Notas iniciais
Mais uma parte! Escutem: https://www.youtube.com/watch?v=L89xFzGpfBs

— E se fosse verdade, vai fazer o que? Bater nele? – perguntou, peitando ele.

— Vou fazer isso agora mes... – ele foi interrompido.

— Se você fizer alguma coisa contra ele nunca mais olho nessa tua cara está entendendo?— gritou, apontando o dedo no rosto do playboy.

Aquelas palavras corroeram a alma do Timóteo. Sabia que sua namorada... ou melhor, ex-namorada, tinha um gênio muito forte e somente tinha um jeito para domar a fera ferida.

— Tudo bem – Titi parou em frente a saída, e esticando os braços pros lados, comentou – faz o que quiser comigo.

— Some da minha frente vai – Ana pediu apontando a saída do quarto, e respirando fundo, indagou – será que você ainda não entendeu que tá tudo acabado?

— Vai... bate em mim, pode chutar, socar, me espancar, descontar toda sua raiva, mas só não me pede para esquecer tudo o que rolou entre a gente por todos esses anos – confessou, e a encarando firme naquele olhar esquivo, acrescentou – eu sei que não tenho crédito nenhum com você, sei que... já fiz muita mancada...

Ela, por sua vez, fez o que o coração mandou fazer. Estapeou bem forte o rosto do ex, que apenas consentia a dor... e deu outro belo tabefe, e mais um e de novo como se quisesse descarregar todo o amor e o ódio que sentiu e que ainda sentia pelo playboy até que viu seus dedos sendo imobilizada pela mão forte dele e ficaram ali algum momento ofegantes e se encarando desafiadoramente como se esperasse uma resposta que não viria por meio de palavras.

E ele a puxou contra si, beijando-a vorazmente com saudade, pressa, desespero e todos os sentimentos acumulados desde a separação, e para dizer que não estava brincando, passou as mãos ávidas por baixo daquela camisola enquanto sentia aquelas unhas desesperadas apertarem ainda mais os corpos. Ela saiu do beijo com um gemido engasgado e virou-se de costas para ele abaixar o zíper da camisola e a deixando somente de sutiã e calcinha, voltou a encarar aqueles olhos tão famintos por ela que pareciam dizer a todo momento: “você vai ser minha hoje, amanhã, e nas próximas noites...”

Ele a sentou no balcão e tornou a devorar aquela boca tão entregue ao seu, sentindo as mãos dela invadirem descadamente por dentro da camisa dele, a fim de descobrir, ou melhor, redescobrir todo aquele corpo talhado nos treinos de musculação que conhecia muito bem. O dentuço não queria perder nem mais um segundo, não depois de tanto tempo separados e tirou sôfrego o shorts e o boxer com a ajuda da Ana que também abaixava sua calcinha sem deixar cair, penetrou bem fundo naquele sexo entumecido. Fazia questão de encará-la naqueles olhos descarados e angelicais quando estivesse dentro daquela que continuava a desejar em suas fantasias. Ficaram com as bocas quase coladas e começaram o vai e volta ao mesmo tempo que se beijaram vigorosos.

Titi era viril e a enlouquecia. Ana havia se esquecido como fazer amor com ele era... perfeito em qualquer lugar improvável que fosse. Ficara com outros rapazes nesse intervalo até mais velhos e experientes que ele, mas ninguém conseguia a incendiar daquele jeito, como os olhares que se encontraram outra vez, um desafiando o outro. Ela o puxou pelos cabelos e colando as bocas inchadas, ergueu ainda mais os joelhos, exigindo que fosse mais rápido, mais fundo e mais intenso. Entregaram-se ao desejo assim como o orgasmo que não tardaria a chegar.

E se amaram até o despontar do sol naquele horizonte desértico. Os primeiros sinais do amanhecer incomodaram as pálpebras do Timóteo, que tateava às escuras aquela que foi o fogo para a sua gasolina. Viu então a fogosa se vestindo calmamente como se nada tivesse acontecido na madrugada anterior.

— Está procurando o que? – Ana indagou, vestindo a camisola.

— Alguém que dormiu comigo ontem – Titi respondeu, espreguiçando os braços.

— Eu não páro mais a minha vida por sua causa – rebateu, e ajeitando os cabelos, acrescentou – foi uma noite.

— Hum, eu preciso continuar tentando pelo visto – comentou, adorando vê-la bater a porta nas costas com raiva.

