Um Natal Especial
1 Capítulo 1 - Natal Quem?
Notas iniciais
Fazia uma noite quente e abafada no reino da Terra e apesar de todas as janelas e portas da casa do general Iroh estarem abertas, ainda assim não era o suficiente para aliviar a sensação desconfortável de calor associada ao tédio que rodeava o time avatar. Iroh e Toph jogavam uma partida de pai sho bebericando o chá preparado pelo mais velho, Sokka revisava alguns mapas tentando traçar a melhor estratégia de combate para quando voltassem a invadir a nação do fogo, Katara praticava sua dobra de água em silêncio no quarto que dividia com Toph, e Zuko resmungava em voz baixa enquanto encara a vista de Ba Sing Se pela janela aguardando o retorno de Aang.
As mãos do dominador de fogo apertavam cada vez mais o batente de madeira à medida que os segundos passavam irritantemente devagar em sua opinião, as suas costas Tio Iroh o espiou de rabo de olho contanto mentalmente quantos segundos levaria até que o príncipe exilado explodisse. Não chegou a dez antes que as juntas dos dedos de Zuko ficassem brancas e uma rajada de fogo deixasse a palma de suas mãos crepitando vividamente na janela.
— Já chega! Isso tem que acabar. – Ele gritou virando-se furioso para os demais componentes do time Avatar, as chamas as suas costas lançavam um brilho perigoso sobre a cicatriz ressaltando as feições duras. Por um minuto tudo na sala ficou quieto, Sokka levantou a cabeça de seu mapa e até mesmo Toph e tio Iroh interromperam suas jogadas e contemplaram a fúria de Zuko.
O outro dominador de fogo foi o primeiro a quebrar o silêncio com um sorriso bem-humorado e a voz tranquila de sempre.
— Príncipe Zuko, se quiser jogar pai sho, eu e Toph já estamos terminando, mas tem que esperar sua vez. – O ancião sorriu e sorveu um gole da bebida quente que soltava uma fumaça espiralada e cheirosa. Muito diferente daquelas produzidas pelo seu sobrinho.
— Eu não ligo para esse jogo idiota. – O moreno voltou a explodir jogando as mãos para cima em frustração.
Naquele momento Katara voltou para a sala já que o barulho atrapalhava sua concentração.
— Será que vocês podem falar um pouco mais bai... ah! Fogo! – E por um reflexo natural com um único movimento ela jogou a água de seu cantil sobre as chamas que ainda estavam pequenas sobre a madeira. O único problema foi que Zuko não conseguiu sair a tempo da frente e agora seus cabelos bem como sua túnica estavam igualmente molhados. Sokka começou a sorrir.
— Bem que você estava precisando ficar frio. Entendeu? Ficar frio, porque você estava colocando fogo em tudo. – A risada do garoto o enfureceu ainda mais, porém antes que ele pudesse externar seu descontentamento a voz de Katara se sobrepôs à sua.
— Espera um pouco, pôs fogo na janela propositadamente? O que há de errado com você, Zuko? — A dobradora aproximou-se enfiando o dedo indicador no meio do tórax do outro. Zuko a encarou e afastou sua mão soltando um bufido de impaciência.
— O que há de errado comigo? O que há de errado com todos vocês. Estamos aqui dia e noite fingindo que nada está acontecendo enquanto meu pai e Azula ficam mais fortes e mais ameaçadores, olhe só que grupo patético nos tornamos. – Ele apontou na direção de Toph que após fazer sua jogada cutucava o nariz. Percebendo a atenção indesejada a bandida cega levantou-se.
—Agora escuta aqui, esquentadinho, ninguém tem culpa que você está frustrado por não conseguir derrotar sua família de psicopatas. Todo mundo sabe que o Aang só vai poder lutar contra o senhor do fogo Ozai depois que ele conseguir dobrar o fogo, então ao invés de estar arrumando confusão com a gente você deveria se empenhar mais em ensinar alguma coisa a ele ou talvez precisemos te ensinar uma lição. – A baixinha se aproximou numa postura de desafio.
Zuko não recuou aproximando-se dela.
— É? Eu gostaria de ver você tentar.
— Já chega vocês dois. – Katara se interpôs na briga afastando os brigões empurrando cada um para um lado. – Precisamos ajudar o Aang e não vai ser discutindo que faremos isso.
