Um Natal meio... apaixonado

2 Aquele da Felix Felices - Drarry


Notas iniciais
One shot Drarry escrita por Bianca Lupin Black

—Vai dar certo? — perguntou Draco incerto. — Você claramente não tem os dons para poções do meu padrinho.

—Com certeza não – disse Harry, com a varinha pendendo dos lábios. Draco achava-o muito sedutor segurando penas ou a varinha com a boca – mas isto vai funcionar. Slughorn que fez.

—Mas você que vai usar – Draco não se convencera totalmente que a poção era inofensiva. — Talvez eu devesse testar antes. Só um golinho.

Harry negou com a cabeça. Estava confiante de sua receita. Diferente do que Severus pregava, não há nada de especial nas poções. Basta seguir as instruções, pensou ele enquanto colocou sua Felix Felices no frasco.

Eles passariam o Natal na mansão dos Malfoy, e para tanto, precisariam de um pouco de sorte extra. Valendo-se de seu charme de salvador do mundo bruxo, discípulo indireto do Príncipe Mestiço e ex membro do Clube do Slugue, Harry dissuadiu Horácio a dar-lhe um pouco de Felix Felices, de modo que ele só precisou cozinhá-la antes de usar.

—Estamos prontos – Harry colocou o frasco no bolso e estendeu a mão para o namorado.

Aparataram para a antiga casa de Draco. O jardim despertou algumas lembranças nele, de quando era criança e costumava perseguir os pássaros que faziam ninhos nas árvores dali, e também de colher ingredientes para Severus entre as plantas baixas. Riu consigo mesmo ao recordar o dia em que comeu raiz de asfódelo pura e correu para casa chorando com a boa espumando como a de um cão com hidrofobia.

Severus, em vez de ralhar com ele como Lucius teria feito, apenas deu colo ao afilhado e o acalmou enquanto aplicava os antídotos. Draco não podia negar que sentia falta do padrinho, mas sabia que ele não teria desejado outro destino que não fosse a morte heroica que tivera, ainda mais depois que ele e Harry fizeram questão que todos soubessem a verdade sobre Severus Snape, aquele que amou Lily Evans Potter até o fim.

—Lorde Potter e Draco Malfoy – anunciou o elfo doméstico à porta.

Narcisa surgiu na escadaria principal, usando um vestido de noite preto muito elegante, talvez um pouco demais para um informal jantar em família pequena, e sapatos de salto alto que a deixavam um pouco mais alta que os rapazes recém-chegados. Como se fosse mãe de ambos, se aproximou, segurou-lhes pelas bochechas e beijou-as, elogiando suas roupas.

Eles a seguiram para a saleta. Os elfos trouxeram bandejas com o chá, e Draco apontou a boa com o polegar da mão fechada, como se dissesse “beba”. Harry destampou a Sorte Líquida e diluiu-a no chá discretamente. Lembrava-se bem demais do último dia em que usara essa poção, então sabia que devia deixar-se guiar por seus instintos.

Há algum tempo, Harry e Draco vinham praticando Oclumência e Legilimência, para se comunicarem em silêncio. Harry fechou os olhos e disse a Draco em sua mente: Pergunte se seu pai vem.

Draco assentiu e obedeceu. Com um rascunho de sorriso, Narcisa respondeu que não, seriam apenas eles três. Funciona, Draco disse a Harry, que respondeu com um sorrisinho orgulhoso à lá Sonserina.

Não sou um pocionista tão ruim assim, não é?

Severus está se revirando no túmulo agora. Essa é toda a sorte que precisamos? Meu pai não estar aqui?

Ora, ele me disse a vida inteira que eu era um zero à esquerda em Poções, acho que agora ele sabe que estava errado. Sobre o seu pai… Narcisa sempre foi mais favorável ao nosso relacionamento, o que me faz acreditar que esse Natal será mais tranquilo se ele não estiver aqui. Consegue me entender, garoto?

Menos Potter. Bem menos. E veja lá como fala, só porque foi chamado de “lorde Potter” por um elfo doméstico, não significa que você seja como esses velhos metidos com quem meu pai anda.

—Meninos? — perguntou Narcisa, passando repetidamente do rosto de Harry para o de Draco. — Está tudo bem?

—Está… — disse Draco, pegando um biscoito.

Narcisa sorriu maldosamente na direção do namorado do filho. Quando Lucius não estava presente, ela reservava para si algumas liberdades que lhe eram negadas.

—Então lorde Potter, quais são suas intenções para com meu filho?

—Mamãe – disse Draco, um pouco irritado -, Harry já está com o ego bastante inflado graças ao elfo que o anunciou como “lorde Potter”. Não o ajude, por favor.

—Draco, Harry já fez dezessete anos, como você bem sabe. E sendo o único Potter vivo, tem direito ao título de lorde. Não fique enciumado. Você também terá, algum dia.

