Um Mundo Além do Seu
2 O que ficou para trás
Notas iniciais
Os últimos dois dias passaram como borrões. Eles se resumiram em arrumar as
malas e me despedir. Bonnie me liga toda hora, se certificando de que não está
esquecendo nada. Vai ser nossa primeira viagem sozinhas, não precisa ser vidente
pra saber que vai ser memorável.
Fomos informadas de que a escola organizou uma despedida pra nós duas e essa
será nossa ultima festa com nossos amigos. Bonnie chega em meu quarto uma hora
antes de a festa começar e vamos precisar nos apressar pra não perdermos o
início. O vendo frio de dezembro entra pela minha janela aberta, me causando
arrepios e sinto como se meu jeans não fosse o suficiente pra me manter aquecida.
Pego mais um casaco e encontramos Jenna e Jer no carro.
Não sou boa com despedidas, então eu sinceramente espero que todos se
concentrem em aproveitar a festa em vez de vir se despedir de mim. Meu desejo
não é atendido, uma vez que a primeira pessoa que encontro é o Matt, que não vejo
desde que acabaram as aulas. Sinto que as coisas andam meio estranhas entre a
gente depois que terminamos, mas ele ainda continua sendo um dos meus melhores
amigos.
–Hey — diz ele me envolvendo em um abraço apertado.
–Hey — respondo, soando bem mais desconfortável do que devia.
–O ultimo ano não vai ser o mesmo sem vocês – ele diz durante o abraço e me libera
logo em seguida.
Sinto sua tristeza quando o olho nos olhos. Matt foi meu primeiro namorado e nos
conhecemos desde sempre, mas antes de tudo ele sempre foi um bom amigo. Matt
é "quarterback‟ do time de futebol americano e tem uma beleza típica de meninos
cobiçados do colegial, loiro, forte, olhos claros e um belo sorriso. Muitas meninas
não conseguem entender o motivo de termos terminado (até porque ele deixa bem
claro que se dependesse dele, ainda estaríamos juntos). Mas apesar de não
estarmos namorando, Matt vai ser uma das pessoas de quem mais sentirei falta
enquanto estiver longe.
–Eu sei, ainda não me acostumei a ideia de me formar longe de Mystic Falls. — eu
complemento.
–Não se esquece da gente, tá? Daqui a dois anos vocês voltam e ainda quero ser seu amigo. Talvez esse tempo distante seja exatamente o que a gente precisa — são
palavras positivas, mas sua voz soa como um choro engolido.
–Prometo que nada vai mudar — afirmo com um leve sorriso.
Jenna se aproxima de onde estamos pra nos avisar que a diretora vai dizer umas
palavras e eu preciso estar presente. Ela fala coisas como “estamos orgulhosos de
mandar duas de nossas estudantes para uma das escolas americanas mais ilustres
da Itália” e toda essa baboseira de escola.
Eu e Bonnie cumprimentamos praticamente todos que estão na festa e dançamos ao
som de Feel So Close, do Calvin Harris (essa foi, literalmente, a única música que
tivemos tempo pra dançar) como se não existisse o amanhã. Mas o amanhã existe e
estamos ansiosas por ele.
Quando chegamos em casa já são quase 2:00 da manhã e não sei se vou conseguir
dormir.
Acabo indo contra minhas expectativas e adormeço em poucos minutos. Sonho
novamente com uma escuridão, mas dessa vez eu posso ver mais ou menos onde
estou. Caminho lentamente por um cemitério que não reconheço, pois tenho certeza
de que não é o de Mystic Falls. De repente sinto uma mão em meu ombro e me viro
pra ver quem é, e nesse momento acordo.
A pior coisa sobre sonhos é que eles tendem a acabar nos momentos mais decisivos.
Não fico pensando sobre meu sonho, afinal sonhos é apenas nossa imaginação
trabalhando enquanto dormimos, e hoje não é dia de pensar em sonhos, mas sim na
realidade. Daqui a algumas horas estarei na Itália com a minha melhor amiga e eu
só consigo pensar nisso. Ainda mais porque eu dormi tanto, que acordei
basicamente na hora de irmos para o aeroporto. Jenna se certificou de deixar
apenas o que vou vestir fora da mala e é exatamente o que faço assim que acordo,
me visto.
A porta do quarto do Jeremy fica quase de frente pra minha, e no momento que
saí do meu quarto, ele saiu do dele.
–Bom dia — digo, esperançosa de que ele vá retribuir o cumprimento.
–Oi — ele responde com a voz afetada — ansiosa pra grande viagem?
– Mais nervosa do que ansiosa — respondo sorrindo pra ele — Não queria me separar
de você logo agora — continuo, só que dessa vez, falando sério.
– Já disse que não tem com o que você se preocupar, eu estou bem. O que não me
faria bem seria saber que você perdeu uma viagem incrível por causa de uma
preocupação boba comigo.
Dá pra sentir a sinceridade na voz dele, o que me alivia. Então eu o abraço tão
forte que não existe espaço entre nós, e pro meu conforto, ele me abraça de volta.
Descemos as escadas logo depois e encontramos Jenna nos esperando. Jeremy
desce as escadas mais rápido, pega as malas que estão ao lado da porta e as leva
pro carro. Jenna vem até onde eu estou parada no final da escada e me abraça.
–Aaah, não acredito que estou te deixando ir — ela diz me apertando.
–E se você continuar me apertando, só metade me mim vai conseguir chegar na
Itália — digo sufocada e ela me solta.
–Não seria uma má ideia — ela responde sorrindo e eu retribuo o sorriso.
Depois de alguns segundos sem saber como me despedir melhor, digo:
–Se não formos agora, nenhuma parte de mim vai conseguir entrar no voo.
E ela concorda.
Jenna não é tão mais velha que eu, e às vezes acho meio injusto ela ter que assumir
o papel de “mãe”. Sem contar que toda a beleza dela está sendo desperdiçada com
preocupações que, antes da morte dos meus pais, ela não tinha. Porque Jenna
é uma mulher muito bonita, de olhos verdes, cabelos loiros na altura nos ombros,
magra, mas não a ponto de ser esquisita, se veste bem e tem um olhar tranquilo,
que acalma qualquer um. Então eu acho que não seria difícil pra ela ter uma boa vida amorosa, se não fosse o fato de ela estar cuidando de dois adolescentes.
No aeroporto nos encontramos com a Bonnie e a vó dela. Não temos muito tempo
pra nos despedirmos novamente, porque chegamos bem na hora, mas tento
guardar comigo a última imagem da Jenna e do Jer, que ficam nos assistindo, junto
com a avó da Bonnie, enquanto caminhamos até o portão de embarque. Jeremy
parece mais magro, agora que estou olhando com mais atenção. Se você o olhar
bem, ele parece profundamente triste. Ultimamente as únicas roupas que ele usa
são jeans e moletom preto, o que o deixa com a expressão ainda mais depressiva.
Afasto o pensamento assim que olho pra Bonnie e vejo um largo sorriso em seu
rosto. Sorrio largamente de volta e finalmente entramos nos avião.
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