Notas iniciais
Mais uma parte do Deserto, escutem: https://www.youtube.com/watch?v=vslsS-Uu5x4

Havia um enorme resort árabe no tom do deserto com uma arquitetura fantástica, imperiosa, pomposa, enfim... faltavam adjetivos para descrever aquela criação dos deuses e, dependendo do ângulo, lembrava um castelo suntuoso. Na área de lazer, existia uma imensa piscina cristalina composta por um bar, mesas e cadeiras reclináveis para ninguém botar defeito e tudo envolto pelas plantações típicas da região como cactos floridos e palmeiras. Na parte interna, além da continuidade da piscina, suítes master e presidenciais com banheiras digno de reis e rainhas, lounge enorme para danças e jantares e espaçosas sacadas onde era possível ter uma vista panorâmica.

Todos ali prenderam a respiração e correram empolgados em direção ao palacete para terem a certeza que não era uma miragem, esquecendo-se de todo o cansaço de meio segundo atrás. Em cinco minutos chegaram em frente ao palácio, sendo recebidos pelos seus amigos vestidos à caráter com turbantes e véus.

— E aí gostaram da idéia? – Marina disse, piscando para eles.

— Marina minha fofa não tenho nem palavras... – Denise comentou, e abanando o rosto com as mãos, falou – eu só estou morrendo de sede...

— Como demoraram para chegar – Mônica falou e mordendo um quibe, continuou – começamos sem vocês.

— Hum, que delícia – Ana passou a lingua pelos lábios – olha não sou a Magá, mas a fome também está apertando aqui.

— E que fome – Titi disse, provocativo.

— Eu vou fingir que não ouvi isso – Ana falou, seca.

— Você, você está bem? – Jeremias perguntou, tocando cautelosamente nos ombros da amiga.

— Hei, hei, qualé velho vai querer azarar a mina dos outros? – Titi veio cheio de marra, atrapalhando a conversa entre eles.

— Em primeiro lugar, eu não sou mais a sua mina e segundo, tenha mais respeito com seu amigo que só ficou preocupado comigo – Ana encarou o ex e respirando fundo, disse – melhor eu ir comer antes que perca a fome – e olhou para trás antes de sumir naquele espaçoso corredor – obrigada Jeremias.

— Que isso – Jeremias disse sem jeito.

— Ih, concorrente à vista— Denise cutucou a patricinha.

— Eu, eu não sei do que você está falando— Carmem que observava atentamente ao motoboy, desconversou de prontidão.

— Nesse caso – Denise ergueu o queixo da rival e alertou sorrindo maldosamente antes de desaparecer – É melhor começar a entender logo porque se não for ela vai ser euzinha aqui.

Haviam bebidas e comidas para todos os gostos. Limonadas refrescantes, quibes, coxinhas, esfihas abertas e fechadas, pães círios, hummus de qualquer coisa, pastéis de belém e doces de gergelim. Tudo ali dava água na boca. A turma que o diga, embora alguns fizessem dietas acompanhada por nutricionistas, reeducações alimentares e o raio que o parta, a gula era maior. Abriram exceções, afinal, não se comia especiarias árabes todos os dias. Um silêncio era aquela mesa por estarem mais ocupados em comer e beber que falar.

Depois dos comes e bebes, alguns ficaram sentados à toa nas cadeiras, outros se espreguiçando ou se não alongando e um a dois tirando uma soneca rápida na mesa. As horas voaram num piscar de olhos e finalmente estavam refeitos para as aulas de dança do ventre com a professora Ana. As garotas vestidas de regata e calça legging ficaram no centro do salão e os garotos como platéia. Fizeram rapidamente um alongamento do corpo e começaram a praticar os primeiros passos.

— Quando for alongar o joelho vocês precisam pisar junto com o calcanhar – Ana fez uma pequena demonstração em movimentos lentos.

— Como? Assim? – Magali tentou fazer igual.

— Não, não – Ana chegou ao lado da amiga e repetiu de novo.

— Uh, isso... vira só mais um pouquinho — Titi esticou o pescoço para frente, e tentando olhar mais de perto o traseiro das meninas, foi repreendido.

— Sabe gente, aqui não é mostruário de bumbum – Ana disse irritada e vendo os meninos se afastarem, corrigiu – ah não gente, vocês podem ficar – apontou o ex e deu o ultimato – eu quis dizer para ele sair.

