Um Novo Começo
6 Capítulo 6
Notas iniciais
– Era sim, valeu – colocou a mão no bolso e sumiu no corredor sem cerimônias.
Aquele gesto tão indiferente não era o habitual do nerd. Era como se ele tivesse dupla personalidade, ou que estivesse realmente mostrando interesse pela patricinha ou se não fazendo um teatrinho para enciumar a Denise. Tirou as próprias conclusões e botou fé na terceira opção mesmo que talvez fosse a pior de todas as opções: a segunda. Essa possibilidade existia sim, ainda mais por se tratar da garota mais popular da escola. Aliás, que garoto não se interessaria por ela?
– “Linda, poderosa e rica” – Denise refletiu sobre sua arqui-rival enquanto caminhava distraída, e sentindo uma pontada de inveja, pensou – “linda e poderosa eu sou, menos rica”.
Denise era de uma família classe média. Morava com seus pais numa casa própria, mas dependia da mesada miserável dos pais, muito diferente da FruFru que vivia praticamente sozinha em uma enorme mansão com seus empregados. Os Amaral* era dono de uma empresa multinacional, além das outras propriedades como casa na praia, iate e terrenos. Frequentavam os melhores salões da cidade e compravam as marcas mais caras de roupa! Embora não quisesse assumir, sentia uma tremenda inveja daquela vida cheio de luxo, conforto e riqueza.
Ao escutar ruídos e vozes familiares por perto, parou seus pés e espiou curiosa pela fresta aberta da porta. Ali, flagrou a uma cena um tanto inusitada: Cascão se insinuando para ninguém mais ninguém menos que uma amiga sua.
– “Meldels... ele dando em cima da... Magali?” – Denise indagou chocada e rapidamente retirando seu celular do bolso, registrou o momento sem flash.
Sorriu maldosa vendo a foto tirada, guardou bem como se escondesse um bem precioso e sumiu em seguida, mas as discussões e os quase beijos continuaram entre eles.
– Hei, espera... tinha... alguém – Magali comentou, ofegante por cansaço.
– Não, não, não... você não pode fugir de mim nesse estado – Cascão sussurrou nos ouvidos dela, provocativo.
De fato, o moreno tinha razão. Magali estava deitada na cama sem poder se mexer bruscamente graças ao seu joelho inchado, o que era uma desvantagem. Mesmo assim, revidou com suas mãos, empurrando, debatendo, resistindo aos braços fortes. Era uma luta entre a razão e a emoção. Ele tentou forçar sua lingua naquela boca teimosa, que cerrava mais e mais. Então reforçou usando seus dedos, tentando abrir passagem acontecesse o que acontecesse. Sabia que ela queria tanto quanto ele apesar da teimosia. E depois de muito insistir, conseguiu alcançar aqueles lábios tão desejados. Estavam ali, mais uma vez, se beijando vigorosamente, entre um gemido e outro quando uma joelhada inesperada atingiu o estômago do pobre coitado.
– Ai, sua – Cascão urrou de dor, o obrigando inclinar o tronco para trás, quase caindo do colchão.
– Quem mandou... não parar – Magali comentou.
A sorte que eles haviam parado antes do instrutor chegar no quarto, embora o homem estranhasse a posição dos alunos.
– Eu trouxe algumas coisas para aliviar a dor – o homem entregou um antiinflamatório e copo d’água e enquanto colocava a compressa de gelo no joelho, sugeriu – se não passar, vamos te levar para o hospital e de lá você avisa seus pais.
– Ah, vai passar sim, não estou sentindo dor como antes – Magali tomou o remédio, sentindo o gelo aliviar a perna.
Havia esquecido completamente do joelho até segundos atrás, estava mais distraída com beijos e carícias de um certo moreno. Passou a mão na boca, entregou o copo ao instrutor e eles deixaram o quarto.
Seguiram juntos para o espaçoso salão de jogos. Haviam mesas de fla-flu, sinuca, poker, ping-pong e mais ao fundo, um televisor enorme com videogame de sensor com gente jogando, dançando e rindo como o Cebola.
– Hei, dança um aí – Cebola chamou o amigo, sentando ofegante no sofá ali perto.
– Depois – Cascão sentou ao lado dele.
A cena a seguir foi bastante chocante pros dois: Xaveco entrando de mãos dadas com a garota mais popular da escola. Ficaram estáticos e boquiabertos, vendo a patricinha mais fresca do Universo ao lado de um nerdão assumido. Iriam dançar juntos, o que era ainda mais inacreditável.
