Notas iniciais
Editado em: 23/04/2013

Betty mantinha a cabeça apoiada no peito de Armando e um braço em sua cintura. Armando possuía um cheiro de tranqüilidade que a inebriava e a deixava satisfeita, porque sentia que o havia resgatado detrás daquela cortina de sombras. Ela sabia que ali ele estava de alma colada na dela, e era assim que queria que permanecesse... Seu.

Armando acariciava o ombro e o braço que ela tinha sobre ele. Não pensava em nada, era como se tivesse nascido naquele momento, pronto e acabado, e as situações anteriores não tivessem ocorrido. Apenas sentia em cada centímetro da sua pele os vestígios dos beijos e das carícias de Betty, sua Betty, sempre e sempre sua... Esperava enquanto sentia esses vestígios entrarem em sua carne, e sabia que ela era sua salvação e maldição, mas estava preso àquela mulher pra sempre e a jaula nunca fora tão espaçosa, tão sedutora e tão viciante.

Ambos permaneceram como estavam durante um longo tempo, se recuperando da explosão de sensações e sentimentos que viveram minutos atrás.

Ela levantou a cabeça para olhá-lo e o observou por alguns segundos, procurando saber se ele ainda estava bravo.

— Por que me olha assim? — Armando perguntou olhando-a ternamente, sem nenhuma marca daquela distância de antes.

— Por que quero saber se você ainda está bravo... — ela disse entre um meio sorriso.

Aquela pergunta caiu sobre Armando como um bloco de concreto e as lembranças jorraram-lhe no cérebro todas de uma vez, em desordem, dançando em um ritmo frenético. Ele fechou a cara:

— Sim. Ainda estou bravo! — disse retirando o braço de Betty e a empurrou gentilmente pelos ombros, tentando levantar, mas Betty não deixou.

— Não, senhor! Você não vai sair daqui. Pelo menos até me explicar por que está bravo.

— Não tenho motivo nenhum para estar bravo, Beatriz? — ele a fulminou com o olhar.

— Não! Não vejo nenhuma razão para que você esteja bravo!

Armando se soltou dela, sentou-se na cama e colocou as mãos no rosto, elas já estavam frias devido à ansiedade que toda aquela dança sem sentido provocara na sua cabeça.

Betty também se sentou e o abraçou por trás, sentindo sua angústia. E ela lhe pesava no coração, assim como pesava no dele...

— O que o atormenta, mi amor?

Armando balançou a cabeça de um lado para outro, as ideias correram dele tão logo ele se pôs a caçá-las. Simplesmente não conseguia falar.

Betty acariciou-lhe os cabelos e lhe deu pequenos beijos nos ombros, deixando seu amor entrar nos poros dele bem aos pouquinhos. Armando sentiu, e aquilo teve um efeito encantador ainda que travasse uma batalha com toda a angústia...

Depois de alguns minutos, vencido, ele se voltou para ela e lhe disse, os olhos torturados:

— Eu sei que não devia reagir assim, sei que não tem sentido. Mas não consigo controlar. Tenho medo, Betty, muito medo cada vez que algum homem se aproxima de você...

— Medo de que, mi amor, se eu só tenho olhos para você? — ela perguntou passando a mão em seu rosto.

— Quer dizer que você não enxergou o argentino? Nem reparou que ele é... Bonito? — Armando comentou, cínico.

— É claro, Armando! Eu não sou cega! — ela respondeu impaciente.

— Não é cega... Claro! — ele comentou, ríspido, balançando a cabeça e passando a mão no cabelo. — E vai me dizer agora que não se arrumou toda, que não ficou toda bonita só porque ia jantar com ele?

Betty, em meio a sua surpresa, finalmente conseguiu perceber as coisas claramente, uma depois da outra. Ainda assim não era suficiente para que ela não se sentisse extremamente desapontada, pois não conseguia entender a lógica de raciocínio dele. Depois de tudo o que eles passaram e ela ainda ter decidido ficar consigo, Armando pensava que ela iria se interessar pelo primeiro que aparecesse?

— Armando!? Eu não acredito! Você realmente acha que eu me arrumei para ele?

Armando a olhou com um misto de acusação e esperança no olhar. Por um raio de segundo alguma coisa acendeu em sua mente e, embora ele não entendesse o que era, gostou muito dessa pequena fagulha.

— Eu me arrumei assim para você! — Betty quase fritou. — Para você, Armando!