— Hei, hei o que eu fiz dessa vez?— Titi reclamou, nervoso.

— Eu só quero continuar a aula – Ana rebateu e peitando o playboy, completou – agora sai daqui – viu o garoto parado e insistiu – anda logo, tchau!

— Se ciúme matasse...— Denise comentou para a patricinha, mesmo fingindo falar sozinha.

— Como se você não fosse com o geekzinho— Carmem retrucou.

— Olha o Jeremias olhando para a professora – Denise adoro ver a ricaça se incomodar e botou mais fogo na lenha – ou ainda não percebeu que você só existe para ele?

— E, e, e o que eu tenho a ver com isso? – a loira fingiu não se importar.

Enquanto a professora discutia a relação que nem existia mais com o seu ex-namorado, a dentuça entrou na conversa das duas e chamando a Marina, fez um pequeno círculo entre elas.

— Então meninas, hoje é níver da Magá e estou pensando em fazer uma surpresa para ela – Mônica falou baixinho – depois se conseguir eu aviso, mas se puderem também avisem a Aninha.

— Ai, Senhor esqueci completamente disso— Denise disse, bocejando.

— Também... andou tão distraída com alguém— Carmem comentou, irônica.

— Mas fazer o que?— Marina indagou.

Mônica revelou suas idéias em segredo e elas voltaram em seus lugares antes que levantassem suspeitas desnecessárias. Piscaram uma para a outra até a Ana chamar a atenção de todos e continuar a aula, repetiu os movimentos infinitas vezes, só depois entrando com novos passos, mesmo que sentisse a indisposição de todas. Sabia que naquele ritmo, demoraria bastante, embora a dança exigisse muito do corpo e mente.

Ao final das aulas e já no começo daquela noite, as meninas estavam esgotadas pelo desgaste mental para não errar os passinhos e o vai e vem dos quadris que era, por incrível que parecesse, a parte mais difícil.

— Ai, Senhor... cansei – Denise foi a primeira em se manifestar, sentando-se no chão encarpetado.

— Também, chega – Mônica disse, alongando os braços e as pernas.

— Meninas, faltam quantos dias para a nossa apresentação? – Ana perguntou, pensativa.

— Bom... segundo meu pai, uma hora lá é como se fosse um dia nesse mundo – Marina explicou, limpando o suor na toalha.

— Ou seja, se a apresentação vai ser nesse fim de semana, temos aí cinco dias na nossa realdade que seriam três meses aqui é isso? – Ana indagou, confusa.

— Mais ou menos isso – Marina respondeu.

— Quer dizer que podemos aproveitar desse paraíso por três meses?— Denise gritou, maravilhada.

— Treinar por três meses – Ana afirmou e pensando um pouco.

— Estraga-prazeres — Denise murmurou baixinho, arrancando uma risada da amiga.

— Mesmo assim eu ainda acho curto porque tem os meninos – Ana falou, e pensando um pouco, disse – a não ser que as apresentações sejam separadas... – e perguntou – o que acham?

— Ah não... a graça está em dançar coladinho – Denise comentou, brincalhona.

— ... com o geekzinho? – Carmem completou a frase, sarcástica.

— Falando nisso, cadê eles? – Magali perguntou, olhando pros lados.

— Fica calma fofa que o que é seu ninguém tasca – Denise disse, arrancando risada das outras.

— Há há há muito engraçado – Magali falou sem jeito.

— Mas falando sério agora meninas – Ana falou, e interrompendo a conversa, continuou – se for em dupla, precisamos definir o par de vocês.

— Como assim “vocês?” – Denise indagou.

— Estamos em cinco meninas contra três meninos no nosso grupo – Ana explicou – o máximo que dá para formar são três casais ou seja, duas delas vão dançar sozinhas e bem... – disse, sem graça – imagino que a e o formariam um par e aí restam os outros dois.

— O nerdzinho também já tem dona – Carmem falou, irônica.

— Tudo bem querida se você quiser levar chifre, eu fico com o seu namorado – Denise rebateu prontamente, a deixando irritada.

— Nesse caso fica faltando um só e... – Ana disse, olhando para a Magali.

— Não – Magali respondeu de bate-pronto, sentindo todos os olhares voltadas para ela.

— Oh miga... deixa de ser boba – Mônica falou com a lingua entre os dentes – todo mundo já sabe do lance de vocês...

