o humor do próprio Armando... Ela não tinha pressa. Sabia que, a partir do momento em que o pai descobrisse tudo, eles não teriam paz. E estavam tão felizes... Mais unidos a cada momento...
Naquele dia Betty tinha uma surpresa para ele. Iria tirar o aparelho dos dentes. Havia pedido a ajuda de Dona Catalina mais uma vez e já havia marcado com o dentista. Tinha dito a Armando que iria almoçar com a amiga e que desta vez iria só. Ele se mostrara contrariado, como era de se esperar, mas Betty o convencera, depois de muita conversa e muitos carinhos e beijinhos, que ela precisava daquele momento para ela e ele, por medo de sufocá-la, não teve outro remédio a não ser aceitar.
Chegada a hora do almoço Betty foi ao escritório de Armando para avisar que já ia sair e não pôde evitar rir da cara dele. Parecia que ela iria fazer uma longa viagem...
– Já vai, mi amor? – ele levantou-se e foi até ela com cara de desconsolo.
– Sim – ela respondeu, sorrindo.
Ele a abraçou forte:
– Não demore, ouviu? – disse, segurando-a pelos ombros e afastando-a um pouco para poder olhá-la.
– Ai, Armando! Faz tanto tempo que não converso com Dona Catalina... – ela tentou deixar claro que ia demorar, prevendo que não seria assim tão rápida a retirada do aparelho.
– E o que vocês têm tanto para conversar? – Ele cruzou os braços, desconfiado.
– Armando, não comece! – Ela o repreendeu gentil, porém firmemente.
– Desculpe, mi amor! É que tenho medo de Catalina...
– Medo de Dona Catalina? Não seja bobo...
– Eu sei, eu sei! É bobagem minha, mas é que Catalina sempre traz coisas novas para você: novos horizontes, novos caminhos, novas alternativas... Bem capaz de você chegar com outro francês a tiracolo, ou inglês, japonês...
Betty riu:
– Armando, ouça-me bem: – Ela segurou o rosto dele entre as mãos – Nada vai me afastar de você. Nada!
– Eu sei, mi vida! – Encosta a testa na dela – Estou me esforçando... de verdade.
– Eu sei que você está se esforçando. E está indo muito bem.
– Estou?
– Sim.
– Então eu mereço uma recompensa, não?
– Merece, sim.
– E qual será minha recompensa doutora?
– Vou pensar...
Betty tenta soltar-se dele:
– Tenho que ir, Armando...
– Não... – ele murmurou,manhoso, puxando-a para si.
– Não seja bobo, mi amor! Eu só vou almoçar com uma amiga querida e logo estarei de volta aos seus braços.
– Vou esperar ansiosamente...
Beijaram-se mais uma vez e Betty finalmente conseguiu sair do escritório de Armando que ficou desolado. Cada vez que Betty estava longe dele era como se uma grande nuvem cinzenta encobrisse o sol e tudo se tornasse escuro e sem vida. Nesses momentos sentia muita falta de alguém com quem conversar, para quem contar todas as coisas que se passavam dentro dele, suas angústias, seus medos e inseguranças, a maneira quase doentia com que amava Beatriz, o receio que tinha de sufocá-la e o medo ainda maior que tinha de perdê-la. Mas, de repente, ele só tinha Betty e isso o assustava. Nunca pensara que um dia sua vida giraria em torno de uma única pessoa que não fosse de si próprio... Ele precisava aprender a dar um espaço para Betty ter seus momentos de privacidade, ainda que isso lhe custasse muito. Sacudiu a cabeça tentando afastar esses pensamentos. Ele precisava concentrar-se no trabalho. Betty logo estaria de volta aos seus braços, como ela lhe dissera, tudo o que ele tinha a fazer era esperar....
Resolveu sair para o almoço, ainda que só. A Ecomoda erguera-o do chão pelo pescoço e ele precisava de ar. O dia estava raramente ensolarado demais e a visão de tudo colorido e iluminado chegava gritando nas suas vistas. Colocou seus óculos de sol, clamou por uma chuva, com direito a raios, trovões, pessoas correndo e árvores caindo. Entrou para o carro e se dirigiu ao LeNoir.