Os próximos dias no palácio se arrastaram em aulas e mais aulas de dança entre os intervalos de refeições, praticando passos novos e revisando os básicos. As meninas estavam indo bem como solo, mas as coreografias em casal um desastre. Engraçado que sozinhos, os garotos também dançavam, digamos, desengonçados, mas melhor que acompanhados. O problema ali era a total falta de sincronia dos casais. Era um levanta perna no lado contrário da dama, olhares pros lados opostos como se quisessem evitar de se encararem por vergonha, raiva ou sabe-se lá qualquer outro motivo.

Ana pôs a mão na cabeça em reprovação e pensou muito até que uma idéia não tão brilhante surgiu em sua mente.

— Cas e Magá, podem dançar juntos? – Ana pediu, receoso.

— Por mim não imp... – Cascão foi interrompido pela sua amiga.

— Você pode me proibir de comer chocolate, enfim, tudo, menos isso – Magali respondeu.

— Uma vez só... vai – Ana insistiu e chegando bem perto dela, murmurou baixinho – depois eu te dou aquela bolsa que você amou outro dia...

— Tudo bem, fechado – Magali disse, mudando de água para o vinho.

— Interesseira— Cascão falou bem baixo.

Chato— Magali disse.

Ao escutar a mesma música pela enésima vez, Magali começou a mover simultaneamente os braços e os quadris, ora e outra, pondo as mãos na cintura, balançando o traseiro enquanto seu amigo assistia a dama dançar. Ele não conseguia parar de seguir aquela dança sensual com os olhos cobiçados quando chegou sua vez de se apresentar. Deu aquele típico sorriso e passou a jogar um pé para frente e outro para trás, sacudindo os ombros tão próximos da parceira que podia escutar a sua respiração e quase encostar nela.

— Safado— Magali falou bem baixinho.

— Safada— Cascão rebateu prontamente.

Trocaram os passos para o deleite do Cascão, que agachava em frente áquela que era um colírio pros seus olhos. Pôs uma mão na nuca, enquanto fazia um movimento semelhante às ondas com o outro braço esticado. Ela fez o mesmo, a obrigando encará-lo nos olhos, embora não assumisse o quanto gostava daquele olhar intenso que a deixava sem rédeas. O pior foi o momento que precisou inclinar seu tronco lentamente para trás e ver o braço firme do moreno quase tocar suas costas. Eles estavam tão próximos que não resistiram aos comentários: “Dança de boiola tem suas vantagens” “Abusado” “Sei que gosta” “Te odeio”.

— Parem!— Ana disse, quebrando todo o clima perigoso entre os amigos.

— Agora que a coisa ia esquentar...— Denise comentou mais para ela do que pros outros e estalou os dedos, contrariada.

— Tá um frio aqui – Cebola disse, brincalhão.

— De quem será a culpa? – Mônica indagou, cruzando os braços e balançando os pés irritados no chão.

— Minha que não é – Denise respondeu no lugar do namorado da dentuça.

— Será? – Xaveco perguntou, a encarando sério.

— Dança comigo querido – Carmem disse, estendendo a mão para o namorado.

— Bom proveito – Denise comentou, saindo do salão.

— Nossa o que houve? – a patricinha perguntou, desconfiada.

— Nada... não foi nada – Xaveco falou, pensativo.

Denise tinha levado belos tabefes da sua ex-rival na noite anterior. Estava andando torto com a ajuda da sua amiga e professora de dança pelos corredores quando viu o nerd vir correndo em sua direção, preocupado. O geek ofereceu seus ombros para apoio e ajudou-a entrar num dos milhares de quartos vazios daquele espaçoso palácio. Fez curativos enquanto escutava o motivo de toda aquela confusão, o que justificava aqueles machucados no rosto.

Ficou emocionado, de fato. Nunca imaginava que a ruiva seria capaz de tanto por ele. Talvez aquilo fosse um sinal de acertar de uma vez por todas sua situação com a garota dos seus sonhos desde a infância. Sempre quis namorá-la e não existia momento melhor para respirar fundo e peitar sua timidez e o medo da rejeição. Prendeu a respiração e tomando coragem, começou a falar bem devagar como se quisesse disfarçar a ansiedade de estar junto daquela que o fazia feliz.

— Espera um pouco – Denise pôs as mãos na cintura e continuou – você está fazendo uma declaração de amor?

