Um Novo Começo
4 Capítulo 4
Hinata
Antes mesmo de subir no tatame, ela já sabia o mais provável resultado daquela luta. O ginásio dessa vez estava menos lotado que os outros dias, mas isso não servia de consolo para as meninas que disputavam vagas para o time de Jiu Jitsu.
Hinata já havia passado por duas lutas muito difíceis, conseguindo ganhar apenas na força e pressão, sem contar com suas técnicas. Ela não sabia que o esporte era tão concorrido e visado por tantas garotas naquela faculdade. Observava uma luta entre suas veteranas, espantada pela brutalidade e principalmente a intensidade dos movimentos.
Saber que era a próxima não ajudava em seus ânimos. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo bem alto, mas sua franja ainda descansava perto de seus olhos. Já estes estavam doloridos e a razão disso era que resolvera colocar suas lentes. Esperava que com isso ninguém mais descobriria suas origens, coisa que era tão facilmente descoberta por pessoas que ela não conhecia.
Apesar da situação, Hinata podia distinguir uma cabeleira rosa nas arquibancadas, que sempre acenava quando ela olhava. Antes de ir para o ginásio, Sakura a tinha ajudado com o kimono e tirado várias fotos, incluindo uma que Hinata tinha gostado muito: uma dela de costas, com o kimono e segurando o cabelo como se estivesse o prendendo.
Enquanto se dirigiam ao ginásio, Sakura fez de tudo para tentar distrair a amiga, mas ainda sim o pensamento de Hinata corria de volta para o que enfrentaria. Em seus lutas pôde ouvir os gritos de sua amiga no ar, provavelmente irritando todos a sua volta.
Hinata sabendo que era a próxima, começou a se alongar para o iminente combate, que deveria ser o último antes do veredito final das veteranas. Enquanto estava no vestiário antes das lutas, tinha ficado sabendo que apenas três vagas para o time titular, e cinco para o reserva. Era muito comum ter mais vagas para o time reserva, pois o perigo de alguma das veteranas se machucarem era muito alto.
Hinata não era do tipo de ficar no banco. Não mesmo. Preferia não ser chamada para nenhum dos dois a ter que se sujeitar a isso.
— Número quinze, por favor. – Um homem alto e magro chamou de dentro do tatame.
Tirou seu par de chinelos e deixou-os separados em um canto antes de entrar. O homem, que antes conversava com sua potencial oponente veio em sua direção com passos firmes, antes de abrir um sorriso brilhante.
— Todos lembram das regras? – Hinata acenou com a cabeça. Ele pareceu satisfeito com sua resposta, pois se virou para as arquibancadas. – Peço carinhosamente que todos fiquem em silêncio, pois estamos em uma instituição séria.
Ele não estava se dirigindo apenas a uma pessoa da plateia, mas sim a um grupo específico de garotos que estavam sempre fazendo piadas e comentários sem graça durante as lutas.
Um burburinho começou a se formar, parte pelo comentário do professor, parte porque a plateia aumentou consideravelmente de tamanho com o fim dos testes dos times masculinos.
Hinata viu muitas pessoas se juntarem nas arquibancadas, fazendo a sua luta ser uma das que mais tinham espectadores. Aquilo a intimidou um pouco, principalmente porque quem iria lutar com ela era uma veterana.
Com sua visão parcialmente afetadas pelas lentes, voltou sua atenção para sua oponente. Hinata era pelo menos dez centímetros mais alta que a garota que estava em sua frente. Não havia a necessidade de prender seu cabelo, pois o corte modelava seu rosto, deixando aparente suas maçãs do rosto. O olhar era determinado e coroado por uma cor levemente alaranjada.
— Quando estiverem prontas... – As duas deram um leve aperto de mãos assim que ele terminou a frase.
Hinata se aproximou, tentando prever quais os movimentos que ela utilizaria. Não sabia quão boa ela era, então fazia sentido ficar na defensiva, pelo menos no começo. Foi rapidamente empurrada para o chão, e antes que pudesse pensar no que fazer, se viu presa por entre os braços dela.
