Um Novo Começo
10 Capítulo 10
Notas iniciais
– Por que? – Carmem perguntou – Por que você faz isso comigo?
– Eu... eu só tava fazendo uma entrega aqui perto e... – o motoboy tentou explicar.
– Assim... desse jeito... eu não... eu não vou conseguir te esquecer!
E beijou-o mais intensamente que a última vez sem dar a mínima importância para o namorado do outro lado da calçada. Ah! Como era bom beijar aquela boca de novo! Achou que nunca mais fosse sentir o gosto daqueles lábios e colando os rostos a fim de explorar ainda mais o beijo, deixou escapar uma lágrima quando sentiu as mãos negras forçarem distância entre eles.
– Tá vendo... eu... eu... não consigo te ver só como amiga... – Carmem confessou algo que jamais sentira por ninguém, segurando aqueles braços como se não quisesse soltá-los nunca mais.
– Olha já disse que... – Jeremias falou, evasivo – além do mais você está bêbada e – sentiu o corpo da sua amiga cair nos seus braços, o deixando surpreso.
– Me leva pra casa... – murmurou.
Nesse instante, Xaveco que assistia a tudo calado, finalmente atravessou a rua e chegou discretamente perto dos dois. Quem imaginaria a garota mais popular da escola caidinha por um motoboy e ainda ser rejeitada por ele? Agradeceu em pensamentos que sua amiga fofoqueira não estava por perto, se não aquela flagra acabaria no Face ou qualquer outra rede social.
Ao aproximar-se do amigo, viu ele sacudir a cabeça e encaixar os braços da embriagada nas suas costas largas, impediu que levasse a namorada embora, parando em frente a eles.
– Pode deixar que eu lev... – Xaveco foi outra vez interrompido por ela.
– Eu quero ir pra casa dele... – Carmem disse baixinho, abraçando firmemente o motoqueiro.
– Tudo bem – o nerd concordou, e escutando sua namorada murmurar algumas palavras enquanto passava ao seu lado, arregalou seus olhos.
O geek não sabia se ficava mais chocado com as palavras sussurradas em segredo pela boca da sua namorada ou com aquele estado deprimente dela, o que o deixava um pouco confuso. Sabia que ela não estava sóbria, mas sabia também que as verdades na maioria das vezes eram ditas nos momentos insanos. Foi se distanciando deles, como se fosse surgindo uma barreira instransponível entre ele e os dois e passou a caminhar na direção contrária, cabisbaixa.
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Jeremias colocava a amiga bêbada na moto para entregar naquela mansão mais gelada que freezer. Ligou o motor e começou a correr rumo a enorme casarão, mas no primeiro farol, mudou o percurso sem falar nada por lembrar aquela sensação ruim que sentira na última vez. Era como se a governanta culpasse o pobre coitado pelas estrapolias da patroa irresponsável. Em pleno século vinte e um, as pessoas de cor ainda sofriam discriminação onde quer que estivessem: no trabalho, na farra e nas escolas. Tudo por serem simplesmente... negros. Mesmo que fosse por exemplo, o melhor candidato para ocupar a vaga de emprego X, não conseguiam graças ao preconceito racial. Será que era tão difícil querer ser tratado igual aos outros?
Seguiu calado em direção do apartamento que vivia com mais outros amigos. Antes fosse zombado por eles que com gente poderosa e cheia da grana. Ajudou a quase inconsciente se levantar, e subindo pelo elevador, abriu a porta apressadamente, e adentrou-se em passos lentos e cautelosos. Tudo para não serem vistos. Ficou aliviado ao lembrar que eles tinham saído sexta de noite e ficariam ausentes naquele fim de semana e retornariam somente domingo de noite. Segurou sua amiga e a deitou cautelosamente na cama quando foi surpreendido pelas mãos desesperadas da Carmem, sentindo a distância estreitar de uma só vez. Ela puxou-o apressadamente pela gola da camiseta, roubando-lhe um beijo tão fantasiado em seus sonhos. Queria ficar ali, impondo sua lingua, beijando, mordendo, explorando até sentir a necessidade de respirar. Ele aproveitou a brecha para jogar um balde d’ água fria naquela cabecinha lunática.