— Tou, tou sim – Xaveco confessou, e tentando disfarçar o suor que escorria da testa, continuou – é... tou, deixei meu orgulho de lado porque quero ficar só com você e com mais ninguém.

— Obrigada mas – disse, e disfarçando a emoção, continuou firme – eu lembro que falei que... não quero namorar – sacudiu a cabeça e completou – aliás, só de ouvir essa palavra me dá alergia.

— Por que? – indagou, e respirando fundo, continuou – a gente tem uma química boa, eu gosto de você e você também gost... – ele foi interrompido pela ruiva.

— E por que eu namoraria um cara que já tá com outra? – indagou, desconversando.

— Se você me aceitar como seu namorado vou lá agora e terminar com a Carmem – disse prontamente, acariciando o rosto da injuriada.

— Mas se eu não aceitar? – perguntou, retirando a mão quente do seu rosto.

— Eu continuo com ela – respondeu, afastando-se dela.

— Como é que é?— indagou, confusa.

— Ou você namora comigo ou nada feito – disse, firme.

— Você gosta de mim, mas vai continuar com ela, é isso mesmo que ouvi? – perguntou, irritada.

— Tem medo do que?— indagou, e segurando firmemente os ombros da ruiva, disse a encarando fundo naqueles olhinhos perdidos – se o teu problema for esse meu jeito de “nerd” como vocês falam, eu mudo por você.

— Eu, eu já falei que não quero— respondeu, largando-se bruscamente do loiro.

— Você ainda vai se arrepender por isso – disse, e saindo da cama direto para a porta, concluiu dando as costas – se cuida.

Estava tão absorto em seus pensamentos que tomou um enorme susto ao ser puxado pela loira no centro do salão. Ela o encarou como se quisesse decifrar o que se passava naquela cabeça avoada. Passou a balançar suavemente os quadris conforme aprendera, cercando o nerd por todos os lados. Tudo para esquecer todo aquele sentimentalismo pelo Jeremias que somente a deixara fraca e voltar a ser aos poucos a patricinha que seus amigos conhecem. Assim pensava ela até escutar a Ana chamar a atenção de todos.

— Por hoje chega!— Ana gritou, e batendo a palma das mãos, chamou a atenção da dentuça e do Cebola – Vocês são os que mais precisam melhorar na sincronia.

— De quem será a culpa? – Mônica indagou.

— Mas eu estou fazendo certo – Cebola rebateu, contrariado.

— Eu tenho que concordar com ele miga— Ana falou, e vendo a reação sem graça da sua amiga, disse – você parece distraída com alguma coisa...

— Ou com alguém— Carmem completou, irônica.

— Fica quieta— Magali falou entre os dentes.

— Como assim? – Cebola que tinha escutado perfeitamente os comentários da loira perguntou, olhando desconfiado para sua namorada.

— Querem saber de uma coisa? – Mônica tentou desconversar e continuou – eu ganho mais tomar um bom banho que ficar aqui.

Cebola que assistia a dentuça sair feito furacão do salão, foi atrás dela para tirar maiores satisfações. Vasculhou quarto por quarto, sala por sala quando deparou-se com a maior fofoqueira da escola apoiada na varanda... pensativa. Notou seu rosto encharcado de lágrimas, como se estivesse lembrando de algo sôfrego. Aproximou-se cautelosamente e tocando aqueles ombros encolhidos, observou bem o rostinho da sua amiga irreconhecível.

— Tá, tá tudo bem? – Cebola perguntou, preocupado.

— Ai Senhor, acho que entrou um cisco nos meus olhos e... – Denise esfregou o rosto na mão, disfarçando a todo custo seu lado frágil de ser.

— Não precisa ter vergonha – disse, querendo confortá-la.

— Você quer se aproveitar da minha fraqueza é isso querido? – indagou, tentando decifrar aquele olhar aparentemente inocente.

— Não – respondeu prontamente.

— Quer ficar comigo? – perguntou outra vez.

— Não – afirmou e após uma pequena pausa, continuou – se quiser desabafar sei lá, pode falar.

— Já que é assim... – falou, e encostando sua cabeça no ombro do amigo, confessou baixinho – você não é de se jogar fora sabia?

