Um Mundo Ideal
1 Capítulo Único
Notas iniciais
As férias de verão sempre foram um verdadeiro pesadelo para Severus.
Entretanto, o recesso daquele ano, em especial, estava sendo particularmente mais difícil de se suportar, embora definitivamente menos pesado.
Eram como dois lados de uma moeda.
Desde que cursara o sexto ano em Hogwarts e começara a namorar James Potter, sua vida cinzenta e isolada havia sido tingida com um pouco de cor.
Ele gostava de James, James o fazia se sentir especial, único.
Algo que ele jamais havia sentido com ninguém, exceto, talvez, por Lily.
O quadro de alcoolismo de seu pai parecia evoluir mais e mais e tornava-se cada vez mais difícil conviver com ele e seus abusos, tanto contra o próprio Severus, como também contra sua mãe.
Ele presenciava cenas tristes, dignas de pesadelos.
Mas a esperança de ver James em breve quando estivesse retornando a Hogwarts era o que lhe sustinha e lhe dava forças para continuar.
Ainda assim, isso tornava as coisas um pouco mais complicadas, já que sua ansiedade sempre lhe precedera, e, bem...
Ele queria ver logo James Potter.
Mas como ainda não havia feito dezessete anos, apesar de ter sido aprovado nos exames de aparatação que seu namorado gentilmente custeara sobre o pretexto de que um dia ele lhe retribuiria não tendo desculpas para escapar de seus braços pela distância que os separava, não poderia aparatar ainda antes de atingir a emancipação.
Da janela do seu quarto, na casa 74 da Rua da Fiação, ele observava o céu, em silêncio.
Haviam muitas estrelas salpicando o infinito naquela noite e ele se esforçava para encarar aquilo como um bom presságio.
Logo as férias acabaria, e ele estaria de volta nos braços de seu James.
E para completar o cenário de positividade, ele viu algo vindo rápido como uma flecha do sul.
Identificou sem dificuldades como uma estrela cadente e fechou os olhos apressado, fazendo um pedido.
Abriu os olhos, e o pontinho, que, ele percebeu, não era amarelo e nem faiscava como uma estrela, continuou a se aproximar, ganhando mais e mais tamanho.
Arregalou os olhos.
Vinha diretamente em direção a sua casa.
Ele engoliu em seco, desejando que não fosse nada envolvendo mágicas, ou estaria encrencado.
Seu pai Tobias não tolerava o uso de magia sob as limitações de seu teto, e sabia ser muito indigesto quando queria.
O ponto foi se aproximando, foi ganhando forma, virou-se bruscamente para o lado saindo do campo de visão de Snape, que espichou o pescoço para o lado para encontrá-lo novamente e...
— Oi, Sev! — disse a voz conhecida de James, e ele rapidamente tampou a boca com os olhos arregalados, suprimindo um grito de pavor.
Olhou para o namorado estarrecido, sem fala.
Demorou a conseguir dizer algo, encarando-o com profundo choque no silêncio do subúrbio muggle.
— James! — sussurrou enérgico por fim, inevitavelmente zangado, temeroso. — O que está fazendo aqui? Céus! Você vai me meter em problemas!
James sorriu, equilibrado em sua vassoura de última geração.
— Não seja bobo, Severus — disse de bom humor, tranquilamente. — Já passa da meia-noite, todos os muggles estão dormindo — pontuou com sensatez. — Inclusive, cidade bacana a sua. Difícil de localizar, sabia?
Outro ponto.
— Ei! Como foi que você descobriu onde eu morava? — pareceu aperceber-se ele, pasmo.
O Gryffindor abriu um sorrisinho culpado, segurando firme no cabo da Comet 260 e dando de ombros, fazendo um biquinho.
— Um bom mágico nunca revela seus truques — valeu-se da frase trouxa como pretexto, e Sev manteve os olhos apertados para ele com desconfiança. — Então... Já que estou aqui, vamos?
Ele parecia entusiasmado, e Snape piscou.
— Vamos onde? — indagou, sem entender.
— Ora, a Londres, é claro! — Seu sorriso galante alargou-se no rosto etéreo. — Você não havia me dito ainda no mês retrasado que nunca havia ido à capital da Inglaterra, e que gostaria muito de conhecer o centro da cidade?
Snape moldou um perfeito “o” com a boca.