— Ou seja em vez de ficarmos aqui discutindo entre a gente seria melhor antes conversarmos com os meninos antes – Marina disse, e olhando para sua amiga, pediu – Magá, você pode procurar por eles?

As garotas esperaram a Magali sair do salão e começaram a conversar entre elas sobre o seu aniversário, e acertando os detalhes da festa surpresa que fariam logo mais no jantar, sairam antes da aniversariante retornar sem os garotos.

— Meninas eu não ach... – Magali olhou o lugar vazio e se perguntou – Ué, cadê elas?

Enquanto isso, os preparativos já começaram sem ela saber, em um quartinho escondido naquele espaçoso corredor, ora e outra alguém vigiava se não tinha ninguém de escuta na porta. As horas que antecederam a festa de aniversário foi um corre-corre danado, tudo com muita cautela, afinal de contas, a principal estrela daquela noite não poderia levantar nenhuma suspeita.

E chegou a tão esperada hora da janta. Havia uma mesa farta de comidas apetitosas e o melhor, cheirosas preparados pela desenhista e chef Marina no seu caderno de desenhos. Engraçado era comer algo que havia saído de uma folha.

— Ou seja, estamos comendo papel – Denise comentou pensativa, enquanto mastigava do seu arroz.

— Ai credo, claro que não – Magali disse, e saboreando a sopa, acrescentou – como essa delícia de sopa pode ser sulfite?

Nesse instante, as luzes foram praticamente todas apagadas, e sobrando somente as do centro do luxuoso lounge, começou a tocar uma música árabe animada no fundo. Ana surgiu das sombras vestida de bellydancer*, balançando sensualmente os quadris em conjunto com as mãos e braços sem ser vulgar para o deleite dos homens, especialmente do ex-namorado e de um admirador secreto seu desde os tempos de criança.

Carmem não podia deixar de notar o motoboy vidrado na sua amiga a dançar, como se ele estivesse atento a cada movimento seu mesmo que ela realmente dançasse bem, embora não quisesse assumir. Sentia o ciúme corroer seus nervos por ela arrancar algo que em todas as suas tentativas não tinha conseguido: chamar atenção.

— “Será que o Jeremias...” – Carmem pensou e sacudindo a cabeça, repensou – “não, não pode ser... se ele estivesse mesmo afim não ficaria com outra garota.”

Mal sabia a pobre coitada que o interesse do Jeremias pela professora vinha se arrastando de longo tempo, ou melhor, por exatos dez anos. Ficara ainda mais balançado quando soube que eles finalmente terminaram o namoro de muitas idas e vindas**. Quem sabe se o destino não estivesse dando uma chance? Pensava ele enquanto assistia fascinado a todos os passos dançantes da sua paixão mal-resolvida.

A apresentação corria bem quando Ana seguiu em direção a sua amiga que fez dezessete anos, e retirando a tiara da sua testa, colocou na cabeça dela com uma breve reverência. Magali não estava entendendo nada e limitou-se a sorrir até escutar o “Parabéns para Você” ecoar nos ouvidos de toda a turma e ficar ainda mais jeito.

— Parabéns miga!— Mônica foi a primeira em abraçar firmemente sua best de muitos anos, seguido dos outros.

— Que beije muuuuuito – Ana disse, sorrindo.

— Isso ela já faz calada— Denise falou, cheio de malícia.

— Depois pega seu presente na sua suíte presidencial – Marina comentou.

No próximo momento, as meninas trouxeram um bolo enorme com cobertura dupla, dando água na boca em todos. O tempo passou rápido assim como a sobremesa que acabou num piscar de olhos e a turma já saia para curtir o resto daquela noite desértica e fria ou voltar ao quarto como era o caso da aniversariante.

Ao entrar na suíte espaçosa, Magali viu sua enorme caixa de presente que cabia perfeitamente uma pessoa. Chegou perto sem hesitar e sentiu um puxão por entre o embrulho seguido de um beijo de arrancar suspiros às escuras. Conhecia bem aquela boca descarada, aquele jeito de beijar, aquela lingua abusada forçando na sua sem pedir passagem. Sabia que não resistiria se continuasse ali e afastou ele com todas as forças, o deixando rasgar a caixa e cair de costas.

— Que violenta – Cascão levantou-se, contrariado.

— Eu mato elas – Magali comentou, colocando a mão no rosto violentamente corada.