O Malfoy revirou os olhos, rindo. O debate mental entre eles chegara a ser aborrecido, mas quando sua mãe se juntou à discussão, ficou mais leve, engraçado. Até onde ele se lembrava, sempre fora assim. As críticas constantes de Lucius podiam ser transformadas em elogios com poucas palavras de Narcisa.

Naquela tarde, Harry conheceu um lado de Narcisa que ele nunca vira antes. Uma mulher jovem, divertida e gentil, diferente da pessoa frívola que ele vira na Travessa do Tranco. Mas uma coisa sobre Narcisa Malfoy esteve muito clara desde aquele momento: ela amava o filho mais do que tudo, assim como Molly amava todos os seus filhos e Lily o amou até seu último momento, literalmente.

Chegou a noite, e a ceia foi servida. Narcisa era tão carinhosa e cuidadosa com seu filho quanto Molly era com todas as crianças Weasley, Harry e Hermione. Como eu um dia pensei que ela era fria como Lucius?, Harry se perguntou enquanto Narcisa insistia para que ele pegasse mais salada.

Narcisa mantinha um olhar de pena sobre o garoto Potter. Dezessete anos antes, Lucius chegava em casa radiante e anunciava que mais nascidos trouxas estavam mortos. Ela não concordava com o extermínio de nascidos trouxas que seu marido e irmã tanto apoiavam e endeusavam. “Isso é necessário, Ciça”, Bellatrix dizia, “para que crianças como Draco cresçam em um mundo digno delas”.

Crianças como Draco. Na época, ele não tinha nem dois anos de idade. E pelo que ela sabia, Harry Potter era ainda mais jovem. Ele era uma criança, assim como Draco, e agora era órfão. Quantas outras crianças eram hoje órfãs porque Lucius, Bellatrix e outros Comensais assassinaram bruxos que nasceram trouxas? Narcisa mal continha as lágrimas ao pensar nisso.

Natal não é época para tristeza, ela se repreendeu, vendo que Draco agora a observava com discrição. Afinal, já faz dezessete anos. Essas crianças são adultas hoje. Inteirou-se na conversa dos rapazes sobre uma reforma na mansão que Harry herdara de seu padrinho. Ao ouvi-los citar o nome de Sirius, teve o cuidado de não se sentir nostálgica, uma vez que sabia que o primo tinha tomado as decisões certas em sua curta vida.

Os três desfrutaram de um Natal muito tranquilo, como Harry previra. Depois da refeição, Narcisa se retirou para seus aposentos e Draco e Harry saíram para caminhar no jardim, de braços dados e olhando as estrelas.

—Sabe, quando eu usei a Felix pela última vez, tive certeza que foi necessário – disse Harry, os olhos oscilando na direção da constelação Canis Major. Não conteve o aceno para a estrela mais brilhante. Oi Almofadinhas, dissera para si mesmo. — Dessa vez, nem tanto.

—Não entendi. O que quer dizer com isso?

—É preciso muita sorte, charme, poder ou influência para extrair algo de Slughorn. Usei uma combinação dos quatro no dia em que consegui a lembrança dele sobre Tom Riddle. Hoje, usei a Sorte Líquida para me precaver, imaginando que seu pai tentaria me matar por estarmos namorando e mais motivos que nem consigo me lembrar. Mas ele nem veio.

—Isso é o que você pensa, Potter.

Harry e Draco se viraram imediatamente para a voz desconhecida. Draco acendeu sua varinha com Lumus e procurou quem se juntara a eles. Encontrou Lucius, vestido de preto da cabeça aos pés, como sempre, a máscara de ferro pendurada no pescoço.

Draco entrou na frente de Harry, protegendo-o de um possível ataque de Lucius. Sua mão buscava a de seu namorado, talvez ele precisasse mais de proteção do que Harry.

O que está fazendo?, Harry questionou, entrando na mente de Draco.

Me precavendo, como você fez hoje cedo.

Você ficou maluco. Ele é um Comensal da Morte, de qualquer forma.

Que preza o sangue puro acima de qualquer coisa. Ele não vai matar seu único herdeiro, Harry.

Eu quero acreditar em você, mas está um pouco difícil.

—O que quer aqui, pai? — Draco juntou muita coragem para falar.

—Conversar com você, é claro. Não o vejo desde a guerra, e tenho algo para lhe contar. Podemos falar a sós?

Draco hesitou, mas Harry apertou a mão de Draco com força e rosnou um não ameaçador.

—Tudo o que tiver para dizer, pode falar com ele aqui pai – disse Draco, fazendo Harry afrouxar o aperto em sua mão.

Harry relaxou um pouco, mas Lucius permaneceu tenso. Sempre subestimara as habilidades mágicas do filho, mas reconhecia os poderes de Potter – não é qualquer um que derrota o Lorde das Trevas duas vezes afinal – e pelo que Lucius vira naquele dia, Potter mataria para proteger Draco (uma atitude muito sonserina, devia-se dizer).