– Esses dois? – Cascão indagou, surpreso.
– Calaca – Cebola pensou alto – se nem eu consegui nada com ela...
– Espera aí, você o que? – o moreno não sabia se ficava mais surpreso com a cena ou com a revelação do amigo.
– Esquece – Cebola desconversou.
O geek escolheu o ritmo mais fácil para a ricaça acompanhar seus passos. Ali era um desastre total, cada um dançava do seu jeito, especialmente a FruFru que mal conseguia acompanhar seu paquera. Tentaram uma segunda vez e foi desastre total, arrancando boas risadas da Denise, que chegava por trás.
– Ai, flor... você salvou o meu dia – Denise não conseguia resistir a dança patética, e assistindo sua rival quase tropeçar no último passo, caiu na risada.
– Vem aqui então dear e faz melhor – Aquelas palavras soaram como mel nos ouvidos da recém-chegada, que entre no meio dos dois com prazer.
– Faço e muito – Denise disse e mandando o nerd escolher qualquer música no modo mais difícil, falou pro nerd – vê se não me faz passar vergonha.
E a rodada começou. Em passos sincronizados, dançaram rápidos sem perder o ritmo da música bem acelerada. A platéia foi aumentando de pouco em pouco e no final praticamente todos ali passaram a acompanhar os dois, tirando um ou outro que preferia brincar em outra coisa. Colocaram uma última música mais light, mas não menos difícil para fechar.
Assim deram outro show para fechar a jogada. Dançaram muito, rebolaram até não poderem mais, apontaram os pequenos erros do outro e reclamaram pelo cansaço.
– Ai Senhor, não aguento mais... – Denise reclamou sem parar de mexer o corpo.
– Falta pouco... – Xaveco disse, encorajando ela.
Terminaram sob aplausos da turma e sentaram suados e ofegantes no chão. Mal conseguiam respirar, muito menos falar, somente sorrir. Ficaram um olhando pro outro e fizeram um high five, batendo as mãos no alto. A alegria deles durou pouco com Carminha ali, arrastando o pobre coitado que acabara de correr uma maratona.
– Você precisa de um banho – FruFru disse, fazendo cara de nojenta.
– Depois a gente, pode, pode ficar junto? – Xaveco perguntou, tímido.
– Não antes de tirar esse cheiro – a ricaça falou, irritada.
Uma parte permaneceu no salão passando tempo com jogos e a outra metade saiu para jogar conversa fora, namorar às escondidas como o caso da dentuça e o Cebola aos beijos e amassos encostados numa árvore isolada da turma. Ficaram se beijando intensamente, entre gemidos, mordidas e carícias. Tudo corria bem se não fosse um vulto escondido nas proximidades que surgiu bem quando o casal tentaria algo mais ousado. O estraga-prazeres era o Do Contra.
– Coincidência... você... por aqui – Mônica disse sem jeito, passando a mão na sua boca inchada.
– Fala sélio – Cebola murmurou levemente nervoso com a invasão de privacidade.
– Oito horas – O roqueiro disse vendo o relógio no pulso e saiu como se nada tivesse acontecido.
Esperaram o amigo sumir de vista e Cebola tornou a beijá-la com mais força, mas quem impediu que as investidas continuassem dessa vez foi a dentuça.
– Vamos voltar para jantar – Mônica percebeu o namorado emburrado e sussurrou sensualmente nos seus ouvidos – depois a gente continua...
Haviam iguarias para todos os gostos até para Carminha FruFru, que adorava uma boa boca, principalmente pelo fato de comer todo santo dia pratos preparados por seus empregados. Nada nesse mundo substituia uma comida caseira feita por mãe, pai ou avó, nem mesmo os ingredientes do bom e do melhor que eram usado nas suas refeições refinadas.
– Hum, esse arroz está uma delícia – Carmem disse, saboreando cada garfada.
– Ah vai... você deve comer coisa muito melhor – Xaveco falou, achando graça naquele elogio por algo tão simples como arroz e feijão.
– Ób, óbvio querido, imagina, falei por falar – a ricaça disfarçou o gafe, e mantendo a pose de esnobe, mentiu – o meu chef faz coisas muito melhores.
– Ih, deu até água na boca – o nerd comentou, limpando os lábios sujos no guardanapo.