— Você não vai aproveitar o seu presente?— sussurrou nos ouvidos, e a fazendo morder o lábio inferior, acrescentou – é só por hoje porque amanhã volto a ser da Cascuda.

— O que?— indagou, tentando bater nele, sem sucesso.

— Quem mandou você enrolar? – devolveu com outra pergunta, segurando firmemente a mão trêmula pelo pulso no ar.

— Seu, seu, seu!— gritou revoltada, e tentando novamente socar o colo do moreno, viu as mãos sendo imobilizadas outra vez e o hálito quente ecoar nos ouvidos.

— Brincadeira— soprou sensualmente nos ouvidos, e sentindo a respiração acalmar, sorriu satisfeito com a reação esperada.

E dessa vez foi ela quem o beijou cheio de pressa, colando os lábios como se nunca mais quisesse largar enquanto o puxava ainda mais para perto do seu corpo, violando aquela boca que parecia adorar a inversão de papéis. Ele, por sua vez, deixou que ela violasse sua lingua molhada, entre gemidos e chupões no pescoço e queixo quando a pegou pela cintura, jogando-a na cama sem jamais parar de beijar. Jogou os travesseiros no chão com certo desespero que atrapalhavam o prazer dos dois, e prendendo suas mãos pelos pulsos num ato de domínio, saiu do beijo somente para respirar e depois deslizou a boca naquele decote convidativo, indo para o colo e voltando a calar os gemidos. Queria fazê-la pagar por todas as suas noites mal-dormidas ali, como marcar sua tez pálida com chupões ousados, abrir o zíper da regata e afundar a boca nos seios por cima do sutiã, o que faziam eles esquecerem completamente que a porta estava semi-aberta onde as meninas ficaram espiando todo aquele contato fogoso elevar suas temperaturas.

— Meldels, o que é essa pornografia? – Denise murmurou baixo, abanando seu rosto.

— O pior é você falando isso— Mônica disse, sarcástica.

— Mas eu sou uma santa— Denise comentou, e aproximando mais da porta, sentiu a dentuça que estava a sua frente desequilibrar e empurrar a porta.

Nesse instante, o moreno e a Magali escutaram o som da porta se abrir e dois gritos no fundo, interrompendo todo o clima entre eles. Ela aproveitou a brecha para tirar o corpo febril de cima do seu e fechando o zíper, cruzou com suas amigas caídas em frente a porta.

Enquanto isso, a professora que tinha acabado de tomar banho, enrolou uma toalha no pescoço e saindo para tomar um ar na enorme varanda onde havia praticamente o mesmo tamanho do extenso corredor que ligavam os quartos, encontrou o Jeremias à vontade encostado de costas para as grades com seu olhar perdido no céu ensolarado. Sentiu o frio do deserto esfriar seu rosto arosado pela água quente do chuveiro e passando as mãos nos braços gelados, encostou de frente para as grades enquanto o Jeremias olhava surpreso a sua suposta garota dos sonhos ao seu lado, olhando as infinitas estrelas. Quem sabe não fosse sua única e última chance de abrir o coração?

— Nossa... que frio aqui – Ana disse, encolhendo os ombros.

— Você quer que eu... eu pegue um casaco? – Jeremias perguntou, carinhoso.

— Não, não precisa, obrigada – falou, sorrindo.

— Beleza – comentou, inquieto.

Fez um silêncio entre eles, o que deixou ele ainda mais ansioso. Logo ele que vivia tão acostumado em companhia de garotas talvez até mais bonitas e atraentes que ela, sentiu-se pela primeira vez no meio de um redemoinho, mesmo que aparentasse calma. O pior nem era aquela situação em si e sim a confusão de seus sentimentos. Sabia que sentia algo forte pela ex do seu amigo desde os velhos tempos, mas não tinha certeza se era amor... ou paixão... ou simplesmente atração ou sabe-se lá o que aquilo poderia ser!

Respirou fundo, e engolindo seco, mordeu o lábio inferior. Tinha duas alternativas: arriscar toda sua amizade, aliás duas grandes amizades incluindo o Timóteo por um simples capricho seu ou esquecer tudo e seguir a vida em frente sem eternamente saber o que seria aquela ansiedade formigar sua pele e os pensamentos.

— Você não pensa em voltar pra... ele? – Jeremias indagou, receoso.