— Acaba com ela! – Eram os gritos que Hinata ouvia das arquibancadas.
Mesmo com o ar faltando, conseguiu usar sua força para pressionar e empurrar os braços dela minimamente. Agora conseguia uma chance para reverter o que tinha sido feito. Ao dar um outro empurrão com o que restava de sua força, Hinata viu finalmente uma abertura grande o suficiente para sair do agarrão no qual estava presa.
Além dos usuais gritos masculinos, ela também conseguia distinguir várias vozes diferentes no ginásio. Apesar da maioria deles serem a favor de sua adversária e conseguir ouvir diversos xingamentos e comentários ruins a seu respeito, nada daquilo chegava diretamente nela.
Sakura, que observava a luta da plateia, estava muito ansiosa e com o coração batendo incrivelmente rápido. Tinha visto em um momento antes da luta a chegada de Naruto, acompanhado por Shikamaru e Sasuke. Temari, que estava sentada nas primeiras arquibancadas, acenou freneticamente indicando o local onde estava sentada.
Sakura ficou muito aliviada quando viu que tinha escolhido um ponto onde estaria bem longe das conversas curiosas de Temari e dos olhos intimidadores de Sasuke. De onde estava, podia ver claramente a luta e podia realmente prestar atenção, coisa que ela julgava impossível se estivesse fazendo parte daquele grupo.
Quando viu sua amiga se libertando dos braços da menina, Sakura não conseguiu se conter e deu um grito e começou a pular.
— CHA CHA CHA! ISSO MESMO! – Isso espantou as pessoas que estavam ao seu lado, que a olharam irritados.
Hinata agora estava encarando sua adversária, temendo ser pega de novo desprevinida. Tinha seus punhos abertos, e calculava em sua cabeça quanto de força teria de usar para poder apanhá-la no mesmo movimento em que fora pega. Seu corpo se movera antes mesmo de sua mente tomar uma decisão, usando seu punho para desviar o braço dela, que tentava começar uma chave de braço.
Conseguiu com sucesso a derrubar, usando apenas o peso do corpo dela, pois não sabia se conseguiria de outra forma. Sentou no tatame e a agarrou com força pelo pescoço, e agora a garota se via na mesma situação que a tinha colocado antes.
A plateia, antes barulhenta, agora estava em um silêncio muito perceptível. Naruto e Shikamaru, os líderes do grupo masculino de jiu jitsu, trocaram um olhar admirado, pois a veterana era considerada uma das melhores não só da faculdade, mas do país.
Sakura continuava torcendo pela amiga, e agora seus gritos estavam ainda mais altos. Lançava insultos para a garota e ria alto com a cena que se seguia. Naruto olhou para trás e pôde ver o cabelo curto e rosa de Sakura, cutucando Sasuke para mostrar quem estava nas últimas arquibancadas.
— Como você disse que era o nome dela mesmo? – ele perguntou, desviando o olhar da rosada.
— Como sua memória é ruim, Sasuke. O nome dela é Sakura. – Reclamou Naruto, que chamou a atenção de Temari. – Ei, sabe o sobrenome da novata de cabelos rosas?
— Deixa eu ver... – Temari colocou a mão no queixo, em um gesto pensativo. – Não vou lembrar agora, Naruto. Mas por que você quer saber?
— Ah, não sou eu quem quer saber... – Naruto deu um sorrisinho de escárnio e olhou para Sasuke, que estava irritado.
— Ahhh, entendi. – A loira deu um sorriso grande para Sasuke. – Posso descobrir o nome dela para você, Sasuke.
— Eu nem quero saber mesmo. – Ele sussurrou, revirando os olhos para Temari e depois lançou um olhar para o local onde Sakura estava.
— É bom que não queira. – Naruto cochichou de volta, fazendo Sasuke voltar sua atenção para ele. – Karin não ia gostar disso nem um pouco.
— Ela e o resto da faculdade... — Sasuke disse baixinho, fazendo Naruto engasgar de rir.