Um flashback rápido das palavras dolorosas do geek passaram pela mente da Denise. Queria ficar com ele, mas ao mesmo tempo não queria ficar com ele. Tinha medo de se apaixonar, aliás já estava apaixonada embora ainda não aceitasse isso. A palavra namorar ecoava em seus pensamentos repetidas vezes até que uma voz familiar a despertou do transe.

— O que significa isso? – Mônica perguntou, desconfiada.

— Eu só tava dando uma força – Cebola respondeu naturalmente.

— Então é assim que você consola as suas amigas – a dentuça comentou, irônica.

— Querida não é o que... – Denise não conseguiu terminar de falar.

— Ninguém te perguntou nada – Mônica atropelou as palavras da amiga.

— Quer saber? – Cebola disse, nervoso – É desse jeito que consolo elas – a segurou firmemente nos ombros e roubando-lhe um beijo de tirar o fôlego, soltou-se apenas para respirar – gostou?

— Hum, nada mal – Denise comentou, passando a lingua nos lábios.

— Por que? – Mônica perguntou sem entender aquelas atitudes do namorado que sempre fora fiel a ela.

— Pergunta pro Do Contra – Cebola jogou uma indireta, deixando sua amiga embasbacada.

— Ai, Senhor que babado— Denise comentou mais para ela do que pros outros.

— Não, não... não aconteceu nada entre a gente!— Mônica rebateu.

— Então olha pra mim direito e fala – Cebola encarou fundo nos olhos da dentuça que entregava tudo.

Nesse instante, um silêncio agonizante se instalou sobre eles. Mônica não conseguia encarar aqueles olhos decepcionados e muito menos confessar sobre os beijos trocados com seu amigo mestiço no sítio e na própria festa de aniversário! Aquela seria sua chance de pedir perdão se o orgulho não falasse mais alto. Mas ao invés disso, abaixou a cabeça e simplesmente foi se afastando dos dois sem dizer nada, sumindo no corredor.

As horas se arrastaram até a hora do jantar. Ali na mesa, a maioria parecia entediado, cansado, enfim, enjoados daquele mesmo cenário desértico que se resumia áquele sol escaldante e areia por todos os cantos.

— O que acham de voltarmos uma vez para a casa? – Marina indagou, brincando com a comida no prato.

— Mas aí como ficam as aulas? – Mônica perguntou, bocejando.

— Bom gente eu trabalho e estudo de semana, então só se for de noite – Ana explicou.

— Vejamos: uma hora lá é um dia aqui então... – Marina contou o tempo que restaria nos dedos, pensativa.

— Eu saio umas dez da facu, às vezes, dependendo da aula, umas nove – Ana falou, e acompanhando o raciocínio da amiga desenhista, continuou – dá para a gente aproveitar umas duas horas, ou seja, seriam dois dias aqui, certo?

Ficaram ali combinando entre eles por algum tempo sobre os próximos dias, afinal, mesmo que a exposição fosse a prioridade do momento, eles precisavam viver suas rotinas escolares e de trabalho fora daquele lugar.

Magali que não conseguia pregar os olhos ansiosos naquela última noite antes do retorno marcado na manhã seguinte, aproveitou para dar um mergulho. Trocou-se rapidamente, saiu daquela cama marcada por carícias intensas trocadas com seu amigo e deixou a suíte para trás, passando cautelosamente pelo corredor infinito que dava acesso ao térreo e enfim, a enorme piscina sem sequer desconfiar que foi seguida por alguém. Pulou a rampa e nadando até a cascata, deixou que a água morna banhasse sua mente e corpo.

Cascão, por sua vez, ficou ali admirando sua amiga que parecia insinuante aos seus olhos. Começou a tirar a roupa, e ficando somente de bermuda, entrou na piscina sem fazer ruídos para pegá-la de surpresa. Mergulhou em direção a cachoeira e puxou-a para baixo pela perna, a fazendo afundar. Ela tomou aquele susto e nadando até a superfície da água, viu o culpado.

— Ah... não – Magali disse.

— Ah sim – Cascão comentou, brincalhão.

— O que você está fazendo aqui garoto? – indagou, irritada.

— Vamos ver quem chega primeiro naquela borda – apontou o começo daquela imensa piscina, a encarando desafiadoramente.

— Por que eu ia perder o meu tempo fazendo isso? – perguntou.

— Porque se ganhar eu faço o que você quiser – comentou, e vendo a reação esperada da amiga, completou – mas se perder você precisa fazer o que eu quiser.

