Um Novo Dia
1 Capítulo 1
Nunca pensei que iria passar por um momento desses, não saberia como reagir ao menos. Ainda agora fico remoendo minhas lembranças de quando era bem jovem, elas parecem tão recentes.
Me sinto um pouco fadigado, de subir a escadaria da casa de campo do meu avô, fui correndo, abri a porta e lá estava ele de braços abertos. Eu o abraçava, enquanto sentia o cheiro de madeira invadir minhas narinas. Na mesma hora, meu vô, me pegava pela mão, e me levava para meu quarto, onde sempre encontrava um presente muito legal, depois descíamos, e corríamos para o píer do lago para pescar.
A casa do meu avô, não era muito grande, na entrada havia uma varanda, onde tinha uma rede de balanço e algumas plantas em vasos; eu adorava ficar na rede pelas manhãs. A sala era bem grande com um conjunto de sofás antigos e ao lado a cozinha. Lembro que gostava de ficar sentado no pé da escada assistindo meu vô cozinhar. No segundo piso, havia três quartos, um do meu avô, um de hospedes, e o meu. Somos cinco netos, mas sempre soube que era o preferido do meu avô.
O quintal era muito grande, do lado direito da casa havia um celeiro, onde ele guardava algumas ferramentas, na parte de trás um galinheiro e no lado esquerdo a entrada para o porão.
Durante 23 anos da minha vida passei minhas férias de verão naquela casa, depois que cresci meus amigos sempre me convidavam para irmos à praia, ou acampar, mas sempre agradeci os convites e corria pra casa de campo do meu avô.
Sempre quando chegava lá era o mesmo ritual, abraços, presentes, lago, jantar. Quando anoitecia ia para cama enquanto meu vô descia para o porão, ele adorava ficar arrumando as coisas lá. Em uma noite quando eu tinha uns 16 ou 17 anos, perdi o sono, já era tarde, desci as escadas procurando por ele, ao perceber que não estava em casa, ouvi alguns ruídos abaixo dos meus pés. Sim ele estava no porão. Abri a porta e sai, era uma noite iluminada por uma lua cheia, e com tanta luz dava pra perceber que o céu estava forrado de estrelas, a brisa morna soprava, e eu fui dando a volta na casa, enquanto ouvia os ruídos que vinham do porão. Ao me aproximar da porta, tive a sensação de ouvir a voz dele conversando com alguém. Achei estranho, pois meu vô não costuma receber visitas, principalmente neste horário.
Comecei a ficar desconfiado ao perceber que não era somente uma conversa, e sim uma discução, muito alta. Quando cheguei à frente da porta, forcei para abri-la, mas estava trancada por dentro, chamei por ele, e forçava mais a porta, a discussão cessou e um silencio se fez por uns instantes, fiquei paralisado. De repente uma mão me segura por trás me jogando para longe, o susto foi tanto, que somente depois quando estava em meu quarto novamente, pude lembrar a voz agressiva do meu avô questionando o que eu estava fazendo ali sem sua permissão.
Na manha seguinte, desci as escadas um tanto envergonhado, e como sempre o café já estava na mesa me esperando. Tomei o café sozinho, a primeira vez em todos estes anos, ficava sempre admirando um cesto com furtas, sempre novas, e nele nunca faltavam peras, meu avô não as comia, mas sempre dizia que elas eram guia para um caminho de sabedoria, eu achava aquilo engraçado e nunca entendi o porquê. Quando sai na varanda da casa, avistei meu avô sentado na rede, se embalando, olhando para o horizonte e fumando um cigarro de palhas. Ao sair da porta sua voz quebrou aquele silencio que me agoniava.
_Sabe filho, durante o ano, quando você não esta aqui, eu fico olhando o horizonte e imaginando como seria a vida se não houvesse o amanhecer...
Sem prestar muita atenção respondi
_ Queria me desculpar com você, vovô, não era minha intenção ser invasivo.
Como se eu não houvesse falado nada, ele continuou
_... Se não houvesse o que esperar, imagina como seria Angelis, se nunca esperássemos o amanhecer?
Aquilo me deixou meio intrigado, mas não pude deixar de refletir na frase. Em um súbito ele mudou a voz e virou o rosto a mim
_ E então, como estava o café? Gostou das panquecas? Fiz com leite de cabra!
Ainda intrigado respondi
_ Sim! Melhores que nunca!