Sentou-se, fez o pedido e aguardou. As cinco mulheres que passaram pela sua mesa pareciam-se com cinco fantasmas de pessoas mortas recentemente, com sangue na roupa e corpo esfolado. Gastou menos de um minuto com todas elas, juntas. Diziam-se conhecidas dele, entretanto, não se recordava de nenhuma, estavam mais próxima de manchas de que de seres humanos... Talvez seja isso mesmo que elas foram todo esse tempo... Manchas... Sentiu pena delas... Mas, ainda assim, não queria a companhia de nenhuma. E cadê a maldita chuva? E a comida?
Pensava nisso quando sentiu uma mão tocar seu ombro de leve. Esperava ver mais uma mulher beijar-lhe a face, mas esse beijo não veio. Olhou para trás e viu um homem magro, de rosto e nariz fino, muito branco, de olhos e cabelos castanho-claros. Uma figura muito familiar que ele logo reconheceu. Levantou-se:
– Gabriel?
Gabriel sorriu e apertaram as mãos.
– Quanto tempo, Armando...
– Desde que nos formamos, nunca mais nos vimos. Sente-se! Conte-me o que tem feito!
Ambos sentaram-se:
– Só segui o que estava planejado... – Gabriel disse. – Depois que me formei, entrei para os negócios da família e me casei. E tenho um menino de três anos. Gustavo Adolfo.
– Você sempre teve o perfil mesmo de chefe de família, sempre disse isso. Me parece muito tranquilo, deve estar muito satisfeito.
– Sim, estou. Não são todas as pessoas que chegam na minha idade com a vida resolvida como a minha. Muito bem resolvida...
Tinha a expressão serena e risonha enquanto falava e sua voz tinha um timbre equilibrado que transmitia uma tranqüilidade muito grande. Ele sempre fora assim, e apesar de não serem muito próximos na faculdade, Armando sempre o admirara e simpatizara-se com ele, ainda que tivessem visões de mundo totalmente diferentes. Mas, naquele momento, ele era outro Armando, e pensou que talvez fosse uma boa hora para cultivarem uma amizade.
– E você, meu amigo? Como tem passado? Me parece diferente. E, enquanto almoçava vi você dispensar umas cinco, seis mulheres. Por um momento pensei que não fosse você... Por isso não vim até aqui tão prontamente. Está bem?
Armando sorriu. Sua mudança era tão notável assim? Ficava satisfeito em ver que era:
– Estou só hoje, minha namorada me deixou para almoçar com uma amiga...
– Mas você está desconfiando de algo dela?...
Armando olhou-o sem entender por alguns segundos, até que as palavras se ligaram na sua cabeça. Sorriu.
– Não! Não, não, não. Não desconfio dela, não. Se diz que está com a amiga, está com a amiga... Eu que fico meio... “idiota, estúpido, sem cérebro...” Perdido, quando não estou com ela...
Gabriel sorriu:
– Ah, entendi. Te entendo perfeitamente... Está apaixonado.
– Sim, demais... Mas não um demais bom, entende? Um demais... demais.
– Mas isso é bom, não é?
Armando sacudiu a cabeça numa negativa:
– Não sei. Tem hora que eu acho que só tenho vida ao lado dela... Me pareço mais com um vampiro que com um namorado. Para não sufocá-la, deixo que ela saia com a amiga... Mas daí olho para mim e estou no limbo...
Gabriel colocou a mão em seu ombro.
– Calma, as coisas são assim mesmo... Mas quando ela sair com as amigas, aproveita para encontrar os seus amigos!
Armando sorriu sem graça.
– Sim, os meus...
– Pode me incluir na sua lista, se tiver espaço.
– Lógico que tem espaço para uma pessoa como você, Gabriel, sempre teria.
– Fico muito contente, obrigado!