— Mas... assim... o que eu quiser mesmo? – indagou, erguendo uma sobrancelha.

— O que você quiser— sussurrou nos ouvidos dela, provocativo.

— Me deixar em paz por exemplo?— jogou um balde d’ água fria.

— Ah mas isso eu tenho certeza que não vai me pedir – disse, convencido.

— Isso é o que vamos ver – falou, se posicionando para nadar.

Começaram a nadar, ora e outra, colocando suas cabeças para fora em busca de ar. Alcançaram a metade da raia quando Magali sentiu uma dor imensa vindo do seu joelho. Pôs a mão na região dolorida e afundando a cabeça, ficou imersa na água. Tentou a todo custo nadar com uma perna só, sem sucesso. A última coisa que viu foi o amigo chegar rapidamente no ponto de chegada antes de cair no desespero.

— Ganhei! – Cascão anunciou satisfeito e estranhando a demora da adversária, indagou – Ué? Cadê ela?

Tomou impulso e nadando de volta apressadamente, notou ela quase inconsciente debaixo d’água com as mãos sobrepostas nas coxas. Socorrou o mais rápido possível e trouxe a Magali de volta a superfície. Dessa vez, diferente dos outros afogamentos, uma a duas tapas nas costas foram suficientes para trazê-la de volta a realidade.

— Caramba meu, você gosta de se afogar – Cascão reclamou, preocupado.

— Há há há com certeza eu adoro— Magali disse, e lembrando-se de algo, corou violentamente.

— O que foi? – indagou, curioso.

— Nada— murmurou baixo, sem graça.

— Eu lembrei de alguma coisa agora— sussurrou, adorando vê-la estremecer e gemer baixinho ao mesmo tempo.

— Sai— resmugou sem força.

— Quem mandou perder?— lambeu o pescoço, a fazendo morder o lábio inferior.

— Foi... foi um empate! – afirmou.

Ao tentar se levantar bruscamente, Magali foi obrigada a se ajoelhar graças a caimbra que sentia nas extremidades do joelho. Voltou a sentar-se na beira da piscina com a ajuda do moreno, e sentindo aquelas mãos firmes massagearem sua panturrilha, deixou escapar um gemido que não era de prazer. Passou a sentir dedilhadas mais fortes agora nas coxas, como se quisesse testar sua resistência.

— Ai, ai, ai – Magali deixou escapar, o obrigando diminuir a força.

— Calma – Cascão disse, e respirando fundo, tentou continuar e mais uma vez foi interrompido pelos gritinhos de agonia.

E tomou uma atitude inusitada: calou-a com um beijo enquanto seus dedos massageavam a coxa. Ao escutar um gemido engasgado de dor sair pelos lábios carmezi, forçou passagem na lingua conforme o dedão seu colocava ainda mais força abaixo da virilha. Quem visse de longe jamais imaginaria que Cascão apenas fazia massagem na amiga como o caso das garotas que assistiam a toda áquela cena.

— Isso daria uma bela novela mexicana – Denise disse, filmando o casal no celular.

— Não, não e não! – Magali empurrou o moreno na piscina e pensando um pouco, disse – espera aí... você não postou de propósito aquelas fotos no seu face, postou?

— Como assim? – Cascão pôs a cabeça para fora da piscina, apoiando seus braços nas bordas.

— Postei, ué – Denise respondeu naturalmente e vendo seu amigo sair da água, continuou – aliás, vocês deveriam me agradecer por isso.

— Agradecer o que? – Magali perguntou revoltada e tentando manter a calma, continuou – Que graças a você o Quim terminou o namoro comigo na frente de todo mundo? – encarou o seu amigo como se esperasse ele a falar.

— Por mim beleza – Cascão respondeu calmo e após tirar o exceção de água dos cabelos, disse – a gente ia terminar de um jeito ou outro mesmo então...

— Pois é, não foi você que passou vergonha com todo mundo te olhando – Magali reclamou, cruzando os braços.

— Isso soa tão briga de marido e mulher – Denise disse e dando as costas pros dois, acrescentou – que não vou meter a colher.

— Hei, você não veio aqui só pra falar isso – Magali falou, impedindo dela sair.

— Ah é quase esqueci de avisar que a mandou avisar todo mundo que vamos para uma caverna aí – Denise saiu acenando pros dois.

