Eu havia acabado de sair do colégio. Estava frio, então ambas minhas mãos estavam no meu bolso, e eu estava bem encolhido, em minha mente se passavam principalmente pensamentos sobre o ENEM e o vestibular que eu queria fazer. Só queria chegar o mais rápido possível em casa para descansar, logo ao meu lado estava Markus, meu melhor amigo, um quase irmão meu. Ele falava algo sobre seu novo emprego, que havia recém adquirido, ele estava animado, então eu o parabenizava repetidas vezes.

“Ah, eu passei a aula lendo mangá”

Surpreendi-me ao ouvir a voz feminina estranhamente familiar, eu era um grande amante de animes e mangas, e a pura curiosidade de saber quem compartilhava desse gosto eu não opud evitar minha reação. Me virei bruscamente buscando a fonte. Quando a encontrei, foi a primeira vez que prestei atenção nela. Eu sabia que era da minha turma, já havia a visto, embora nunca conversado, lembranças de um dia que uma das garotas da sala perguntou se eu queria ficar com ela passaram pela minha mente, eu havia recusado, afinal, pensei que havia sido apenas uma forma de tirar sarro de mim, algo bem comum afinal. Olhei bem pra ela, ela estava longe de ser considerada alta, mas sua pele branca, seus curtos cabelos negros, aquela pequena pinta em seu rosto que eu sempre achei extremamente fofa, e por fim aquele sorriso. Aquele sorriso, foi o principal motivo para eu sequer perceber que estava a alguns segundos apenas parado a admirando. Quando dei por mim, Markus já estava me encarando com um sorriso malicioso. — Vai falar com ela — Eu sabia que ele estava pensando muito mais do que realmente era, afinal, eu sequer me lembrava do nome dela. Apenas tinha acabado de descobrir que ela gostava mangas, e que ela era realmente bonita. Olhei para ela, ela não demorou muito para estar rodeada com seus próprios amigos e tomar rumo pra sua casa. Sorri e neguei, enquanto voltava meu próprio caminho.

Talvez tudo poderia ter acabado ali, mas eu não conseguia evitar. Mais de uma vez Markus voltou a pegar no meu pé, queria saber o nome dela, o que ela gostava e o que fazia. Mais de uma vez falou do seu desejo de me ver junto com ela. Eu sempre achei estranho esse comportamento, afinal, ele sabia sobre ela tanto quanto eu. Mais tarde ele me explicou, de acordo com ele, eu nunca havia demonstrado o mínimo de interesse em ninguém, mesmo um olhar. Eu achei ridículo, depois desse dia ele parou um pouco. Continuei indo para a aula normalmente, sequer me lembrava mais desse assunto, foi quando o Markus me convidou para ir pra casa dele. Até ai normal, eram poucos os dias que eu não passava a tarde na casa dele, já que ainda nenhum de nós trabalhava.

Chegando lá, fizemos o de sempre. Jogamos, comemos, conversamos. Até que ele me mostrou o celular dele. Estava aberta no Facebook, peguei pra olhar, imaginando que seria mais um meme que ele queria me mostrar. Mas me surpreendi ao ver a foto dela, logo então seu nome. Juno. Markus havia conseguido encontrar o perfil dela sem nenhuma informação além do colégio em que estudava e uma leve idéia da aparência. Olhei pra ele de olhos arregalados, mas ele sequer olhou pra mim, já havia começado outra partida. Bem, demoraria pra minha vez chegar, então comecei a descer pela linha do tempo dela. Ela compartilhava muitas coisas, uma parte considerável envolvendo k-pop, outra envolvendo yaoi e uma última envolvendo memes. Assim passamos o resto da tarde, meu amigo jogando várias partidas, e eu a “Stalkeando”.

Depois desse dia eu comecei a reparar mais nela na sala de aula, ela sentava no canto, perto da janela, e próxima a mesa do professor. Ela conversava com muitas pessoas, era bem diferente de mim, tinha vários amigos. Mas eu continuei a observando, vendo seu sorriso, sua face pensativa, sua risada. Comecei a prestar atenção em cada movimento que ela fazia, como se virava pra conversar com a amiga de trás, como revirava os olhos diante uma conversa que eu não podia ouvir, como arrumava seu cabelo, como escrevia, como andava. Mas ainda não aceitava que gostava dela, apenas senti vontade de ser seu amigo. Por isso que assim que cheguei em casa, em um dos muitos dias, decidi simplesmente mandar uma solicitação de amizade para ela no face. Não entendi por que mandar apenas um convite foi tão difícil, mas eu consegui.

No dia seguinte, quando fui usar o celular, lá estava a notificação. “Juno aceitou sua solicitação de amizade”. Aquilo foi o bastante para deixar o resto do meu dia alegre. Eu não tive a coragem de chamá-la para conversar, eu era absurdamente tímido, e não fazia idéia de como conversar, ainda mais com uma garota. Afinal, eu, com meus gloriosos 16 anos, ainda era um grande bv. Eu enrolei mais um pouco, e continuei a usar o facebook. De vez em quando, via uma publicação Dela, eu lia, quase sempre dava uma pequena risada ou sorriso, então curtia. Repeti isso tantas vezes, que quando me toquei, ela provavelmente pensaria que eu estava a stalkeando, ou que tinha segundas intenções. Por isso comecei a me segurar um pouco na hora de curtir, afinal, se ela pensasse que eu queria algo mais, poderia atrapalhar quando eu finalmente a chamasse para conversar, e além de tudo, eu apenas a queria como amiga mesmo.