— Como sempre uma voz de sensatez, Katara.- Tio Iroh se levantou do lugar que ocupava no chão diante do tabuleiro esticando os braços e bocejando. – Príncipe Zuko, discutir com seus amigos não é exatamente a melhor maneira de lidar com a sua raiva, toda essa energia pode ser direcionada para coisas mais proveitosas, uma boa meditação lhe faria bem. E para você, Toph, talvez devesse treinar mais pai sho, acabou de ser derrotada. Tenham uma boa noite crianças, e tentem não se matar até o amanhecer. — Sem mais delongas e coçando a barriga sobressalente o velho homem passou pela porta onde ficava seu quarto.
— Você não tem uma família muito equilibrada, não é mesmo? – Perguntou Sokka fazendo um gesto indicando que o tio de Zuko era biruta.
— Nem me fale. – Concordou o príncipe novamente se aproximando da janela ao mesmo tempo em que Toph voltava ao seu lugar resmungando sobre ter sido roubada.
Cruzando os braços o príncipe da nação do fogo observou em silêncio a imensidão do lado de fora, sentiu a presença de Katara atrás de si e já poderia adivinhar que ela lhe diria alguma coisa sobre paciência e prudência, mas a verdade era que Zuko já estava cansado de esperar, demorou muito tempo até que ele escolhesse o caminho certo e tudo o que ele queria era por fim de vez a tirania do seu pai e a loucura de Azula que a cada dia que passava perdia a pouca sanidade que lhe restava. Foi salvo de ter que ouvir o sermão pois ao olhar para frente não pode fazer nada para desviar do garoto que entrava pela janela em queda livre gritando e caindo sobre ele e sobre a dobradora de água.
—Aang! – gritaram juntos Zuko e Zatara.
— Ops! – O garoto riu se colocando de pé e ajudando a outra a fazer o mesmo. — Desculpa pessoal, é que eu vim com tanta pressa que nem vi vocês dois aí. – Aang espanou a poeira acumulada em sua roupa e coçou atrás da cabeça num gesto que sempre fazia quando estava envergonhado.
Ele observou o batente queimado bem como a roupa molhada de Zuko.
— Nossa, o que aconteceu aqui?
— Nada não, pés ligeiros, agora conta onde você tava. A Katara estava louca de preocupação. – Toph provocou se acomodando melhor em umas almofadas e pondo os pés em cima do tabuleiro onde jogava poucos segundos atrás.
— É claro que eu estava preocupada! Aaang, não pode fazer essas coisas, sair assim do nada sem avisar, sabe que a nação do fogo está te procurando, temos que passar despercebidos e ficar juntos.
Katara sabia que Aang era um espírito livre e que esses passeios noturnos com o Appa ou usando o planador eram a forma do rapaz conseguir gastar a energia e lidar com a ansiedade da grande tarefa que tinha que realizar, entretanto não podia deixar de se preocupar que as escapadas colocariam não apenas Aang como todos eles em perigo.
—Eu sei, eu sei. É só que eu precisava respirar, estava pensando em como era uma época especial lá no templo do ar durante esse período do ano até que eu tive uma ideia genial! Vamos fazer uma festa de natal !!! Acho que é o que estamos precisando para nos animarmos.
Se Aang esperava que sua noticia fosse recebida com festa e comemoração pelos amigos ficou desapontado, Sokka, Katara e Zuko apenas se entreolharam dando de ombros ao ver que nenhum sabia do que se tratava e Toph apenas continuou com os pés para cima cutucando o ouvido com o dedo mindinho.
—Vamos lá pessoal, vai ser ótimo. Vocês não querem um pouco de diversão para agitar as coisas? O Natal é a festa perfeita para isso, vai ser maravilhoso e....
— Não é isso, Aang.- Katara interrompeu a falação sem fim do dominador de ar.
— E o que é então? Vocês não gostam do natal? É isso? – Ultraje era pouco para definir o que Aang sentia.
O avatar não conseguia entender porque a relutância dos amigos, como alguém poderia não gostar da festa mais maravilhosa de todos os tempos?
Foi a vez de Sokka se pronunciar enrolando o mapa que jazia aberto em suas mãos e batendo com ele sobre a seta desenhada na cabeça careca de Aang.
— Não é isso, o que a Katara está tentando dizer é que nós não fazemos ideia do que você está falando.
Finalmente as coisas começaram a fazer sentido na cabeça do baixinho.
— Peraí! Você quer dizer que as pessoas não comemoram mais o natal? – A voz ultrajada do dobrador de ar ecoou na sala.
Com um gesto rápido Toph tomou impulso colocando-se de pé e chegou perto do dobrador de ar rapidamente sacolejando o garoto pelas roupas.