– Espera aí – Jeremias disse, e irritando-se por entender que caiu na armadilha mais velha que sabe-se lá o que, continuou – você não tava passando mal coisa nenhuma garota! – e concluiu – você... você é louca garota!
– Louca por você...
Tornou a beijá-lo com todas as forças, atropelando seus protestos assim como a razão que áquela altura, não existia mais. Aliás, já nem se reconhecia como aquela garota esnobe, metida e inimigo dos pobres e humildes, especialmente por gente de cor. Queria que queria ser correspondida por aquele rapaz negro, acontecesse o que acontecesse. Atravessaria tsunamis, tempestades, terremotos e qualquer coisa para isso. Tudo porque queria ser amada por alguém que não a queria, ou melhor, ele a queria sim... bem longe.
– Sai sua doida! – Jeremias livrou-se a muito custo limpando sua boca inchada, chamando um táxi rapidamente pelo celular.
– Ou seja o senhor todo certinho nunca fez nenhuma loucura por ninguém? – Carmem o escorou na parede, o livrando do aparelho num só movimento.
– Não – respondeu prontamente.
– Nunca se apaixonou? – perguntou.
– Não.
Aquelas respostas soaram como um mel nos ouvidos da Carmem. Provavelmente, caso ela conseguisse virar o jogo algum dia é claro, seria a primeira namorada e... se dependesse dela, a única. Ninguém sabia o futuro que os aguardava, talvez não conseguissem viver o amor eterno igual a filmes e novelas, mas ainda assim queria tentar de tudo quanto é jeito para conquistar aquele coração duro como rocha. Teria por fim, um grande desafio pela frente, mas que ganharia a todo custo.
O som da buzina a despertou dos devaneios. Foi obrigada a deixar aquele apartamento tão pequeno, simples, mas aconchegante que cabia perfeitamente os dois. Olhou uma última vez aquela cama tão convidativa e tentou beijar o seu dono, mesmo não sendo retribuída. Encarou ele como se esperasse uma resposta que não viria e sumiu no elevador.
Ele, por sua vez, respirou aliviado, e falou bem baixinho consigo mesmo:– Essa foi por pouco...
Ao lembrar da loira mais requisitada na escolinha desde os seus dez anos praticamente implorando pelo seu amor, achou certa graça e deixou escapar um sorriso. Ficou pensativo na sala por alguns instantes. Bons tempos eram aquele que, ele babava por aquela garotinha de cabelos loiros e encaracolados de olhos azúis como outros tantos garotos do antigo Limoeiro. Os anos passaram e ela foi ficando ainda mais linda e mais futil. Em outras palavras, mais interesseira, mais nojenta e menos atraente... para ele. Talvez pelo fato da sua vida não ter sido muito fácil nesses anos. Havia perdido o única laço familiar que era o seu avô muito cedo e, fora outras épocas que viveu momentos comendo o pão que o diabo amassou até entrar na faculdade, conseguir emprego e conhecer seus amigos do quarto. Agora que finalmente sua vida tinha tomado rédea não poderia meter-se em confusões e Carmem era a própria confusão em pessoa. Ela era areia demais para o seu caminhão e além do mais, eles tinham vidas diferentes, se não dizer opostas.
Por um lado, um motoboy duro que mal conseguia pagar suas mensalidades de faculdade, fazer manutenções na moto e ainda pagar as contas e no outro, uma milionária que vivia numa mansão com seguranças, empregados e governanta. Tudo o que queria era distância de encrencas, resumindo: dela. Sua vida era aquela, simples mas honesta e assim continuaria a ser.