_ Hoje logo após o almoço, vou até o vilarejo buscar algumas coisas – disse ele – e depois tenho algo que gostaria de te mostrar;
Não posso negar que fiquei curioso, ficamos ali mais uns instantes e entramos para guardar e limpar as coisas do café.
Logo após o almoço, fomos em direção ao celeiro para pegar a caminhonete.
_ Hoje você vai dirigindo – disse meu avô – já esta na hora de você começar a aprender manias da velha Ford.
Era uma caminhonete antiga, porem inteiraça, ele cuidava ela com muito apresso, sei que antes de mim, só havia aquela velha Ford. Não posso negar que fiquei orgulhoso, mas ao mesmo tempo preocupado, nenhum dos filhos dele havia guiado aquele carro.
Percorri com cautela os 14 km que separavam a vila do sitio. No percurso, quando passávamos por alguém, ríamos, porque os vizinhos acenavam pra mim pensando que eu era ele, ao perceber que não era eles ficavam nos fitando com uma cara atônita.
Chegando a pequena vila, fomos direto ao armazém do velho Muller. Um homem, alto, barrigudo. Nos seus cinquenta e poucos anos, a barba grisalha era muito comprida.
_ Veja quem esta por estas bandas! – disse Muller
Meu avo e eu sorrimos, ao entrar e fazer a sineta da porta tocar
_ Veja o tamanho deste rapaz Peter – Muller exclamou ao meu avo – não há como negar nossa idade! Parece que do ano passado para cá, seu garoto se tornou um homem!
Fiquei meio sem jeito, mas não pude deixar de estufar meu peito para parecer maior.
Mais que orgulhoso meu avô replicou
_ Mais alto que eu já esta! Só preciso prepará-lo para assumir meu lugar.
Fiquei surpreso com a resposta do vovô, mas não pude pensar mais, depois que Muller deu a volta no balcão e veio me abraçar;
_ Veja você Angelis_ Muller disse segurando meu rosto _ um homem bonito inteligente e querido, não deixe o velho Petter te encher com suas baboseiras. Quantos anos você está?
A mesma pergunta se repetia todos os anos, como alguém pode esquecer-se de algo em tão pouco tempo.
_ 16!- respondi – faço 17 em Agosto! – quis parecer mais velho.
– Nossa! Como o tempo passa rápido! Ele parece tão novo para tanta responsabilidade, não acha Petter?
Aquela pergunta me assustou, e no mesmo instante meu avo pigarreou e mudou de assunto
_E Norma? Como está? Melhorou da gripe?
Norma era a esposa de Muller, uma senhora de uns 50 anos, que fazia as melhores tortas que eu já havia comido.
_ Sim, gripe de verão! Ela foi levar umas encomendas para o clube do livro.
Muller compreendeu naquele momento a represália de meu avo, eles seguiram conversando sobre coisas, enquanto eu ia pegando algumas coisas nas prateleiras.
Na saída, o velho Muller correu até meu avo com um pacote de papel.
_ Já ia esquecendo a encomenda?? O velho Petter não é mais o mesmo! – riu
No mesmo instante eu pensei:
“hummmm.... tortas, tortas e mais tortas!”
Subimos na velha Ford e voltamos novamente para o sitio.
_Às vezes me pego pensando, e percebo que você já é um homem Angelis.
Eu sorri, e ele continuou
_Quando chegarmos quero te mostrar algo.
Já havia me esquecido que o vovô havia dito isso durante a manhã, e minha curiosidade voltou instantaneamente. Não perguntei o que era porque sabia que ele não me falaria ali, falaria somente no momento certo. O vovô aumentou o som do rádio e se dirigiu a mim
_ Lembra dessa?
No radio tocava "It's My Party", uma música que costumávamos escutar sempre.
Começamos a cantarolar enquanto nos dirigíamos a casa.
Chegamos a casa por volta das 17 horas e o Bob, veio nos receber na porteira do sitio, já era um cão velho, mas sempre acompanhando meu avô.
Descarregamos as compras, entrei na casa para guardá-las, enquanto o vovô se dirigia a cozinha para preparar o jantar.
_O que temos hoje Chefe? _ perguntei em tom de brincadeira.
O vovô interrompeu o assovio e respondeu em um tom só
_Soup!
_ Sopa, sopa, sopa..._ repeti.
Já estava anoitecendo quando terminamos de jantar e eu esperando pela sobremesa. Uma bela torta de limão da Dona Norma.