Todos se reuniram em frente ao palácio. Aproveitariam o máximo a última noite desértica antes do retorno aos lares embora aquilo não fosse despedida de quem fazia parte da apresentação escolar que voltaria no dia seguinte para treinar. Uma turma seguiria pelo Jeep e o restante pelo tapete mágico. Em menos de meia hora já estavam na entrada da caverna.

— Foi você quem desenhou ela Má?— Ana perguntou, boquiaberta.

— Não, meu pai – Marina respondeu, igualmente atônita.

— Ou seja não podemos contar com você como guia – Denise lamentou, pondo a mão na cabeça.

De repente, escutaram uma voz gritar bem alto do fundo da caverna, ecoando por todos os cantos, fazendo a turma suar frio, principalmente as garotas.

— Noite de terror? – Ana indagou, receosa.

Timóteo que não era bobo nem nada aproveitou a ocasião para agarrar sua ex e tentar “confortá-la do medo”, mas ela se desviou rapidamente daqueles braços fortes, ficando ao lado do amigo adotado como seu irmão.

— Vamos indo na frente, maninho? — Ana puxou-o pelo braço, tomando a iniciativa de entrar naquele lugar desconhecido.

— Maninho?— a patricinha e o playboy falaram em uníssono, perplexos com o novo apelido do Jeremias.

— “Será que ele tem fetiche por... incesto?” – Carmem pensou confusa.

Um a um ou em duplas ou trios, a turma toda passou pela única entrada com certo receio do que estaria por vir. Eles somente não ficaram totalmente cegos graças as lanternas improvisadas pela Marina. O som das goteiras que ecoava nos ouvidos temerosos, a passagem estreita que parecia não ter fim. Um ar de suspense e temor pairava naquele ar. Opa! Finalmente uma luz no final do túnel! Ou melhor, mais corredores. O bando se dividiu em três e cada grupo tomou um rumo diferente. Marcaram como ponto de reencontro a saída no lado norte, se é que existia essa tal saída. O lugar em si também não ajudava. Era como se caminhassem em círculos, dando a impressão que estavam andando os mesmos lugares repetidas vezes.

— Meu Deus, quantas vezes já passamos por aqui? – Carmem indagou, cansada.

— Eu não faço a mínima idéia – Titi reclamou, passando a mão na testa.

Em passos lentos e pesados, a patricinha voltou a andar e distraiu-se pela enésima vez com ele e a Ana quando escorregou na poça formada pelas goteiras. Tudo foi rápido demais. Abriu os olhos e já estava pendurada em uma saliência da rocha sobre o precipício. Notou o Jeremias apoiado nos outros amigos estender a mão, mas a única imagem que vinha na sua mente era a imagem fria do pai e sorrindo triste para ele, soltou-se do único apoio.

— NÃO!— Aquele foi o último grito que Carmem escutou antes de fechar os olhos... pela última vez.

Num ato inpensado, Jeremias pulou o desfiladeiro mortal abaixo, sendo praticamente arrastado por aquela descida íngreme.

Ao abrir os olhinhos atordoados, Carmem se viu em sã e salva uma base rochosa ao lado do seu herói que parecia aliviado com o seu despertar. Haviam ficado entre o resto dos amigos que gritavam desesperados do alto e o restante do abismo. Ela se levantou sem nada dizer e olhou para cima e para o desfiladeiro mortal abaixo. Como ele pôde fazer isso com ela? Queria se matar, tirar a própria vida e acabar logo com aquele vazio! Talvez julgariam que ela foi uma covarde, estúpida e irracional, mas... o que todos tem, ou a maioria pelo menos, ela não tinha: família.

Retirou rapidamente uma droga e acendendo no esqueiro, fumou para acalmar os nervos. Sentou-se na parede rochosa, tragando aquele doce veneno na garganta e soltando em seguida. Ignorou o Jeremias sentado ao seu lado que a encarava incrédulo.

— Por acaso nunca viu alguém fumar? – Carmem perguntou, esquivando daquele olhar nada amigável.

— Não desse jeito – Jeremias respondeu, surpreso.

— Eu não te vou agradecer dessa vez porque não pedi pra me salvar – comentou, sentindo o relaxar dos ombros.

— Eu sei – disse como se entendesse o que ela queria dizer com tais palavras.

— Você tem família? – indagou, sem encará-lo nos olhos.

— Não – respondeu naturalmente, surpreendendo-a.

