Notas iniciais
História baseada em um roteiro feito por mim pra um trabalho da faculdade e adaptado pra os personagens de Msonhos.Espero que gostem.

Em uma comunidade periférica qualquer do Rio de Janeiro, em uma pequena casa, em um quarto escuro Karina acorda com o movimento na cama, olha para lado e constata que Ricardo, seu namorado, acabara de chegar. Ela se senta e o observa, é possível ver em sua face uma expressão de repulsa, ela estava enojada só de tê-lo perto de si. Ela então se levanta e vai ao banheiro, ao ligar a lâmpada e se olha no espelho, levando sua mão a face, suas mãos continuam o trajeto e se põem até seu cabelo, inspecionando cada milímetro de sua triste figura, lágrimas são derramadas silenciosamente, lentamente segue para o Box, ao ligar o chuveiro se joga em baixo da água ainda de roupa, começa a esfregar seu corpo e cabelo, se sentia suja, sentia nojo de si mesmo, ela soluça compulsivamente e se deixar levar pela tristeza, encosta da parede e desliza até o chão, onde se encolhe onde chora lamentando sua realidade.

Sussurra baixo entre soluços

_ Como pude ser tão burra meu Deus?

Minutos se passam até ela se levantar e seguir para o quarto, vai retirando suas roupas molhadas, fazendo uma trilha de água por onde passa, abre seu pequeno armário de onde tira novas vestes.

Novamente vestida, ela segue para fora do cômodo, não sem antes olhar para aquele que um dia foi seu amado.

Ela deixa sua casa e trilha seu caminho pelas ruas estreitas, observando o local onde veio morar a apenas um ano atrás. Ela chega a um ponto de ônibus, espera sua condução para um ponto especifico da cidade.

Karina chega a uma ponte, ela olha o movimento dos carros, seus olhos percorrem todo perímetro, caminha em direção a borda e encosta-se nela, olha a escuridão da madrugada, depois levanta seus braços e observa as marcas em seus pulsos, finas linhas da tentativa frustrada de dar fim ao seu sofrimento, ela suspira e olha para baixo, imaginando a trajetória da queda do fim de sua triste história.

Ali olhando para o horizonte onde as luzes da cidade é vista tão distante, ela relembra sua trajetória até ali. Sua antiga casa, seus pais, seus amigos e a si mesma, tudo que foi deixado para trás.

De seu primeiro encontro com Ricardo em um barzinho, em como se encantou primeiro com sua beleza e depois com o modo que ela a fazia rir. De seus beijos trocados com ele sempre às escondidas, pois ela era rica e de família tradicional e ele apenas mais um garoto do subúrbio e de pouca educação.

Se lembrou de suas brigas com seus pais, por eles não aceitarem seu relacionamento com Ricardo e então veio sua fuga de casa – ela esperando seu amado em uma esquina perto de sua casa, trazendo consigo apenas uma mochila para então o vê que chegar em sua moto, eles trocam um beijo apaixonado para depois seguir para a nova vida, onde poderiam finalmente ficar juntos e em paz, ao menos era isso que Karina pensava.

O primeiro mês se seguiu bem, ela estava feliz, ainda se acostumando em ter uma vida mais simples do que a tinha, mas seu amor era tanto que isso não importava, afinal ela não era ligada a bens materiais e ela tinha Ricardo ao seu lado, o que mais podia querer.

Então o segundo mês se passou e então veio as primeiras noites que acordou e se viu sozinha na cama, não sabia onde Ricardo estava e sempre ficava acordada até ele voltar, a princípio ela não ligou, mas ele começou a chegar cada vez mais tarde e bêbado em casa, ela sempre o amparando e muitas vezes sendo empurrada por ele.

Mais meses se seguiram e veio a primeira agressão, um tapa desferido em seu rosto, ela caindo no chão e chorando copiosamente enquanto ele sai a deixando sozinha mais uma vez em casa e mais agressões se seguiram.

E o pior acontece, ela sofre primeiro abuso, Ricardo chega bêbado novamente em casa, entra no quarto e vê Karina dormindo, vai até ela e beija suas costas, ela acorda, ele a vira e ele se põe encima dela a beijando, ela tentando o afastar e fazê-lo parar, mas ele é mais forte, mesmo ela lutando não conseguiu o impedir, ele a teve a força, naquela noite Karina chorou encolhida num canto enquanto Ricardo dormia nu na cama.

Quando Karina já não aguentava tanto sofrimento veio sua primeira tentativa de suicídio, Ela acorda em uma madruga e vai a cozinha, abri a gaveta e pega uma faca de tamanho médio, ela observa a faca atentamente enquanto a gira em sua mão, lágrimas silenciosas escorrem sobre sua face, ela leva a faca até seu pulso esquerdo, ela desliza o objeto sobre ele lentamente para sentir a dor de sua decisão, mesmo tremendo ela repete o processo no outro pulso, observa seu sangue pingar sobre o piso junto com suas lágrimas, põe novamente a faca sobre o pulso e tenta aprofundar o corte, mas ela não consegui ir até o fim, abaixa a faca e a largar sobre a pia, ainda tremendo liga a torneira e coloca seus pulsos sob a água, faz uma pequena careta ao sentir o arder proveniente dos cortes, vê seu sangue descendo pelo ralo enquanto chora ainda em um pranto silencioso. Apanha o pano que estava sobre a pia e tenta estancar o sangue enquanto senta-se no chão e seu pranto antes silencioso se torna um alto soluçar.