Estava tão absorto nos pensamentos que só conseguiu sentir o celular vibrar depois da terceira vez e viu mensagens justamente de quem mais gostaria de esquecer. Mas, como ela tinha conseguido seu Whats? Pensava ele. Bem provável que ele mesmo tivesse colocado no seu Face e esquecido disso...
– Que garota insistente – Jeremias falou sozinho, e largando o celular na cama, sentou-se em frente ao notebook.
Quis se distrair e passou a assistir alguns vídeos, ler e responder e-mails, algumas pessoais e outros de bicos que fazia nos fins de semana, ver Face alheios, inclusive o da sua amiga maluca que havia acabado de postar fotos de uma festa Country.
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E num canto bem longe de Limoeiro, alguém deu mais um click na outra selfie, compartilhando em realtime no Facebook e Instagram da vida. Ali, haviam diferentes drinks, comidas, músicas sertanejas ao vivo e tudo o que se podia imaginar.
Denise experimentou todas, ou quase todas as bebidas sem misturar muito para não passar mal e virar o mico do século. Uma outra dose, e mais uma só, e a última... como se aquele copo realmente fosse a última. Voltou a dançar na pista trazendo um garoto loiro que não era o seu amigo nerd, mas a semelhança entre eles, chegava a ser algo irritante. Tentou relaxar e dançar envolto nos braços mais branquelos que fantasma, a fazendo encarar naqueles olhos, naquela boca tão perto da sua. E tomou iniciativa, tascando um beijão como se quisesse descontar toda a raiva e amor que sentia pelo seu amigo geek.
Aquela voz sensualmente rouca ecoando nos seus ouvidos, a fez despertar para a realidade. Ele tinha uma voz diferente. Afastou-se do menino e foi beber outra Vodca misturada com qualquer coisa, o que seria definitivamente a dose que fecharia sua noite enquanto estivesse sóbria o suficiente para conseguir carona. Chegou em frente a sua casa e teve uma inesperada visita encolhido ao lado da porta.
– O que você está fazendo aí? – Aquelas palavras da Denise levantaram os olhos inchados do seu amigo.
– Eu... eu... – Xaveco tentou balbulciar algo, mas parecia existir uma trava na sua garganta que não permitia a continuar sua fala.
– O que houve? – ela perguntou tocando o rosto pálido do amigo, e olhando pros lados, o ajudou a se levantar do chão – Vamos por aqui.
Entrou pela janela destrancada do seu quarto e puxou ele para dentro com algum esforço. Fechou as cortinas e acendeu a luminária da escrivaninha para não acordar ninguém. Ficou ainda mais preocupada ao ver de perto aquele rostinho de partir o coração. Tentou não demonstrar tanta importância, e jogando o chapéu na mesa, cruzou seus braços.
– Ai, Senhor... fala logo a sua tragédia grega do dia que eu quero dormir – Denise fingiu não se importar, e evitando cruzar seu olhar com o dele, perguntou – seu PSP quebrou, acertei?
– Você... você também me odeia? – Xaveco indagou, mostrando seu rosto cheio de lágrimas.
– Você... você está chorando? – Ela não sabia o que dizer, o que fazer e a única saída que veio na sua mente foi abraçá-lo forte – olha eu... – ajeitou os cabelos encaracolados – eu não te odeio – beijou a testa e disse – por isso não fica assim vai – e depositou outro beijo nas bochechas e... na boca.
E todas as amarras que existiam entre eles cairam por terra. Beijaram-se sem pudor como naquela noite chuvosa no sítio. Ela quis aprofundar ainda mais os contatos, aproximando os rostos, pedindo passagem aquela boca salgada de lágrimas que secaria com seus lábios enquanto suas mãos ávidas retiraram a camiseta. Ela não queria perder tempo e pulou em seu colo, encaixando os braços ao redor daqueles ombros firmes e as pernas naqueles quadris sem jamais parar de beijá-lo quando sentiu sendo esprimida deliciosamente contra a porta. Desceu rapidamente dele apenas para trancar a maçaneta e voltou a morder, chupar e explorar aquele corpo pálido mas não menos atraente, alcançando de novo a boca e tornando a beijá-lo intensamente entre mordidas e gemidos.