— É! Até que enfim você entendeu, pés ligeiros, agora para de enrolação e explica o que é esse tal de natal aí. Isso deve ser coisa de cem anos atrás quando você ainda não tinha afundado no gelo e congelado. Agora explica logo antes que eu perca a paciência com você.- Ela o soltou com um solavanco, delicada como somente uma dobradora de terra era capaz de ser.
Com um bufar inaudível Aang ajustou a roupa, mas rapidamente se virou para os amigos disposto a explicar com um brilho excitado nos grandes olhos castanhos, durante toda sua infância ele comemorou o Natal junto com os monges do ar e seus amigos aprendizes, costumavam enfeitar todo o templo e sempre faziam um banquete especial, a meia noite depois que ceavam todos juntos agradecendo pelas boas coisas eles partiam para a área externa do templo onde contemplavam as estrelas todos juntos.
— O Natal é uma festa especial que celebra o nascimento de todos os bons sentimentos, as pessoas trocam presentes, decoram suas casas e, ah! Vocês vão adorar essa parte, pegamos uma árvore na floresta, um pinheiro que celebra a vida e o nascimento pois em todas as estações do ano ela está sempre com suas folhas verdes e enchemos de enfeites coloridos e tem a ceia que...
— Uma ceia você disse? – Sokka interrompeu sentindo a boca salivar diante do mencionado banquete, não sabia quem tinha inventado aquela festa chamada natal, mas já começava a simpatizar.
Katara revirou os olhos e cruzou os braços com impaciência apesar de estar sorrindo, claro que seu irmão iria se interessar pela parte da comida e ignorar todo o resto. Estava achando aquilo tudo muito mágico e já começava a se empolgar para pôr em prática todos os planos para a comemoração.
Aang continuou concordando com Sokka.
— É! Tem muita comida, lá no templo nós comemorávamos com vegetais e tortas, mas a maioria das pessoas serve carne de leão alce de dente de sabre ou peru-avestruz.
— E quando é essa festa? – Perguntou Zuko de mau humor, não gostando nada da ideia, mas se vendo obrigado a perguntar.
Aang retirou uma ampulheta de dentro do bolso acompanhada de um papel com dias marcados, deu dois petelecos fazendo a folha esvoaçar e então voltou a sorrir animado.
— Pelos meus cálculos é amanhã! E então pessoal, o que vocês me dizem? Vamos fazer uma festa de natal? Hein? Hein? Por favor, por favor, por favor!!! – O avatar implorava fazendo biquinho como uma criança de cinco anos.
— Você não vai me ver negando comida e bebida de graça. — Sokka foi o primeiro a concordar enquanto limpava com as costas da mão saliva que escorreu de sua boca enquanto imaginava as deliciosas iguarias preparadas para o natal.
— É! Pode contar comigo pés ligeiros, vamos fazer essa sua festa aí. – Toph foi a segunda a se pronunciar.
Aang voltou seus olhos pidões para Katara e a mais velha não teve como responder diferente a não ser com um sorriso brilhante e um aceno positivo de cabeça.
— Vamos fazer o melhor natal de todos os tempos.
— Isso! – O dobrador de ar comemorou formando uma bola de ar e montando sobre ela rodando a sala.
Quatro pares de olhos fixaram-se na figura de Zuko, embora apenas três deles pudessem vê-lo. O príncipe da nação de fogo permanecia com os braços cruzados e os pés separados numa postura rígida.
— Se querem saber eu acho que isso será uma perda de tempo e...
— Zuko, não seja estragar prazeres, eu acho que uma festa é exatamente o que você precisa para tirar essa expressão emburrada do rosto. – Katara interrompeu e ele suspirou, parecia que não conseguia negar muita coisa a dominadora de água.
Revirando os olhos e batendo com a palma da mão na própria testa ele concordou ainda que de má vontade.
— Que seja, vamos fazer essa festa estúpida.
Gritos de alegria foram novamente ouvidos na sala antes que os adolescentes se afastassem para dormir e se preparar para o dia de natal, Aang falava animadamente sobre todas as empolgantes tarefas que eles teriam que cumprir no dia posterior, mas que o que mais importava era que estariam fazendo aquilo juntos.
— Vamos lá, Zuko, vai ser divertido. –Toph disse antes de lhe dar uma cotovelada de brincadeira que o pegou completamente desprevenido e ele caiu de bunda no chão.
— É, eu mal posso esperar. – Murmurou por entredentes.
Fale com o autor