— Foi ele quem pediu para vir falar comigo? – Ana perguntou e ensaiando em sair dali, disse irritada – olha se for is...

— Não, eu perguntei porque... – falou e segurando a mão da sua amiga para impedir sua saída, confessou – acho que, sempre fui a fim de você...

— Você? Por mim? – perguntou surpresa e apontando seu dedo na altura do nariz, comentou sem acreditar naquelas palavras – tanto você como ele adoram umas noitadas que sei.

— Eu... eu sei que é meio confuso... até pra mim... e eu... queria só uma chance – disse sem jeito.

— Tudo bem... eu te dou – falou, encarando-o naqueles olhos arregalados de surpresa.

— Está certo disso? – perguntou, hesitando em tocar o rosto dela.

— Estou – afirmou.

Os dois se encararam por alguns segundos e aproximando lentamente seus rostos, tocaram os lábios. O simples tocar de lábios foi se transformando em algo mais envolvente, ou melhor, tentaram transformar em algo mais intenso, mas logo cessaram o beijo.

— Isso não vai dar certo – Jeremias disse, rindo.

— Também acho... – Ana concordou.

Ficaram um de costas para o outro e continuaram a rir do que acabaram de fazer. Acharam graça daquela sensação no mínimo... estranho.

— Nossa... é como se eu tivesse beijado uma irmã – Jeremias comentou, esfregando a mão na boca.

— Bem isso – Ana concordou.

Jeremias sentiu-se mais leve, mais solto, por fim, aliviado por sentir preso a nada. E o melhor, continuaria a tendo como aliada, afastando qualquer receio de perder uma amizade duradoura que valia mais que tudo. Agora não precisaria buscar desesperadamente a garota dos seus sonhos em outra pobre coitada. Era como diz aquela sua frase favorita: a vida pode surpreender... às vezes. Estava surpreso de fato e um pouco desapontado, afinal, quem imaginaria uma conclusão diferente de amor, paixão ou atração?

— Amigos? – Ana indagou, estendendo a mão para ele.

— Amigos – Jeremias correspondeu ao gesto nobre da amiga e após uma pequena pausa, comentou como quem não quisesse nada – o cara ainda gosta muito de você.

— E ela também – disse, sorrindo maliciosamente.

— Quem? – perguntou, curioso.

— Você sabe de quem eu estou falando – falou piscando – maninho— tocou levemente o nariz arrebitado dele, se recolhendo no corredor.

Carmem que assistia toda a cena dos dois sem entender o falatório, entrou apressadamente no banheiro para fugir da sua amiga. Ficou se olhando no espelho até surgir o reflexo do último ser do planeta Terra que ela queria ver naquele momento.

— Parece até que você viu um fantasma – Denise disse, e vendo a patricinha ignorar seus comentários, tratou de fechar a porta nas costas antes que ela saia – aliás, não acha romântico ficar à sós comigo?

— Quer ficar, fica com quem você quiser, mas me de... – a loira foi interrompida bruscamente por ela.

A cena a seguir foi muito rápida e tensa. Todos os sentimentos de raiva e amor acumulados pelo nerd parecia impulsionar Denise a derrubá-la sem dó nem piedade, a deixando encurralada naquele chão duro. O rosto daquela que um dia foi sua amiga e baba-ovo da sua fortuna parecia irreconhecível, mais precisamente transfigurada pelo ódio. Tremia o medo nas pernas, doía a força da traição de cumplicidade que existia entre elas apesar de tudo nas mãos imobilizadas e sentia claro... o terror nos olhos.

— Isso é por você fazer ele sofrer – Denise estapeou violentamente a cara daquela que um dia perguntara a estetista onde fazia as limpezas de pele, a fazendo ecoar o grito de dor pelos quatro cantos daquele banheiro.

— Tá louca!— Carmem tentou recuperar os movimentos, sem sucesso e clamou por socorro – Alguém me ajuda!

— Cala essa boca – ela forçou ainda mais os braços já avermelhados e doloridos da rival e disse em tom ameaçador – essa daqui é por você não tomar vergonha na cara e ainda continuar chamando o coitado de meu namorado!

Ao sentir o segundo tapão mais forte que a primeira, Carmem tirou força de sabe-se lá onde e chutou as pernas vulneráveis, invertendo as posições. Agora era sua vez de descontar toda a frustração naquela invejosa de plantão. Sentou-se sobre ela e começou a estapear descontroladamente.