Vovô recolheu os pratos da mesa e os colocou na pia. Eu fiquei brincando com as peras do cesto, elas tinham um cheiro fabuloso, estavam no ponto para serem degustadas.
_ Você sabe que elas são a fonte da sabedoria?_ falou ele referindo-se as peras.
_Porque o senhor as tem sempre, se não as come? _perguntei
_Gosto da companhia delas! _ disse ele
Rimos da sua resposta, ele pediu para eu ir guardar as galinhas, porque já estava tarde e as raposas poderiam começar a atacar.
Quando entrei pela porta dos fundos, percebi que vovô estava sentado na poltrona da sala, com uma pera na mão, olhando-a como se fosse um cristal valioso
_Estava se sentindo sozinho!? _ brinquei
Rimos e ele respondeu:
_Sim, você demorou demais e eu peguei esta para me fazer companhia!
Sentei na sala e ele continuou olhando para a pera na sua mão por mais alguns instantes
_O que faz você sempre vir pra cá Angelis?_ a pergunta me pegou de surpresa
_Como assim vovô?
_O que faz um menino da sua idade passar as férias aqui no meio do nada, ao lado de um velho que gosta da companhia de peras? _rimos
_Ora vovô, gosto da calma, gosto das suas historias, da sua companhia, me sinto bem longe do caos daquela cidade grande, é como se esse lugar fosse mágico, como se tivesse um magnetismo, sinto que tenho que vir pra me fazer bem!
Ele largou a pera na mesa ao lado da poltrona, me olhou e começou a falar:
_ Lembro exatamente do dia em que você nasceu Angelis! Era uma noite morna, com um luar alto, que clareava a cidade. Seu pai me ligou pra avisar que você iria nascer. Sem hesitar, peguei a velha Ford, e corri para a cidade! Sentia uma alegria correndo por dentro de mim, que não aconteceu no nascimento dos seus primos. Quando cheguei ao hospital, minha filha estava amamentando uma criança linda, um menino forte. Parece coisa de vô, mas quando me aproximei para vê-lo, você parou de mamar, virou o rosto pra mim e me olhou no fundo dos olhos. Minha boca expulsou a frase: “Seja bem vindo, Angelis!”
Fiquei surpreso, porque não sabia desta historia.
_ A mamãe nunca havia me contado que o senhor tinha escolhido meu nome!
_ E não escolhi! _ respondeu ele _ Você já veio com ele
Fiquei intrigado, mas achei engraçado ao mesmo tempo.
_ Como assim vovô?
_ Filho_ ele pigarreou_ acredito que já viemos com nossos nomes, e no seu caso não foi diferente, Angelis o anjo salvador!
_ Nunca tinha parado para fazer esta analise! _ disse em um tom orgulhoso
_ Naquele dia sabia que iríamos ser mais que vô e neto, sabia que iríamos ser amigos, mas não queria me iludir com esta hipótese.
Fiquei esperando ele concluir o raciocínio
_ Seus primos são pessoas maravilhosas, mas cada um tem uma vida e um ritmo diferente, você é o único que desde pequeno me acompanha, me abraça forte e gosta de estar aqui. Com o tempo fui tendo a certeza que era você o meu sucessor!
Neste momento percebi onde ele queria chegar, em todo aquele papo que o velho Muller comentou no armazém, fiquei um pouco assustado, o que poderia ser algo serio, para ter toda essa cerimônia para me contar.
_ Sucessor de que? _ perguntei de susto
_ Calma garoto, aos poucos, um passo de cada vez!
Como sempre, gostava de ser misterioso, fazer as coisas com cautela.
_ Pegue esta pera aqui!
Ele jogou a pera que estava na mesa, e eu com um reflexo rápido a peguei no ar.
_ Quero lhe mostrar algo _ disse ele_, mas primeiro deixe eu pegar o lampião.
Com aquela frase comecei a ficar mais intrigado, iríamos sair? Àquela hora da noite? Iríamos entrar mato adentro?
A voz ecoou pelo corredor
_Calma! Não vamos longe!
Mesmo assim continuei assustado.
Ele apareceu na porta, com um molho de chaves na mão
_Pronto! _ me olhou_ O que você está esperando?
Dei um salto do sofá, e o segui. A noite já estava alta, e nós somente com a luz do lampião fomos dando a volta na casa.