— Fala como se fosse a coisa mais normal do mundo – comentou, indignada.

— Meu avô morreu a alguns anos e hoje divido apartamento com meus amigos – explicou, e seguindo com o olhar a goteira cair no chão, completou – meus pais morreram quando eu ainda era moleque.

Eu não sei o que é pior – disse, e olhando o teto coberto por rochas pontudas, continuou – pais ausentes ou mortos.

— Mas não pode desistir assim de viver – falou sorrindo – nem tudo na vida é ruim como você pensa.

— Será? – perguntou, queimando a ponta do cigarro no solo úmido.

— Depende de como você encara as coisas – disse calmamente.

— Sabe que – ela esboçou um sorriso de canto e continuou – eu nunca falei essas coisas com alguém, muito menos com... homens.

— Tudo tem a primeira vez – sorriu discretamente.

Antes que ela pudesse abrir a boca para dizer algo, Titi gritou seus nomes, jogando uma corda em direção aos dois. Jeremias subiu antes enquanto ajudava a patricinha que vinha por trás. Voltaram ao topo e foram recebidos com broncas.

Enquanto isso, a maior fofoqueira da escola também havia escorregado naquele chão rochoso. Cebola chegou primeiro e resgatando-a apressadamente, ganhou um agarrão ali mesmo na frente dos outros, principalmente do nerd, que não conseguia disfarçar o ciúme.

— O que acha de ficarmos depois?— Denise sussurrou nos ouvidos do amigo, provocativo.

— Não, eu – Cebola disse sem jeito, e vendo o geek soltar faísca pelos olhos, soltou-se dela – eu só acho que você errou o alvo e... ainda namoro.

— Como assim? – Xaveco perguntou, levemente irritado.

— Olha – Denise confessou, e notando a curiosidade alheia, afastou-se do amigo – o que aconteceu lá não tem nada a ver comigo e... – ela foi interrompida pela fúria do loiro.

— Você não deu em cima dela?— Xaveco agarrou-o pelo colarinho, descontrolado.

— Calma cala, eu posso expli... – Cebola não conseguiu terminar de falar, levando uma bela surra na face direita que quase o derrubou no chão.

A cena a seguir foi bastante tensa, rápida e explosiva. Toda a confiança e a amizade cultivada entre eles durante tantos anos caiu por terra, impulsionando o geek a surrar ainda mais forte o seu amigo dos planos infalíveis que reagia surrando de volta. A briga não teria fim se o Cascão não intercedesse a tempo embora o estrago já estivesse feito.

— Vocês estão doidos?— Cascão gritou, nervoso.

— Eu sou por ela— Xaveco confessou, encarando nos olhos esquivos da ruiva.

— O que aconteceu entre a gente foi... – Cebola ainda tentou se explicar mesmo todo esfolado.

— Ah deixa pra lá que ela é assim mesmo e dá em cima de qualquer... – Xaveco foi impedido por um tabefe no rosto.

— Qualquer um não— Denise disse nervosa e respirando fundo, continuou – eu não posso fazer nada se você não...

— Quis ficar como “qualquer um”?— Xaveco completou, erguendo o tom de voz.

— Oh na boa vão brigar em outro lugar que já cansou – Cascão interrompeu e respirando fundo, pensou – “putz cara se eu soubesse que ia dar todo esse xabu tinha ficado de boa lá na piscina com a...”

Em algum canto, alguém espirrava tão forte que era capaz de ecoar pela caverna inteira. Magali passou a mão nas narinas e espirrando uma a duas vezes mais, esfregou o nariz vermelho graças aos espirros seguidos.

— Eu acho que tem gente falando de mim – Magali comentou.

— Deve ser o Cas — Mônica disse, sorrindo maliciosa.

— Mas é besta – Magali falou e lembrando-se de algo, continuou – falando nisso, será que o está bem com ele?

— Eu lá sei – a dentuça respondeu, cruzando os braços.

— Por que não ficaram no mesmo grupo? Brigaram por acaso? – Magali soltou uma rajada de perguntas.

— Mais ou menos – Mônica respondeu e aproximando-se mais da amiga, murmurou baixinho – peguei ele com a Dê.

— O que?— Magali perguntou em voz alta, chamando a atenção dos pombinhos que seguiam em frente a elas.

— Tudo bem aí gente? – Marina indagou, preocupada.