Arrancou sua jaqueta com a ajuda do loiro e todas as peças como tênis, botas que ficaram esquecidos num canto, indo em direção a cama sem ver por onde pisavam, mas sabiam sim, onde queriam chegar. E dessa vez, nada atrapalhariam eles, nem os instrutores, nem o pai e a mãe dela que áquela altura da madrugada já estavam no quinto sonho, a não ser eles mesmos, o que não parecia o caso, como ela empurrar ele na cama e ficar por cima, como as bocas que não paravam de gemer, como os dedos percorrendo as curvas do umbigo e arrancando a regata rosa, como as mãos apressadas arrancando aquela calça e revelando o membro pulsar de desejo.
Ela não queria perder tempo e livrou-se o mais rápido que pode do jeans e do sutiã, deixando que as mãos livres explorassem seu corpo praticamente nu, segurando para não gemer de prazer com cada toque seu, pois estavam ali debaixo do teto de seus pais, mas não se conteve ao sentir o dedo penetrar no sexo por cima daquela minúscula peça e só não gemeu graças a boca do loiro que foi mais rápido em calar aqueles lábios. Ele inverteu rapidamente as posições, e a chocando contra a cabeceira da cama, o que apenas a deixava ainda mais excitada, penetrou seu dedo, adorando ver ela morder seus ombros com força. Quis torturá-la mais um pouco e retirou antes dela gozar, e ignorando seus protestos, a livrou da calcinha suada e da sua cueca, penetrando fundo e beijando a boca avermelhada. Afastaram-se somente para respirar e se encararam desafiadoramente, voltando a se beijarem para abafar os gemidos daquele sobe e desce torturante que ficava cada vez mais intenso e mais rápido.
E gozaram juntos, e mesmo assim, ele não parava de penetrar a fundo e ela foi premiada com um segundo orgasmo, caindo exaustos naquela cama que coube perfeitamente o sono dos dois, totalmente nus e cobertos por um lençol.
Na manhã seguinte, ela abriu lentamente seus olhos e se viu envolta nos braços dele, se culpando por não ter resistido aos apelos do coração. Ao sentar-se na cama, abaixou a cabeça, pondo a mão no rosto como sinal de arrependimento.
– Ai, Senhor... isso não deveria ter acontecido... – Denise respirou fundo.
– Mas aconteceu... – Xaveco sussurrou sonolento nos seus ouvidos, a abraçando pela cintura e a beijando na nuca.
De repente, o som da maçaneta girar chamou a atenção dos dois. Ela mandou a mãe esperar e o loiro se enfiar nas cobertas e ela saiu para destrancar a porta e rapidamente voltou a cama, obrigando ele a se encolher debaixo do cobertor.
– Tudo bem por aqui? – Danusa perguntou, intrigada.
– Cof cof tudo, ahh... tudo ótimo – Denise disse se cobrindo até a pescoço, sentindo o loiro colar acidentalmente a boca no seu umbigo.
– E essa tosse? – Danusa repreendeu – Quantas vezes eu falei para você levar um agasalho!
– Mas ahhh, mas eu levei – a ruiva falou, resistindo aos toques acidentais do menino.
– Tem alguma coisa aí? – Danusa perguntou desconfiada.
– Miaaaaauu.... – Xaveco respondeu no lugar da dona de casa.
– Oh mãe desculpe – Denise explicou – ontem encontrei um gatinho resfriado na entrada de casa e fiquei com tanta dó que trouxe para cuidar e ele está dormindo aqui comigo.
– Ah querida não sabia – Danusa falou, mais aliviada – bom então eu vou preparar um leitinho quente para ele tomar e já venho.
Denise esperou que ela saisse do quarto e riu baixinho, e achando graça, comentou: — Um gato?