— James, não posso fugir com você assim, em surdina! Na calada da noite! — murmurou alarmado, tendo o tato de não acordar os pais que descansavam no quarto ao lado. — Meu pai me mataria, e depois faria a minha mãe jantar meus ossos.
Potter continuou a sorrir, pouco abalado.
— Bem, apenas se eles te pegarem, não é? — E ergueu as sobrancelhas com confiança, quase condescendência.
Argh. Severus detestava quando ele fazia aquilo.
Ele parecia tão charmoso, tão sexy e inatingível, como um deus do panteão grego ou coisa parecida...
Sentia-se quase desarmado sempre que ele o fazia, com pequenas borboletas formigando em seu estômago.
Hesitou, olhando para os lados como se pesasse as consequências.
Por fim, virou-se ao Gryffindor:
— Acho melhor não, James... Por mais que eu esteja com muitas saudades e... — Ele engoliu a seco, e o rosto charmoso do apanhador tornou-se ainda mais firme e condescendente. — Além disso, nem podemos aparatar ainda. Você também não fez dezessete anos!
— Dur, claro que não iremos aparatando! — riu-se James em tom de obviedade. — Vamos de vassoura.
Snape piscou, esperando que ele revelasse a piada.
Todos, sem nenhuma exceção, em Hogwarts sabiam que poucas coisas assustavam tanto Snape quanto a ideia de voar.
— Você enlouqueceu, foi, Potter? — disse com o tom enérgico que estava acostumado a usar antes com James. — Digo... Eu? Voando? Até Londres? Pode esquecer, só no dia em que as serpentes voarem.
Percebeu a ironia da frase assim que a completou, e James sorriu novamente.
— Bem, então hoje é meu dia de sorte. Pode subir! — Ele inclinou ainda mais a vassoura, deixando o cabo na reta para que o Slytherin se apoiasse.
Ele olhou para a vassoura, e depois para o céu, para o quarto novamente, e olhou para baixo pela janela...
Engoliu a seco.
— Não! — falou, um pouco mais alto do que pretendia e tapou a boca depressa. — Não vou... — sussurrou mais baixinho, maneando de forma frenética a cabeça em negativa.
Ouviu-se um ruído, como o de um estalo, e James arregalou os olhos ao ver a janela do quarto ao lado ser iluminada por um clarão.
Alguém havia despertado.
Virou-se com tudo, numa guinada da vassoura.
— Sev, acho que seu pai pode ter acordado — disse, de repente esbaforido. — Suba, rápido. Não temos tempo para discutir.
— James, isso é cruel! — falou o Slytherin, escandalizado. — Não se faz uma brincadeira dessas.
Passos no corredor, o semblante de James continuava sério.
Ah, deuses...
Severus engoliu em seco.
James não estava brincando, estava?
Os olhos amendoados do Gryffindor estremeceram de preocupação, e se arregalaram, com as pegadas firmes de Tobias se aproximando.
Sentindo uma onda de desespero aquecer o seu corpo, ele estendeu a mão para Severus, mantendo-se equilibrado na vassoura, apoiado apenas pela outra, com maestria.
— Confia em mim? — disse, olhando no fundo dos olhos negros do namorado.
Os passos se tornaram mais audíveis, pararam...
A maçaneta enferrujada começou a rodar.
Fechando os olhos, ele não teve tempo de pensar, foi tudo muito rápido.
Agarrou a mão de James, que tinha uma gota de suor já escorrendo pela testa dos cabelos rebeldes, e subiu na vassoura, agarrando em sua cintura com força.
Ele decolou a milhão, em tempo de ouvir o Sr. Snape bronqueando com uma voz de profunda fúria e perplexidade.
— Segure firme, Sev. Aconteça o que acontecer, não me solte! — pediu ele, e Sev assentiu, dominando seus receios com certa dificuldade.
Fechou os olhos, tremendo, e deixou que o vento bagunçasse-lhe os cabelos, açoitando o rosto pálido.
Estava um pouco frio.
James ia a todo vapor, deixando a pequenina cidade de Cokeworth em questão de poucos minutos.
Se algum muggle os visse, não seria lá muito importante.
A maioria da cidade já estava dormindo, então, quem quer que afirmasse ter visto dois rapazes de dezesseis anos abraçados em uma vassoura voadora, seria tido como louco e ignorado.