Depois de mais alguns minutos de luta, ouviu-se três batidas fortes no tatame. Sakura prendeu a respiração e depois bufou de raiva. Hinata havia desistido. A morena saiu debaixo da adversária com uma expressão irritada, sem fôlego e devastada. Isso era uma coisa que Hinata sempre tentava esconder, mas acabava se traindo pelas emoções. Odiava perder.
Saiu do ginásio pisando duro, ignorando todos os olhares e foi direto para seu quarto. Sakura, ao ver isso, suspirou enquanto se apoiava no corrimão da última arquibancada. Não podia nem ao menos consolar a amiga, porque ela ficava muito chateada e impossível de conversar.
Desde que conhecia Hinata por gente, Sakura sabia de seu lado explosivo. Era muito mais evidente quando perdia, porque aí não conseguia se controlar. Já tinha visto a amiga reagir de tudo quanto é forma.
Sakura
Após a cena de Hinata, Sakura suspirou enquanto apoiava uma de suas mãos na testa. O ginásio ficava cada vez mais deserto quando ela mandou uma mensagem para a amiga, perguntando se estava tudo bem.
Ao descer as arquibancadas, seu olhar se dirigiu para um grande banner em forma retangular. Seus olhos se arregalaram ao ver a grande propaganda e o rosto ali exibido. Suas mãos se anteciparam em direção ao seus lábios e ela prendeu a respiração. Claro que seu coração estava acelerado, mas ela se odiava por isso.
Se ele era o rosto da faculdade, então ele com certeza estudava ali. Ouviu o som de passos perto de onde estava, então fez questão de dar um passo para frente, para não obstruir a porta de saída.
— Você... — uma voz masculina chamou a atenção de Sakura.
Era Sasuke. Os cabelos escuros caíam de uma forma desgrenhada pelo rosto, fazendo-o parecer que tinha acabado de acordar. Esse pensamento fez Sakura dar um pequeno sorriso, que foi recebido por uma desviada de olhar. Seu olhar era um pouco diferente da outra vez que tinha sido alvo da sua atenção, e isso incentivou Sakura a conversar.
— Sim? — sua voz fez um pequeno eco no ginásio. Ela sentiu um pequeno arrepio nos braços e tentou abrandá-lo rapidamente, mas falhou.
Ele passava seu olhar de Sakura para a parede atrás dela. Parecia estar pensando no que falar, apesar de ter uma expressão tão determinada. A curiosidade dela estava tão forte que quase perguntou de novo para poder apressá-lo. Se conteve por pouco, com medo de deixar Sasuke irritado.
— Eu tenho uma coisa que preciso conversar com você. — Ao dizer isso, ele parecia estar muito desconfortável.
Sakura fez uma expressão confusa e depois levantou os braços, indicando que o local estava quase completamente deserto. Isso era verdade, os únicos barulhos audíveis agora vinham de fora do ginásio ou dos banheiros, que ficavam do outro lado de onde estavam parados.
Sasuke revirou os olhos antes de continuar a falar.
— Não é um assunto para ser discutido aqui. — Ele tentou falar com certa suavidade, mas seu rosto não demonstrava isso. — Poderia me dar seu número de celular?
Aquilo fez o coração de Sakura pular uma batida. Era sério? “Sasuke quer meu número? Isso só pode ser um mal entendido” Mesmo que tentasse impedir, sentiu um fluxo de sangue subir rapidamente para sua bochechas. Buscou seu celular no bolso de seu jeans claro e desgastado, desbloqueou a tela e o entregou para Sasuke na tela de adicionar número.
— Não quero que você tenha nenhuma ideia errada. — Sakura arregalou os olhos de leve ao ouvir isso, pois era como se ele tivesse lido seus pensamentos. — Você não precisa contar para ninguém sobre isso, a não ser que goste de ser enxergada como inimiga por suas novas colegas do time de vôlei.
Sakura prendeu a respiração enquanto acenava em concordância. “Quem ele acha que sou eu? Ele realmente pensou que eu ia sair contando para todo mundo?” Pensou, um pouco carrancuda.