Gabriel olhou as horas no seu relógio:
– Agora preciso ir buscar minha esposa e meu filho no clube, espero que voltemos a nos encontrar para relembrar a época de faculdade e falar da vida... Depois a gente combina um passeio em família.
– Claro, será muito bom.
Trocaram números de celulares e Gabriel se foi. Armando terminou o almoço só, mas o sol já não o incomodava por brilhar.
Ele voltou do almoço e não viu o carro de Betty na frente da empresa. Resolveu estacionar na garagem, na esperança de encontrá-lo lá, mas também não o viu. Sentiu-se desapontado, mas se resignou e pensou que Betty devia ter muito que conversar com Catalina, ele precisava compreender. Lembrou-se da conversa com Gabriel e de como foi agradável poder conversar com um amigo, algo que há muito ele não fazia. Era um bom programa, não negava, mas queria que ela voltasse logo.
Seu celular tocou e assustou-o. Desde que rompeu com Marcela seu celular tem estado muito silencioso. Entretanto já não o via mais como uma granada prestes a explodir. Pegou o telefone e abriu um sorriso quando viu que era Betty quem está ligando.
– Alô?
– Oi, mi amor! – a voz sorridente dela do outro lado da linha animou-o.
– Onde você está? Por que está demorando tanto? – ele disse, tentando não parecer tão ansioso.
– Estou com Dona Catalina. É que ela tinha que comprar umas coisinhas e me chamou para ir junto.
– Eu sabia que Catalina estava tramando alguma coisa... O que vocês estão aprontando? Beatriz, não mude mais nada, ouviu? Eu a amo do jeito que está!
– Calma, Armando! Nós não estamos aprontando nada. Fique tranquilo. Eu só liguei para avisar que ia demorar um pouquinho e porque estava com muita vontade de ouvir sua voz...
– Está bem, Betty. Mas não demore muito, sim? Não vai me deixar a tarde inteira sozinho. Você sabe que sinto muito sua falta! Já não chega as noites que tenho que passar sem você!
– Não, mi amor! Logo estarei chegando! – Ela sentiu-se culpada por estar enganando-o. – Te amo, Armando!
– Eu também, Betty!
– Tenho que desligar, mi amor... Até daqui a pouco.
– Até.
Ela desligou, ele suspirou e saiu do carro.
****
Betty olhava maravilhada para seu sorriso no espelho. Finalmente estava livre dos aparelhos e podia ver seus dentes perfeitos e branquinhos devido a uma limpeza que o dentista fizera. Era tão estranho ver-se sem os aparelhos que a acompanharam praticamente durante toda sua vida, eram como parte de si... A última daquela Betty bobinha-infeliz... Que sensação agradável... E ela mal podia esperar pela reação de Armando quando visse seu novo sorriso. Pensou se seria mais gostoso beijar, enrubescendo de imediato com esse pensamento.
– E então, Betty? Satisfeita? – Catalina perguntou.
– Sim. Muito, Dona Catalina. Muito obrigada mais uma vez.
– O que é isso, Betty! Eu não fiz nada. Foi o dentista que fez...
– Mas foi a senhora quem o indicou e conseguiu o horário para mim. Devo-lhe mais essa.
– Você não me deve nada, Betty. É uma grande satisfação para mim ajudá-la. E principalmente vê-la feliz assim, com esses olhinhos brilhando...
Betty sorriu encabulada.
– Sim, estou muito feliz, Dona Catalina. Tanto que às vezes tenho medo que tudo seja um sonho... Tenho medo de não merecer tanta felicidade...
– Deixe de bobagens, Betty! Você merece, sim! Se tem alguém que merece ser feliz, esse alguém é você.
Betty sorriu mais uma vez para si mesma no espelho.
– Será que Armando vai gostar?
– Claro que sim! Por que não gostaria? Você está ainda mais linda! Ele vai adorar, Betty, fique tranquila.
