Um Novo Começo
1 Capítulo 1
Notas iniciais

Já era mais de meio dia quando as duas meninas embarcaram no trem que levava de Kyoto, cidade tradicional japonesa, para Tokyo, capital e maior cidade do Japão. O coração de Hinata e Sakura estava batendo no mesmo ritmo, o de um recomeço tão esperado, especialmente pela garota de cabelo rosa.
A decisão tinha sido impulsiva, mas já tinham discutido aquilo várias vezes nos últimos anos, só nunca tinham tido a coragem de pegar o trem e ir embora. Sakura encostou a cabeça na janela do trem, sentindo seu estômago revirar. Hinata observou a amiga com um semblante triste.
Fez menção de segurar a mão da amiga.
— Tudo vai melhorar. – Hinata disse, colocando um sorriso meigo no rosto. – Agora é questão de tempo e costume.
— E se ele vier atrás de mim, Hina? – Sakura observou a mão pálida de Hinata.
— Ele nunca vai nos achar. – Sua amiga tentou transparecer confiança. – Estamos longe demais dele agora.
— Eu espero. – Sakura concordou com os lábios pressionados.
— Aqui. – Hinata apontou para o celular. – Isso é um sinal de que tudo vai ficar bem.
Era a confirmação de troca de campus da faculdade em que estudavam antes para a de Tokyo. As duas se encararam sem dizer nenhuma palavra, apenas com o sentimento ambíguo de dúvida e animação. Hinata podia ler o rosto de Sakura, ela não estava bem. Suspirou, desejando que os próximos tempos melhorassem o humor dela.
Abriu seu instagram, tentando achar algo que animasse Sakura, mas tudo que encontrava eram vídeos de gatos e de pessoas se empanturrando de comida. Hinata observou a paisagem que estava lá fora, sorrindo com a coincidência. Aproximou o celular da janela, tentando tirar uma foto boa.
— Só pode estar de brincadeira comigo. – Sakura disse com a voz irritada, mas em seu rosto se abria um pequeno sorriso.
Hinata mostrou a foto que tirara, das diversas árvores de cerejeiras que margeavam o caminho verde do campo, com as folhas de tom rosa pastel caindo devagarinho. Sakura concordou, então Hinata escreveu na legenda “Um agradável sinal que todos podemos recomeçar um dia”.
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A viagem durou aproximadamente oito horas, mas para Sakura pareceu uma eternidade. A cada minuto que passava olhava para o relógio em seu pulso, desejando se afastar da vida que tinha antes de entrar no trem. Ainda podia sentir o cheiro forte de álcool e cigarro quando entrou em sua casa apenas algumas horas antes.
Flashes passavam pela sua cabeça enquanto colocava suas roupas na mala e ligava para Hinata. A amiga também fora rápida recolhendo suas coisas, e em menos de uma hora estavam no trem. O único medo que sentia naquele momento era de sua amiga, sua única amiga desde que se conhecia por gente, se arrepender de ter ido com ela.
Por isso, quando as duas saíram do trem, cada uma com uma mala na mão, tentou pôr seu melhor sorriso.
— Você tá nervosa? – Sakura perguntou, desviando de algumas pessoas que corriam em direção à plataforma. – Porque eu estou tão nervosa que nem sinto meus pés.
— Eu estou quase assim. – A expressão de Hinata suavizou um pouco. – Mas estou feliz também.
— Sério? – Sakura levantou uma sobrancelha.
Hinata apenas confirmou com a cabeça. Aquilo era o bastante para Sakura. Sabia que podia sempre contar com a amiga, mas arrancá-la do local de onde nasceu e a arrastar por mais de 350 quilômetros de distância era demais.
Pararam perto do local onde os ônibus estavam localizados e se entreolharam.
— Eu tenho dinheiro. – Hinata disse baixinho. – Podemos pegar um Uber.
— Hinata! – Sakura a repreendeu. – Eu que te trouxe pra cá, não posso deixar você pagar nossa viagem. Vamos, o ônibus já vai sair.
Enquanto guardava a mala no ônibus, Sakura olhou para os lados, subitamente alerta e com medo. Balançou a cabeça, tentando se convencer de que ele não iria atrás dela. Provavelmente ainda estava desmaiado no próprio vômito.
— Ei. – Hinata tocou em seu braço. – Vamos.
Sakura meneou com a cabeça e as duas entraram no ônibus. Ele estava um pouco decadente, mas nada anormal para as duas. Alguns estofos da cadeira não se encontravam no devido local e pichações com palavrões permeavam as paredes do meio de transporte.