— Eu não ia fazer isso. — Sakura disse enquanto o encarava com irritação.
— Só é um aviso. — Ele deu um passo em sua direção, provavelmente esperando que Sakura ficasse encurralada na parede, mas ela não se moveu. — Você não quer ter aquelas lá como inimigas.
— Eu não sou ameaça para ninguém. — Sakura sussurrou para ele, que agora estava próximo.
— Boa resposta. — Ele reconheceu ao se afastar. — Me manda mensagem, depois precisamos conversar.
Sakura fechou os olhos depois que ele se afastou, tentando respirar normalmente. Sua mão tremia um pouco enquanto voltava para o dormitório, imaginando que Hinata estivesse melhor.
A faculdade estava relativamente cheia, especialmente no dormitório feminino. A maior parte delas estava do lado de fora do quarto, como no dia que chegaram. Sakura tentou abrir a porta do seu, porém este estava trancado. Suspirou e encostou a testa na madeira fria. Um alvoroço de pensamentos invadia sua cabeça, um misto de sentimentos fazia seu estômago revirar o almoço que tinha comido mais cedo.
Se ao menos estivesse com seu violão, poderia continuar a escrever a música que tinha começado nos últimos dias. Era uma música com uma letra triste, mas estava pensando em alguma forma transformá-la em algo agitado.
Sentiu a porta ceder, e por pouco não caiu diretamente no chão quando Hinata abriu a porta.
— Caramba! — Sakura reclamou ao entrar e fechar a porta. — Podia ter só gritado.
— Não quero falar nada agora. — Hinata falou baixinho. — Só quero aproveitar esse momento para passar raiva.
— Ah, você não foi mal, Hina. — A morena lançou um olhar cortante para Sakura. — É sério! Você foi bem.
— Bem? — Hinata disse com a voz um pouco tremida — Eu perdi feito uma pata. É isso, se eu perdi aquilo, eles não vão me chamar para ser do time nunca.
— Eu sinto muito… — Respondeu, sentindo o peso da responsabilidade da tristeza da amiga.
Se Sakura não tivesse chamado Hinata para ir com ela, agora ela ainda estaria no time da antiga escola e não teria que passar por aquela situação nem pelo estresse da sua família.
— Tudo bem. — Hinata respondeu, tentando se acalmar. — Eu só preciso chorar um pouquinho e vou ficar bem.
— Quem sabe elas te chamam. — Sakura falou baixinho, sentando na sua cama e pegando o violão.
Tirou ele da capa enquanto Hinata se jogava na sua própria cama. A quantidade de travesseiros que Hinata mantinha na cama era alarmante ao ponto dela desaparecer no meio de tantos. Alguns caíram no chão com o impacto, fazendo Sakura rir baixinho. Pegou seu caderno de letras e tocou alguns acordes.
— Quando você vai lá? — Quase não entendeu o que sua amiga disse, pois sua voz saiu abafada.
— Não sei… — Sakura falou enquanto pensava brevemente. — Provavelmente quando eu tiver no mínimo 5 músicas boas o bastante.
Hinata riu enquanto saia debaixo dos travesseiros. Encarou a amiga por uns segundos.
— E você tem quantas que não são “boas o bastante”?
— Umas 30.
Hinata bufou enquanto falava consigo mesma sobre o quão boas as músicas de Sakura eram. Ela revirou os olhos e continuou tocando o violão, anotando algumas partes e murmurando enquanto pensava em novas letras. As 30 músicas que falou para Hinata não eram boas o bastante por um único motivo: eram muito pessoais.
Na indústria de música, uma coisa Sakura sabia: quanto mais pessoal uma música era, menos chances ela tinha de realmente vendê-la. E era difícil para ela escrever músicas sem nomes, datas e lugares.
Olhou para seu caderno, sorrindo ao ver quão boa a letra estava ficando. Essa com certeza era “boa o bastante”. Ela foi tomar seu banho e quando estava voltando percebeu que não tinha enviado nenhuma mensagem para Sasuke… “Eu imagino o que ele poderia querer de mim…”
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