Quando percebi onde paramos, não acreditei. Estávamos em frente à porta do porão.
_ Vovô, se o senhor queria jogar uma partida de biriba, não precisa ter feito todo esse mistério_ disse para quebrar aquele ar sério da coisa.
Ele continuou se abaixou e abriu o cadeado antigo, com uma chave grande e enferrujada.
Eu o ajudei a abrir as duas folhas da porta, que davam para uma escadaria escura.
Com cautela, fui descendo, seguindo a luz que pendia na mão do vovô.
_ E Deus disse: “Faz-se a luz!” _ disse ele quando acendeu o interruptor_ Pronto!
Nunca nos meus 16 anos e meio, havia descido no porão. Também nunca tive curiosidade para saber o que meu avo fazia lá todas as noites. O cheiro de umidade no ar era forte, e também um pouco abafado. Fui olhando ao redor e percebi que era quase igual aos demais porões que já conhecia. Tijolos a vista, algumas prateleiras de coisas inúteis, livros, caixas, caixas e mais caixas, exceto por um monumento envolto em um pano branco no outro lado, com uma luz direcionada, atrás uma parede em formato de arco, o que algum tempo atrás deveria ser uma porta, hoje fechada.
_Bom filho, a partir de hoje quero começar a te passar alguns ensinamentos que me foram passados quando eu tinha um pouco menos idade que você.
Naquele momento nada se passava na minha cabeça, era tudo vazio, não havia nada, nem questões nem exclamações.
_Imagino que você deve estar se perguntando o que é aquilo sob o lençol?_disse ele
Na verdade, a questão somente passou pela minha cabeça quando ele falou.
_ Como eu estava lhe dizendo_ ele foi andando em direção ao pano_ há alguns anos me foi passada uma missão, que por algum tempo eu não entendi, mas confiei no que meu pai me disse e continuei fazendo.
Eu continuava parado no mesmo lugar que estava não sabendo o que estava por vir.
_ Você já deve ter percebido que todas as noites, eu desço aqui no mesmo horário, e não é para jogar biriba!_ desta vez foi ele quem quis quebrar o gelo com a brincadeira.
Entretanto eu ainda estava estático, nem lembrava que a pera ainda estava na minha mão.
_Venho aqui para cumprir um ritual. Este ritual é realizado há mais de mil anos por integrantes da nossa família, e vem passando de geração em geração.
Comecei a ficar nervoso, queria que ele tirasse o pano branco, para eu descobrir o que estava escondido ali embaixo.
Ele se posicionou ao lado do monumento, neste momento pude perceber que o mistério esta sobre uma mesa de madeira, pois o pano só cobria o que estava em cima, deixando o tampo e as patas da mesa a mostra.
_ E agora está no momento de eu começar a passar a você!
Tive vontade de gritar “MAS O QUE É?!”, mas me mantive em silencio e fui me aproximando.
Meu avo levantou aquele pano com maestria, como um artista quando vai mostrar sua obra ao publico.
_ Calma que irei lhe explicar tudo aos poucos_ disse ele ao desencobrir a obra
Minha cara deve ter sido estranhíssima, pois meu avo me olhava de uma forma surpresa.
_ Tive a mesma sua reação_ disse ele_ com um pouco mais de entusiasmo para saber como funcionava!
Continuei parado ali, olhando aquela enorme ampulheta depositada em cima de uma mesa de mogno antiga.
Me aproximei e a luz direcionada que ficava acima mostrava todos os detalhes. Pude perceber naquele exato momento que se tratava de uma peça muito antiga. A ampulheta deveria ter uns 90 cm de altura, era grande, com três hastes de madeira entalhada a sua volta, nos entalhes símbolos e desenhos que não consegui identificar, o tampo também era entalhado com escritos estranhos. Também percebi que a ampulheta ficava suspensa em um aro de madeira e presa por suas hastes laterais formado um eixo. Na parte direita do aro, uma chapa de metal no tamanho da boca de uma xícara, com mais escritas e um orifício triangular no meio.
Ao olhar para a ampulheta em um todo, notei que os grãos de areia da pipeta superior já estavam acabando, e ao passo que caiam para a parte de baixo, iam ficando em um tom de azul cada vez mais escuro.
De repente um barulho que veio de dentro da casa me tirou do transe analítico em um susto
Era o relógio de pendulo antigo que ficava na sala badalando e dizendo em doze tons que era meia noite.