Encontraram lugares no fundo do ônibus, então as duas sentaram-se um pouco hesitantes.
— Só mais quarenta quilômetros e estaremos lá. – Hinata disse num suspiro. – Finalmente, né?
— Sim. – Sakura sorriu aliviada. – Eles realmente aceitaram nossa transferência?
— É difícil acreditar. – Hinata assentiu. – Os boatos sempre foram de que era quase impossível mudar. Incrível que eles liberaram duas vagas para nós duas.
— Será que é por causa...? – Sakura iniciou a fala, mas logo parou.
— Provavelmente. – Hinata respondeu mesmo assim, rápida demais. – Mas eu não ligo. Se eles cometeram um erro, isso é culpa deles, não nossa. Meu sobrenome não deveria pesar em nenhum momento.
— Eu sei disso, Hinata. – A menina de cabelos rosa olhou para cima. – Espero que não tenha sido um erro.
— Eu também espero. – Confidenciou. – Também acho que tem a ver com nossas notas. Nunca tiramos nada abaixo da média.
— É verdade. – Sakura concordou. – E não se esqueça dos clubes.
— Nunca tive uma luta perdida. – A morena comentou. – Realmente, Sa. Deveríamos nos animar!
— Só vou me animar quando tiver certeza de que estou livre. – Quando fechou a boca, o motorista deu partida.
A viagem que deveria durar uma hora, durou duas por causa de uma batida no centro da cidade que causou um engarrafamento enorme. Diferentemente de Kyoto, as luzes de Tokyo eram mais fortes e elas se assustaram com a quantidade de lojas e pessoas pelas ruas.
Não era difícil adivinhar o porquê do campus de Tokyo ser o mais procurado. A inquietação crescia no coração das duas quando o ônibus parou logo em frente da entrada da faculdade. Além dela, outras duas pessoas desceram, mas somente elas foram pegar as malas na parte de trás do ônibus.
— Uau! – Sakura piscou diversas vezes, tentando absorver toda a extensão do local. – Eu não pensei que fosse tão grande assim.
O campus se estendia tanto que Sakura não era capaz de ver. Os prédios com arquitetura moderna eram idênticos e quase incontáveis. Passaram por diversas estruturas que nem Sakura ou Hinata entendiam o propósito, mas um deles chamou a atenção de Hinata.
— Yamato? – Sakura leu o nome gravado logo antes da obra de arte em sua frente. – Esse não é aquele artista famoso internacionalmente?
— Sim! – Hinata sorriu. – Não imaginava que ele tinha estudado aqui, no Japão.
As duas observaram fixamente a escultura em forma de uma mulher nua feita exclusivamente de madeira. A expressão de felicidade em seu rosto, suas mãos e curvas eram tão realistas que encheram os olhos das garotas. Depois disso, continuaram andando pelo campus, que estava abarrotado de pessoas.
— Né, Hinata? – Sakura chamou a atenção da amiga. – Queria ter esse talento e poder ganhar milhões igual o Yamato.
— Ele realmente é rico. – Hinata disse depois de puxar o celular e colocar o nome dele no Google. – Eu não me interesso muito por esculturas de madeira. Mas gostaria de ser rica.
— Você vai ser. – Sakura respondeu sorrindo. – As fotos que você tira são perfeitas! E é uma lutadora com habilidades incríveis. Tenho certeza que vai ser famosa por aqui.
— Eu não gostaria disso. – Hinata olhou para os lados. – Sabe como minha família é.
Sakura apenas acenou com uma das mãos. Quando chegaram na parte da secretaria, que era toda pintada de um marrom escuro, viram uma confusão logo na entrada.
— Eu já disse! – Uma garota loira que vestia uma roupa preta gritou. – Estamos sem água quente no vestiário feminino e a previsão para voltar é semana que vem!
A pequena multidão, que se misturava com Hinata e Sakura, começou a reclamar e a quase se jogar contra a mulher que estava falando. Ela olhou com raiva de volta e continuou a falar.
— Eu vou conversar com Tsunade. – Isso fez algumas pessoas se calarem, mas não todas. – Vamos arranjar uma solução, eu prometo. Agora eu quero todas de volta para os seus quartos, passarei lá mais tarde, lá pelas oito.
As meninas começaram a se dispersar rapidamente, deixando a garota observando apenas Hinata e Sakura, que ficaram.
— E o que vocês querem? – Ela finalmente perguntou depois de voltar para dentro e sentar-se em uma cadeira. – Já falei que vou conversar com a Tsunade.