— Tá pensando o que?— Carmem perguntou, dando outro tapa – Você pensa que é Carmem Romero Timberg? Ou acha mesmo que...— continuou estapeando sem parar – eu vou acreditar nessa sua...— deu um belo tabefe na cara, e arrancando saliva, gritou — ladainha que é tudo por ele? — fechou com outra bofetada, e mesmo a vendo de cara inchada, gritando de angústia e implorando para parar, debochou sem piedade – vai a merda garota!

De repente, Ana que passava por perto, escutou os gritos e veio correndo igual tempestade, entrando no meio daquela discussão.

— MAS QUE ISSO!— Ana ficou entre elas, perguntou – O que aconteceu aqui?

— Pergunta pra essa vaca aí... – a loira limpou o sangue na boca e saiu batendo a porta.

Em passos lentos e pesados, Carmem começou a caminhar um pouco tonta, ora e outra encostando na parede para apoiar o corpo dolorido pela briga que poderia ter acabado de forma pior caso sua amiga não chegasse a tempo quando o perturbador dos sonhos surgiu na sua frente.

— O que aconteceu? – Jeremias perguntou, preocupado.

— Me deixa... sério – Carmem disse com uma voz fraca, ignorando a presença daquele que fantasiara como a paixão da sua vida.

— Espera aí nessa sala que eu vou pegar um curativo – disse, correndo para buscar os primeiros-socorros.

Em meio segundo Jeremias já estava sentado na divã ao lado da injuriada e passando o metiolate no canto daqueles lábios carmezi com um cotonete, que gemia de dor e não de prazer. Ajudou a limpar o resto do anti-séptico, guardando todo o resto dos medicamentos na caixa. Sabia que era indiscreto perguntar o motivo dos ferimentos. Oras, como uma patricinha tão grã-fina se meteria em uma briga violenta? Pensava ele enquanto lembrava a ricaça de traje finíssimo naquela noite no restaurante francês. Ela, por sua vez, sequer se importava mostrar seu lado humano a ele mais uma vez, ainda por cima ele que já conhecia seus podres.

— Vem cá, você é assim gentil com todas as garotas? – Carmem indagou, passando a mão na ferida da boca.

— Quem precisar de uma ajuda, sim – Jeremias respondeu naturalmente.

— E a Ana precisava? – perguntou, vendo a reação surpreso do amigo.

— Você... você não... – comentou sem jeito.

— Você podia ter falado no começo que tinha alguém na jogada que eu não continuaria me fazendo de idiota – disse, levantando-se do sofá.

— Hei, espera – falou, tentando impedir sua amiga.

— Obrigada pela ajuda – disse de costas para ele.

Em passos lentos, Carmem passou a caminhar desiludida pelo corredor quando viu seu amigo das noitadas vindo em sua direção. Ele ficou olhando os machucados no lábio inferior até a mão esconder o rosto.

— Não vamos falar sobre isso – Carmem pediu, tocando o ferimento.

— Sobre? – Titi perguntou, fingindo que não havia visto nada.

— A única coisa que queria falar é... – disse, e respirando fundo, continuou – fica de olho no seu amigo.

— Como assim? – indagou confuso.

— Eu... eu vi ele dando em cima da sua ex – comentou.

— Como é que é?— perguntou, chocado.

— Bom se não quiser acreditar em mim pergunta pra ela – disse, deixando ele para trás.

Timóteo não conseguia acreditar no que acabara de ouvir. Tantos anos de amizade, cumplicidade e no final aquele que um dia ele chamou de brother, mano, truta, ou qualquer apelido íntimo entre amigos verdadeiros foi fazer algo tão banal. Aliás, tudo se encaixaria perfeitamente se pensar que a amizade sua de longos anos não era simplesmente para furar seus olhos, secar suas garotas, inclusive sua ex-namorada.

Foi atrás daquela que tivera um relacionamento de dez anos para mais. Queria acreditar que no fundo... bem lá no fundo a patricinha tivesse inventado toda aquela história para criar confusões, polêmicas e discórdias entre os três. Achou ela no banheiro da suíte escovando os dentes e a surpreendeu gritando seu nome.

— Ah não... – Ana disse, e enxaguando a boca, comentou irritada – invasão de privacidade até aqui?

— É verdade que o Jeremias deu em cima de você?— Titi perguntou, irritado.

Continua...