Ainda observando o horizonte Karina fala em voz firme:

–Chega! É deplorável, tem que acabar!

Toma um pequeno impulso simulando uma tentativa de salto, mas é interrompida por alguém.

–O que é deplorável sua vida ou seu estado? Diz uma voz grossa e firme.

Ela então se vira assustada e vê um contorno de um corpo masculino do outro lado da ponte, seu rosto não é visível, por estar escuro e sua cabeça abaixada.

–Acho que minha vida... responde mesmo sem saber quem é.

– Então a coisa tá feia... diz gracejando.

Karina volta na posição anterior, escutando passos se aproximando e vê então o garoto ao seu lado também se apoiando na borda. Ela olha o rapaz ao seu lado com raiva, como ele podia rir de sua desgraça, ela pensa. Vira então o rosto tentando ignorá-lo.

–Qual o seu nome?

Pergunta ele a Karina, porém ela se mantém em silencio enquanto olha a paisagem.

–Okay... ele suspira — Me chamo Pedro. Ele então se apresenta.

– Vamos fazer assim eu lhe conto a minha história e depois você a sua.

Pedro diz percebendo que Karina não falaria nada.

– Mas aviso que ela não é nem um conto de fadas, assim como a sua não deve ser. Já estive de certa forma ligado a drogas

Karina vira o rosto e o olha diretamente, vendo que conseguiu a atenção dela, ele continua.

– Minha mãe morreu de overdose e meu pai que também era viciado me batia todo dia... até eu fugir de casa com 15 anos... Sua vez.

–Me chamo Karina.

Ela fala baixo e virando o rosto para que ele não o visse, apoia os braços na ponte e olha a noite.

– Meu namorado é alcoólatra e viciado em drogas... ele sempre me bate.

Ela começa a chorar, mas prossegue sua fala.

– Eu fugi de casa com 18 anos para ficar com o "amor da minha vida".

Ela apoia a cabeça nos braços, como se aquela afirmação fosse vergonhosa e assim a escondesse.

–Está aqui na ponte por causa dele? Pergunta ele fazendo ela o olhar novamente.

–Perdi as esperanças de ajudá-lo... explica-se.

–Mas ele quer a sua ajuda? Pedro pergunta e Karina o olhou por um tempo e virou novamente para então respondê-lo.

– Eu não sei...

–Minha mãe também não quis ajuda... ele fala também se apoiando na ponte e olhando para ela.

–E agora ela está morta. Karina se pronuncia também o olhando.

– Mas, agora não preciso fingir que aceitava o seu estado.

–Ela era a sua mãe... murmura ela como se não acreditasse no que ouviu.

–E infelizmente não consegui ajuda-la. Mas a culpa de sua morte não foi minha.

–Mas, eu larguei tudo por ele... ela começa a se explicar, mas é interrompida por Pedro.

– Largou por uma ilusão, largou porque achava que era o certo a fazer, achava que sua felicidade dependia dele... Ele fala firme e frio, como até então não o tinha feito.

Ela nada fala, olha para baixo como se medindo sua queda, estava em choque, sentia o peso de sua realidade. Sua respiração ficou acelerada, as lagrimas voltaram ao seu rosto e os soluços ficaram cada vez mais alto, cobriu sua boca com a mão, como estivesse tentando abafar o som do seu sofrer.

Ainda presa em seus pensamentos sente um leve toque em sua nuca, um pequeno afago seu cabelo. Depois um curto período de silencio Karina com a voz falhada pelo choro pergunta:

–Por que você está me ajudando? Eu nunca te vi na vida, não tem motivos para estar aqui comigo, não gosto de dever favores...

– Mais um motivo pra você não pular.

Ela tenta um sorriso consolatório e leva as mãos ao rosto para secar as lágrimas que ainda insistiam em cair.

–Obrigada! Ela agradece

–Pelo o que? Ele pergunta

–Por me trazer de volta a realidade e por de certa forma me distrair...

–Sem problemas... Diz ele a encarando por um tempo e depois anda em direção ao outro lado da ponte.

–Ei, você não vem? Pergunta ele se virando ao fim da ponte.

–Pra onde? Ela pergunta o olhando confusa.

–Se aventurar, fugir. Responde ele.

–Da última vez não deu certo. Diz apontando pra si mesma.

–Mas dessa vez pode ser diferente. Ele tenta a convencer.

–Mas e se não for?

–É só seguir em frente sem olhar pra trás ou voltar pra cá.

–Por que confiaria em um estranho? Ela pergunta sarcasticamente.

–E por que não confiaria? Revida ele virando-se e continuando o seu caminho.

De repente um trovão é ouvido e uma chuva torrencial começa a cair, Pedro retira um guarda-chuva da mochila e o abri.

Quando ela percebe que ele está começando a se afastar mais. Ela sussurra pra si mesma.

–Por que não? Um sorriso se forma em seu rosto.

Karina corre e vai até ele. Pedro então a cobre com seu guarda-chuva e juntos caminham para fora da ponte, indo em busca de um novo caminho.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!