— Não é nada disso. – Elas se entreolharam e Sakura continuou. – Somos novas no campus. Não sabemos em qual dormitório fomos colocadas.
— Novas? – Aquilo fez os olhos da loira brilharem com curiosidade. – Ouvi falar sobre isso. Chamo-me Temari.
— Eu sou Sakura.
— E eu Hinata. – A morena completou rapidamente, e Temari moveu suas mãos para pesquisá-las no computador que tinha em sua frente.
— Eh? – Temari olhou para a tela do computador e depois para Hinata. – Uma Hyuga?
— Sim. – Hinata baixou os olhos.
— Que estranho. – comentou. – Achei que todos os Hyugas já tivessem vagas aqui em Tokyo por lei.
— Eu acho que não. – Ela respondeu Temari.
— Dá pra ver logo nossos quartos? – Sakura inquiriu com raiva.
Temari a observou com tédio, mas olhou de novo para a tela do computador e continuou a mexer. Hinata deu um olhar agradecido para Sakura, que acenou com a cabeça. A loira apertou um botão do mouse e umas das impressoras começou a fazer um barulho alto.
Temari levantou-se e foi até lá, pegando duas folhas e entregando uma para cada uma das meninas.
— Vocês vão ficar no mesmo quarto. – Disse com um tom mais contido. – Vocês vão encontrar o dormitório se saírem daqui e andarem uns dez minutos na direção oeste. Tem placas.
— Obrigada. – Sakura agradeceu depois de olhar um segundo para a folha – Isso está certo? Minhas aulas começam amanhã?
— Sim. – Temari respondeu com um sorriso irônico. – Achou que por estar no centro, não ia ter aula?
— Isso não passou pela minha cabeça. – Respondeu sincera.
Sakura respirou fundo, um pouco chateada por não ter nem um dia de descanso antes de voltar a estudar. Tentou se convencer que aquilo seria bom para ela esquecer de seu passado.
— Onde podemos fazer inscrição para os clubes e times da faculdade? – Hinata perguntou formalmente.
— Inscrição? – Temari pareceu confusa.
— Sim, colocamos nossos nomes e depois fazemos treinos... – Sakura foi impedida de terminar.
— O que? – A loira riu alto. – Acho que entendi o que vocês quiseram dizer. Mas aqui não temos “inscrições”. Vocês podem ir para a quadra nessa semana e na próxima. Lá vão ser feitos os testes para ver se conseguem entrar.
— Mas já estávamos no time na nossa cidade. – Hinata tentou argumentar.
— Porém essa não é mais a cidade de vocês. – Temari deu um sorriso de lado. – Estão em Tokyo agora, garotas.
Saíram um pouco decepcionadas, mas se animaram quando encontraram rapidamente o dormitório. Antes que conseguissem entrar, viram várias meninas que seguravam toalhas e sabonetes em suas mãos, e uma delas estava na frente. Ela era loira, um loiro mais claro que o de Temari, e usava uma roupa de líder de torcida.
— Isso não é justo! – A loira gritou e várias gritaram junto. – Por que só os nossos chuveiros não funcionam? Não ouvi nenhuma reclamação masculina. Sabem o porquê disso? Porque quando cortam orçamento, a primeira coisa que cortam são coisas NOSSAS!
O tumulto aumentava a cada segundo, e ficava tão grande que nenhuma das duas conseguiu escapar. As portas dos quartos abriam e fechavam rapidamente, cada garota segurando uma toalha. Então, quando menos esperavam, todas começaram a marchar diretamente para os dormitórios masculinos.
— Espera, aquela ali não é a Temari? – Sakura apontou para Temari que via ao longe correndo e gritando com a outra loira.
— Sim. – Hinata cobriu a testa com a mão, tentando enxergar mais longe.
— Não vejo sentido nisso. – Sakura pegou sua mala, que tinha sido derrubada com a movimentação. – Tudo bem, vamos entrar.
As grandes portas de aço substituíram o frio da noite por uma brisa morna suave. Hinata suspirou agradecendo mentalmente pelo dormitório também ter aquecedores, diferentemente do seu antigo campus.
— Ah, que fofo! – A morena exclamou quando viu cada porta pintada de uma cor.
Sakura riu baixinho da amiga, que parava em frente de cada porta apreciando as diferentes cores. No fundo, estava tão maravilhada com a amiga, pois o campus antigo era o mais tradicional que existia no Japão. Era estranho e ao mesmo tempo confortante ver cores além de preto, marrom e branco.