– Falando em água na boca – a patricinha notou o olhar da rival sobre eles e sussurrou nos ouvidos do geek – ainda está de pé de ficarmos juntos?
– Cla, cla, claro – Xaveco gaguejou de susto pela mudança radical da loira.
– Vem comigo, vem – FruFru piscou sorridente e largando o prato na mesa, puxou-o pela gola da camisa.
O tempo chuvoso não fez a Carmem mudar de idéia e saiu puxando o loiro em colocar na prática o seu plano maldoso. Notou que a rival vinha atrás deles. Caira na sua armadilha. Sorriu satisfeita e começou a caminhar agarrada nele que parecia mais duro que uma pedra, afastando-se cada vez mais do sítio. Encarou a subida íngreme e o solo escorregadio.
Ao chegar no topo, encurralou o loiro na primeira árvore, e beijando sua boca ferozmente, pediu passagem naquela lingua mais cerrada que porta de submarino. Estranhou a reação do nerd, sendo a idéia de ficarem juntos foi dele.
– Relaxa que só tem nós dois aqui – a patricinha disse, soprando no ouvido do paquera.
– Eu, eu quero ir mais devagar – Xaveco falou, receoso.
– Então foi assim que você levou fora dele flor? – Carmem indagou, virando-se para a direção contrária.
Nisso, Denise surgiu por entre as árvores, surpreendendo o loiro, que não esperava sua presença num lugar como aquele cheio de barro.
– Ela só quer te enganar – Denise alertou, e sacudindo a cabeça, completou – você sempre foi tão idiota com essas coisas.
– Eu nunca falei tão sério – Carmem disse, falsa.
– Pára com isso – a ruiva falou, e vendo a expressão confusa do geek, continuou – olha querida, esse seu teatrinho já deu.
A ricaça adorou vê-la irritada, e agarrando o menino à força, abocanhou seus lábios na frente dela. O círculo pegou tanto fogo que não apenas ela mordeu a isca como se aproximou rapidamente e estapeou o rosto da mimada, a deixando marcada.
– Sua...
Toda a raiva e inveja acumuladas durante anos e anos pela sua amiga e rival impulsionou a patricinha a estapear com muita força a cara da Denise que apenas não caiu no chão molhado graças aos braços do nerd.
– Eu sei que você morre de inveja de mim – Carmem falou alto pra quem quisesse ouvir – Você sempre quis ter a minha vida, as minhas coisas e tudo!
– Quer saber de uma coisa? – Denise gritou em alto e bom som, peitando a ricaça – Eu sempre quis sim ter essa sua vida perfeita!
– Eu te odeio garota – FruFru começou a chorar junto com a chuva que caía mais forte e desabafou algo guardado por muitos anos e partiu para cima dela – O que você sabe de mim? Já foi eu por acaso? Eu também tenho meus problemas, eu também sofro!
– Hei hei pára! – a ruiva tentou revidar a força sobrehumana da ricaça e acabou por cair rolando pela grama molhada do outro lado que era um matagal sem fim.
Nesse instante, Xaveco foi mais rápido que a loira e correu atrás escorregando agachado pela descida altamente perigosa e íngreme. Chegou até a Denise, desfalecida. Tomou apressadamente nos braços e desceu carregando até um solo reto. Sentou o corpo inerte num tronco quando ela retomou a consciência.
– O que... aconteceu? – Denise indagou, abrindo seus olhos.
– Você caiu – Xaveco respondeu, ajeitando a franja ruiva que tampava seu rosto.
– Ai Senhor, fui sequestrada por um nerd? – perguntou, assustada.
– Bem que eu queria – confessou baixinho, a encarando nos olhinhos confusos.
– E onde, onde a gente está? – desconversou, olhando pros arredores que não só tinha mato.
– Eu não sei... – disse, passeando seu olhar perdido.
Apertaram os passos pelo matagal escuro, embora já estivessem encharcados pela chuva que insistia em cair sobre suas cabeças. Pararam por alguns instantes apenas para retomar fôlego e voltaram a correr até a Denise tropeçar e cair nos braços do loiro.
O tempo parecia parar ao redor deles. Xaveco tentou a todo custo não olhar pro sutiã transparecendo debaixo daquela regata branca quando sentiu aqueles lábios macios tomar sua boca de uma vez só. Beijaram-se desesperados, como se nunca tivessem beijado antes. Afinal, aquele era o primeiro beijo sóbrio entre eles. O raio, a chuva, a escuridão, nada fazia parar, aliás, aquele cenário inusitado só aumentavam ainda mais a vontade de um ter o outro.