– Oras, gatinho eu sou, só não fiquei resfriado porque... – Xaveco depositou uma infinidade de beijos na extensão da barriga às escuras, e a fazendo gemer, colocou o pescoço pra fora – tou aqui com você.
– Você só está aqui comigo porque é um chorão – ela complementou, e lembrando de algo, perguntou – Falando nisso, por que estava chorando ontem? – tirou as próprias conclusões antes de escutar uma resposta – não me diga pelo amor de Deus que a Carmem... – parou de falar ao ver a reação do loirinho e completou – o que aquela... fez com você?
– Não, na verdade ela só... – ele deitou-se ao lado da Denise e disse – passou mal e... o Jeremias veio e...
– Jerê... ? – ela indagou, intrigada.
– Mas deixa que depois eu falo com ela que... – ele beijou sua amiga e completou – eu tenho sentimentos por outra e não posso mais continuar.
– Ah jura? – ela pegou o travesseiro e começou a bater nele – mas não fui a sua primeira!
– Ai, ai, hei espera, quem te disse que eu era virgem? – ele perguntou, defendendo-se das travesseiradas dela.
– Isso não importa – desconversou – agora sai logo daqui antes que minha mãe volte com o seu “leitinho”.
– Não antes de te pedir em namoro – disse prontamente.
– Na, na, na, namoro? – falou, receosa – sabe que é, eu não quero namorar ninguém, não agora.
– Então como fica a gente? – perguntou, confuso.
– Não fica, quero dizer, fica... – disse, confusa – a gente pode continuar ficando, saindo, e... – o beijou de leve e completou – de vez em quando você pode passar a noite aqui ou eu passar na sua casa...
– Mas isso não é... namorar? – indagou, pensativo.
– Não, não é – disse, levemente irritada – olha se não quiser eu... – ela sentiu sua boca ser calada por aqueles lábios.
– Tudo bem eu topo – entrou no seu jogo e aproximando dos ouvidos, sussurrou – ao menos a gente pode passar todas as noites juntos sem compromisso...
– Todas as noites? – perguntou – mas, mas assim... de segunda a domingo? – e confessou – Eu também quero sair com outros gatinhos resfriados e...
– Não se encontra um gatinho resfriado todos os dias – disse, mordendo o lóbulo da orelha.
– Tá, tá, tá bom agora vai embora seu nerd safado! – falou, espantando ele.
Ao vê-lo quase cair da janela para fora, a dona do quarto não conteve a risada. Os risos foram dando lugar a um ar mais sério e pensativo.
– Jeremias... – Denise pensou alto quando escutou a voz enérgica da sua mãe.
– Aqui está o leite – Danusa entrou empurrando com as bandejas nas mãos – Querida aproveitei e trouxe alguma coisa para você também.
– Ah então, o gatinho já foi embora – afirmou.
– Bom... nesse caso vou deixar aqui só o teu café e um remédio – disse, e colocando as coisas no criado mudo, completou – a senhorita trata de tomar para ficar boa para a exposição de semana que vem.
– Ai, Senhor a exposição – falou, surpreso.
– Não me diga que esqueceu – disse, desconfiada.
– Imagina mãe, eu nunca esqueço as coisas – disse exatamente o contrário dos seus pensamentos – “Esqueci total meu Pai...”
Ficou a tarde toda pensando o que poderia fazer: cantar, tocar ou dançar? Sua voz era péssima para cantar, seus dedos não tinham coordenação alguma para tocar e seu corpo mal sabia dançar harlem shake. O pior de tudo que valia alguns pontos em todas as matérias, o que era de grande ajuda para alguém que sempre ia mal nas provas. Respirar a tendência da moda e viver trabalhada na beleza tinha seus preços. Bem que poderia ser trabalhos mais simples em grupo como nos anos anteriores... Por que raios mudaram de idéia? Pensava ela, revoltada.
– E agora... – Abriu seu caderno de anotações com os nomes de quem fazia parte do seu grupo definidos pelos professores.