—Muito bem. Eu não queria dizer por carta, e também não sei seu endereço, mas… sua mãe e eu nos divorciamos.

—Quando? — Draco perguntou, frio. Ele não se deixaria abalar pela notícia. Lucius nunca fora um pai presente.

Lucius contou a história de como ele e Narcisa assinaram pacificamente a papelada do divórcio. Lucius já havia combinado com a então ex-esposa que ela poderia passar o Natal na mansão Malfoy sem ele, já que Draco não sabia da mudança e não havia tempo hábil para contar. Precisavam manter as aparências para o menino.

Draco ficou um pouco irritado em ouvir aquilo. Desde que se descobrira apaixonado por Harry, fizera de tudo para ser merecedor do amor do Menino-Que-Sobreviveu, e isso incluía não ser mais tão mimado como outrora. Só que seus pais fazerem um jogo de aparências para ele não o ajudava, e ainda o deixava um pouco ofendido. Os joguinhos desse estilo eram apenas para aristocratas que também viviam de aparências.

—Tudo bem. Agora… minha noite está muito boa e não quero estragá-la. Então se nos permite, Harry e eu estamos indo.

—Não tão cedo… — disse uma mulher se aproximando do trio. — Estupefaça!

Lucius caiu desmaiado aos pés de Harry, que logo empunhou a varinha, apontando-a para Lucius e ordenando:

—Enervate!

Aos poucos, o homem voltou à consciência, e exclamou:

—Você! — apontou para a mulher misteriosa diante deles. — Fique longe.

—Acha que eu temo você? — ela riu. O som de sua risada lembrava os gritos enlouquecidos de Bellatrix depois de assassinar Sirius. — Já não é mais como antes, Malfoy.

—Tem razão. Suas torturas não funcionam mais.

—Ah, funcionam sim. Quer ver? Crucio!

O alvo da Maldição Imperdoável não fora Lucius. Fora Harry. O garoto da cicatriz caiu na grama, agonizando. Draco se jogou a seu lado, procurando sua mão, mas Harry as tinha enterradas em seus cabelos. A mulher proferiu: Serpensartia!, causando sangramentos na pele de Harry.

—Faça-a parar! — Draco implorou para o pai. — Por favor!

—Você ouviu seu filho – a mulher abriu um sorriso cruel. — Eu paro, se você me der… bem, você sabe o que é.

Os olhos de Lucius vacilaram para Harry, que chorava de dor, e Draco, que lutava para conter o sangramento.

—Decida-se, Lucius. O menino não tem muito tempo. Tique-taque, tique-taque. Pobre Draco… tão jovem e já viúvo.

—Chega – ordenou Lucius, sem olhar novamente os meninos.

Com um floreio da varinha, ele conjurou um formulário e entregou para ela.

—Aí está Delphini.

Delphini baixou a varinha e os gritos de Harry cessaram. Ela leu compenetradamente o que havia escrito ali, e subitamente, puxou sua varinha, dizendo:

—Avada Kedavra!

Lucius caiu morto aos pés do filho, que deixou Harry para chorar. O moreno se levantou e abraçou Draco pelos ombros. Se havia uma coisa com a qual Harry sabia como lidar, era o luto. Mandou um elfo chamar Narcisa, que logo surgiu vestindo um penhoar de seda lilás. Ela deu um safanão no filho e mandou que Harry o levasse para o quarto.

Mesmo com a morte de Lucius, aquele fora apenas mais um Natal frustrado na conta de Harry. Já para Draco, seria difícil existir um Natal pior que aquele, apesar de Harry tomar conta dele – algo que ele adorava – tão bem quanto Narcisa o faria.

Harry carregou Draco até a banheira na suíte. Lentamente e com as mãos pesadas, o loiro se despiu e mergulhou. Ajeitando as roupas do namorado enquanto este se banhava, sentiu o bolso da calça social dele muito pesado. Tirou dali uma caixinha de veludo, que provavelmente continha um anel de noivado, mas ele não se atreveu a olhar.

Draco saiu do banheiro, a toalha enrolada na cintura. Harry apertou os lábios para não fazer um comentário sobre como ele estava bonito, ou sobre o possível anel de noivado. O loiro se jogou na cama, olhando o namorado.

—Você quer casar comigo? — perguntou sem hesitar.

—Você ‘tá brincando, ‘né? — Harry se espantou. — Seu pai…

—Eu sei, eu sei. Quero te fazer essa pergunta há muito tempo, mas nós nunca tínhamos tempo, por causa do trabalho, então tinha planejado fazer o pedido hoje, porém uma mulher demoníaca matar meu pai bem na minha frente demandou uma mudança nos planos…

—Shiiih – Harry colocou um dedo nos lábios de Draco – sim, eu aceito Draco.

Eles se beijaram por longos minutos, e adormeceram abraçados. Harry percebeu que não precisava de Felix Felices, apesar de toda a tristeza que poderia vir.