Betty sorriu sem muita convicção, lembrando das palavras dele ao telefone: “Beatriz, não mude mais nada, ouviu? Eu a amo do jeitinho que está!”. Teve medo também de que ele ficasse bravo pelo fato de ela não ter dito a ele que ia tirar o aparelho. Armando ultimamente estava tendo umas reações estranhas...“Mas ele vai gostar” Ela tentou se convencer, enquanto tomavam o caminho de volta à Ecomoda.
****
Armando ficou tentando enganar o tempo que ficava sempre mais esperto, deixando-o entediado. Foi e voltou de sua sala milhares de vezes para ver se Betty chegara e esquecera de passar pela sala dele. Mas ela não havia chegado. Ficava apreensivo quando ela saía com Catalina. Esperava que ela não aparecesse loira na sua frente ou com uma roupa curta colada no corpo. Ou com um estrangeiro sabe-se lá de que parte do mundo... Queria sua Betty voltando do jeito que foi, sozinha, inteira e o mais rapidamente possível. Olhou uns papéis em sua mesa que precisavam de assinatura e se pôs a trabalhar.
****
Betty chegou à Ecomoda e não conseguiu evitar o coração cavalgando no seu peito. Sentiu-se estranha, não sabia ser natural devido à ansiedade. Foi direto para a sala de Armando que estava assinando uns papéis.
– Olá, mi amor – ela disse sem lhe sorrir.
Armando levantou os olhos para ela. Parecia-lhe normal. Pelo visto Catalina não teve nenhuma ideia mirabolante dessa vez. Levantou-se de uma vez com uma expressão abandonada.
– Vou contar em segundos o tempo em que você me deixa... Só assim pra você perceber a quantidade de tempo que foi.
Disse isso já abraçando-a e beijando-a. Não sentiu mais aqueles usuais arranhões do aparelho. Separou-se dela.
– O que você fez...?
Betty lhe sorriu:
– Tirei o aparelho...Gostou?
Ele sorriu, surpreso: ficara linda, mais linda ainda a seus olhos, se era possível. E que beijo era aquele! Inexplicável de tão bom. Só dava vontade de beijá-la sempre.
Beijou-a de novo, um beijo longo e suave.
– Mi amor, você ficou linda!
Deu-lhe outro beijo, menos demorado dessa vez.
– E... que delícia! Agora que não te solto mais!
Beijaram-se entre os risos de Betty que ficou bem mais tranquila em ver que ele gostara da surpresa.
– Armando, eu preciso trabalhar – ela disse, se virando.
Armando abraçou-a por trás:
– Esquece, pode esquecer... Traz sua mesa pra cá.
Ela riu:
– De novo isso?
Ele dava beijinhos em seu pescoço:
– Não, antes eu estava pensando em colocar a minha mesa lá.
– Mas eu preciso mesmo ir, preciso fazer uns telefonemas.
– Então me dá outro beijo.
Ela se vira para ele passando os braços por seu pescoço e ele segura o rosto dela. Beijaram-se.
– Betty, seu beijo está muito mais gostoso do que eu podia imaginar. Posso nunca me acostumar, sabia?
Ela deu-lhe um selinho:
– Devia ter tirado esse aparelho antes...
As suspeitas que tivera no consultório se mostraram verdadeiras. Achou incríveis os beijos de Armando agora que ela tirara aquele aparelho, além de achar muito engraçado ele todo empolgado, querendo beijá-la sempre.
– Mas agora tenho que ir, Armando.
– Então, 'tá, o que posso fazer...
– Pode me soltar – ela disse, sorrindo.
Ele ri dando-se conta de que ainda a segurava pela cintura. Apertou-a contra si e deu-lhe mais outro beijo. Então a soltou e ela saiu, com aquele sorriso de nuvem num dia claro.
Ele ainda foi várias vezes à sala de Betty só para beijá-la. Se antes já se considerava viciado nela, naquele momento poderiam decretar estado de emergência, porque tão logo a soltava, sua boca secava e isso o colocava louco de vontade para colar seus lábios ao dela.
Betty só se divertia. Havia muito que não se divertia tanto com ele dessa maneira.
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