Haviam cerca de quarenta alunos na sua sala e foram formados quatro grupos para cada apresentação. O tema era livre. Viu nome por nome e mandou mensagem para a Mônica que era uma das integrantes. A resposta foi ainda mais surpreendente: ela também tinha esquecido. Como a defensora dos fracos e oprimidos poderia esquecer de algo tão importante? Enviou mais um Whats a uma outra amiga, sem sucesso.
– Como assim Brasil? – Falou indignada – Amnésia geral?
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Enquanto isso, num canto muito mal higienizada bem distante dali, um homem tossiu uma a duas vezes, espantando o pó daquela cela imunda. Foi preso a algum tempo e estava cumprindo o mandato de prisão. Queria sair logo daquele lugar mais nojento que seu sovaco mal lavado e vingar-se da turma que denunciara sua persona ilustre. Havia conseguido uma espécie de liminar na Justiça através de contatos influentes na sociedade negra, isto é, um meio mais fácil de ficar livre daqueles guardas mais grudentos que chiclete, embora mantesse um bom comportamento na frente deles.
E a luz veio por meio de um advogado que trouxe a grata notícia da sua liberdade provisória. A condição era o seguinte: passaria a passar solto a luz do dia e voltaria somente para passar suas noites na cadeia. Os olhos do Poeira Negra brilharam de alegria e ele deixou aquele cárcere de cabeça erguida, vitorioso, mas não vingado. Ficaria plenamente satisfeito somente quando pegasse a turma pelo calcanhar e derrubar eles, um a um, principalmente seus familiares mais distantes que o fundo do mar.
Ajeitou seus óculos escuros, e colocando sua capa, sumiu nos bueiros, onde tudo começara. Havia passado a maior parte da sua vida ali, em meio áquela sujeirada toda com o sonho de um dia quem sabe, emporcalhar o mundo dos belos. Aliás, sabia que a sujeira já existia no interior das pessoas. Todos, sem exceção, mesmo aqueles politicamente corretos carregavam maldades e tristezas nas suas almas, embora estivessem adormecidas bem lá no fundo. Mas bastaria apertar um botão que os podres viriam à tona. Um santo que se declara santo desapegado de riqueza não ficaria furioso se baterem em seu carro comprado a várias prestações por exemplo, mas na maioria das vezes, saiam faíscas da cabeça e venenos pela boca.
Ao descer para sua casa, apertou uma sequência de número no visor ao lado da entrada, revelando por trás da parede empoeirada, um laboratório de pesquisas e experimentos em funcionamento. Caminhou devagar como se quisesse apreciar sua liberdade de andar por onde quisesse e bem entendesse sem vigias e o raio que o parta que monitorassem seus passos.
– Seja bem-vindo de volta, boss – um homem de meia idade disse em reverência.
– Como estão as coisas por aqui? – Poeira Negra indagou, curioso.
– Encontrei algo que talvez possa interessar o senhor – falou, mostrando um livro antigo aberto com as páginas amareladas.
– Deixe-me ver – disse, lendo as anotações e falou em voz alta – magia da... revogação?
– Ou extinção, se preferir – sorriu, maldoso – segundo minhas pesquisas ela tem o poder de transformar a realidade fantasiada das pessoas em sonhos.
– E qual é a duração? – indagou, folheando o livro.
– Um looping infinito – respondeu.
– Ou seja, sonhará pela eternidade – disse, e pensando um pouco, perguntou – mas aí eu não estaria fazendo uma boa ação?
– Aí que está – disse, e tomando a liberdade de virar mais algumas páginas, explicou – enquanto estiver sonhando, o senhor poderá manipulá-los a seu bel-prazer.
– Melhorou – disse, e pegando o livro em mãos, afirmou – só preciso de alguns dias para descriptografar por completo – indagou, mudando radicalmente de assunto – e aquele assunto como está?
– Estaremos de mudança em poucos dias – respondeu prontamente.
– Ótimo – disse satisfeito, e dando as costas, falou mais para ele do que pros outros – me aguardem crianças...
Continua...
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