Alguns dias depois, eu finalmente criei coragem, a chamei pelo Messenger. Fiquei um bom tempo pensando em como chama-lá, e nenhuma idéia que eu tivesse parecia boa.

Eu: “Oi Juno”

Ela: “Ooi”

Meu coração deu um pequeno salto quando ela respondeu. Meu primeiro pensamento foi jogar meu celular na parede e fingir que nada aconteceu, mas por algum milagre me contive. Pensei um pouco, e novamente mandei outra mensagem idiota.

Eu: “Você gosta de animes né?”

Eu sabia que a resposta era sim, era mais do que óbvio pelas suas postagens. Mas por ai eu comecei, ela me respondeu. Conversamos até tarde, até que ela teve que sair, ela tinha guarda mirim no dia seguinte. Não deixei de me admirar, ela trabalhava, fazia guarda mirim, e ainda era uma das melhores alunas da sala. Eu já trabalhava, e ia pra aula, as vezes. Nos conversamos sobre alguns mangas e até doramas que ela gostava. No dia seguinte, passei todo meu dia os vendo, apenas para ter mais algum assunto com ela no dia seguinte. Eu passei bastante tempo apenas conversando com ela via Messenger, já estava ótimo, era alguém com quem eu podia jogar um pouco de conversa fora sobre assuntos que ambos gostávamos. Nunca tive coragem de ir falar com ela pessoalmente, até que em um dia, já era final de ano, eu fui pra aula. Fiquei olhando a porta, e por algum motivo, jurei a mim mesmo que se ela entrasse, eu a chamaria pra sair, ver um filme no cinema. Hoje eu nem lembro qual era o filme. Mas de qualquer forma, ela não foi pra aula naquele dia. Assim que cheguei em casa, mandei uma mensagem perguntando o motivo, ela me explicou. Ela já havia passado, não iria mais.

Eu: “Que pena, justo quando criei coragem”

Ela: “Coragem pra q?”

Eu: “De te chamar pra sair”

Ela: “Pra onde?”

Eu: “Ver um filme”

Ela: “Ah...”

Depois dessa mensagem, ela na hora mudou de assunto, nunca mais voltamos a comentar isso. Eu imaginei como meu primeiro fora, mas até então não me importava, apenas amigos estava mais do que bom pra mim.

Depois de alguns dias, tudo estava normal novamente, eu conversava com ela sem me preocupar, e ela também sequer parecia se lembrar. Eu finalmente criei coragem e pedi seu whatsapp, com uma desculpa tosca que estava sem espaço no celular. Não sei se ela acreditou ou não, mas me passou seu número. A chamei no mesmo momento, e naquele dia novamente conversamos o dia todo. Com o tempo, fui descobrindo cada vez mais sobre ela, desde seus gostos musicais (Que eu também acabei adquirindo pra mim), até seus gêneros de mangá favorito, e eu passava o dia lendo os que ela me sugeria, apenas para ter o que conversar com ela.

Algumas semanas se passaram, talvez alguns meses, eu já começava a admitir que eu não a via da mesma forma como via minhas outras amigas. Eu ficava deprimido os dias que passava sem falar com ela, e ficava até mesmo com ciúmes ao ver ela postando status com outros homens, ou até mesmo de a ver ser acompanhada até sua casa pelos mesmos amigos que vi no dia que a conheci. Eu sabia que não tinha razões, e muito menos o direito, então me mantive em silencio.

Foi em um dia aleatório, ela postou um daqueles status em que a pessoa mandava um pontinho, então ela faria três perguntas que deveriam ser respondidas com fotos através do status. Eu mandei o ponto, eu quase sempre participava dessas correntes, muitas das vezes gerava risada. Mas dessa vez eu não podia estar mais enganado. Eu não lembro de suas outras perguntas, mas a única relevante pra mim foi: “Com quem você ficaria se tivesse a chance?”. Eu respondi. Com uma foto dela. Ela apenas riu, esse foi meu segundo fora.