— Ei, não ganho nem um beijo? — disse James, desviando por um rápido instante o olhar do trajeto, risonho.
— Em terra firme, talvez! — Sev disse alto, para fazer-se ser ouvido na altitude, e então os dois riram.
Queria abrir os olhos, mas não tinha coragem.
Até que começou a ouvir ruídos de buzinas, cidade grande, música tocando...
Já deviam estar voando faziam uns vinte minutos.
O Reino Unido era mesmo um ovo de tão pequeno, pensou James, anunciando:
— Londres — disse muito satisfeito consigo mesmo ao atingir os limites da cidade.
Ainda não estavam no centro, faltava um pouco, mas já era hora de Severus abrir os olhos. E o que viu, além das estrelas, fez seus olhos se arregalarem.
Era tudo tão grande, tão belo...
Os prédios, as casinhas iluminadas, os postes e um fino córrego limpo cortando uma avenida que era ladeada pelas construções...
Seu coração sonserino pulsou mais forte.
Nunca se sentira tão poderoso, majestoso, ali, do alto, com James.
Mas logo sua excitação deu lugar à sensatez, e com ela trouxera um sentimento muito mais real e primitivo: medo.
Ele engoliu em seco, medindo a distância que havia entre seus pés e os de James do chão, e hesitou.
James o olhou pelo canto dos por detrás das lentes circulares, e sorriu.
— Ei, não tenha medo... — Ele disse, e Snape fixou os olhos nele, agarrando-se mais forte ao seu corpo. Continuando a conduzir o voo com apenas uma mão, a outra foi de encontro aos braços de Severus que cruzavam-se em volta de seu diafragma, e ele afagou seus dedos carinhosamente. — Enquanto estiver comigo, nem os deuses lhe farão mal. — Garantiu, sorrindo, e os olhos de Snape brilharam.
Era aquilo que ele mais amava em Potter.
A segurança que ele lhe passava, a sensação de imponência, como se o mundo pertencesse a eles... Como se com ele, pudesse tudo.
Inclusive ser uma pessoa melhor, o que por si só já era difícil, mas que sem sombra de dúvidas nem equiparava-se à dificuldade muito mais intensa que era voar numa vassoura – um medo antigo que James estava ajudando-lhe a superar.
Mais relaxado, ele olhou para frente e permitiu-se admirar aquela visão.
Sentia-se tão perto das estrelas, como se pudesse tocá-las...
E então, sobrevoaram o centro da cidade.
Era belíssimo.
Vira coisas que antes, junto de seu pai, adicto dos programas televisivos, só havia visto em transmissões e comerciais.
Via o Eye of London, o Big Bem... Depois vira a Tower Bridge, tudo isso em questão de minutos.
E o melhor de tudo era sentir a palpitação de seu coração acelerado, e o calor de James, envolvido em seus braços como se não o quisesse soltar nunca mais.
E não queria.
Mas eles rodaram uma vez, duas vezes pelo centro, que não era lá tão grande, e logo a viagem se tornou monótona, e eles resolveram parar para descansar.
Tirando algumas libras – dinheiro trouxa – do bolso e escondendo a vassoura dentro da bolsa de couro de dragão ornamentada com um feitiço indetectável de extensão, James olhou para Sev pela primeira vez em terra firme, um pouco suado, mas definitivamente contente com a surpresa, e agarrou-o de uma só vez, apanhando-lhe pelas coxas e erguendo-lhe no ar sem se importar com os muggles que transitavam.
O beijou calorosamente na noite de Londres com as luzes iluminando seus rostos, e continuou a beijá-lo como se nada nem ninguém a sua volta existisse.
Depois de um certo tempo, colocou-o de volta no chão e eles se olharam em silêncio nos olhos, assistindo as estrelas do céu refletirem-se mais brilhantes em suas órbitas.
E juntos, ingressaram num bar muggle qualquer, onde tomaram algumas bebidas não-alcoólicas, jogaram conversas fora, trocaram mais amassos, ignorando os olhares hostis dos mais conservadores e, por fim, quando as horas se passaram e o dia começou a clarear, Severus sentiu o coração pesado, sabendo que teria de retornar, e imaginando os horrores que lhe aguardavam com o regresso.
Notando a preocupação do amásio, o sorriso de James se desfez, e seus lábios se uniram, com os olhos decepcionados e o cenho franzido de preocupação.