Quando olhei para a ampulheta, percebi que os últimos grãos de areia caiam. Foi quando uma voz interrompeu minha atenção
_ Para isto estou aqui, filho_ disse o vovô
Puxou um cordão de couro do pescoço, que eu nunca havia percebido que ele usava, neste cordão havia um pendulo, na espessura de um dedo, cor de cobre e em formato triangular.
Sacou do pescoço e encaixou o pendulo no orifício triangular que ficava ao lado do aro da ampulheta, fez como se usasse uma chave na fechadura. Houve um pequeno clic, senti que liberou algo dentro do mecanismo e ele colocando a mão na parte superior da ampulheta, com um simples movimento, a girou para frente, fazendo com que a parte cheia de areia fosse para cima, começando a cair novamente.
_ Pronto!_ disse ele_ essa é parte da nossa missão.
Tirou o pendulo do orifício e o colocou novamente em seu pescoço.
Continuei olhando, não sabendo se decepcionado com aquilo tudo ou surpreso. Mas pude perceber que a areia que caia, ia ficando em um tom de a azul mais claro, a cada grão abaixo.
Fitei o meu avô esperando por uma explicação, ele envolveu novamente a ampulheta no pano, puxou duas cadeiras velhas e fez eu me sentar.
_ Sei que isso tudo parece um pouco estranho, bobo, ou o que você quiser pensar, mas aos poucos Angelis, eu vou lhe contando tudo.
Eu ainda estava ali querendo ouvir o resto do “tudo”
_Esta ampulheta está na nossa família há muitos anos, e sempre um fica responsável por ela, nesta geração eu, na próxima será você.
Achei ridícula aquela hipótese, de eu ficar o resto da minha vida, girando um ampulheta, todos os dias a meia noite.
_Pode parecer absurdo_ disse o vovô, eu assenti com a cabeça_, mas nós somos os guardiões do tempo!
_ AH?! _ aquilo escapou da minha boca.
_Sim Angelis, aos poucos você vai entendendo, mas neste primeiro momento você tem que saber que sempre temos que girar a ampulheta.
_Por quê? Se não fizermos isso o mundo para? _ eu disse achando tudo aquilo uma doidera.
_Não filho, o nosso não! Mas há seres que necessitam que façamos a ampulheta girar.
Como assim o nosso não? _ Ele estava querendo dizer que havia outro mundo? Que seres eram estes que ele se referia? ET’s?
_ Angelis, vamos por partes, sei que estas curioso e quer entender tudo, mas se eu começasse a explicar tudo agora levaria semanas falando a fio. O importante você já sabe!
_ Mas o senhor faz isso todos os dias mesmo? _ perguntei abismado
_ Sim!_disse ele_ quando não estou, estou na cidade visitando vocês, ou viajando por outro motivo, tenho um substituto, que realiza o meu serviço exatamente no mesmo momento todos os dias.
Naquele momento deixei escapar da minha boca um nome:
_Muller!
_Garoto esperto_ brincou vovô_ O Muller e minha cópia, quando não posso estar aqui, ele está.
_ Mas e se um dia um de vocês não puder fazer isso? _insisti
_Tenho você agora! Mas sei aonde você quer chegar, se não girarmos a ampulheta?
Assenti com a cabeça
_ Imagine que esta ampulheta é como se fosse a força que faz o sol girar sobre a Terra, se ela parar, o sol não se movimentará e não haverá mais dia, somente uma noite, será uma noite eterna.
Pra mim aquilo tudo parecia o conto da carochinha, mas meu avo não poderia estar inventando algo tão absurdo na idade que ele estava pra um adulto de quase dezessete anos.
_ Mas então em que lugar do mundo não haveria sol?
_ Filho, por enquanto é somente isso que precisa saber, sei que as questões são muitas, mas eu tenho muito tempo pra te explicar. Vamos subir que já está tarde!
Ele se levantou da cadeira e foi em direção ao disjuntor para desligar a luz, quanto eu interrompi
_ Posso fazer mais uma pergunta?
Ele disse que sim com a cabeça
_ E se eu gira a ampulheta ao contrario, o pessoal do outro mundo volta ao passado?
Ele riu,
_ Claro que não! Não há como voltar o tempo, e você não conseguiria girar a ampulheta ao contrário. No eixo dela há um mecanismo que somente conseguimos girá-la para frente!
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