Na escola, de alguma forma, alguns amigos já pareciam ter descoberto das nossas conversas, mas realmente não via sentido. Afinal, um dia em que ela faltou, eles começaram a dizer que ela queria ficar comigo. Eu imaginei que novamente apenas tiravam sarro de mim, afinal, sempre que eu tentava qualquer tentativa de me aproximar para falar sobre ficar ou namorar, ela ou ria, ou mudava de assunto, ou começava a me shippar com o Markus. Era óbvio que ela não estava interessada, eu pensei em desistir, continuarmos como amigos já estava ótimo, fiquei pra baixo com esse pensamento, e o mantive por algumas semanas. Foi quando um dos meus amigos na turma conseguiu marcar um encontro duplo, eu e ele, com uma amiga dela e ela. Meu coração vibrou, embora eu estivesse irritado, afinal já tinha planos de chamá-la pra sair, pra ver Guerra Infinita na estréia, e como meu amigo só me contou pouco depois de eu já ter a chamado, acabei passando papel de idiota. Mas sabia que as intenções dele eram boas, então não me importei. Porém, no dia seguinte, enquanto voltávamos pra casa, Eu e o Markus, cruzamos caminho com ela e seus amigos. Eu não sei sobre o que eles estavam falando, eu não sei quem eram eles, mas sei que um deles, enquanto nos caminhávamos, começou a gritar no meio da rua. “Quem é? Pode falar que nos já pegamos ele agora”. Eu gosto de imaginar que aquele assunto não tinha absolutamente nada haver comigo, mas, em meu infamo, eu sentia que era de mim que ela estava falando para eles. Que eu era a fonte de risadas do grupo, e que eu era o único idiota ali. Markus caminhou comigo em silêncio, sem falar nada, eu e ele só conversamos novamente no dia seguinte. Porém assim que cheguei em casa, a primeira coisa que fiz foi cancelar o encontro. Meu amigo não se importou, ele não fazia a mínima questão. Eu falei com ela, ela pareceu entender, embora eu tivesse mentido dizendo que era algo relacionado aos meus irmãos. Ela me falou que iria cancelar de qualquer jeito, sua amiga não poderia ir, então ficamos assim. Eu ainda fui ver Guerra Infinita com meus amigos. Na semana seguinte, ela também postou fotos de ter ido com seus próprios amigos. A partir daí que tive a certeza que deveria matar esse sentimento incômodo.

Continuamos-nos conversando, amigos. Tudo estava indo bem, achei fielmente que aquele sentimento havia deixado de existir. Mas percebi que não.

Um dia, um de meus amigos começou a falar que estava gostando de uma garota, fiquei feliz por ele, ele era como eu, dificilmente mostrava interesse. Mas não quis me dizer quem era, mas não me importei. Ele era tímido mesmo. Mas foi quando eu recbi uma mensagem da Juno.

Ela: “Ei, que historia é essa com o Jon?”

Eu: “Que historia?”

Ela: “Que ele ta gostando de mim”

Isso me deixou muito irritado a ponto de depois disso, eu ficar dias sem falar com qualquer um dos meus amigos na sala de aula por causa disso. O Markus é de uma turma diferente. Embora eu não tenha dito nada pra eles, ela me pediu pra não contar. No final, Jon levou um fora também, e depois disso me senti confortável o bastante para voltar a conversar com ele, embora nunca mais pudesse confiar nele da mesma forma.

Foi esse evento que me fez perceber, eu não havia a esquecido, não estava nem perto disso. Mas e daí? Ela não gostava de mim ainda, nada havia mudado. Tentaria apenas esconder esses sentimentos fora.

Logo quando eu e Juno começamos nos falar, uma das primeiras coisas que eu descobri foi seu aniversário, eu queria poder ter dado um presente pra ela, mas estava sem dinheiro na época, mas estava juntando. Mas mesmo assim perguntei o que ela queria, ela provavelmente nunca imaginou que eu realmente fosse dar Circle Lenses pra ela. Elas eram caras.

Uns dias depois de o Jon ter levado um fora, nos começamos a combinar de sair juntos, ir pra um restaurante japonês, mas só nos dois seria ruim, então decidimos chamar mais duas pessoas pelo menos. Eu não sei o quão doido estávamos, mas achamos uma boa idéia chamar a Juno para ir conosco. Apenas por brincadeira, decidimos nos dois chamarmos juntos, no privado. Só colocamos três regras antes.

Se ela aceitar um, e negar o outro, sem ressentimentos.

Se ela aceitar qualquer um, nos ainda vamos todos juntos.

Se ela negar nos dois, vamos na pizzaria.

E após ambos concordamos, a convidamos. Essa foi a primeira vez que realmente mandei toda a mensagem. “Quer sair comigo sábado?” Ela estava ocupada, se encontraria com seus amigos. “E sexta?” Ela tinha que trabalhar. “A Noite?” Ela não respondeu mais.

Esse foi o terceiro fora. E assim como o segundo foi dezenas de vezes pior que o primeiro, esse fora dezenas de vezes pior que o segundo. Meu peito doía tanto, o Jon ria da situação, ambos havíamos levado um fora, da mesma garota, no mesmo dia. Mas eu não conseguia, eu só queria chorar. Mas me contive. Seria ridículo demais. Ainda era cedo, mesmo assim me despedi dela, embora tenha continuado online por mais algumas horas antes de finalmente me deitar.

No momento que deitei a cabeça no travesseiro, meu celular vibrou novamente. Estranhei, e decidi dar uma última olhada nele antes de dormir. Vi a notificação que havia recebido e a apaguei, e voltei a me deitar. Dessa vez não fui capaz de impedir as lágrimas de saírem.

“Deseja confirmar sua compra de: “Circle Lenses”?”

E sabe, tudo isso, me deu uma ideia pra uma fanfic que escrevi no dia

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