Ele caiu em si nesse momento e o embaçado da sua frente se esvaiu como mágica. Percebeu que essa parede de bruma não era nada além do seu ciúme. E a primeira visão que teve, depois de ver tudo limpo outra vez, foi a profunda mágoa revelada nos olhos de Betty.

Mi amor, mi amor! – ele disse profundamente arrependido e a abraçou forte. — Sou um idiota, um estúpido! Perdoe-me... – ele a beijou com desespero e continuou pedindo perdão entre um beijo e outro.

— Chega de pedir perdão, Armando... Não quero perder mais nosso tempo com isso. Estamos aqui sozinhos e temos pouco tempo... — ela disse sorrindo e a sua voz era leve como uma brisa de verão.

Armando voltou a beijá-la. Sentiu um gosto doce em sua boca, como sentia antes de ser acometido por esse ciúme estúpido. Ela interrompeu o beijo para dizer:

— Armando, eu te amo, sempre te amei. Não há espaço em minha vida para mais ninguém. Você sabe disso! — Betty estava muito séria, olhando-o nos olhos.

Ele tinha o olhar triste, mas escutou aquelas palavras com satisfação.

— Sim, Betty, eu sei. Vou superar isso, mi amor! Mas... — ele se calou porque não queria pressioná-la.

— Mas o que, Armando?

— Se você... Se nós... Se todos soubessem que nos amamos, que estamos juntos seria mais fácil — pelo menos era no que ele acreditava...

— É isso o que você quer? É isso o que o incomoda?

Armando deu de ombros e as ideias novamente correram dele como sua caça acuada.

— Está bem, Armando — ela disse. — Mas teremos que falar com meu pai. Eu não sei como ele vai reagir. E, além disso, ele vai nos vigiar de perto. Mas, tudo bem, um dia ele vai ter que saber, não é?

— Sim, Betty, um dia ele vai ter que saber.

— Falaremos com ele amanhã, então.

— Amanhã? Já?

— Por que não?

— Amanhã... É... – coçou a cabeça – Betty, me dê pelo menos um dia para me preparar.

Ela não pôde deixar de sorrir:

— Está bem! Depois de amanhã, então. Mas agora, Doutor, nós é que vamos ter uma “conversinha”...

Ela se joga nos braços dele, rindo, e ele a beijou deitando-se novamente.

— Você realmente achou que eu estava bonita hoje? — Betty perguntou com a voz entrecortada porque Armando estava beijando seu pescoço.

— Bonita, não – ele respondeu sem parar de beijá-la. — Você estava linda! Linda! Parecia uma visão quando saiu de sua casa e caminhou até o carro, acho que meu coração parou até de bater, só pra te olhar também...

— Eu queria seduzi-lo...

— Sim? — ele parou de beijá-la e a olhou intrigado, apoiando-se nos cotovelos.

— Consegui?

— Hum... — ele fez cara de quem estava em dúvida. — Não sei, será que conseguiu?

Eles riram, se livrando das algemas de tensão às quais estiveram presos durante todo o dia.


****


Armando dirigia rumo à casa de Betty com um sorriso satisfeito nos lábios. A tempestade havia cessado e ele se sentia um início de sol a secar os vestígios de chuva das plantas. Sua Betty repousava a cabeça em seu ombro, como nos velhos tempos, como seria dali para frente, dali para sempre...

Betty suspirou e Armando ampliou o sorriso, num reflexo, lembrando-se dos momentos vividos há poucos minutos em seu apartamento.

Betty também se lembrava desses mesmos momentos, circulando entre eles e a realidade, querendo estar nos dois lugares ao mesmo tempo...

Depois de desfeito o “mal-entendido” com relação ao argentino eles haviam voltado a se amar, dessa vez sem barreiras, sem pressa, deixando que o desejo os guiasse, desfrutando de cada carícia, de cada centímetro do corpo um do outro, como se o tempo tivesse sentado num banco de praça para descansar. E fora maravilhoso, ardente, louco, doce... Como sempre. Cada vez que fazia amor com ela era como se fosse a primeira vez. Sempre havia sentimentos novos, sensações inéditas a serem descobertas. E a cada dia ele se sentia mais preso a ela e a sentia mais sua.

E então chegara a hora de levá-la para casa, hora essa em que lhe arrancavam um órgão sem anestesia...

Pensou na conversa que teria de ter com Seu Hermes e estremeceu só de imaginar a reação do pai de Betty. Aquilo não seria fácil, mas, pensando bem, não seria nada comparado aos outros desafios que teve que enfrentar para ficar ao lado dela.