Pararam em frente à porta com número 35 um pouco hesitantes. Quem deu o primeiro passo foi Hinata, abrindo a porta sem nenhum impedimento. O quarto era bastante simples, com um beliche no canto esquerdo do quarto e duas escrivaninhas dispostas perto da porta.
Ao adentrarem mais, notaram que o guarda-roupa era muito maior do que o necessário. Ele era em um tom creme, contrastando com o chão de cor escura muito bem polido. Também havia uma janela grande que podia ser aberta por dois lados diferentes, essa da mesma cor do chão.
Sem esperar pela amiga, Sakura dispôs sua mala no chão e começou a organizar as roupas que tinha escolhido. Dentre elas estavam duas saias pretas, cinco blusas de cores e estampas diferentes, três calças e quatro leggings. Levou também diversos pares de meias, um par de chinelos, um par de saltos e dois tênis da marca All Star. Seu short, blusa e tênis específico de vôlei, o único esporte que ela tinha facilidade.
Hinata seguiu o exemplo da amiga, começando a escolher as roupas e as colocar dentro do guarda-roupa. Cada uma delas pegou um lado, que eram separados por um grande espelho. Os diversos vestidos que ela tinha, todos bastante folgados fizeram sua parte encher mais rápido do que a da Sakura.
— O que é isso? – Sakura apontou para a pequena caixa que estava no fundo da mala de Hinata.
— Ah, isso! – A morena abriu a caixa e puxou dois potes. – Eu comprei isso no início do ano. Foi mais por impulso do que qualquer outra coisa.
— São lentes de contato? – A amiga inquiriu com os braços cruzados. – Ah, não, Hina...
— Não é o que está pensando! – Hinata gesticulou com as mãos. – Não vou usar, eu acho.
— Por que usaria, em primeiro lugar?
— Olha, Sakura. É difícil explicar. – Ela colocou as lentes de volta na caixa, e a caixa em cima de uma das escrivaninhas. – Do mesmo jeito que herdou da sua mãe o cabelo rosa, super raro e que te torna incrivelmente diferente, eu tenho os meus olhos. Duvido que tenha visto um desses em outra pessoa.
— Achei que isso fosse coisa sua, só. – Sakura instintivamente segurou uma mecha do seu cabelo curto.
— Você sabe que minha família é dividida em ramos. – Hinata começou, satisfeita por ver Sakura acenar. – Eu nasci no ramo secundário, isso quer dizer... Originalmente, há muito tempo, eu teria que servir a família principal, quase como um escravo.
— O que? – Sakura se sentou na cama, incrédula. – Isso é sério?
— Sim, teria que dedicar minha vida para proteger a família principal. – Continuou. – Os tempos mudaram, finalmente. Mas não muda o fato original! Eu tenho primos, esses primos são da família principal e como você ouviu antes da Temari: todos dessa família tem vaga nessa faculdade.
— Então você tem medo de os encontrar e eles fazerem bullying com você? – Sakura completou, vendo Hinata abaixar a cabeça. – Por isso comprou essas lentes!
— Eu tenho medo demais, Sá...
— Tudo bem, Hina. – Sakura disse rapidamente, levantando da cama e colocando a mão no ombro da amiga. – Eu entendo você. Mas não sei se é uma boa ideia. Uma hora ou outra vão acabar fazendo conexão com seu nome, e isso você não pode mudar.
— É, você tem razão.
As duas ficaram em silêncio por alguns segundos, antes de terminarem de arrumar as roupas.
— Como você tem tantos vestidos? – Sakura observou com surpresa. – Ahá, aí está seu kimono!
— Sim. – Ela puxou do cabide e o mostrou com orgulho.
— Ainda bem que eu sou sua amiga. – Sakura riu quando Hinata o pôs de volta. – Sério, tenho pena se alguém tentar mexer com você.
— E com você! – Hinata subiu na escada para a parte superior do beliche. – Você jogando é de outro mundo, Sakura. Aqueles cortes são impressionantes!
— Posso até ter força, mas não tenho habilidade. – Sakura se observou no espelho, vendo suas madeixas caírem sobre os ombros. – Tenho que cortar o cabelo.
— Amanhã eu te ajudo a cortar. – Hinata falou lá de cima.
— Obrigada, Hina. – Sakura desligou a luz e se deitou na sua cama. – Obrigada por tudo.
— Somos melhores amigas! – Sakura pôde ouvir Hinata movendo-se na cama. – É isso que amigas fazem.
— Sim. – Sakura concordou. – É isso aí.
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