Havia causado tudo aquilo.
Mas talvez, ainda houvesse uma solução.
— Hm, Sev... — chamou, como tendo um insight, cauteloso.
— Sim? — Snape disse, voltando os olhos para o rosto etéreo do amado e acariciando suas bochechas, tentando sorrir.
Não queria estragar a noite do namorado depois de uma surpresa belíssima como aquela, que com certeza Potter deveria ter se esforçado muito para lhe fazer.
— Numa escala de 0 a 10, qual nível de loucura seu pai toleraria sem te expulsar de casa ou tentar cometer um assassinato? — perguntou, sério.
Ele pareceu calcular...
— Bem, isso depende do tempo que ele teria para se acalmar, é claro — ponderou ele. — Talvez não tenha bebido ainda quando eu voltar, ou talvez tenha bebido o suficiente para esquecer o que viu. Talvez minha mãe o enfeitice, também, ou sei lá... Eles são estranhos. — revelou sombriamente. — Mas por que a sua pergunta?
— Bem... — Ele hesitou, temeroso quanto a possibilidade de espantar o sonserino. — Meus pais ouviram dizer que estou namorando, e eles são bem legais, sabe... — Começou, coçando a nuca e evitando o olhar de Severus, sem jeito. — Você não gostaria de conhecê-los? Talvez passar essas últimas semanas de férias com a gente?
Severus o olhou, branco.
Aquilo era maravilhoso, mas... Como poderia aceitar?
Será que os pais de James o receberiam bem? Que gostariam dele? Será que aceitariam a sua presença por tempo prolongado na casa deles, assim, sem mais nem menos?
Como se estivesse lendo os temores de Severus, James garantiu:
— Fique tranquilo, meus pais adoram receber visitas, Sev. Tenho certeza que não irão se importar. — Falou, voltando os olhos para o amásio muito sério, visando lhe passar alguma segurança.
Ele hesitou.
— Tem certeza? — perguntou incerto, e James assentiu. — Mas e os meus pertences?
Potter pensou por um minuto.
— Acha que sua mãe lhe mandaria seu malão com as coisas pela rede de floo, talvez? — sugeriu.
Snape pensou.
— Hm, acho que sim, em surdina... — ponderou. — Com certeza quando eu voltar da escola, ele já terá esquecido tudo o que rolou.
E sorriu timidamente para James, que lhe sorriu de volta, um sorriso largo e entusiasmado.
— Bem... — Ele disse, levantando-se e apanhando a jaqueta de couro do interior da bolsa de couro de dragão que carregava consigo. — Então o que estamos esperando?
Ele estendeu a mão para que Snape se erguesse da mesa, colocou algumas libras sob a tábua, e puxou o namorado para si quando ele apanhou seu punho, roubando-lhe um último, ousado e caloroso beijo antes de partirem.
Acariciou o rosto pálido do amásio ao se afastarem, sorrindo abobado.
— Eu te amo... — Sussurrou, aproximando os lábios do lóbulo do ouvido de Severus, que estremeceu com seu hálito quente e sua voz aveludada.
Olhou em volta, tímido, procurando por olhares hostis, mas os muggles pareciam ter-se habituado com a presença indiscreta de dois jovens por ali naquela hora.
Haviam resolvido ignorá-los, o que era muito bom, pois era algo com que Snape já estava bastante acostumado.
E agarrando James pela cintura, deslizando os dedos finos carinhosamente pelas suas costas, ele também aproximou os lábios ao pé de seu ouvido, e sussurrou em resposta:
— Eu também te amo — disse, suspirando. — Obrigado por me dar a melhor noite de sua vida.
E afastou-se dele, sorrindo, ainda o olhando com os olhos cintilantes.
As órbitas amendoadas de James também faiscaram.
— Você ainda não viu nada, Sev — disse ele, pomposo. — Lhe darei as melhores férias da sua vida!
E rindo, Snape apanhou a mão dele e eles partiram dali, procurando um lugar mais discreto em algum beco onde pudessem alçar voo, e tendo a certeza de que, certamente, aquilo era verdade.
Ao lado de seu amor, teria o melhor final de férias de sua vida.
"Um mundo ideal,
que alguém nos deu,
feito pra nós,
somente nós,
só teu e meu ♥"
F I M
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