— Eu disse que você e o Fran formam um lindo casal – Mônica cutucou – não é miga— esperou eles se distanciarem das duas, e puxando sua best para trás, falou com a lingua entre os dentes – fala mais baixo criatura.

— Como assim o Cê?— Magali perguntou, e pensando um pouco, continuou – Ele não seria capaz de...

— Foi, tanto é que ele beijou ela na minha frente— a dentuça comentou, mordendo o dedão de raiva.

— Ou foi ela que fez isso?— Magali indagou.

— Eu sei de mais nada viu — Mônica disse, cansada de pensar.

— Mas você não me parece muito... — Magali a encarou fundo nos olhos e arriscou um palpite – Do Contra?

— Pois é ele já me beijou...— a dentuça mostrou discretamente dois dedos, a deixando perplexa.

— A primeira vez eu lembro que foi no sítio e a segunda...— Magali começou a contar na mão e após uma pequena pausa, concluiu – ué, não lembro de você ter me fal...

— No meu níver— Mônica respondeu, arregalando os olhos da amiga.

— Naquele seqüestro?— Magali perguntou e como resposta recebeu um “sim” com a cabeça – depois quem come quieta sou eu...

— Ah miga, mas no seu caso o Cas tá livre e— Mônica deu uma leve cotovelada e continuou – só falta você deixar de ser besta!

Ao ver a dentuça piscar antes de voltar a andar, Magali sacudiu a cabeça e vendo a luz de fora iluminar as paredes rochosas, correu para alcançar os três. Ficou ali contemplando o céu estrelado por um bom tempo até ver o restante da turma aparecer com expressões não muito amigáveis.

— Ai, Senhor achei que nunca fosse mais sair dessa maldita caverna!— Denise gritou, irritada.

— Acharam tão ruim assim gente? – Marina perguntou, surpresa.

— Mais ou menos – Ana respondeu, pensativa.

Ana refletiu o quão seu cansaço era pequeno em frente do que presenciara, afinal quase perdeu dois amigos no precipício. Voltou a caminhar disposta quando seu ex lhe puxou num canto escondido, sendo escorada contra parede. Sentiu aquela boca desesperada beijar o seu, e livrando-se rapidamente daqueles braços fortes, desvencilhou-se do beijo forçado.

— Tá maluco? – Ana indagou, limpando a boca inchada na mão.

— Poderia ter sido com você e – Titi tentou beijá-la força de novo, sem sucesso – ah sei lá, só sei que fiquei morrendo de medo e – ele prendeu-a pelos pulsos num ato de domínio e mordeu o queixo e o pescoço –doido pra – forçou sua boca no dela mais cerrado que casca de tartaruga.

— Me solta!— ela aproveitou que suas pernas estavam livres, chutando o sexo do playboy.

— Ai! Merda... – gritou, sôfrego.

— Se quer ficar tanto assim comigo não vai ser quando e onde você quer – afirmou, ofegante.

— Você não me... quer? – indagou, ainda sentindo uma ardência por entre as pernas.

— Agora não – sorriu com ar de deboche – quando eu quiser te procuro.

— Ana? Vamos? – Marina chamou por ela, a trazendo para a realidade.

A turma retornou para o palácio ora calados, ora pensativos e sérios com exceção do Cascão que assobiava sobre a paisagem exótica do deserto. Descansaram as últimas horas antes do amanhecer. Tomaram um café bem rápido e prepararam-se para voltar. Apesar da mordomia que tinham ali, estavam mortos de saudades em retornar as suas vidas.

Marina pegou seu lápis e desenhando uma porta para retornar a realidade, estendeu o caderno aberto no céu. Fez o teste e ficou aliviada por pisar no tapete do seu quarto depois de quase uma semana ausente da casa dos pais. Todos voltaram em seguida e respiraram aliviados aquele ar familiar do Limoeiro.

Enquanto a turma fazia as idas e vindas pelo Deserto para treinar nos dias que antecediam a apresentação escolar, Poeira Negra estava cada vez mais perto de descobrir por completo as palavras chaves, aquelas cujo ativariam a magia da extinção para trancar as pessoas nos próprios sonhos por toda a eternidade. Grande era a sua expectativa em prender a turma do bem na gaiola da ilusão. Usaria como arma o mel ao invés da dor e assistiria de camarote o espetáculo.

Mal sabiam eles que em poucas semanas o circo dos horrores estaria prestes a começar.