As bocas se entreabriram apenas para respirar e voltaram a se explorarem com direito a chupadas de cabelos misturado a água que caía forte do céu, violando cada pedaço e gemendo juntos. Enquanto se beijavam com vigor, as mãos livres do loiro soltaram aqueles cabelos ruivos, dando a ela um ar mais descarada, mais sexy.
Mas a alegria dos dois durou pouco. Uma luz, proveniente das lanternas, chamaram a atenção dos dois perdidos... em duplo sentido. Os instrutores correram aliviados em direção a eles e sairam juntos no estacionamento do sítio.
Ao notar o afastamento dos adultos, Xaveco puxou sua amiga para trás e colando sua boca nos ouvidos dela, disse com uma voz sensualmente rouca: – Fica comigo.
– Não se pode ficar com “nós” duas ao mesmo tempo – Denise sussurrou de volta e largando-se daqueles braços calorosos, correu em direção aos instrutores.
Entraram no sítio, sob olhares curiosos e preocupados como o caso da Carminha. Ela, ao contrário dos outros, chegou receosa perto dos dois.
– Eu... – Carmem não sabia o que dizer.
– Faz um grande favor – Denise disse, e dando de ombros para ela, completou – nunca mais fala comigo, ou melhor – fuzilou o loiro com seu olhar – nunca mais falem comigo.
– Hei, como assim? – Xaveco perguntou sem entender nada.
Assim a noite estava chegando ao fim menos para a Denise que não conseguia pregar os olhos naquela madrugada. Tudo ali conspirava contra seu sono, os pernilongos e borrachudos, sua briga feia com a patricinha e especialmente suas atitudes impulsivas com seu amigo geek. Passou a mão pela boca, lembrando a sensação nunca experimentada antes. Ninguém jamais causara tanto frisson na sua barriga como ele, embora não quisesse admitir. A palavra compromisso não fazia parte do seu dicionário... não ainda. Seu dilema era: curtir a vida até os trinta e depois quem sabe pensar em namorar, noivar e casar.
– “Eu pensando naquele nerd?” – perguntou em pensamento e acrescentou – “tenha misericórdia de mim senhor...”
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Marina também não conseguia dormir e arregalando os olhinhos, saiu do quarto sem fazer grandes ruídos, carregando seu caderno de desenho e o novo lápis que ganhara dos seus pais no aniversário. Caminhou em passos lentos e parou em uma subida. Olhou pro céu escuro, as árvores, as moitas. Notou que faltava algo ali: luz.
Pegou o lápis e passou a rascunhar algo, levando certa de dez minutos para terminar. Mirou a página rabiscada pro alto e dela sairam milhares de vaga-lumes que passaram a iluminar aquela madrugada tão escura e sombria.
As lanterninhas seguiram para o alojamento das meninas, chamando a atenção da Denise ainda acordada, que sorriu ao vê-los tão de perto, o que fez esquecer seus anseios e inquietações do lado e sentir-se mais leve e solta.
O próximo destino das luzes fosforescentes foram o quarto dos garotos, sendo vistos somente pelo nerd. Uma delas parou bem na janela e vendo a aproximação de mãos grandes, fugiu rumo ao horizonte. O loirinho sentiu uma rápido frustração por não conseguir, mas logo bocejou de cansaço e voltou a sua beliche.
Os pirilampos correram por outros lugares e pelo matagal e alcançaram um casal entre beijos e amassos às escuras. A dentuça interrompeu as carícias do Cebola e apontou as lanternas que alçaram vôo ao horizonte.
– Que lindos... – Mônica disse, agarrada no namorado.
– Eu nunca vi tanto vaga-lume junto num só lugar... estranho – Cebola disse pensativo, estupefato com os mistérios da Natureza.
– Eu preferia ouvir: “você é mais linda que todas elas” – falou brincalhona.
– Mas isso soa muito clichê – disse, brincando.
– Eu adoro clichês – afirmou, encarando o namorado.
– Nesse caso – ele puxou-a para beijá-la suavemente. Era um daqueles beijos cinematográficos carregados de magia e romantismo.
Enquanto isso, um vaga-lume pousou na ponto do dedo de alguém escondido nas moitas, que parecia fantasiar um pedido na boca, embora não acreditasse nessas superstições. A luz levantou as asinhas e saiu voando pro infinito.
Continua...
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