Lançou-lhe um rápido olhar e viu que ela tinha os olhos fechados. Pelo ritmo da respiração percebeu que ela adormecera. Pobrezinha! Há dias que não a deixo dormir direito...

Chegaram à casa de Betty. Armando parou, encostou a cabeça na dela e ficou assim por algum tempo, sentindo o perfume que emanava do seu corpo. Pela milésima vez ele se fzz a mesma pergunta: “Como pudera se apaixonar assim?”. Acordou-a segurando seu rosto com as duas mãos e dando-lhe pequenos beijos.

Ela então passou os braços ao redor de seu pescoço e procurou seus lábios, não sabia se sonhava ou se estava desperta, até que sentiu com intensidade o beijo dele e se situou.

Armando se deixou levar por alguns minutos, embriagado, mas sabia que era perigoso porque Seu Hermes podia aparecer e fazer um escândalo no meio da rua.

Carinhosamente ele retirou os braços do seu pescoço e, segurando-lhe as mãos de encontro ao peito, disse:

— Você tem que entrar, mi amor!

— Sim, eu sei.

Deram-se um último e rápido beijo. Armando não conseguiu se soltar dela, e nem ela queria que ele o fizesse, por isso permaneceram ainda colados um ao outro por um tempo.

— Eu te amo, Beatriz! — Ele ainda segurava-lhe as mãos.

— Eu te amo, Armando!

Ele sorriu:

— Já lhe disse que meu nome soa lindo em sua voz?

— Sim... — ela disse entre um sorriso tímido.

— Já?

— Sim, senhor.

— Então, agora vá! Você tem que entrar, antes que seu pai apareça.

— Doutor...

— Hum? — ele murmurou, olhando-a embevecido.

— Não poderei ir se não soltar minhas mãos.

— Ah, sim... — Ele não pôde deixar de rir da própria estupidez.

Betty saiu do carro, observada por Armando que controlava sua ânsia de sair também e ir de encontro a ela.

Chegando à porta, ela acenou e lhe jogou um beijo, pois sabia que ele estava esperando. Com o beijo foi também seu coração e seu espírito, mas ela nem se importa porque sabe que estão em boas mãos.

Com o coração cheio de ternura, sentimento que agora já lhe era familiar, e do qual se sentia dependente, Armando dirigiu de volta para casa.


****


O dia amanheceu chuvoso e cinzento em Bogotá, como sempre, mas Betty ainda via tudo em cores intensas com o sol reluzindo dos seus olhos. Entrou na Ecomoda sorrindo e cumprimentou as meninas.

Por seu semblante e pelo sorriso que brincava em seus lábios, as amigas já sabiam que ela passara a noite, ou pelo menos parte dela, com Seu Armando. E sabiam também que logo ele chegaria com a mesma expressão de felicidade.

Depois de cumprimentar todas, Betty entrou em seu escritório e começou a arrumar suas coisas sobre a mesa para trabalhar. Então ela viu o envelope com o questionário de Armando. Seus olhos brilharam de curiosidade. Ela ligou o computador, deixou-o fazendo o download das mensagens e abriu o envelope, animada, pondo-se imediatamente a ler as perguntas que Armando lhe fizera.

Eram muitas perguntas, algumas simples, a maioria sobre suas preferências, seus gostos pessoais principalmente. Algumas a fizeram rir, como: “Onde você quer passar nossa lua de mel?”, “Quantos filhos você quer ter?”, ”Você tem alguma fantasia sexual?” e “De todas as vezes que fizemos amor, qual você mais gostou?” Mas, de repente, ela se surpreendeu com perguntas como: “Por que você se apaixonou por mim?” “O que te atraiu a mim?” “Como você me descreveria?” “O que você mais gosta em mim?” e “O que você não gosta?

Ela se pôs a pensar nas perguntas. Por que ela se apaixonara por Armando? Começou, então, a recordar os seus primeiros dias ali na empresa, a lembrar-se da maneira fria como Armando a tratava no início. Isto lhe deu uma pontada de tristeza: lembrou-se dos gritos que ressoavam em seus ouvidos; lembrou-se das vezes em que o vira beijando Dona Marcela e beijando as modelos... Inevitavelmente, lembrou-se da carta de Calderón, de todo o plano para seduzi-la. Aquilo lhe provocou um gosto negro na boca e amargou-lhe os olhos. Mas então se lembrou de todas as vezes em que ele a defendeu de Patrícia, de Daniel, de Hugo, de Marcela e até de Román. Lembrou-se de como ele passou a ser o único, além das meninas do quartel, a tratá-la bem naquela empresa. “Claro, ele precisava de mim...”, ela não pode evitar pensar. Mas daí ela se lembrou de que ele a tratava bem muito antes de ela inventar a Terramoda. Lembrou-se da vez em que Charlie Zaa apareceu na empresa e lhe deu um beijo e Armando lhe pareceu bravo. Lembrou-se de que, quando ela o ajudou com a Carina Larson, ele lhe disse que ela era digna da confiança dele, e o que ela fez por ele em um dia, ele não esperava que fosse feito nem em três meses... E de como ele disse, meigo, que ela era a mulher de quem ele precisava. Armando a reconheceu como ninguém havia feito antes. Depositou toda sua confiança nela, dependeu dela sem nenhuma reserva a ponto de colocar uma empresa em suas mãos. Não pôde deixar de se lembrar também de todos os abraços de agradecimento que ele lhe dava, sem medo nenhum, de todas as vezes em que comemorava algum êxito dela, da empresa... Sabia que tudo isso era no nível da prestação de serviços, mas ninguém nunca lhe dera sequer a oportunidade de demonstrar seu trabalho, e, quando tentou no banco Montreal, não hesitaram um minuto em trocá-la por uma outra bonita, ao passo que Armando se prendeu a ela de tal forma que jamais ocorreria isso...

Ela não entendia como ele não se dava conta de que era tão lindo, charmoso e adorável. Ainda, perdida naquela época, via que, quando estava de bom humor, Armando trazia um céu azul sem nuvens atrás de si, era todo sorrisos e de uma educação impecável. Até as suas trapalhadas com os números eram adoráveis. Se ele cometeu atos irresponsáveis, como quase contrabandear tecidos do Panamá, não foi de má fé, afinal, só queria manter o seu sonho de menino de dirigir aquela empresa que tanto amava... Sorriu também ao se lembrar de todas as mulheres que morriam por ele, era quase impossível contar... Situações absurdas, em todos os graus, aconteceram na Ecomoda por isso... Não entendia era como ele pudesse se interessar por ela, isso, sim... Mas sacudiu a cabeça, não queria pensar nisso, queria ter uma resposta diante da questão de Armando perguntar-lhe todas essas coisas sobre si mesmo...

Nesse momento, a porta se abriu e Armando colocou sua carinha para dentro, como que espiando o que se passava ali, naquele instante. Estava mais lindo ainda, completamente relaxado e sorridente.

— Olá, mi amor — ele a cumprimentou.

— Oi, mi amor! Estou olhando seu questionário — ela disse, animada, mostrando-lhe a folha.

Armando, que já caminhava em sua direção, arregalou os olhos e se contraiu, tímido. Não queria estar por perto quando ela começasse a respondê-lo. Sentiu-se como que vestido num terno um número menor, mexeu-se tentando ajeitar a roupa e respirou fundo:

— Hora errada para eu estar aqui.

E tomou a direção da porta.

Betty se levanta.

— Não, espera, Armando...

Ele se virou pra ela, mas não teve coragem de olhá-la diretamente nos olhos.

— Na verdade é um momento muito oportuno para que conversemos — ela disse, contrariando sua fala de antes.

Ele sorriu sem graça:

— Não, mi amor. Na verdade, quero tudo por escrito.

Ele foi até ela e fez com que ela voltasse para a mesa.

— Você senta aqui direitinho, assim — Ele sentou-a delicadamente na sua cadeira e pegou a caneta para ela. — Veja meu rosto aqui nessa folha de papel. E tudo o que você quiser me dizer, escreva.

Ela sorriu, mas não aceitou. Quer lhe falar, quer ter um contato direto com ele, sentir as suas reações. Para que ter uma folha de intermediária entre ambos?

Sacudiu a cabeça numa negativa:

— Armando, é muito melhor nos falarmos...

— Não, senhorita, o combinado foi que escrevêssemos — ele disse já tomando o rumo da saída.

De repente virou-se para ela novamente:

— Esqueci-me de uma coisa.

Foi até ela e beijou-lhe ternamente, sorvendo em pequenos goles o absinto dos seus lábios.

— Amo você — ele disse baixinho quando se separaram.

— Eu também te amo, muito — ela diz, derretida.

Ele, então, simplesmente saiu e foi para sua sala.